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Ciência, que é bom, nada

"Desde o começo da epidemia a discussão vem sendo assim: política em primeiro lugar", afirma J.R. Guzzo
O governador de São Paulo, João Doria, ao lado do diretor do Instituto Butantan, Dimas Covas, e do vice-presidente mundial da Sinovac, Weining Meng | Foto: Governo do Estado de São Paulo
O governador de São Paulo, João Doria, ao lado do diretor do Instituto Butantan, Dimas Covas, e do vice-presidente mundial da Sinovac, Weining Meng | Foto: Governo do Estado de São Paulo

“Desde o começo da epidemia a discussão vem sendo assim: política em primeiro lugar”, afirma J.R. Guzzo

Doria
A questão-chave sobre a “Coronavac” envolve uma das palavras de melhor reputação no dicionário social em uso no momento — “transparência” | Foto: Governo do Estado de São Paulo

(J.R. Guzzo, publicado no jornal O Estado de S. Paulo, em 24 de outubro de 2020)

A pergunta que mais interessa ao público pagante neste debate sobre a vacina contra a covid-19, ou talvez a única pergunta que realmente interessa, é a que menos está sendo feita: a vacina chinesa que o governo do Estado de São Paulo quer aplicar na população e que o governo federal não quer, é ou não é eficaz contra a infecção? A troca de desaforos, de um lado e do outro, está carregada de som, fúria e cólera — mas de ciência médica, que é bom, tem aparecido muito pouco. É um desastre que as coisas tenham chegado aí, mas é perfeitamente natural. Desde o começo da epidemia a discussão vem sendo assim: política em primeiro lugar, ciência depois. Não é agora que iria mudar.

Como em tantas outras questões que a covid-19 trouxe durante os últimos oito meses, o ponto essencial da discórdia em torno da vacina chinesa, essa “Coronavac” que veio parar na boca de cena do debate, é o seguinte: de que lado está o presidente Jair Bolsonaro? Não é um jeito sério de se chegar à conclusão nenhuma sobre a natureza de qualquer remédio da farmacologia universal, mas aí é que está: na vida real é disso, e apenas disso, que se trata. Funciona na mão e na contramão. Bolsonaro é a favor da cloroquina; então, para todos os que não gostam dele, a cloroquina não serve para nada — os mais radicais, inclusive, acham melhor tomar uma dose dupla de formicida. Bolsonaro é contra a “Coronavac”; então a vacina chinesa não apenas é ótima, mas deveria ser obrigatória.

Os dois lados, naturalmente, dizem que não existe nada de “político” em suas posições sobre uma e outra coisa — e também sobre o “distanciamento social”, o uso de máscara na praia ou o horário de funcionamento das revendas de colchões. Mas é mentira; disso, pelo menos, o cidadão pode ter certeza. Também não adianta muita coisa perguntar para os médicos. A verdade, tristemente, é que eles não sabem sobre a covid-19, hoje, muito mais do que sabiam no dia 1.º de janeiro e a sua reação natural é repetir o que recomenda a média dos “protocolos” em vigência no momento. Confiar no que diz o médico, em suma, tornou-se problemático — mesmo porque muitos deles esqueceram a ciência e se transformaram em torcida política.

A questão-chave sobre a “Coronavac” envolve uma das palavras de melhor reputação no dicionário social em uso no momento — “transparência”, virtude exigida com o máximo rigor dos homens públicos, dos departamentos de marketing das empresas e do VAR nos jogos de futebol. Então: qual é a verdadeira transparência da vacina chinesa que está dividindo Bolsonaro e o governador João Doria? É isso o que a população precisa saber. O desenvolvimento da vacina nos laboratórios da China foi monitorado, pela observação livre das pesquisas, por cientistas internacionais independentes? Quantos países de primeiro mundo, com um histórico consistente de sucesso na pesquisa médica, já adotaram a Coronavac? Há cerca de uma dezena de vacinas sendo trabalhadas hoje por universidades e por laboratórios farmacêuticos que estão aí há mais de 100 anos, nos Estados Unidos e na Europa. Como elas se comparam, do ponto de vista puramente científico, com a vacina chinesa?

Em vez disso, discute-se com paixão se está certo adotar uma vacina que vem, selada e lacrada, de uma ditadura — ou, ao contrário, se a adoção vai ajudar as exportações para a China. A vacina dá voto ou tira voto? Que tal mais um impeachment? O que querem as “redes sociais”? O que informa o Ibope? Bolsonaro e Doria não saberiam dizer o que é um Melhoral — mas estão no comando de um debate vital para a saúde pública do Brasil. Está na cara que não pode dar certo.

Leia também: “Coronavac: as perguntas ainda sem resposta sobre a vacina chinesa”

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11 comentários

  1. Caro amigo da brisa noturna: tudo segue um padrão. Qualquer coisa que ele disser, soi contra.
    Se a vacina da Johnson & Johnson ficasse pronta em primeiro lugar e o presidente dissesse que seria o obrigatória a vacinação, o Dória e o Lula diriam que não pode ser obrigatória porque é um sinal de se ajoelhar ao capitalismo norte-americano. 200 milhões de doses serão distribuídas como, por sorteio? São Paulo será o primeiro Estado a receber a vacina chinesa, que não é a única. E se o governador do RS optar pela vacina mexicana? Pode? E se eu me negar a tomar a vacina chinesa e dizer que só aceito de outra marca? Dá para fazer uma novela.

  2. Meu caro, a questão aqui é bem simples: por que devo ser forçado a injetar algo em meu corpo só por capricho de um político de merda?

  3. Prezado Guzzo. sua análise carece do reconhecimento de um evento fundamental para tudo que lhe sucede.
    A origem de tudo pelo que passamos se iniciou após a facada em Bolsonaro sem sucesso.
    A partir daí a eminência e consumada perda de poder do que de pior existe no País, a esquerda, o Brasil se vê vítima dos mais radicais maus-caracteres, covardes e corruptos cidadãos.
    Somos reféns da corja que nos levou ao pior índice de educação, a absoluta falta de segurança, ao maior desemprego de nossa história e às maiores perdas morais e éticas já experimentadas por nós, por exemplo.
    Não há o que pessoas honestas, patriotas, de bom senso e responsáveis possa fazer que irá agradar a esquerda, pois o que lhe interessa é o poder. Tudo o que participamos é essa luta, que podemos sintetizar do bem contra o mau, felizmente e enfim acontecendo!

  4. irmão de bruno covas é diretor do butantã. não há nada político ali, viu??? kkkk professor de história. imagina se o presidente da anvisa fosse irmão de bolsonaro. será que a mídia ia falar algo?

  5. Adoro seus artigos , infelizmente este me parece muito estranho . Em momento nenhum Bolsonaro falou que seria contra as vacinas e sim , que aceitaria desde que o ministério da saúde e a Anvisa dessem o aval que elas realmente seriam adequadas para sua implementação para a população. Acredito que a pressa desta liberação não deve vir tão cedo , veja os casos de outras vacinas que demoraram anos para ser liberadas , sendo a mais rápida foi a da caxumba que só foi liberada 4 anos depois de exaustivos estudos para evitar que houvessem alterações nos pacientes do seu sistema imunológicos .

    1. Concordo plenamente. Além disso, Bolsonaro defendeu a cloroquina mais como prevenção, quando os hospitais nem tinham protocolos. Um artigo no mínimo equivocado. O covid-19 foi politizado no mundo inteiro, afinal era esse mesmo o propósito, inspirado na real possibilidade de quebrar economias. Bolsonaro tem vários defeitos, mas não teve autonomia, nem a maior responsabilidade sobre a condução de diretrizes dessa pandemia. E convenhamos, equiparar o oportunismo de Dória com a eficiência administrativa de Bolsonaro é dose. Bola fora, senhor Guzzo.

  6. Mestre Guzzo sabe de minha admiração por seus textos, só não entendo porque em poucos, mas em alguns artigos, transforme Bolsonaro como um provocador de intrigas. Afinal Guzzo, quem é o provocador nessa historia da vacina?
    -Bolsonaro que desde os estudos da vacina de Oxford, investiu e envolveu a Fiocruz no estudo e desenvolvimento de testes de uma vacina que esta na mesma fase de pesquisa que as demais, sem visitar estados para promove-la por vaidades eleitorais?
    -ou Dória que não para de “tagarelar” em nome da ciência, a vacina Doria/Butantã/Chinesa, e que se reúne com “inimigos políticos” como os governadores Flavio Dino (PC do B), Rui Costa(PT), Casagrande(PSB), e outros e com aquele senador que nada aprova e tudo judicializa, Randolfe Rodrigues (AM)(Rede)?
    Afinal, quem é o provocador que logo no inicio do governo, criticou o pronunciamento de Bolsonaro na Onu, como inoportuno, e inadequado?
    Lamentavelmente como ex tucano, votei nesse cara para prefeito e governador.

  7. Só não sei ao certo quantos milhões de dólares esse rato de máscara negra vai receber pelo lobby que está fazendo em favor dessa tal coronavac. Mas sei, porém, que não sou paulista, odeio esse rato de máscara negra, e, como tal, estou livre da obrigatoriedade desse charlatão e dessa vachina.

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