Quem vai mandar na Lava Jato? - Revista Oeste

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Quem vai mandar na Lava Jato?
Coordenador e símbolo da operação que mudou o Brasil, o procurador Deltan Dallagnol deixa a força-tarefa, que muda de mãos e terá mais influência de Brasília
4 set 2020, 08:57

No final de 2015, quando milhares de brasileiros comemoravam nas ruas a abertura do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff, na esteira de uma onda de manifestações em defesa de uma faxina política no país, um enorme cartaz foi estendido sobre as vidraças do pomposo edifício da Procuradoria-Geral da República em Brasília. “#CorrupçãoNão”, dizia a faixa, em alusão ao lançamento do site www.combateacorrupcao.mpf.mp.br, por meio do qual os cidadãos passaram a poder registrar denúncias, ter acesso a ferramentas de controle de gastos públicos e revisitar casos como Banestado, Sanguessugas e Mensalão, que retratam um velho Brasil.

Além do processo em curso contra a presidente petista na Câmara dos Deputados, o país também convivia com a euforia de uma operação do Ministério Público de Curitiba (PR) que parecia varrer um a um políticos, empreiteiros e operadores que sangraram os cofres públicos durante décadas. A Lava Jato não só destronou essa quadrilha como continuou levando multidões às ruas em defesa do fim da corrupção.

Eram outros tempos. Passados seis anos e 72 fases do início da operação, ela parece arrefecer a passos largos. Na avaliação de integrantes do próprio Ministério Público e de alguns advogados, a saída nesta semana do procurador Deltan Dallagnol, que liderava a força-tarefa, pode ser a resposta definitiva à pergunta que muitos fazem até hoje: a Lava Jato terá um fim?

“Deltan honrou o Estado do Paraná permitindo que pudéssemos assumir uma posição de destaque no combate à corrupção, o que muito nos orgulha”, afirmou a procuradora-chefe do MPF no Paraná, Paula Cristina Conti Thá.

Pressionado por quase duas dezenas de representações que questionam sua atuação no Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP), Dallagnol vinculou sua decisão à necessidade de cuidar do tratamento médico da filha, o que é um motivo indiscutível. A escolha do seu sucessor, Alessandro José Fernandes de Oliveira, contudo, deixa dúvidas sobre o controle das investigações. Oliveira integra o grupo do Ministério Público que orbita ao redor do procurador-geral da República, Augusto Aras, e da procuradora Lindôra Maria Araújo. É um especialista nas chamadas delações premiadas — como a do ex-dirigente da empreiteira OAS Léo Pinheiro, amigo do ex-presidente Lula. Caberá a Aras dar a palavra final sobre renovar ou não o tempo de trabalho da força-tarefa de Curitiba — que expira no próximo dia 10 de setembro.

No mesmo dia, a subprocuradora-geral da República Maria Caetana Cintra Santos, do Conselho Superior do Ministério Público Federal, pediu a extensão da operação por mais um ano. A decisão foi monocrática, sem o aval do Conselho Superior. O argumento do grupo favorável à continuidade é que há acordos de leniência e cooperação em curso que podem resultar em R$ 3 bilhões.

Movimentos sociais e grupos de procuradores apontam riscos para o futuro da operação

Nos bastidores de Brasília, a aposta é que Aras deve esticar a permanência do grupo de trabalho na semana que vem, até que tome corpo a proposta de criação da Unidade Nacional de Combate à Corrupção (Unac), um órgão que unificaria as forças-tarefas, subordinado à Brasília — o que poderia resultar em perda de autonomia de equipes como a que atua há seis anos em Curitiba.

“Não acredito que haja algo orquestrado nesse sentido, seja por pessoas, por instituições e muito menos por autoridades”, disse Alessandro Oliveira em entrevista à CNN.

A opinião de milhares de pessoas nas redes sociais e de alguns movimentos que foram às ruas no passado é diferente. O Vem Pra Rua, conhecido por ser “lava-jatista”, organizou carreatas em 20 cidades para o próximo domingo, 6. “O movimento não poderia assistir inerte às seguidas tentativas de desmonte da operação, que vêm ocorrendo sistematicamente, seja por parte de ações do Ministério Público e do ministro da Justiça, seja por perseguição e campanhas regulares de difamação dirigidas aos principais atores da operação”, diz o ato de convocação.

Outra reação foi o pedido de demissão coletiva de sete procuradores da Lava Jato que atuam em São Paulo. Em ofício endereçado ao procurador-geral da República, apontaram “incompatibilidades insolúveis com a atuação da procuradora natural dos feitos da referida força-tarefa, dra. Viviane de Oliveira Martinez”, indicada por Aras.

Também argumentaram em documento encaminhado ao Conselho Superior do Ministério Público Federal que Martinez “não teve qualquer iniciativa no sentido de chamar reuniões para compreender quais as linhas de investigação que vinham sendo conduzidas […] e que, não bastassem essas omissões, em dado momento a atual titular do 5º ofício passou a adotar ações que, na prática, foram criando obstáculos ao trabalho que vinha sendo desenvolvido”.

Embate entre Brasília e Curitiba — nomes graúdos no meio da crise

A troca de guarda na matriz da Lava Jato ocorre num cenário de embate entre a equipe que Dallagnol chefiava e o time de Aras. O estopim da crise foi o envio de uma diligência de Brasília para buscar informações colhidas no Paraná, procedimento autorizado pelo presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Dias Toffoli, depois revisto pelo relator da Lava Jato na Corte, Edson Fachin. No ofício, a Procuradoria-Geral da República justificava o acesso aos documentos “com o objetivo de obter as bases de dados estruturados e não estruturados utilizadas”.

A canetada de Toffoli, com a chancela de Aras, jogou luz sobre suspeitas de que os procuradores poderiam ter rastreado informações incômodas aos integrantes do STF ou aos presidentes da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), e do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), ambos citados na lista de codinomes das empreiteiras corruptas, porém detentores do chamado foro privilegiado.

“A situação já estava difícil fazia muito tempo, com diversas decisões negativas à operação no STF. E o procurador-geral piorou essa situação. Os poderosos não têm interesse na manutenção da Lava Jato”, afirma uma ex-integrante da força-tarefa.

O anúncio de Dallagnol, aliás, teve enorme repercussão nas redes sociais — com uma série de manifestações de apoio por sua atuação e também festejos pela saída. Sobre o legado da maior ação anticorrupção da história, os números apresentados a seguir falam por si sós. Sobre os críticos, basta uma rápida olhada na trajetória política de quem comemorou.

Fachada da Procuradoria-Geral da República em 2015 I Foto: Leonardo Prado/Secom/PGR

Leia também sobre a Lava Jato a reportagem “A operação que mostrou que todos são iguais perante a lei”

A operação que mostrou que todos são iguais perante a lei

 

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22 Comentários

  1. Difícil o combate à corrupção nesse país quando há união de Executivo, Legislativo, STF, PGR, para sabotar a lava jato.

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  2. Aos Promotores da Lava-jato o nosso muiti obrigado, mas os canalhas estão a solta desfazendo o que foi feito. O Stabelechiment é corrupto. #Vergonha

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  3. Silvio Navarro, mais uma grata surpresa na Revista Oeste! E que matéria para marcar sua participação! Parabéns!

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  4. “Além do processo em curso contra a presidente petista na Câmara dos Deputados, o país também convivia com a euforia de uma operação do Ministério Público de Curitiba (PR) que parecia varrer um a um políticos, empreiteiros e operadores que sangraram os cofres públicos durante décadas.”

    Só não varreu os políticos do PSDB. A Lava Jato começou a atingir os tucanos apenas após a saída de Sergio Moro do governo. Ao contrário da desculpa esfarrapada de razões familiares, será se Deltan Dallagnol não saiu porque o PSDB começou a ser investigado?

    Estamos de olho nos próximos artigos de Silvio Navarro…

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  5. Infelizmente, há um corpo em vários setores da sociedade que se beneficiam da corrupção. E tudo indica que o presidente Jair Bolsonaro está defendendo esta facção. Foi eleito com um discurso liberal, Estado eficiente, e movimento forte anti corrupção. Quando seus filhos foram pegos em tramoias, sua máscara começou a cair. Trouxe Augusto Aras para por limites nos processos de combate a corrupção, que está sendo moeda de troca no STF e Senado para que os filhos do presidente não vão para o xilindró.
    Além das perdas na frente da Lava-Jato, acabamo de ver a perda na frente da operação Greenfield.
    Bolsonaro está se equiparando ao governo do PT

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    • Não sei onde você está se informando mas esse seu “tudo indica” não tem “comprovação científica”. Haha

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  6. Quero acreditar que o combate à corrupção continuará. A lava jato tem muitos méritos mas, não chegou no PSDB. Porque??

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  7. Geraldo Lamounier sugiro que volte para o site da Carta Capital, pois aqui quem canta de galo somos nós conservadores / liberais. A questão da suposta rachadinha praticada pelo filho de Bolsonaro, se de fato provada, não chega a um trilionésimo dos valores surupiados dos cofres públicos pelha quadrilha petista.

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    • Quero manifestar minha admiração pela Revista Oeste e seus colaboradores, única fonte de leitura confiável,veio para ficar.Vamos a matéria da semana.Lava jato é a maior força tarefa mundial contra corrupção,Dallagnol mostrou com clareza e verdade como os esquemas de roubo do dinheiro público ocorria,pessoa íntegra.Lava jato vai continuar sim, já entrou para nossa história.Vamos aguardar as manifestações de domingo.

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    • Excelente matéria Silvio Navarro.

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    • Perfeito Romulo!

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  8. Bem vindo, Silvio Navarro!

    Sobre o tema: difícil acreditar que faríamos a limpeza completa da corrupção do Estado Brasileiro quando as raposas fazem a segurança do galinheiro…

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  9. Eu penso que uma mudança pode ser salutar. Talvez outros envolvidos em corrupção surjam agora. As delações premiadas contém muitos nomes que ainda não foram indiciados ou investigados. Eu me lembro que o Janot tinha uma lista, que ele usava a seu bel-prazer. Esta lista deve estar nas mãos do Aras atualmente. Gleisi estava naquela lista. Acho que Aécio também. Enfim, há muito ainda a ser feito. Vamos acompanhar.

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  10. Bom o contudo!
    Parabéns

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  11. Brasil – um país que vale menos que um traque. Onde bandidos governam e legislam p bandidos. A Lava-Jato foi um oásis neste deserto ético e mental que habitamos. Temos muito pouco papel hiegiênico para limpar a quantidade infindável de excremento humano que produzimos. Aras entrou para, junto com o STF, gilhotinar a Lava-Jato – pelos motivos explicados neste comentário. Tenho nojo de viver aqui.

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  12. Navarro – fiquei feliz de vê-lo aqui. Lamentei muito a sua saída da JP. Os Pingos estavam ótimos c vc. Fiúza, Augusto e Zé Maria são ótimos tb – mas vc faz falta! Sucesso na Oeste!

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  13. Muitos Professores sempre adotaram uma postura fundamental no campo das ciências. Toda experiência boa acarreta ganhos extraordinários e muitos elementos devem ser aproveitados. OU seja, a formação de técnicos de alto nível, associado a uma logística com suporte em novas ferramentas, como a decodificação e conhecimento de programas e sistemas da internet, quebra de códigos e senhas, sistematização e organização de dados que envolvem crimes, são experiência e formação de pessoal.
    A lava-jato conseguiu chegar um top de linha de gente especializada que se dedicou ao máximo para descobrir as novas armas da criminalidade. Consegui até mesmo ajuda da procuradoria suíça que também tem um time de alto gabarito. O STF e a PGR deveriam informar à opinião pública se eles pretendem também anular as provas levantadas por técnicos estrangeiros e por outros ramos do judiciário investigativo de outros países. A Suíça será intimada a se defender também? (claro que não, mas é algo para pensar em termos do alcance internacional da lava-jato brasileira). Os advogados de máfias poderosas no exterior estão investindo pesado aqui para ajudar no colapso do combate ao crime organizado, justamente para livrar seus clientes em vários países.

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  14. Tudo culpa do “STF”, que persegue as pessoas sérias que trabalham para o bem do país, mas não pune bandidos, muito proválvemente porque também são corruptos.
    O Brasil só vai virar um país sério no dia em esquecermos de que existe um tal de “STF”.

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  15. Concordo inteiramente com os dois comentários da leitora Vania L M Marinelli !
    Seja bem vindo Silvio Navarro!

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  16. Sinto muito, Silvio, mas esse seu artigo é um primor de desinformação!!!
    Vou começar concluindo: você elenca os perigos que rondam a Operação Lava Jato, ou seja, uma operação de combate à corrupção, mas todos os seus medos e suas críticas se referem ao “lavajatismo”, ao grupo político dos operadores da Lava Jato. Lavajatismo não tem nada a ver com combate à corrupção.
    Você, fazendo mau jornalismo, considerou apenas os interesses da turma do Dalagnol. Cadê os argumentos da PGR em Brasília? Cadê a sua análise desses argumentos?
    Outra coisa: acho antipático e deselegante esse recurso que você usa logo na introdução: A Lava Jato “terá mais influência de Brasília”. Como uma cidade poderá influenciar um trabalho que é realizado em Curitiba? Não seria mais honesto dar nomes aos bois? Terá mais influência de quem? Apenas do Aras? Do Aras e do Bolsonaro? Do Aras, do Bolsonaro e de todos os corruptos aboletados em Brasília?
    A Operação Lava Jato foi e continua sendo importante instrumento de combate à corrupção, é claro. Mas o seu artigo não está preocupado com o combate à corrupção.

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  17. Cadê meu comentário que postei ontem (08/09)???
    Foi censurado por quê??

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  18. Muito bom

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