A linguagem neutra é uma destruição perigosa, diz Flavio Morgenstern

Analista político critica o uso do subdialeto e a posição do Museu da Língua Portuguesa
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Fachada do Museu da Língua Portuguesa, na cidade de São Paulo
Fachada do Museu da Língua Portuguesa, na cidade de São Paulo | Foto: Cleo Velleda/Governo do Estado de SP

Na semana passada, o Museu da Língua Portuguesa surpreendeu muita gente ao usar a palavra “todes” em seu anúncio de reabertura. Mais: a entidade propôs o debate acerca do “subdialeto”.

Considerada inicialmente como inofensiva, a discussão já contamina o sistema de ensino e até empresas privadas. A Revista Oeste conversou com o analista político e escritor Flavio Morgenstern sobre o assunto.

Seminário Globalismo: Flávio Morgenstern, escritor, analista político e editor do site Senso incomum (10/06/2019) - Vídeo Dailymotion
O analista político e escritor Flavio Morgenstern | Foto: Divulgação
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Confira, abaixo, os principais trechos da entrevista.

1 — Qual a origem da chamada “linguagem neutra”?

As discussões começaram em grupos feministas norte-americanos, no auge da radicalização de maio de 1968. Livros como The Handbook of Nonsexist Writing e The A–Z of Non-Sexist Language foram criados para retirar elementos que marcassem gênero das palavras. Contudo, essas identificações variam. As feministas dos EUA escolheram um péssimo idioma para enfiar a ideologia revolucionária: o inglês. O artigo the é universal: masculino, feminino, neutro e plural. As marcas ficam apenas em pronomes (he, she, it) e nos próprios substantivos e nomes: wife, por exemplo, é esposa, e husband, marido. A exigência foi usar algo genérico, que não classificasse o gênero, como o they — eles. Outras línguas, porém, marcam gênero nesse pronome: o português tem “eles” e “elas”. O que é neutro em uma língua pode não ser em outra.

2 — A língua portuguesa tem condições de absorver as mudanças que os ativistas propõem?

Nenhum idioma tem. Variações e determinações linguísticas ocorrem naturalmente, e não por imposição ideológica de algum grupo. Desafio qualquer defensor da “gramática trans” a conseguir falar por dois minutos com a suposta “linguagem neutra”. Além de não conseguirem pedir uma laranja ou um pepino, ainda terão sérias dificuldades com palavras que mudam de sentido conforme trocam de gênero: “a cura” é uma solução médica, “o cura” é um religioso; “a grama” nasce no quintal, entre outros. A linguagem neutra não é frescura, mas sim uma destruição perigosa.

“Países da União Europeia aceitaram o terraplanismo linguístico com assustadora rapidez”

3 — Quais países aderiram ao “subdialeto”?

Países da União Europeia aceitaram o terraplanismo linguístico com assustadora rapidez. O que é sempre contraditório, já que você encontrará cerca de 20 palavras com marcações de gênero, inclusive para pessoas, em documentações, só para deixar a militância feliz. Aí, incluem-se Espanha, França, Suécia, Alemanha, Áustria, Holanda, Finlândia, Noruega, Grécia, Sérvia e Israel, entre outros.

4 — Como ficam os ajustes na língua para os deficientes visuais e auditivos?

São um público que precisa de marcas na língua até para saber com quem estão falando. Pergunto: como um aplicativo de leitura vai conseguir reconhecer as palavras alunxs, elus ou professor@s? É uma frescurite com preço altíssimo.

5 — O Museu da Língua Portuguesa não condenou o uso da linguagem neutra, mas sim defendeu o debate sobre seu uso. O que você pensa acerca disso?

Na Bíblia, no livro de Juízes, os homens de Gilead conseguiam identificar quem eram os homens de Efraim apenas pedindo para pronunciarem a palavra shibboleth. O termo identifica uma palavra usada apenas por um grupo dentro de uma comunidade maior, por exemplo. Os gramáticos do museu deveriam saber disso. Ao tratar da linguagem neutra, o museu está “defendendo o debate” sobre o uso de um termo empregado apenas por revolucionários radicais.

Leia também: “Os mais recentes ataques da linguagem neutra”, reportagem publicada na Edição 71 da Revista Oeste

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7 comentários

  1. Não será surpresa se daqui a alguns anos essa linda construção que atualmente abriga o Museu da Língua Portuguesa seja vítima de um “acidente” decorrente de falta de manutenção, por não ter recursos, visitantes e estar totalmente descolada da realidade da população trabalhadora.
    Muito triste ver que o destino está sendo desenhado de forma similar ao já esquecido Museu Nacional do Rio de Janeiro, incendiado devido a falta de manutenção adequada.
    Querem utilizar linguagem neutra? Então aprendam alemão e deixem a língua portuguesa em paz, pois esta já é complicada o suficiente, com todas as suas regras e exceções.

  2. A maioria deve sempre prevalecer em uma democracia, o que me leva a pensar que a maioria das pessoas se tornam homossexuais, trans ou seja lá o que significa isto, menos heterossexuais. Acho por um lado muito bom: diminuirá a população mundial e cada um se unirá a sua tribo, o que infelizmente vai contra a lei universal de “união faz a força” e “vamos mais longe juntos”. O prazer fácil é o mais importante hoje. Levantam tantas vozes para como a pessoa deve se vestir ou fazer sexo mas pouquíssimos se levantam para o quanto estas pessoas contribuem com a sociedade, quantas virtudes tem, quais seus valores, enfim democracia é assim mesmo. O futuro dirá.

  3. No século XIX um polonês criou uma língua artificial chamada “esperanto”. Ele pensou que teria equacionado o problema da torre de Babel num só idioma universal, mas o que ele fez foi adicionar mais um complicador nessa algazarra filológica. Lá vamos nós, de novo! Cacildis!!!

  4. Um absurdo atras do outro, todos tem direitos e deveres garantidos na constituição e devem ser respeitados, agora começaram a dar privilégios a estas minorias e agora querem mudar tudo em função da opção sexual da pessoa, é a degradação da nossa sociedade um bando de doentes e vai piorar se esquerda e o PT voltar ao poder ai Sodoma e Gomorra vão ficar para trás literalmente e salve -se quem puder.

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