Pequeno guia para entender (ou não) as criptomoedas - Revista Oeste

Revista

Pequeno guia para entender (ou não) as criptomoedas
Além de alternativa de investimento de risco, as moedas digitais tornam-se um componente do jogo geopolítico. E a China está na liderança
23 out 2020, 10:19

Existem assuntos difíceis. E existem assuntos impenetráveis, como os tratados de alquimia, os manuais de usinas nucleares e as criptomoedas (ou moedas digitais). A não ser que você seja um especialista no tema (eu não sou), terá muita dificuldade para compreender as profundezas desse misterioso mundo das moedas virtuais.

Mesmo sem que a gente entenda direito, essa nova forma de moeda já está influenciando nossas vidas. No dia 16 de novembro, teremos a implantação do PIX no sistema bancário brasileiro. O dinheiro vai circular com mais agilidade, menos custo e mais fluidez.

O PIX é um “filhote” dessa era de litecoins, ethereum, tether, binance, tron, chainlink, polkadot, tezos e tantas outras moedas enigmáticas para os leigos. O bitcoin foi só o pioneiro.

A maioria dos economistas aposta que a digitalização das finanças é um caminho sem volta. Cédulas e talões de cheque são relíquias de séculos passados, meios inseguros e pouco práticos de fazer circular riquezas. A pandemia de covid-19 só acelerou esse processo de digitalização. Pagar ao feirante em notas e receber o troco virou um ato arriscado passível de contaminação. A criptomoeda foi a resposta natural para um mundo cada vez mais integrado e cansado de pagar altas taxas bancárias e enfrentar burocracias nacionais.

Algumas perguntas que você pode se fazer sobre moeda digital:

O que é?

A criptomoeda, ou moeda digital, é um dinheiro “paralelo”, independente do sistema financeiro que conhecemos. Começou como um experimento fechado e virou um mercado de US$ 350 bilhões. Calcula-se que o Brasil tenha 1,4 milhão de investidores em criptomoedas. Já é pouco menos da metade do número de investidores cadastrados na B3, a Bolsa de Valores de São Paulo (3,4 milhões em abril).

Quando foi criada a criptomoeda?

Em 2008 foi publicado um protocolo inicial assinado por Satoshi Nakamoto — que ninguém sabe se é uma pessoa real ou a assinatura coletiva de um grupo de pessoas. Esse relatório descrevia o funcionamento de uma moeda ágil, segura e anônima que operava a partir de um sistema chamado blockchain. A ideia era criar uma moeda que funcionasse entre pessoas sem a dependência de instituições bancárias e a influência de governos. Assim nasceu o bitcoin, a primeira moeda digital.

Como funciona?

Valores são criados a partir de complexos algoritmos matemáticos. Esses enigmas precisam ser “garimpados”. “Garimpar” quer dizer resolver essas questões com o uso de um chip chamado ASIC. O dono do computador que consegue decifrar o problema leva uma fração do valor do bitcoin decifrado. E uma nova moeda entra em circulação.

É possível comprar criptomoedas?

Sim. No Brasil existem muitas corretoras na internet que negociam moedas digitais já “garimpadas”. A princípio, o procedimento parece simples como negociar ações ou aplicar em fundos. Conforme avançamos no cadastramento, percebemos que vai ficando mais complicado. E despertando menos confiança. Não é uma aventura confortável para quem ainda não tem experiência nessa área.

Quais as maiores críticas às criptomoedas?

  • Como investimento, enfrentam variações extremas de preç Um bitcoin valia US$ 13 no início de 2013, subiu a US$ 266, caiu para US$ 60 e disparou para US$ 1 mil no fim daquele mesmo ano (hoje, vale mais de US$ 11 mil);
  • A rede de garimpo de bitcoins (segundo levantamento do The New York Times em 2018) consome a cada dia a mesma quantidade de energia elétrica que “um país médio”, como Chipre;
  • Por não serem controladas, são fartamente usadas por redes de traficantes e terroristas;
  • Não têm lastro nem garantia. Um caso exemplar aconteceu com a corretora japonesa MtGox, que chegou a negociar 70% de todos os bitcoins do mundo. Num belo dia de fevereiro de 2014 a Mt.Gox suspendeu as atividades, fechou o site e declarou falê Os investidores viram US$ 450 milhões desaparecer nas mãos de hackers.

Se é tão arriscado, por que tanta gente aplica em criptomoedas?

Especialistas em investimentos costumam dizer que não é nenhum absurdo aplicar em criptomoedas. Muitos deles inclusive aplicam. Mas, por ser um investimento de altíssimo risco, aconselham que ninguém deve colocar em criptomoedas uma parcela grande de suas reservas. Esse é um território ainda pouco explorado e meio selvagem. Não é lugar para aventureiros e marinheiros de primeira viagem.

É possível fazer compras com moedas digitais?

Criptomoedas estão sendo cada vez mais usadas para transações comerciais. O Japão e outros países já vêm reconhecendo o bitcoin como forma legal de pagamento. Mas o número de estabelecimentos que aceitam moedas digitais ainda é restrito. Elas são mais utilizadas em transações comerciais diretas entre pessoas.

Criptomoedas continuarão “alternativas” para sempre?

Não. O governo das Bahamas lançou no último dia 20 a primeira moeda digital oficial criada pelo Banco Central de um país. O Sand Dollar (“dólar de areia”) tem um valor paritário com o dólar de Bahamas, que por sua vez acompanha o valor do dólar americano. No último dia 12, Christine Lagarde, presidente do Banco Central Europeu, declarou: “Estamos explorando benefícios, riscos e desafios operacionais de introduzir um euro digital. Seria um complemento, não um substituto”. A decisão final vai ser anunciada em 2021. Se aprovado, o euro digital deverá demorar entre 18 meses e quatro anos para ser implementado.

Existe a chance também de um dólar digital?

O Federal Reserve já anunciou o desenvolvimento de uma CBDC (“Moeda Digital do Banco Central”). O MIT (Massachusetts Institute of Technology) está colaborando no projeto. Uma das ideias é que cada cidadão americano tenha uma conta digital no Federal Reserve para ser usada em pagamentos de emergência (nos casos de pandemia, desastres naturais etc.). Mas os EUA estão agindo com timidez na criação do dólar digital. O país parece não ter entendido o tamanho da guerra financeira que se avizinha com seu maior rival.

Então a China já está pensando em criar moedas digitais?

Os chineses são os mais adiantados nesse processo. O Banco Central da China pretende aprontar seu yuan digital a tempo para as Olimpíadas de Inverno de 2022, em Beijing. O projeto faz parte do plano chinês mais amplo de dominação geopolítica. Atualmente 60% das reservas em bancos centrais estão em dólar — que é, na prática, a moeda global. A China pretende fazer do yuan digital a moeda planetária que substituirá o dólar. Resta saber que governos estarão dispostos a usar uma moeda controlada diretamente pelo Partido Comunista Chinês. “A China está declarando uma insurreição contra o sistema financeiro global e especificamente contra a supremacia do dólar”, resumiu o jornalista Steven Ehrlich, da revista Forbes. “Como toda insurreição, é motivada por uma crença básica — a convicção do governo e do cidadão chineses de que o país está pronto para afirmar sua liderança no mundo, não só politicamente e militarmente, mas também em termos de comércio e finanças.”

E o Brasil?

O presidente do Banco Central brasileiro, Roberto Campos Neto, avisou que o governo tem um grupo de estudos para criar o real digital. E que ele pode ser lançado já em 2022. Faz parte de um pacote de modernizações do Banco Central conhecido como Agenda BC# (que inclui o PIX e o open banking). O projeto pretende iniciar as operações do real digital nas áreas de turismo e câmbio.

É verdade que o Facebook pretende lançar sua própria moeda digital?

Sim. O nome da projetada moeda é libra. Segundo Mark Zuckerberg, sua intenção é incluir no mercado 1,7 bilhão de usuários do Face sem acesso a serviços financeiros. E garante que o Facebook seria apenas uma das empresas de um consórcio com sede na Suíça. O que parece ser uma ação caridosa do bilionário Zuckerberg poderia desandar para uma catástrofe financeira incontrolável. Tanto que as empresas eBay, PayPal, Mastercard e Visa abandonaram o projeto. O prontuário de falhas de segurança do Facebook é conhecido por todos. Segundo Neil Wilson, do site Markets, a libra é “nada menos que uma tentativa de domínio global dos serviços financeiros”.

Qual é a pior moeda digital do mundo?

Em fevereiro de 2018, encurralado por sanções econômicas, Nicolás Maduro pensou numa saída esperta para a situação: criou o petro, uma moeda digital cujo valor estava vinculado ao preço do barril de petróleo produzido pela Venezuela. Segundo o ditador, o petro permitiria ao país a “soberania monetária” e conseguiria “novas formas de financiamento internacional”. A nova moeda (desenvolvida com a cumplicidade secreta do governo russo) foi uma catástrofe desde o primeiro dia. Nunca ninguém conseguiu comprar nada com o petro, que se revelou um fiasco desastroso do “socialismo do século 21” chavista. O repórter econômico Matt O’Brien escreveu para o The Washington Post: “O petro deve ser o mais horrível investimento jamais criado. Ele só pode ser comprado por estrangeiros e só pode ser gasto por venezuelanos”.

TAGS

*O espaço para comentários é destinado ao debate saudável de ideias. Não serão aceitas postagens com expressões inapropriadas ou agressões pessoais à equipe da publicação, a outro usuário ou a qualquer grupo ou indivíduo identificado. Caso isso ocorra, nos reservamos o direito de apagar o comentário para manter um ambiente respeitoso para a discussão.

2 Comentários

  1. Bitcoins me fazem lembrar aquela do mamonas assassinas: já me passaram a mão na b… e ainda não comi ninguém!

    Responder
  2. Meus efusivos parabéns ao Dagomir que usa o termo garimpar ao invés da tradução ao pé da letra minerar. Faltou falar mais sobre o blockchain, essa sim a grande sacaçāo do Sakamoto (sorry)

    Responder

Enviar um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

OESTE NOTÍCIAS

R$ 19,90 por mês