Precisamos falar sobre a OMS - Revista Oeste

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Precisamos falar sobre a OMS
A organização deve ser ouvida em questões de saúde pública, mas nunca tratada como um oráculo acima do bem e do mal ou suas diretrizes como verdades absolutas
10 abr 2020, 08:41

O controverso presidente da Organização Mundial de Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus, repetiu na última quarta-feira, dia 8 de abril, o bordão de que não se deve “politizar o coronavírus”. Para ele, a pandemia deve ser combatida nos países num clima de união nacional e acima das divisões políticas. É uma boa ideia, mas talvez ele não seja a pessoa mais indicada para esse tipo de conselho.

É preciso deixar claro, logo de início, que questionar a atuação da OMS e de seu presidente durante a pandemia atual não significa apoiar o negacionismo em relação à gravidade do problema ou advogar pelo protagonismo de políticos oportunistas, mas entender que mesmo órgãos técnicos, alegadamente guiados pelas melhores práticas da ciência, não são impermeáveis a pressões políticas.

Conhecido como Dr. Tedros, o primeiro africano a dirigir a OMS chegou ao cargo depois de uma longa carreira política como ministro da Saúde (2005-2012) e das Relações Exteriores (2012-2106) na Etiópia. Sua trajetória no governo etíope começou sob o comando de Meles Zenawi, o ex-guerrilheiro que assumiu o poder em 1991 e conduziu o país por mais de vinte anos, até sua morte, causada por um tumor no cérebro, em 2012. Zenawi foi acusado de violações dos direitos humanos, fraudes eleitorais, além de perseguir, prender e ordenar a morte de opositores.

A gestão de Tedros Adhanom como ministro da Saúde da Etiópia foi questionada durante a campanha para a presidência da OMS em 2017.

A principal acusação foi de que o microbiologista, com doutorado em Saúde Comunitária pela Universidade de Nottingham, tentou acobertar três surtos de cólera em seu país, em 2006, 2009 e 2011. A imprensa noticiou na época que autoridades etíopes pressionaram agentes de organizações internacionais a não mencionar a palavra “cólera” em seus relatórios ou citar o número de infectados.

Apenas quando os surtos de cólera atingiram países vizinhos é que a aparente omissão das autoridades da Etiópia ficou mais clara, o que teria causado o atraso no envio de ajuda internacional e agravado significativamente o problema. Sobre as acusações, Tedros Adhanom disse que os casos em seu país eram apenas de “diarreia” em locais remotos e não cólera, o que foi negado por vários especialistas estrangeiros.

A eleição de Tedros Adhanom para o comando da OMS, que venceu o britânico David Nabarro, foi amplamente apoiada pelo governo chinês, o segundo maior patrocinador da organização depois dos Estados Unidos. A campanha despertou críticas de que a pressão de Pequim teria sido decisiva e pouco ortodoxa, especialmente na conquista de votos dos representantes de países pobres.

Em 14 de janeiro deste ano, a OMS divulgou em seu perfil oficial do Twitter que não havia evidências, segundo as autoridades chinesas, de que o coronavírus fosse transmitido entre humanos. Duas semanas depois, o órgão publicou que o contágio fora da China era “muito limitado”. No início de fevereiro, a organização comandada por Tedros Adhanom ainda pedia que os países não restringissem a entrada de chineses, o que evidentemente contribuiu para que o vírus se espalhasse mais rápido.

O reconhecimento oficial da pandemia pelo órgão só aconteceu na segunda semana de março, um atraso que foi criticado até pelo ministro da Saúde brasileiro, Luiz Henrique Mandetta.

As posições públicas da OMS continuam até hoje alinhadas ao governo chinês.

Para o escritor e zoólogo britânico Matt Ridley, membro da Câmara dos Lordes e ex-editor de ciência da The Economist, depois que a crise passar há três questões a que a OMS precisa responder. Primeiro, o órgão deve explicar por que não preparou o mundo para uma nova pandemia depois da sars (2002–2003) e da doença do vírus ebola (2014), aparentemente preocupando-se com pautas mais ideológicas como o combate a mudanças climáticas. Segundo, deve se explicar sobre suas posições nas primeiras semanas da pandemia deste ano. Terceiro, a falha do órgão em comentar o sucesso de Taiwan no combate à covid-19 por supostas pressões chinesas.

Como a OMS sofreu críticas de Donald Trump, é natural e previsível a reação de seus opositores que correram para defender a organização, mas nenhuma instituição pode ou deve ser blindada contra críticas, especialmente com tamanha influência nas políticas públicas mundiais de saúde. A bilionária organização comandada pelo polêmico Tedros Adhanom deve ser ouvida, evidentemente, mas nunca tratada como um oráculo acima do bem e do mal ou suas diretrizes como verdades absolutas.

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16 Comentários

  1. É mandatorio que esse cidadão seja interpelado pelas suas atitudes e decisões , pelos países que estão sofrendo com essa pandemia. A sequência de erros e omissões já identificadas , cobram explicações e responsabilidades.

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    • Excelente artigo Mr. Borges!!!

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  2. Ótimo artigo Alexandre!

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    • Parabéns mestre!

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    • A ONU e seus braços executores como OMS, FAO, UNICEF e Conselho de Direitos Humanos, dentre outros, é o mais poderoso instrumento de dominação global. Suas diretizes permeiam as leis e constituições de nações, supostamente livres, mundo afora. Os países membros financiamos essa estrutura gigantesca que em troca lança-nos as rédeas auto impostas. Quem comanda aquilo pretende comandar o mundo num futuro governo totalitário mundial socialista. É o globalismo e lá é a sede. Não elegemos seus mandatários e por isso eles não prestam contas aos povos, apenas aos seus patrões, muitos dos quais ditam de Pequim. Mas porque fizemos essa escolha? Ainda somos soberanos?

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  3. São organizações como OMS e a própria ONU, como já descia o sarrafo, o falecido Paulo Francis, que só servem para gastar bilhões de dólares, com uma burocracia cara e pouco eficaz, para dourar a pílula, nos conflitos mundiais.Como precisamos de bombeiros,nesse mundo em chamas,eles fazem o rescaldo.Mas com o Brexit,na União Européia, o mundo tá começando a pensar diferente.E com o coronavírus vai acelerar muito essa tendência nacionalista.

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  4. Desculpem-me se estiver sendo rude. Comunismo (marxista, leninista, maoista, castrista, petista, psolista, pcdobista, etc), é a desgraça do mundo.

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    • Certíssimo!

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  5. Excelente contextualização dos fatos. E contra fatos não há argumentos.

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  6. Perfeito. Alguém deveria enviar este texto para o Gilmar Mendes.

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  7. Covid-19
    A ingenuidade globalizada e a malícia comunista

    Acróstico – INGENUIDADE X MALÍCIA

    Intensificação comercial entre Ocidente e China causou,
    Naturalmente, aceleração no processo de globalização,
    Gana por commodities e insaciável voracidade consumista.
    Empregos em queda, mas parcerias com a China em alta.
    Na mosca! PIB chinês pulou de US$ 150 bi para US$ 13 tri.
    Urgia rever acordos entre Ocidente e China, ”Mas…
    Ideologias à parte, os chineses estariam reconhecendo e
    Decididamente sinceros com o processo de globalização.”
    A avidez ocidental por expansões e lucros, bem explorada:
    Disciplinados e frios chineses propondo e impondo o jogo.
    E o Covid-19 surgiu, deixando Ocidente em sinuca de bico.

    X da questão: ”Ingenuidade” X ”Malícia”, quem vencerá?

    Mentes preparadas na arte de iludir e parecer confiável;
    A infiltração, oferecer facilidades e se apoderar depois;
    Levar a crise e oferecer generoso apoio após, além de
    Ícones e mensagens subliminares do comunismo chinês.
    Capitalismo e Estados Democráticos de Direito,
    Incrivelmente, caíram na esparrela do comunismo chinês.
    A retomada da Soberania é possível, mas será cara e dolorosa.

    AHT
    13/04/2020

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  8. O que nos incomoda é o ortopedista Mandetta citar a OMS como uma entidade sagrada que nos envia as ordens e tem de serem cumpridas. Fala numa ciência , que não é comprovada com números e picos intermináveis. Realmente, olhando com profundidade tanto a OMS, quanto Mandetta são uma farsa. A OMS por mentir e omitir, e Mandetta por tentar ser o que não é- um cientista. É realmente um político vigarista que tenta nos enganar e consegue enganar aos incautos e ignorantes.

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  9. Excelente artigo

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  10. Desta vez o Alexandre Borges acertou a mão. Nas edições anteriores tomou porrada na escolha dos temas e abordagens equivocadas.

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    • Bom sinal. Está tentando se redimir dos artigos anteriores. Mas continua acesa a luz amarela sobre as convicções políticas de Alexandre Borges.

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  11. Bom artigo. Conteudo muito relevante. Mas o titulo pode ser melhor. “precisamos falar sobre” eh uma “bandeira” de esquerda. Eh tbm um titulo preguiçoso. Repetitivo. Eh como jornalista perguntar: “como voce ve isso?”

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