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O pai, o filho e o deboche

A ideia geral de que não se deve praticar certas coisas em público, porque “pega mal”, parece caminhar rapidamente para a extinção
Deputados comemoram vitória de Rodrigo Maia | Foto: FÁBIO POZZEBOM/AGÊNCIA BRASIL
Deputados comemoram vitória de Rodrigo Maia | Foto: FÁBIO POZZEBOM/AGÊNCIA BRASIL | Deputados comemoram vitória de Rodrigo Maia | Foto: FÁBIO POZZEBOM/AGÊNCIA BRASIL

J. R. Guzzo

Publicado no jornal ‘O Estado de S. Paulo’, em 28 de outubro de 2020

Napoleão Nunes Maia, ministro do Superior Tribunal de Justiça

De safadeza em safadeza, e com a regularidade das marés, a aglomeração de vossas excelências e outros peixes graúdos que ocupa os galhos mais altos das nossas “instituições” está varrendo da vida pública brasileira os últimos átomos de constrangimento, na hora de fazer o mal, que ainda possam resistir aqui e ali nessas cumieiras. A ideia geral de que não se deve praticar certas coisas em público, porque “pega mal”, parece caminhar rapidamente para a extinção; daqui a pouco vai ficar mais fácil achar um mico-leão-dourado. O que está valendo é o exato contrário. Existe uma opção entre o certo e o errado, nesse ou naquele assunto? Então vamos fazer o que está errado.

Acaba de acontecer, mais uma vez, com a decisão da Câmara dos Deputados de nomear o filho do ministro Napoleão Nunes Maia, proprietário de uma cadeira no Superior Tribunal de Justiça, para o Conselho Nacional de Justiça (CNJ). Pode parecer uma piada, e é uma piada — mas foi precisamente isso o que houve, porque nesse bioma a regra em vigor é “cada um cuida de si, e todos cuidam de todos”. E se aplicação da regra requerer que se cometa um deboche? Paciência; que venha o deboche, então, e depois a gente se arruma. Nem se perdeu tempo, nesse caso, com a nomeação de algum concunhado do ministro Napoleão, ou o primo em terceiro grau, ou a sobrinha do colega que despacha na sala ao lado — foi o filho mesmo, direto.

É um desses casos em que o insulto se soma à injúria: como essa gente tem a coragem de nomear o filho de um ministro para o Conselho que está encarregado de julgar o comportamento do pai? Ninguém fica com vergonha — o pai, o filho e os 364 deputados que montaram e aprovaram essa tramoia? Ninguém, obviamente, tanto que o rapaz — cujas credenciais de jurista são iguais a três vezes zero — foi para o CNJ, numa operação conjunta do Centrão (cujo presidente discursou em plenário a favor do seu preferido) e do PT. Qual a surpresa? Em coisas assim (“fundo eleitoral” etc.) Centrão e PT estão sempre juntos. Na verdade, essa modalidade de trapaça é a preferida por nove entre dez magnatas da nossa vida pública: ninguém sabe direito o que é “CNJ”, nem se importa em saber — ou seja, é o lugar ideal para uma vigarice. Depois de uns ruídos na hora da escolha, o assunto cai em exercício findo e todos os interessados ficam em paz. Por que iriam se preocupar com alguma coisa?

A nomeação não poderia vir numa hora melhor para o ministro Napoleão. Daqui a dois meses ele será obrigado a se aposentar do STJ — e a partir daí poderá ser acusado de corrupção pela Lava Jato. Nessas horas, nada como um filho no Conselho Nacional de Justiça. O respeito intransigente às “instituições” vai salvar o couro de todo mundo.

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5 comentários

  1. O emaranhado de corporativismo é muito grande. Na ponta, o eleitor é muito simples para na hora do voto lembrar de tudo isso. E Os deputados, podem sofrer um pequeno desgaste enquanto a notícia circula, depois, ninguém lembra e ele comem quieto. Realmente não é fácil organizar este Brasil. Uma nova Constituição agora é inviável, pois o congresso está altamente contaminado. Porém, daqui umas 3 legislaturas em que o congresso, a prosseguir a tendência de 2018, estará mais depurado, será inevitável, para organizar estas coisas e realmente a democracia venha a funcionar.

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