Foto: Shutterstock
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Carta ao Leitor

O abandono da cidade de São Paulo está entre os destaques desta edição

Há dez dias, quem olhasse pela janela do carro ao passar diante do número x da Avenida Rio Branco, depararia com uma cena assustadora: entre dezenas de barracas misturadas a pequenos casebres de papelão e madeira, sofás furados, lixo espalhado por todos os cantos, centenas de seres humanos caminhavam de um lado para o outro feito zumbis. Poderia ser algum episódio da série The walking Dead. Era a Praça Princesa Isabel, no centro de São Paulo, uma das cidades mais ricas do mundo.

O codinome “nova cracolândia”, como o local também é conhecido, não foi escolhido por acaso. Quem circula pela região sabe que há bastante tempo a praça é ocupada por moradores de rua e consumidores de drogas. Nada disso é tão impressionante quanto a multidão que se fixou ali nas últimas semanas. Como demonstra a reportagem de capa desta edição, assinada por Paula Leal, “uma cidade organizada e limpa contribui para a manutenção da ordem e inibe o crime; já o contrário torna o ambiente ‘convidativo’ para o delinquente agir, aumentando a criminalidade”.

A Praça Princesa Isabel é uma das incontáveis vítimas do abandono generalizado. São Paulo inteira está em frangalhos, como comprovam o lixo nas calçadas, os buracos nas ruas, as pichações, os semáforos avariados, os fios ao relento, os bueiros entupidos, as árvores tombadas, além de canteiros e jardins reduzidos a depósitos de entulho. Essa paisagem desoladora é agravada por centenas de pequenas favelas, formadas por barracas instaladas a céu aberto — “algumas para moradia, outras para funcionar como ponto de venda de drogas”, resume Paula. A reportagem de Cristyan Costa esmiúça algumas dessas favelas. Muitas contrastam com pontos históricos e turísticos de São Paulo, como o Pateo do Collegio, o Parque Trianon, o Masp e a Avenida Paulista.

Cracolândia no dia 24 de março de 2022 | Foto: Allison Sales/Futura Press/Estadão Conteúdo

Nesta semana, a prefeitura animou-se a promover um mutirão de limpeza que incluiu parte dessa lista. Da Praça Princesa Isabel, por exemplo, foram retiradas 35 toneladas de entulho. Enquanto os agentes públicos estão em ação, o cenário melhora bastante. Mas volta à anormalidade assim que deixam o local.

Castro Alves ensinou que a praça é do povo, como o céu é do condor. A Princesa Isabel está sob o domínio do tráfico. Muitas outras brevemente estarão se nada mudar.

 

Boa leitura.

Branca Nunes
Diretora de Redação

Buraco na Rua Américo Alves Pereira Filho, no Morumbi | Foto: Marlon Bandeira/RevistaOeste
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11 comentários Ver comentários

  1. Infelizmente a cidade mais próspera do país, ainda está colhendo os amargos frutos da tirania do “fique em casa, a economia a gente vê depois”… lamentável..

  2. Só existe a cracolândia por uma questão de viciados, ou por uma questão de traficantes? Quem manda? Se acabar com os viciados continuarão existindo os traficantes? ou melhor, se se acabarem com os traficantes o que teremos?

    Só existe traficantes na cracolandia por uma questão de inteligência policial contingente, ou por questão de imperícia proposital? Quem manda?

    Só existe a cracolância por questões de assistencialismo, ou por questão de “ausencialismo”? Quem manda? Quem ganha destaque com isso?

    Ora pois, para se colocar diariamente dezenas de doses de craque no cachimbo de uma turba de zumbis, precisa-se de logística, departamento de crédito, departamento de recursos humanos, capital de giro, equipes e aparato de segurança patrimonial e pessoal, ora pois pois, só não se extermina esses traficantes por questões de interesses. É só seguir o caminho do dinheiro que se encontrará quem manda, quem banca e quem orquestra.

    Já dizia um filósofo: Aquele que é viciado em algo é ignorante sobre esse algo; e mais agora, quem é viciado em dinheiro do tráfico não é ignorante sobre o sofrimento dos outros.

  3. Isso não aconteceu ao acaso, lembrem-se daquela que começou a “democratizar espaços públicos”, dona Luiza lá em 1990, começou tudo isso com a permissão de milhares de camelôs em plena rua, sem critério algum. Daí para o tráfico foi questão de cinco ou dez anos. PT e PSDB dividem desde lá e transformaram São Paulo no “lixo de cidade” que é hoje. Aliás, onde estão os “administradores regionais”??? qual a parcela de culpa deles nisso tudo??

  4. É lamentável o que esses últimos prefeitos fizeram com nossa querida cidade! Fomos enganados por esses políticos incompetentes – para não dizer outra coisa – do PT e PSDB, entulhos do mesmo saco. Na próxima e próximas eleições vamos mudar isso, gente!.

  5. Até antes da pandemia semanalmente iámos numa turma para distribuir sanduíches na praça princesa Isabel e é impressionante como os moradores ficam imediatamente ordeiros e em fila — exceção de um outro que repreendíamos e ele voltava para a fila. A gente alimenta, por uma questão humanitária. Mas o certo é que o governo deveria ter algum programa para dar trabalho e ensinar um ofício a essa gente.

  6. A verdade é que não há como se impedir que uma pessoa leve sua vida à ruína, e leve junto os filhos que gerar,
    Paradoxalmente a assistência social e a caridade acabam por estimular esta irresponsabilidade individual, uma vez que eliminam o efeito Darwin.
    É um problema difícil de resolver.

  7. Oportuníssima reportagem. Que venham outras, porque é urgente que todos cobrem do zelador de São Paulo o cumprimento do dever.

  8. Tenho uma ideia: Que tal elegermos um Prefeito? Um Governador para o Estado também seria uma boa ideia. Décadas sem esses servidores causaram isso.

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