Pandemia em declínio: Brasil zerou excesso de mortes em junho  - Revista Oeste

Em 8 jul 2020, 19:00

Pandemia em declínio: Brasil zerou excesso de mortes em junho 

8 jul 2020, 19:00

Segundo dados do Registro Civil, o número de óbitos no país voltou ao patamar de normalidade

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A boa notícia é que desde o final de junho a mortalidade em excesso está se reduzindo | Foto: Gert Altmann/Pixabay

Para avaliar o real impacto do coronavírus sobre o número de mortes no país, é importante analisar o excesso de mortalidade, ou seja, o número de mortes acima da média histórica. Dados do Registro Civil informam que em 2019, no período entre 16 de março (data da primeira morte oficialmente confirmada por covid-19 no Brasil) e 7 de julho, morreram 368.724 pessoas por causas naturais, ou seja, decorrentes de doenças e problemas de saúde que fazem o corpo humano parar de funcionar (estão fora da lista as mortes por causas externas — assassinatos, suicídios, acidentes, traumas). Em 2020, no mesmo período, morreram 388.386 pessoas de causas naturais. Uma diferença de 19.662 mortes entre um ano e o outro.

O que isso significa? Significa que, na comparação do número de mortes por causas naturais entre este ano e o ano passado, morreram mais pessoas por dia no Brasil. Em maio, o mês do pico de mortes durante a pandemia, a mortalidade chegou a aumentar quase 25% no país.

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Entretanto, a boa notícia é que desde o final de junho a mortalidade em excesso está se reduzindo. De acordo com informações do Registro Civil, em 23 de junho foi a primeira vez, desde meados de fevereiro deste ano, em que morreram menos pessoas de causas naturais em 2020 do que em 2019. Foram 3.382 mortes em 23 de junho de 2019 contra 3.374 mortes no mesmo dia em 2020.

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Fonte: https://mortalidade.com.br/ | No gráfico, a linha laranja representa o número de mortes por causas naturais em 2020. A linha azul-escuro representa o número de mortes por causas naturais em 2019. A área entre as curvas das linhas laranja e azul representa o excesso de óbitos no período, no total de 19.662 mortes. É preciso considerar que a partir de 24 de junho os números estão atrasados e ainda serão atualizados, conforme os trâmites legais dos cartórios de Registro Civil.

Para o médico cardiologista Juliano Lara Fernandes, formado pela Unicamp, com doutorado na FMUSP e MBA em Gestão de Sistemas de Saúde pela FGV, a data é um marco importante para analisar os efeitos da covid-19 no Brasil. “Esse excesso de mortes ter zerado é um dos marcadores mais fortes de que o ciclo de mortalidade da pandemia já está em um nível muito baixo.”

Pneumonia e septicemia “na conta da covid-19”

Nesta terça-feira, 7, o país registrava 65.687 mortes por covid-19. Por que então essa diferença de 19.662 mortes entre um ano e o outro, segundo dados do Registro Civil? Onde foi parar o registro dos outros 46.025 óbitos?

Para Fernandes, duas hipóteses podem explicar a questão: 1) superestimativa de mortes por covid-19; 2) as pessoas estão saindo menos de casa e, portanto, expondo-se menos ao risco de morrer de outras causas.

O médico explica que, apesar de não existir comprovação, doenças como a pneumonia podem ter “caído na conta da covid-19” neste ano. Em 2019, ainda considerado o intervalo entre 16 de março e 7 de julho, houve 73.988 mortes por pneumonia enquanto neste ano foram registradas 51.315 mortes, ou seja, 22.673 mortes por pneumonia a menos em 2020 do que no ano anterior. Outro número que chama atenção são os casos de septicemia, em que a pessoa morre por infecção generalizada. Em 2019, foram registradas 54.609 mortes enquanto em 2020 foram “só” 42.729 mortes, uma diferença de 11.880 mortes. “O paciente que teve septicemia em 2020 mas testou positivo para covid-19 entra na conta da doença”, diz Fernandes.

Ainda, não é normal uma variação tão grande entre essas causas de morte de um ano para o outro. No caso da pneumonia, por exemplo, se considerar o número de mortes registradas entre 2016 e 2018, a variação média anual é de 3,4% entre um ano e o outro, de acordo com o Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde. No caso da septicemia, a variação média anual é de 5,3%. Já no comparativo entre 2019 e 2020, apesar de considerar apenas o período entre março a julho, os porcentuais já estão bem acima das médias anuais – a pneumonia teve uma redução de 30,6% e a septicemia reduziu 21,75%. Por isso, é possível que existam distorções nas estatísticas sobre as causas de mortalidade no país que impactam diretamente nos números divulgados pelos órgãos oficiais.

É pouco provável que mesmo após a pandemia o Brasil tenha condições de avaliar em detalhes o que realmente aconteceu. “No final do ano, teremos uma visão melhor. Mas minha impressão é que a diferença [de mortes entre um ano e o outro] vai se diluir tanto que graficamente será muito pequena”, diz Fernandes. Por enquanto, os gráficos registram o retrato da pandemia dos últimos quatro meses. O saldo — 19.662 mortes a mais do que no mesmo período do ano passado.

 

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7 Comentários

  1. Existe um atraso de ate 2 semanas no registro de 2020. Para comparar corretamente com seguranca use sempre a data final de 2 semanas antes.

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  2. Matéria muito boa. Os dados do registro civil são os mais fidedignos. Por ele pode-se observar que nunca houve, no Brasil, mais de 952 mortes por dia, o que ocorreu no dia 14/05. No gráfico mostrado na matéria percebe-se claramente que muitos casos de pneumonia passaram para a conta da Covid 19. Tem muita coisa a ser explicada nesta pandemia!

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  3. Eu acho também que houve muitas mortes que foram colocadas como covid mas não sei se em um percentual significativo.

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  4. Tive um caso na família de septicemia que o médico da Unicamp quis registrar de firma fraudulenta como Covid. Após pressão familiar mudou o atestado.

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  5. Acho que há uma inconsistência (ou falha ao redigir) no primeiro parágrafo.

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  6. Certamente ocorreram registros de morte por covid-19 de forma fraudulenta, preventiva ou por ignorância. Vai levar um certo tempo para “limparem” os números.

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  7. Governadores e prefeitos usam o número de óbitos por coronavirus para abastecer seu cofres com dinheiro do Governo Federal.

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