Montagem sobre foto de Olavo de Carvalho | Foto: Shutterstock
Montagem sobre foto de Olavo de Carvalho | Foto: Shutterstock

As lições de Olavo de Carvalho sobre a Rússia

Diante do cenário geopolítico intrigante em que vivemos, com análises rasas e maniqueístas por toda parte, decidi nesta semana pedir ajuda ao professor

Na semana da morte do filósofo Olavo de Carvalho, publiquei um artigo aqui em Oeste contando um pouco do meu encontro com a obra do professor. Como relatei, fui apresentada a sua obra lendo artigos sobre a política norte-americana de uma forma nada óbvia. Diante da histeria coletiva e dos efusivos aplausos a Barack Obama, Olavo me tirava do lugar-comum, apresentando personagens enigmáticos que espalhavam ainda mais as peças de um enorme quebra-cabeça político, social, cultural e econômico do cenário norte-americano na minha mente. Enquanto todos falavam das criaturas, Olavo apontava para os criadores. Não havia como explicar quem era e o que queria Barack Obama sem falar de Saul Alinsky. E o mesmo ele fez com Vladmir Putin, o nome mais falado da atualidade.

Enquanto o mundo insiste em debater sobre quem pode ser, na verdade, o líder russo e os caminhos que ele pode seguir diante da bárbara invasão da Ucrânia, a obra de Olavo de Carvalho mostra mais uma vez como seu poder de observação estava à frente de seu tempo. Seu legado pavimentou um extenso caminho de conhecimento e pesquisa para qualquer um que queira sair da zona de conforto e do debate óbvio, e mergulhar um pouco mais nas entranhas de ideologias, ideias e nas mentes de personagens que mudaram e mudam o mundo. Assim como Obama e Alinsky, Olavo nos mostra que é impossível falar de Vladmir Putin sem Alexander Duguin (ou Dugin).

Em 2011, o professor encontrou-se com o eminente pensador e estrategista russo em um longo debate pela internet, que se prolongou de março a julho daquele ano e cujo material acabou se transformando em um livro essencial para entendermos o contexto atual Rússia, da Ucrânia e dos Estados Unidos. Os EUA e a Nova Ordem Mundial. Um Debate entre Alexandre Dugin e Olavo de Carvalho (Vide Editorial, 2012) mostra que, na época do debate, já estava claro que o eurasianismo era a estratégia do governo russo, e de que sem o conhecimento aprofundado do pensamento de Duguin seria impossível compreender as ações de Vladmir Putin. Em um texto publicado por Olavo em 2014, ele escreveu: “Existe alguém, nos meios jornalísticos e acadêmicos deste país, que conheça todas essas áreas do pensamento pelo menos o suficiente para entender do que o prof. Duguin está falando? Não existia em 2003, não existia em 2011 e não existe agora. (…) O eurasianismo apresentou-se para mim, portanto, com uma inteligibilidade imediata que era absolutamente inacessível à classe intelectual brasileira. Esta só podia reagir à novidade estranha e indigerível de duas maneiras: fingindo desprezo, como a raposa da fábula, ou prosternando-se em adoração hipnótica ante a força do incompreensível. O público a quem chega alguma informação sobre o duguinismo divide-se, pois, em despeitados e deslumbrados”.

Num mundo onde etiquetas preconcebidas de “esquerda” e “direita” são colocadas de maneira superficial, Olavo expurga nossos pareceres para fora da zona de conforto

Recomendo vivamente o livro, que mostra em detalhes um dos debates mais ricos e esclarecedores a que já assisti, embora seja difícil não adjetivar da mesma maneira outros tantos trabalhos de Olavo de Carvalho. Diante do cenário geopolítico intrigante em que vivemos, com análises rasas e maniqueístas por toda parte, decidi nesta semana pedir ajuda ao professor, que, mesmo não estando mais entre nós, segue nos ensinando, instigando, entregando.

Para a minha coluna desta semana, reproduzo o artigo de Olavo de Carvalho que abriu minha mente para outro criador. Olavo nos mostra de forma didática e excepcional neste rápido artigo publicado em maio de 2011 que é preciso analisar Vladmir Putin mergulhando na ótica e na perspectiva de Alexandre Duguin. Em um mundo onde etiquetas preconcebidas de “esquerda” e “direita” são colocadas de maneira superficial e irresponsável, Olavo faz o que fez de maneira única e certeira na vida: expurgar nossos pareceres para fora da zona de conforto e nos fazer pensar de maneira mais completa.

Mais uma vez, obrigada, mestre.

O futuro que a Rússia nos promete

Olavo de Carvalho

(Diário do Comércio, 23 de maio de 2011)

O prof. Alexandre Duguin, à testa da elite intelectual russa que hoje molda a política internacional do governo Putin, diz que o grande plano da sua nação é restaurar o sentido hierárquico dos valores espirituais que a modernidade soterrou. Para pessoas de mentalidade religiosa, chocadas com a vulgaridade brutal da vida moderna, a proposta pode soar bem atraente. Só que a realização da ideia passa por duas etapas. Primeiro é preciso destruir o Ocidente, pai de todos os males, mediante uma guerra mundial, fatalmente mais devastadora que as duas anteriores. Depois será instaurado o Império Mundial Eurasiano sob a liderança da Santa Mãe Rússia.

Quanto ao primeiro tópico: a “salvação pela destruição” é um dos chavões mais constantes do discurso revolucionário. A Revolução Francesa prometeu salvar a França pela destruição do Antigo Regime: trouxe-a de queda em queda até à condição de potência de segunda classe. A Revolução Mexicana prometeu salvar o México pela destruição da Igreja Católica: transformou-o num fornecedor de drogas para o mundo e de miseráveis para a assistência social americana. A Revolução Russa prometeu salvar a Rússia pela destruição do capitalismo: transformou-a num cemitério. A Revolução Chinesa prometeu salvar a China pela destruição da cultura burguesa: transformou-a num matadouro. A Revolução Cubana prometeu salvar Cuba pela destruição dos usurpadores imperialistas: transformou-a numa prisão de mendigos. Os positivistas brasileiros prometeram salvar o Brasil mediante a destruição da monarquia: acabaram com a única democracia que havia no continente e jogaram o país numa sucessão de golpes e ditaduras que só acabou em 1988 para dar lugar a uma ditadura modernizada com outro nome.

Agora o prof. Duguin promete salvar o mundo pela destruição do Ocidente. Sinceramente, prefiro não saber o que vem depois. A mentalidade revolucionária, com suas promessas auto-adiáveis, tão prontas a se transformar nas suas contrárias com a cara mais inocente do mundo, é o maior flagelo que já se abateu sobre a humanidade. Suas vítimas, de 1789 até hoje, não estão abaixo de trezentos milhões de pessoas — mais que todas as epidemias, catástrofes naturais e guerras entre nações mataram desde o início dos tempos. A essência do seu discurso, como creio já ter demonstrado, é a inversão do sentido do tempo: inventar um futuro e reinterpretar à luz dele, como se fosse premissa certa e arquiprovada, o presente e o passado. Inverter o processo normal do conhecimento, passando a entender o conhecido pelo desconhecido, o certo pelo duvidoso, o categórico pelo hipotético. É a falsificação estrutural, sistemática, obsediante, hipnótica. O prof. Duguin propõe o Império Eurasiano e reconstrói toda a história do mundo como se fosse a longa preparação para o advento dessa coisa linda. É um revolucionário como outro qualquer. Apenas, imensamente mais pretensioso.

Quanto ao Império Mundial Eurasiano, com um polo oriental sustentado nos países islâmicos, no Japão e na China, e um polo ocidental no eixo Paris–Berlim–Moscou, não é de maneira alguma uma ideia nova. Stalin acalentou esse projeto e fez tudo o que podia para realizá-lo, só fracassando porque não conseguiu, em tempo, criar uma frota marítima com as dimensões requeridas para realizá-lo. Ele errou no timing: dizia que os EUA não passariam dos anos 80. Quem não passou foi a URSS.

Como o prof. Duguin adorna o projeto com o apelo aos valores espirituais e religiosos, em lugar do internacionalismo proletário que legitimava as ambições de Stalin, parece lógico admitir que a nova versão do projeto imperial russo é algo como um stalinismo de direita.

Mas a coisa mais óbvia no governo russo é que seus ocupantes são os mesmos que dominavam o país no tempo do comunismo. Substancialmente, é o pessoal da KGB (ou FSB, que a mudança periódica de nomes jamais mudou a natureza dessa instituição). Pior ainda, é a KGB com poder brutalmente ampliado: de um lado, se no regime comunista havia um agente da polícia secreta para cada 400 cidadãos, hoje há um para cada 200, caracterizando a Rússia, inconfundivelmente, como Estado policial; de outro, o rateio das propriedades estatais entre agentes e colaboradores da polícia política, que se transformaram da noite para o dia em “oligarcas” sem perder seus vínculos de submissão à KGB, concede a esta entidade o privilégio de atuar no Ocidente, sob camadas e camadas de disfarces, com uma liberdade de movimentos que seria impensável no tempo de Stalin ou de Kruschev.

Ideologicamente, o eurasismo é diferente do comunismo. Mas ideologia, como definia o próprio Karl Marx, é apenas um “vestido de ideias” a encobrir um esquema de poder. O esquema de poder na Rússia trocou de vestido, mas continua o mesmo — com as mesmas pessoas nos mesmos lugares, exercendo as mesmas funções, com as mesmas ambições totalitárias de sempre.

O Império Eurasiano promete-nos uma guerra mundial e, como resultado dela, uma ditadura global. Alguns de seus adeptos chegam a chamá-lo “o Império do Fim”, uma evocação claramente apocalíptica. Só esquecem de observar que o último império antes do Juízo Final não será outra coisa senão o Império do Anticristo.

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