Revista Oeste - Eleições 2022

Os efeitos do isolamento social na saúde dos brasileiros

O 'Fique em casa' contribuiu para que o Brasil se tornasse líder em casos de ansiedade
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A pandemia colocou o Brasil em primeiro lugar em casos de ansiedade e depressão entre 11 países
A pandemia colocou o Brasil em primeiro lugar em casos de ansiedade e depressão entre 11 países | Ilustração: Paul Craft/Shutterstock

Insônia recorrente, medo constante, crises de pânico e tristeza extrema. A covid-19 não comprometeu apenas a saúde física dos brasileiros que contraíram o vírus Sars-CoV-2. A doença infecciosa também foi responsável por provocar um salto considerável no número de pessoas com depressão e ansiedade.

Segundo uma pesquisa realizada pela Universidade de São Paulo (USP), as condicionantes de prevenção tornaram o Brasil líder em casos de ansiedade (63%) e depressão (59%) entre os 11 países analisados. O aumento dos casos não foi por acaso. Se por um lado a adoção de medidas restritivas, como o isolamento social, ajudou a conter o avanço da covid-19, por outro prejudicou a saúde mental de milhões de brasileiros.

Saúde é o tema escolhido por Oeste nesta sexta-feira, 12, dentro da série de reportagens “Desafios do Brasil”, que será publicada até o dia 30 de setembro, sempre seguindo a seguinte ordem de temas na semana: segunda-feira (Educação), terça-feira (Economia), quarta-feira (Agro e Meio Ambiente), quinta-feira (Segurança Pública) e sexta-feira (Saúde). Leia todas as reportagens da série aqui.

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A imposição de quarentenas ajudou a construir no inconsciente dos brasileiros que eles poderiam adoecer tanto fisicamente como psiquicamente. E as consequências de medidas como o “Fique em Casa” estão nos dados.

Segundo uma pesquisa conduzida pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) nos meses de maio, junho e julho de 2020, quando a pandemia estourou no mundo, cerca de 80% da população brasileira tornou-se mais ansiosa diante o novo coronavírus.

“A minha saúde mental piorou completamente”

Quando o governo do Estado de São Paulo decretou, em março de 2020, as primeiras medidas de restrição, a maquiadora Rafaela Urso não apresentou, pelo menos de imediato, uma recaída no quadro depressivo e ansioso. “De início, foi tranquilo desacelerar do dia a dia, mas, depois de alguns meses, se tornou esgotante”, afirmou a jovem.

Assim como Rafaela, outros brasileiros tiveram a saúde mental prejudicada com a imposição do distanciamento social. Segundo uma pesquisa do Ministério da Saúde, no último ano mais de 11% da população disse ter recebido diagnóstico médico de depressão. “Tudo que faço exige sair de casa, então ficar trancada em um apartamento foi algo bem difícil. Nunca me senti tão mal na minha vida.”

Com o decreto das medidas restritivas, o número de ansiosos e depressivos cresceu no país | Foto: Reprodução/Shutterstock

Com o agravamento dos transtornos mentais, a maquiadora optou por voltar a frequentar as sessões de terapia. Da mesma forma que a jovem, somente em 2020 cerca de 170 mil atendimentos ligados à saúde mental ocorreram em todo o país, conforme dados coletados pelo Ministério da Saúde.

A psicóloga Mayelen Casiano atendeu pacientes durante a pandemia de covid-19. Ela conta que, ao longo dos meses de isolamento, o caso mais comum acompanhado durante as consultas foi o de ansiedade, com destaque aos desdobramentos da doença, como síndrome do pânico e fobia social. “Percebi uma piora exacerbada, infelizmente”, afirmou.

Logo no início, quando as primeiras medidas restritivas foram impostas, o trabalho de Mayelen não foi fácil. Segundo a psicóloga, alguns pacientes não conseguiram comparecer aos atendimentos on-line, uma alternativa para quando os serviços presenciais na clínica em que trabalhava foram interrompidos. “Foi um desafio. Eles precisavam de acompanhamento na terapia, mas em decorrência da pandemia não puderam.”

(Des)incentivos do governo

“Fiz só por um período, porque não me adaptei.” Enquanto alguns brasileiros recorreram às clínicas particulares, outros, como o fotógrafo Carlos Spinello, 25 anos, escolheram voltar para a terapia pelo tratamento do Centro de Atenção Psicossocial (Caps), o serviço de saúde aberto e comunitário do Sistema Único de Saúde (SUS).

Diagnosticado com transtorno do déficit de atenção com hiperatividade (TDAH) — distúrbio caracterizado por sintomas de desatenção, inquietude e impulsividade —, Spinello desabafa sobre o descaso com a sua saúde mental, enquanto usava o tratamento da rede pública. A falta de comprometimento de alguns psicólogos, que costumavam chegar atrasados para os atendimentos, e de privacidade durante as consultas, que eram em grupo e duravam 45 minutos, o desestimulou a continuar com o serviço essencial.

“Durante a pandemia, desenvolvi crises de ansiedade, dificultando meus relacionamentos e socialização no geral”, afirma o jovem, que, apesar do descaso, defende o tratamento pelo SUS. “Os Caps são de extrema importância e são um direito do povo. O governo deveria investir bem mais em infraestrutura, melhores salários e benefícios para funcionários qualificados, implantação de psicólogos nos postos de saúde e consultas virtuais.”

O que falta?

Para além do tratamento em consultório, seja esse serviço virtual seja presencial, a questão das internações para ajudar no tratamento de portadores de transtorno mental também é amplamente discutida como um dos desafios que o próximo governo, eleito em novembro deste ano, deve superar.

O problema não é de hoje. Desde 2011, o governo federal não atualiza o valor do repasse financeiro para custeio dos Caps. Mas foi graças à comemoração do aniversário de 35 anos da Reforma Psiquiátrica no Brasil, movimento que ajudou a fechar manicômios e hospícios no país, que a pauta sobre o descaso da rede de saúde pública com os pacientes voltou a ser discutida.

No dia 23 de março deste ano, o Ministério da Saúde revogou financiamentos federais para a Rede de Atenção Psicossocial (Raps) no SUS — programa que visa a promover a inserção social de pessoas diagnosticadas com transtornos mentais e acolher as que fazem uso excessivo de álcool e outras drogas. Poucos dias depois, no início de abril, a Secretaria Nacional de Cuidados e Prevenção às Drogas (Senapred), vinculada ao Ministério da Cidadania, destinou R$ 10 milhões para 33 hospitais psiquiátricos privados.

“Os serviços públicos de tratamento à saúde são fundamentais, porém atualmente acontece um desmonte do financiamento dessa política”, afirma Fernanda Lou Sans Magano, conselheira do Segmento de Trabalhadoras e Trabalhadores, que representa o segmento na Mesa Diretora do Conselho Nacional de Saúde (CNS). “Está difícil garantir e respeitar os direitos dessas pessoas.”

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16 comentários Ver comentários

  1. Tenho cá minhas dúvidas se o “fique em casa” ajudou a conter a doença. Li um estudo constatando um decréscimo de 1 ou 2% nos infectados, com essa medida draconiana. Comparado ao que estamos vendo com doenças pós “fique em casa” é nada.

  2. A própria conselheira citada no artigo sofre de algum distúrbio informacional.
    O governo federal transferiu em 2020/21 mais de 700 bilhões aos estados e municípios para enfrentamento da Pandemia.
    Coube aos conselhos estaduais e municipais da Saúde priorizar a destinação dos recursos. O que a conselheira tem a autoridade para colocar uma lupa do porquê a saúde psicossocial da população não recebeu aportes das autoridades locais de saúde.

  3. Oeste, cuidado com o que publica aqui. Noutro dia eu li uma matéria absurda onde um jovem designer afirma que Jesus Cristo tinha aparência de beduíno, o que é absurdo, pois árabes e judeus, apesar de viverem muito próximos, são de etnia opostas, com cor de pele diferente. Judeus ( Cristo nasceu da Tribo de Judah, a tribo do rei Davi, claro, um judeu, fisicamente falando ), são claros e árabes, escuros. Bem, eu comentei isso aqui. Agora, vem com subtítulo absurdo que o “fique em casa”, ajudou a conter a contaminação pelo vírus chinês, algo sem nenhuma comprovação científica, muito ao contrário; afirmação contestada por vários cientistas sérios. Eu mesmo sei de muitos casos de pessoas que não saíam de casa e foram contaminados, pois é impossível não ser contaminados por vírus em uma situação de alta propagação. O ideal é sempre criar resistência contra o vírus, reforçando as defesas normais do organismo e sim, se expondo ao vírus nas ruas. Eu não tomei a “vachina”, tive a gripe no começo do ano e me recuperei após 3 semanas. Quando eu quiser ler o discurso da esquerda, eu vou nos sites vermelhos, não venho aqui ( claro que não tenho essa vontade estúpida ), repito: cuidado com o que publicam, pois discurso da esquerda sobre o tal vírus é apenas criação de “fatos” extraídos da ficção científica comunista.

  4. Oeste, cuidado com o que pública!
    De todo modo, a questão dos efeitos do afastamento social foram levantadas pelo Dr Wong em uma entrevista ao globo news, e nesse momento cortaram a fala do Dr Wong e nunca mais o chamaram para nada na goebels.

    1. Artigo com fake news. Não há documentação científica q tenha demonstrado redução significativa de mortalidade por covid com uso de fechamentos. Portanto utilizar o termo “ se por um lado os fechamentos reduziram

  5. “Se por um lado o “Fique em casa” ajudou a conter a covid-19…”
    O maldito “Fique em casa” não contribuiu em nada para conter a covid-19.Pelo contrário.Contribuiu sim para a disseminação do vírus.As pessoas trancafiadas em suas casas,muitas vezes aglomeradas,se tornaram o alvo preferido do vírus.O “Fique em casa” foi uma experiência autoritária e desastrosa em todos os sentidos.

  6. Isso não é uma reportagem e isso foi uma assessoria de imprensa de profissionais de pesquisa comprada de faculdade pública sem vergonha! Tinha que manter os hospícios e liberar os com saúde e mente boa para trabalhar durante a pandemia.

  7. Baseado em que o fique em casa conteve a covid? A Suécia nao adotou o fique em casa, manteve escolas abertas, restaurantes e comercio funcionando embora com capacidade limitada e teve menos casos e mortes do que a maioria dos paises europeus

  8. A repórter precisa se atualizar.Os estudos mais recentes o condenam pela baixa relação custo benefício.Se eficiente fosse a China já teria se livrado do covid

    1. Será que o Guilherme Fiuza leu essa matéria? Acho que ia parar no primeiro parágrafo. Afirmar o que não tem certeza não pode fazer parte desta revista. O cuidado com o que se escreve deve ser minucioso, principalmente quando gera suspeita como no caso do “fique em casa”. Os leitores dessa revista eletrônica têm o senso crítico mais aguçado.

  9. Não creio que o “fique em casa” ajudou foi de grande ajuda para conter o covid, inclusive existe alguns estudos que confirma isso, contudo a respeito dos problemas de ansiedade, claro que deve ter contribuído e muito.
    Porém não podemos esquecer o mau que a grande mídia está provocando na saúde mental da população com essa enxurrada de fake news, distorção da realidade, narrativas sem fatos que sustente e a tentativa de destruição dos valores até recentemente consagrados. As pessoas estão perdendo o chão e a falta de referência que as sustentavam em pé nessa na luta diária da vida. A grande mídia e os seus patrocinadores um dia serão julgados por todo o mal e sofrimento que estão espalhando.

    1. Não é q não creias. Estudos das universidades de lund, hopkins, Copenhagen, stanford, Chicago , Argentina ( ubá) e pasme ufpel, ufrgs demonstraram não adiantar nada

  10. “Se por um lado o “Fique em casa” ajudou a conter a covid-19, por outro contribuiu para que o Brasil se tornasse líder em casos de ansiedade.”
    – Você tem certeza que o “Fique em casa” ajudou a conter o covid-19? Tem certeza absoluta disso? De onde você tirou essa conclusão absurda?
    – Quanto ao resto da reportagem nada há a contestar, mesmo porque não sou especialista na área da Saúde.

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