'Quo vadis', Boris Johnson? - Revista Oeste

Revista

‘Quo vadis’, Boris Johnson?
Conservadores não são contrários ao uso de instrumentos estatais em momentos de crise, mas sabem que a dose é difícil de definir e que a inação é muitas vezes preferível à ação
10 jul 2020, 08:32

De Winston S. Churchill a Franklin D. Roosevelt em menos de um ano de governo? Biógrafo de Churchill, por quem é notoriamente influenciado e preguiçosamente comparado, o primeiro-ministro inglês, Boris Johnson, lançou nesta semana um plano de recuperação da economia que ele próprio comparou ao New Deal do presidente norte-americano. As medidas para combater as consequências econômicas da pandemia do novo coronavírus foram anunciadas pelo chanceler do Tesouro, Rishi Sunak, e podem chegar a até 30 bilhões de libras.

Ampliar a intervenção estatal na economia em momentos de crise é sempre uma tentação a que um político conservador não deveria ceder. Por isso, o New Deal inglês pode se tornar o calcanhar de aquiles do governo de Johnson. Se o plano for bem-sucedido, a curto prazo aumentará o capital político do primeiro-ministro, vai mantê-lo no cargo, facilitará o processo de saída da União Europeia. Se for malsucedido, a médio e longo prazos aumentará o tamanho do Estado e do welfare state inglês, poderá prolongar os efeitos negativos da crise, atrapalhar o processo de saída da União Europeia e fazer com que Johnson perca a eleição para o Partido Trabalhista, hoje liderado por sir Keir Starmer.

A vida do primeiro-ministro inglês nunca foi fácil desde que assumiu o posto, em julho de 2019. Johnson enfrentou um Parlamento hostil, uma União Europeia ressentida e mesmo assim conseguiu aprovar seu plano para o Brexit e vencer a eleição em dezembro do mesmo ano.

O New Deal pode ter contribuído para agravar e estender as consequências negativas da Grande Depressão

Tendo que lidar com as consequências da pandemia da covid-19, Jonhson acha que deve adotar no Reino Unido um conjunto de programas estatais que carregam o espírito daqueles instituídos entre 1933 e 1937 pelo governo Roosevelt para recuperar a economia norte-americana devastada pela Grande Depressão.

O grande problema é a natureza intervencionista das medidas de estímulo econômico que o primeiro-ministro inglês deseja implementar. Sabemos como o intervencionismo começa, jamais como termina.

O primeiro-ministro Boris Johnson e o chanceler do Tesouro, Rishi Sunak [acima e no topo]: socorro estatal pode comprometer o futuro da economia do Reino Unido

Quem elaborou uma engenhosa e influente teoria macroeconômica intervencionista, sob a promessa de equilibrar as flutuações econômicas e vencer recessão e desemprego, foi o economista inglês John Maynard Keynes. Ele acreditava que a ação estatal era fundamental para lidar com as graves consequências de eventos como a 1ª Guerra e a Grande Depressão e para fazer aquilo em que a iniciativa privada não teria interesse.

Há uma disputa histórica e teórica a respeito das causas e do prolongamento da Grande Depressão. Uma corrente intervencionista defende o acerto do governo Roosevelt e só lamenta o fato de a intervenção estatal não ter sido maior. Uma corrente anti-intervencionista, que eu reputo correta, considera o New Deal o responsável por agravar e estender as consequências negativas da Grande Depressão. O ótimo livro The Forgotten Man: A New History of the Great Depression, de Amity Shlaes, e o debate que a obra provocou merecem leitura por revelar as posições antagônicas a respeito do assunto.

Historicamente, os tories divergem a respeito de políticas protecionistas

A cada crise nacional ou internacional, como a atual pandemia, o keynesianismo emerge: foi assim, por exemplo, após as duas guerras mundiais, após a Grande Depressão, após a crise de 2008 e agora. A explicação é simples: trata-se de teoria que seduz qualquer político que não quer ser responsabilizado pela inação. E, caso fracasse com políticas intervencionistas, não pagará o preço por seus erros. A conta será paga, como sempre, pelos indivíduos de uma sociedade.

Neste momento de guerra contra o novo coronavírus, Johnson preferiu Keynes a Churchill. A decisão é excêntrica considerando as críticas que Keynes fez em 1925 ao então chanceler do Tesouro no ensaio “As consequências econômicas do Sr. Churchill” e à própria posição contundente de Churchill contra o New Deal. Churchill escreveu, num artigo publicado em 1937, que o New Deal de Roosevelt era uma guerra implacável contra as empresas e a consequência seria uma nova depressão mundial. Roosevelt deu o troco ao retardar o apoio à Inglaterra durante a 2ª Guerra.

Historicamente, os tories divergem a respeito de políticas protecionistas, ora as defendendo, ora as rejeitando. Foi assim, por exemplo, em 1846, quando o primeiro-ministro Robert Peel contrariou o partido e conseguiu no Parlamento a revogação das Corn Laws; em 1904, quando Churchill migrou do partido Tory para o Whig por ser contra o regresso do protecionismo defendido por uma ala dos tories; a partir de 1979, quando Margaret Thatcher assumiu a liderança do Partido Conservador e inseriu sua visão livre-mercadista, que mereceu críticas severas de seus colegas tories e de Roger Scruton.

Johnson foi pressionado a mudar o discurso e a ação do governo diante dos mortos pela covid-19

Conservadores não são contrários ao uso de instrumentos estatais para ajudar a sociedade em momentos de crise, mas sabem pela experiência histórica que a dose é sempre difícil de definir e que a inação é muitas vezes preferível à ação. A prudente desconfiança conservadora em relação aos efeitos benéficos do intervencionismo estatal é o que os diferencia das demais posições políticas. Além disso, sabem que o crescimento do Estado é irreversível.

Em situações extremas, o líder político é pressionado pelas circunstâncias a tomar decisões. Johnson foi pressionado a mudar o discurso e a ação do governo diante da explosão do número de infectados e de mortos pela covid-19. Agora, com seu New Deal, tenta dar uma resposta à sociedade de que fará de tudo para minimizar os efeitos econômicos da pandemia. Em ambos os casos, foi severamente criticado por aliados e adversários por seus erros. Está mais do que na hora de Johnson esquecer Roosevelt, retomar Churchill e passar a ser severamente criticado por seus acertos.


Bruno Garschagen é cientista político, mestre e doutorando em Ciência Política no Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa (Lisboa) e autor dos best-sellers Pare de Acreditar no Governo e Direitos Máximos, Deveres Mínimos (Editora Record).

TAGS

*O espaço para comentários é destinado ao debate saudável de ideias. Não serão aceitas postagens com expressões inapropriadas ou agressões pessoais à equipe da publicação, a outro usuário ou a qualquer grupo ou indivíduo identificado. Caso isso ocorra, nos reservamos o direito de apagar o comentário para manter um ambiente respeitoso para a discussão.

13 Comentários

  1. Texto muito bom! Muito obrigado pela leitura do UK.

    Responder
  2. A covardia em adotar o caminho mais fácil de ser aceito e escapar da responsabilidade pelas consequências futuras

    Responder
  3. Ótimo artigo. O assunto é extremamente complexo. Se o intervencionismo estatal se concentrar apenas na ajuda aos mais pobres e desempregados será perfeito.

    Responder
  4. Ótimo texto! Que o primeiro ministro tenha coragem pra luta!

    Responder
  5. De uma forma ou de outra, este nosso mundo é mais vulnerável do que podemos imaginar. Tudo isso por conta de um ente invisível e sorrateiro, que anda pilhando vidas aqui e ali mundo afora. Tem-se a impressão de que tudo o que pensamos e repensamos é sempre pós-alguma coisa. E o futuro permanece tão invisível quanto esse corona.

    Responder
    • Brilhante!

      Responder
  6. Finalmente um órgão de imprensa digno do nome. Muito obrigado pela leitura. Artigo lúcido, bem escrito, com fio bem tecido. Muito boa leitura.

    Responder
  7. Finalmente um órgão de imprensa digno do nome. Muito obrigado pela leitura. Artigo lúcido, bem escrito, com fio bem tecido.

    Responder
  8. Cada governo e´filho do seu tempo. Dos economistas Galbraith disse : ¨ A unica função das previsões economicas e´fazer com que a astrologia pareça aceitavel ¨. Presenciei os resultados das politicas economicas dos Adenauer,dos Erhard,dos Schuman,dos Einaudi e- como coincidem varios analistas-demonstraram que a cada crise ( em grego ruptura) corresponde uma resposta adequada as circumstancias.
    Brexit + Pandemia não e´so algo inusitado , e´um cambio de paradigma!
    e isso e´o que o nosso Boris esta´enfrentando.
    Analizando os ultimos dados disponiveis : Pil de Maio e´ +1,8% confrontado com o esperado -5,5% e com a precedente flexão de -20,4%.
    Produção industrial + 6% em base conjuntural e um -20% em base anual( precedentemente -24,4%)
    Na produção manufacturera se observa +8,4% ( precedentemente -24,3%).
    O saldo da balança comercial do Reino Unido afinal melhorou de -7,49 Bi a -2,8 Bi.
    Os dados macroeconomicos demonstram como a economia britanica esta´se recuperando dos efeitos negativos do coronavirus.
    Uma injeção de otimismo + capital acho que ajudara´os ingleses a superar os problemas derivados destas duas dificuldades. Churchil e Roosvelt tinham dois escenarios completamente diferentes e ,de todas maneiras, naqueles momentos,continentais. Hoje Inglaterra tera´que competir, intercontinentalmente , com Competidores aguerridos e muito bem preparados .
    God save Boris!

    Responder
  9. Eu ainda não entendi porque os conservadores escrevem bem articulados,com analogia ao passado e fundamentados em comparações.Ao contrario da esquerda que só escreve chavões,não fundamenta suas opiniões e não fala da história.Penso que eles não leem livros em inglês,não tem cultura e muito menos dialética.A esquerda bebe.Que texto do Bruno,parabéns.

    Responder
  10. Parabéns pela matéria Bruno, muito legal as suas matérias do Reino Unido.

    Responder
  11. Muito bom o comentário. Porém não é fácil para um alto dirigente tomar uma decisão de inação, pois assim seria criticado por falta de coragem e decisão de enfrentar a crise. A inação é amiga do imobilismo e dúvida. Tem-se de decidir e elaborar um plano para enfrentar os problemas econômicos pós pandemia.

    Responder
  12. Está mais do que na hora de esquecermos Keynes e Friedman como entes separados e criarmos uma nova via. A pandemia, por meio da depressão da demanda, criou uma quantidade enorme de desempregados. A volt aao pleno emprego é a nova meta de olíticos e banqueiros centrais. Nem moneteriamos puro, nem fiscalismo cego. A mescla dos dois dever ser a busca de agora em diante.

    Responder

Enviar um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

OESTE NOTÍCIAS