Por que há socialistas com mais de 30 anos - Revista Oeste

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Por que há socialistas com mais de 30 anos
Duas razões: todos nós crescemos em famílias, que são pequenas comunidades socialistas; e na economia contemporânea é difícil estabelecer a conexão entre esforço e recompensa
24 abr 2020, 15:35

A boa e velha piada, um pouco grosseira, é que qualquer um que não seja socialista aos 16 anos não tem coração, mas qualquer um que ainda seja socialista aos 26 não tem cérebro. Eu mesma passei por isso. Centenas de milhares de pessoas supostamente inteligentes e bem formadas desde 1848 ou 1917 ou 1968 amavam o socialismo na adolescência, mas, quando adultas, passaram a detestá-lo ou, no máximo, a enxergá-lo como um amor de infância — na verdade, um amor de infância bem bobo.

Você pode deduzir por conta própria a partir da quantidade de biografias desse tipo. Centenas de milhares que decidiram “experimentar o socialismo” escreveram sobre o fracasso. Se estiver disposto a descobrir o porquê, recomendo a leitura de Everything Flows (1964), romance excelente, curto e inacabado de Vasily Grossman sobre a vida na União Soviética.

As pessoas vão dizer, “Ah, não estou falando do socialismo soviético, maoista nem da Coreia do Norte. Sou a favor da ‘economia mista’”. Mas as partes da economia “mista” que funcionam são basicamente as partes livres, o comércio e as fábricas chinesas, em oposição às empresas estatais e aos gloriosos projetos pessoais do Estado. No Brasil, as clínicas particulares de cirurgias cosméticas funcionam muito bem. Imagine uma cirurgia feita pelos Correios e você vai entender do que estou falando. Ou vamos olhar para o grande exercício de vaidade brasileira que é Brasília. Preciso dizer mais?

Os índices de constatação variam. O escritor de Chicago Saul Bellow afirmou sobre seu trotskismo passado que, “como todo mundo que investe em doutrinas na juventude, eu não podia abrir mão delas”. As pessoas chegam à adolescência para acreditar que odeiam a burguesia (seus pais) ou para detestar as economias de livre mercado (ainda que frequentem cafés) ou para acreditar piamente no Estado do bem-estar social ou regulatório (que, com muita frequência, falha).

O socialismo torna-se parte de uma identidade adorada, uma crença difícil de mudar.

No entanto, muito poucos seguem o caminho inverso. Muito poucos começam aos 16 como conservadores e se tornam comunistas. Menos ainda começam como liberais de fato, como a incrível rede Students for Liberty Brasil, e se tornam socialistas aos 26 anos. Ou 36. Ou 76. Vamos considerar o que o filósofo Leszek Kolakowski (1927-2009) escreveu quando era um jovem polonês desiludido em 1956, época em que o comunismo tinha mostrado a que veio, publicando uma longa lista de “o que o socialismo [honesto, verdadeiro] não é”. O socialismo não é “um Estado convencido de que ninguém pode fazer melhor” nem “um governo que sempre sabe melhor que seus cidadãos onde reside a felicidade de todos esses cidadãos”. Vamos pensar também em Robert Nozick, filósofo norte-americano que começou como um socialista quando estava na casa dos 20, mas, aos 36, em 1974, redigiu o clássico liberal Anarchy, State, and Utopia. Ou ainda uma safra anterior de convertidos, como Arthur Koestler encontrando a escuridão ao meio-dia, ou o que George Orwell teria concluído se tivesse sobrevivido à tuberculose e visto mais da revolução dos bichos na União Soviética. Mais uma vez, vejamos Grossman. O socialismo existente de fato, em oposição ao não socialismo real de um país como a Suécia, obviamente tem sido terrível, como é o caso da Venezuela.

No fim das contas, o poder sobre a economia tende a corromper, e o poder absoluto corrompe absolutamente.

E até os ideais românticos do socialismo, tão atraentes para a juventude, são absurdamente inconsistentes em relação aos fatos, como Kołakowski demonstraria em sua enorme obra sobre a história do socialismo europeu, Main Currents of Marxism. Eles prometem uma liberdade do trabalho que, ainda assim, nos enriquece, um plano central contra a tirania, e liberdades individuais que ficam estritamente subordinadas a uma vontade geral. Essa juventude…

No entanto, ah, como acalenta esse primeiro amor por sair mandando nas pessoas para auxiliar a Justiça e a Revolução! Em um programa de televisão britânico de 1994, o escritor e político liberal Michael Ignatieff perguntou, com ceticismo, ao brilhante historiador Eric Hobsbawm (1917-2012), comunista de uma vida toda, se “o assassinato de 15, 20 milhões de pessoas” na URSS sob Lênin e Stálin, em uma estimativa baixa, “podia ser justificado” diante de sua contribuição para que uma sociedade comunista fosse fundada. Hobsbawm, sem hesitação, respondeu: “Sim, assassinar tanta gente foi justificado”. Implacável. Ou um quê de linha partidária. Ou agressivo. Oh, Eric.

As pessoas mais tristes, e as mais perigosas quando estão no poder, nunca superam. Bernie Sanders, Jeremy Corbyn e eu temos a mesma idade. Aos 18 anos, todos os três tínhamos a mesma opinião: nas palavras do hino do Partido dos Trabalhadores britânico, “A bandeira do povo tem o vermelho mais profundo./ Ela muitas vezes protegeu nossos mártires mortos./ Ela testemunhou muitos feitos e juramentos./ Não devemos mudar sua cor agora”*. Em 2020, aos 77 anos, Bernie e Jeremy mantêm a opinião que tinham em 1960. Nada de aprender com questões históricas, nada de evidências acumuladas a partir de horríveis consequências impensadas, nada de 20 milhões, 30 milhões de assassinatos.

Isso demonstra um orgulho teimoso. “Vamos deixar a bandeira vermelha hasteada aqui.” Em sua envolvente autobiografia de 2002, Hobsbawm descreve como queria se tornar comunista aos 14 anos e o fez aos 16 — ainda que, pensando bem, na Alemanha, em 1931, quem, como Eric, não iria querer se tornar algo como um comunista? Afinal, parecia que a inovação liberal estava em declínio. Ninguém que tivesse um coração. (A verdade é que, em 2002, seria possível perguntar sobre o cérebro.)

Hobsbawm faz uma pausa em seu livro de tempos em tempos para explicar por que — diante dos crimes de Stálin, da repressão aos protestos húngaros e do resto dos desastres do socialismo até chegar à Venezuela — só deixou de ser um membro exemplar, ainda que não ortodoxo, do Partido Comunista da Grã-Bretanha alguns meses antes de sua dissolução, em 1991. A explicação, estranha para um homem tão inteligente, era que ele não queria dar essa satisfação para os macarthistas antissocialistas. Fiel até o fim, o bom senso que se dane.

É um pouco como o ateísmo aos 16 que garotos e garotas inteligentes adotam, sem nunca  reconsiderar, e isso jorra da boca de idosos de 77 anos que, nesse meio-tempo, nunca abriram um livro sério sobre teologia. É o que ocorre também com socialistas convictos.

Marxistas, marxianos e marxoides, no meu país e no seu, muitos deles amigos queridos, nunca abriram um livro sério sobre economia publicado depois de 1867.

A verdade é que os jovens “socialistas” de hoje em dia nunca abriram um único livro, nem mesmo de Marx. Eles confiam em posts de blogs de não leitores.

Mas então por que, com tanta frequência, o socialismo representa esse primeiro amor, de um jeito ou de outro, se por acaso você, como eu, devorou — na biblioteca pública de Wakefield, Massachusetts, financiada pelo empresário e filantropo Andrew Carnegie (1835-1919) — Mutualismo, do príncipe Piotr Kropotkin, ou Dez Dias que Abalaram o Mundo, de John Reed, em vez de A Revolta de Atlas, de Ayn Rand, ou Capitalismo e Liberdade, de Milton Friedman?

Duas razões, e ambas podem ser testadas. A primeira é que todos nós crescemos em famílias, que obviamente são pequenas comunidades socialistas — “de cada um, uma habilidade; para um de acordo com a necessidade”. Os amigos também são assim. Erasmo de Rotterdam começava toda edição de sua compilação de milhares de provérbios latinos com “tudo é comum entre amigos”. Isso mesmo. Se você compra uma pizza para a festa, mas avisa “eu paguei, então posso comer tudo”, você não será mais convidado.

Portanto, quando uma adolescente em uma sociedade livre descobre que existem pessoas pobres, seu impulso generoso é trazer todo mundo para uma família de 210 ou 330 milhões de parentes. Ela não teria esse impulso se tivesse sido criada em uma sociedade que não é livre, aristocrática ou totalitária, em que a hierarquia foi naturalizada. Aristóteles, tutor de aristocratas, afirmou que algumas pessoas são escravas por natureza. E Napoleão, o porco comissário de A Revolução dos Bichos, disse “todos os animais são iguais, alguns mais iguais que outros”. A escritora Margarete Buber-Neumann (1901-1989), observadora das realidades soviéticas nos anos 1930, ficou impressionada ao descobrir que “as estâncias de luxo para funcionários do governo se dividiam em nada menos que cinco níveis de luxo para os diferentes escalões da hierarquia comunista”. Alguns anos depois, ela encontrou essa estratificação social reproduzida em seu campo de detenção.

A outra razão, como argumenta o economista Laurence Iannaccone, é que quanto mais complexa se torna uma economia, e quanto menos as pessoas a compreendem a partir de seu trabalho com os frutos diretos, menos óbvia se torna a ligação entre seu trabalho e suas recompensas. Para uma pessoa inserida em uma grande empresa, e ainda mais para alguém em um escritório do governo em Brasília, nada parece importar. Basta ver a tira de quadrinhos Dilbert. Em contraste, uma pessoa, até mesmo de 16 anos, que trabalha em uma fazenda de subsistência em Alagoas identifica imediatamente a conexão entre esforço e recompensa. Como o apóstolo São Paulo já o fazia, o que se observa em sua epístola aos cristãos de Tessalônica: “Quem não quiser trabalhar também não deve comer”. Essas regras são a única forma, em qualquer coisa que não seja um pequeno grupo profundamente amoroso ou altamente disciplinado, de conseguir que uma pizza grande seja feita.

Ambas as razões para o socialismo juvenil parecem culminar agora. Faz muito tempo desde a queda do Muro de Berlim. Temos cada vez mais adolescentes sem experiência profissional, que não vivem em fazendas, que não estão inseridos em um sistema escravagista nem em uma economia socialista existente de fato, e que ainda vêm de pequenas sociedades de famílias e amigos.

Contudo, ao menos em um aspecto, o Brasil está melhor que os EUA no questionamento do socialismo tolo.

No Brasil vocês têm, como já mencionado, literalmente centenas de grupos país afora do maravilhoso Students for Liberty, uma série de fundações liberais de fato que querem que todos sejam verdadeiramente livres — gays, mulheres, trabalhadores, moradores das favelas do Rio de Janeiro, pessoas que desejam abrir um negócio no Recife, mesmo que não seja isento de impostos.

Meus amigos socialistas de meia-idade nas universidades discordam. Corey Robin, cientista político na Brooklyn College, escreveu recentemente e de modo apaixonado sobre a nova onda socialista entre os jovens: “Sob o capitalismo, somos forçados a adentrar o mercado apenas para viver. Os libertários veem o mercado como sinônimo de liberdade. Mas os socialistas ouvem ‘mercado’ e pensam num pai ou mãe ansioso, desesperado por não ofender o funcionário do seguro no telefone, para que ele não decrete que a apólice paga não cobre a cirurgia do apêndice de seu filho ou filha… Sob o capitalismo, somos forçados a nos submeter ao chefe”.

Certo. E sob o socialismo somos forçados a nos submeter ao Estado e sentir uma ansiedade idêntica, só que causada por uma arma, e não por um talão de cheques. Isso faz lembrar a velha piada antissocialista. Sob o capitalismo, os humanos exploram humanos. Sob o socialismo, é o contrário.

*The people’s flag is deepest red./ It sheltered oft our martyred dead./ It witnessed many a deed and vow/ We must not change its color now.

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A economista americana Deirdre  McCloskey é professora de Economia, História, Língua Inglesa e Comunicação da Universidade de Illinois, em Chicago (UIC). É autora dos livros The Rhetorics of Economics (1985) e Bourgeois Equality — How Ideas, Not Capital or Institutions, Enriched the World (2016). É uma das maiores pensadoras liberais do mundo.

 

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25 Comentários

  1. Excelente. Este artigo ja valeu pela assinatura anual da revista

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  2. Excelente artigo. Valeu muito

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  3. Excelente artigo. Só um detalhe a mais: pessoas velhas defendendo com unhas e dentes o socialismo ou têm interesses escusos no poder ou são vaidosas, não admitem q estiveram erradas por décadas

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  4. 👏👏👏👏

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    • Excelente artigo.

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  5. Simplesmente, brilhante.

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  6. Excelente artigo.

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  7. Há determinados seres humanos, poucos felizmente, que se tornam insepultos para sempre. Esse tal de Marx foi um deles. O fogo já queimou todos os elementos de sua miserável existência há tempos, mas as cinzas continuam aí, perturbando mentes e infernizando a humanidade.

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  8. Artigo para ler , repassar
    , guardar e reler. Brilhante!!!

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  9. “Meninos eu li,juro que li.”:embevecido.Sou uma prostituta da sabedoria.Quanto é o o “michê” anual da OESTE.Então vamos ler.Tempo que não via um texto tão lindo e inteligente.Meninos estudem,leiam livros senão por tudo, mas poque é bonito.Cada releitura,e me sinto que estou falando sozinho com muitos amigos passados e presentes.Texto mágico!

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    • O socialismo dura até acabar o dinheiro dos outros. Margaret Thatcher.

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    • Muito bom artigo. Exato no tempo e no espaço!

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  10. O melhor artigo de longe explicando o socialismo no meio econômico. Bem didático e preciso. De fato eu ri um bocado lendo o texto – de tristeza é claro. Pessoas ditas socialistas que levam Felipe Neto a sério que não entende absolutamente nada de nada e deixam figuras que dominam o assunto de fora, como mencionado no texto, não podem ter credibilidade alguma em qualquer tipo de assunto.

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  11. Muito bom artigo. Uma coisa que é bem verdade é que a maioria esmagadora dos socialistas nunca leu um bom livro sequer de economia, nem mesmo de Marx – que eles tanto endeusam. As opiniões deles são reduzidas a opiniões de blogueiros, um recorte de um artigo aqui, um jornalzinho esquerdista ali etc. Milhares e milhares só têm essa paixão na juventude mesmo, mas logo ao amadurecer se dão conta das bobagens que defendiam e se sentem envergonhados por isso.

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  12. A Revista Oeste veio para ficar. Ótimos artigos como este que nos faz aprimorar a sabedoria.

    Thank you Deirdre, obrigado Oeste

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  13. Excelente artigo.
    Devia ser leitura obrigatória para todos os jovens a partir dos 16 anos.
    E especialmente para os nossos universitários.

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  14. Excepcional Artigo!!
    Essa revista vale cada centavo pago!!
    Por favor, não desvirtuem a linha editorial como fizeram com Crusoé…

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  15. Nada mais a acrescentar. Um dos melhores artigos que já li. Simplesmente sensacional! Meus cumprimentos à Revista Oeste por ter em seu portifólio uma articulista com esse gabarito.

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  16. Esse artigo deveria ser adaptado em vídeo e compartilhar seu conteúdo para a juventude que não lê.

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  17. Excelente! Esse artigo deveria ser adaptado em vídeo e compartilhar seu conteúdo para a juventude que não lê.

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  18. Socialistas dividem-se em dois grandes grupos: aqueles que se iludem e os que se locupletam.

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  19. Um artigo para ler e reler. Uma verdadeira aula!

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  20. Muito bom. No entanto, para os dois grupos hegemônicos vale a expressão do sertão profundo: o bicho homem não é confiável.

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  21. Muito bom !!!

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  22. Brilhante! Cada vez mais me torno fã da revista.

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