Revista Oeste - Eleições 2022

Desafios do Brasil: analfabetismo mostra a impotência de quem está à margem da sociedade

Educação é o tema que inicia a série de reportagens "Desafios do Brasil", que será publicada até o dia 30 de setembro
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Foto: Montagem Revista Oeste/Shutterstock
Foto: Montagem Revista Oeste/Shutterstock

Parte dos eleitores que vão às urnas no próximo dia 2 de outubro escolher, além do presidente da República, governadores, deputados e senadores é analfabeta, que não sabe, ao menos, escrever o próprio nome, mostrando a impotência de quem está à margem da sociedade. No Brasil de 2022, embora os números mostrem uma redução, ainda são 11 milhões de pessoas nessa situação. O contingente de analfabetos expõe um dos mais trágicos cenários da educação brasileira, sendo a redução desses números um dos desafios que esperam o escolhido pelos eleitores para ocupar o Palácio do Planalto pelos próximos quatro anos.

Educação é o tema escolhido por Oeste para, nesta segunda-feira, 1º, iniciar a série de reportagens “Desafios do Brasil”, que será publicada até o dia 30 de setembro, sempre seguindo a seguinte ordem de temas na semana: segunda-feira (Educação), terça-feira (Economia), quarta-feira (Agro e Meio Ambiente), quinta-feira (Segurança Pública) e sexta-feira (Saúde).

Embora o número de pessoas em situação de analfabetismo no Brasil seja expressivo, a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) mostra que nos últimos anos tem sido registrada uma redução. Passou de quase 7%, em 2018, para pouco mais de 6,5%, em 2019, cerca de 200 mil pessoas a menos nessa situação. Maria Suzanilda da Silva Lima compõe esse novo número, mas carrega na história a marca de quem sentiu na pele a realidade de não saber ler.

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Ainda nos anos 1990, a ajudante de limpeza precisava achar, em meio a tantas caras fechadas, alguém disposto a ajudá-la a chegar ao local de trabalho. Analfabeta, ela dependia dos outros para fazer coisas básicas, como ler o que estava escrito no pedaço de papel que carregava consigo para, depois, indicar qual entre os coletivos tinha o mesmo nome no letreiro. “Pinheiros” era a tal palavra, a senha para Maria seguir o seu caminho e exercer o seu direito fundamental mais básico, o de ir e vir.

O maior sonho de Angelita é conseguir ler a Bíblia

 

Desafio aumenta com o tempo

Ainda que o letramento seja uma habilidade que pode ser ensinada e compreendida em qualquer fase da vida, ele se torna um obstáculo aparentemente maior com o passar do tempo. Foi assim com Marluce Ferreira, 64 anos, que nasceu em Pernambuco e entrou pela primeira vez em uma sala de aula aos 55 anos. Assim como Maria Suzanilda, ela também participa do projeto Movimento de Alfabetização (Mova), da prefeitura de São Paulo, e está em processo de alfabetização. Na sala de aula também está Lucilene de Jesus, 43 anos. Ela veio para São Paulo aos 18 anos e explica que sempre trabalhou para ajudar a sustentar a família. Ao descrever a sensação de uma pessoa analfabeta, ela diz se sentir impotente. “É como se eu fosse cega”, descreve ela, que está matriculada na 8ª série da Educação de Jovens e Adultos (EJA).

Vera Lúcia Silva Souza, 59 anos, também nunca frequentou a escola quando criança. Sempre trabalhou na roça da família e veio para a capital paulista com 12 anos. A mulher, que também é aluna do Mova, conta que sofreu preconceito por ser analfabeta na creche onde trabalha. “Me chamaram de burra”, conta, “Me sinto constrangida por não saber escrever.” Esse é um dos exemplos de que o analfabetismo mostra a impotência de quem está à margem da sociedade.

Angelita Maria Barbosa mora em Pernambuco, tem 77 anos e frequentou a escola até os 13 anos. “Meu pai disse que eu precisava trabalhar para ajudar em casa”, disse. A idosa nunca mais voltou a estudar. Casou, cuidou dos filhos, da família e da saúde, visto que ela possui algumas doenças. “Sempre tive muita vontade de estudar”, afirmou Angelita, que até o momento não sabe assinar o próprio nome. “Atualmente, não consigo me empenhar nos estudos, pois tenho problema de vista.” Seu maior sonho é ler a Bíblia

200 mil pessoas aprenderam a ler e escrever

Segundo a Pnad, a taxa de analfabetismo no Brasil passou de quase 7% (2018) para pouco mais de 6,5% (2019). A queda representa cerca de 200 mil pessoas a menos. Entretanto, o país ainda possui 11 milhões de analfabetos. Pessoas acima de 15 anos que não sabem ler nem escrever um bilhete simples são consideradas analfabetas totais, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A pesquisa do Pnad informou que 18% dos brasileiros nessas condições têm mais de 60 anos. Em 2016, pouco mais de 20%.

“Alfabetizar um adulto é um pouco mais complexo do que alfabetizar uma criança. Quando pequena, a criança é uma esponja que absorve tudo. Contudo, o adulto já possui a bagagem de toda uma vida”

A Região Nordeste obteve a maior taxa de analfabetismo, quase 14%. O número é quatro vezes maior do que os apresentados nas Regiões Sudeste e Sul (as duas possuem pouco mais de 3%). A Região Norte possui pouco mais de 7,5%, já a Região Centro-Oeste, quase 5%. Entre homens e mulheres o valor também se diferencia, sendo: quase 7% para eles e pouco mais de 6% para elas.

Analfabetismo
Fonte: IBGE

A redução do número de analfabetos em território nacional é uma das metas do Plano Nacional de Educação (PNE) na Lei 13.005/2014, que estabelece as etapas essenciais para melhorar a educação no Brasil até 2024. A legislação prevê melhorias desde o ensino infantil até a pós-graduação. De acordo com a lei, o país deveria ter atingido 6,5% de analfabetos até 2015, o que não deu certo. Contudo, o PNE prevê que essa marca deve ser atingida até 2024.

Métodos de alfabetização

Juliana Fiore, pedagoga, leciona no Mova há cerca de cinco anos. Sua turma é composta de 15 alunos, dentre eles alguns personagens citados na reportagem. A pedagoga explica que a maior dificuldade em sala é conseguir que os alunos se sintam à vontade. “Eles vêm com uma bagagem de vida”, disse a professora. “Eles são muito bons de matemática. Mas na hora da escrita e da leitura sentem vergonha.” De acordo com ela, muitos deles sentem vergonha de pedir ajuda no dia a dia. Inclusive, na sala de aula, eles imaginam que todos ao redor sabem ler e somente eles não.

A maioria dos alunos de Juliana é composta de pessoas maiores de 50 anos. Contudo, a pedagoga explica que já recebeu dois estudantes jovens que eram analfabetos, um de 17 e outro de 18 anos. A prefeitura de São Paulo é quem custeia e apoia o projeto. O local onde a turma de Juliana estuda ainda possui mais duas outras salas, entretanto, o projeto acontece em todo o município de São Paulo. Outra dificuldade observada pela professora é que, quando alfabetizados, os alunos não recebem um diploma, pois o movimento não é reconhecido como escola. Juliana explica que durante as aulas ela tenta não usar atividades infantilizadas, mas foca principalmente nas dificuldades de cada estudante.

“Não uso um único método de ensino”, disse a pedagoga. “Existe o sociointeracionismo [método de ensino que trata a dimensão sociocultural do estudante, valorizando o contexto histórico, social e cultural em que ele está inserido], construtivismo [método de ensino que entende o conhecimento como algo construído durante toda a vida, e não algo cumulativo] e alguns outros métodos de alfabetização, mas tudo isso utilizamos com as crianças e não com os adultos. “A professora também é adepta do método fônico de alfabetização para os alunos que, de fato, chegam à sala de aula sem conseguir ler nem escrever nada. “Quando o aluno percebe que cada letra possui um som e que cada sílaba forma o som de duas letras juntas, o processo de alfabetização torna-se mais fácil”, explicou.

O método fônico ensina por meio do som das vogais, seguidas pelas consoantes. O aluno entende cada letra como um som (fonema) que, junto a outras letras, formam sílabas e palavras. Esse método é um contraponto ao aprendizado por meio da leitura, iniciada a partir da interpretação de textos e discussões sobre o cotidiano dos estudantes, defendido pelo educador Paulo Freire.

De acordo com Juliana, no ensino de adultos é necessário buscar toda a bagagem que cada um possui e trabalhar isso em sala de aula. “Como eles têm muita facilidade com matemática, eu levo as situações e os problemas com escrita e cálculos financeiros”, disse. “João ganha R$ 2 mil, paga R$150 na conta de energia e R$ 200 na conta de luz. Ao final do mês, quanto João gastou?”

Desde que começou a ministrar aulas para jovens e adultos no Mova, a pedagoga já alfabetizou completamente mais de sete alunos. Depois de passar pelo projeto, os estudantes são direcionados para o EJA, a partir do 5° ano do ensino fundamental. “A maioria dos meus alunos deseja aprender por uma realização pessoal”, afirmou a professora.

Analfabetismo funcional no Brasil

Para além dos analfabetos absolutos, estão os analfabetos funcionais. Trata-se da incapacidade ou da dificuldade de compreender e interpretar textos simples ou fazer cálculos básicos. Segundo o IBGE, a cada dez brasileiros, três são considerados analfabetos funcionais. Em 2019, 50 milhões de brasileiros entre 14 e 29 anos de idade não completaram nenhuma etapa do ensino fundamental ou médio.

Já em 2018, 96% dos alunos que ingressaram ou concluíram o ensino superior foram considerados funcionalmente alfabetizados. Contudo, somente 34% desses estudantes alcançaram o nível máximo de maestria. Quase 40% não dominam habilidades básicas de leitura nem escrita. Isso significa que os universitários conseguem ler e escrever, mas não são capazes de interpretar textos nem agregar informações. A informação é do Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf), que avalia o nível de analfabetismo da população brasileira entre 15 e 64 anos.

Analfabetismo infantil é desafio

Uma nota técnica da organização Todos Pela Educação informou que, entre 2019 e 2020, houve um aumento de pouco mais de 65% no número de crianças entre 6 e 7 anos de idade que, segundo os responsáveis, não sabia ler nem escrever. O número passou de quase 1,5 milhão, em 2019, para quase 2,5 milhões, em 2021. De acordo com o Censo Escolar do Inep divulgado neste ano, em 2021 quase 1,5 milhão de pessoas entre 5 e 17 anos não frequentavam a escola.

 

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