Plantação de trigo | Foto: Shutterstock
Plantação de trigo | Foto: Shutterstock

O Brasil não precisa importar trigo

A Embrapa Territorial identificou quase 3 milhões de hectares com condições favoráveis para a triticultura nos cerrados brasileiros

Companheiro! Hoje, essa expressão possui tons políticos. Seu significado literal evoca aquele com quem compartilhamos o pão (cum panis). O pão é um dos maiores símbolos da alimentação humana. É alimento material e espiritual. Como na metonímia, o pão nosso de cada dia. O Cristianismo considera Jesus Cristo o Pão da Vida (Jo 6,48) e associa Pai Nosso (oração) e Pão Nosso (eucaristia). A fabricação do pão é simples: farinha de trigo amassada com água e um pouco de sal. A massa com levedura descansa, cresce e vai a um forno com temperaturas altas. Quando falta trigo, falta pão. E não só. A farinha de trigo é a base de macarrões, bolachas, bolos, pizzas, pastéis, pudins, bolinhos…

O trigo é o segundo cereal mais cultivado e produzido no mundo, depois do milho. E é também o segundo cereal em consumo humano, depois do arroz. Mais de 70% do trigo é destinado à alimentação humana, enquanto boa parte do milho é usada na produção de etanol, ração animal e outras finalidades não alimentares. O trigo é a principal fonte de calorias em mais de 80 países. O Brasil, grande produtor e exportador de alimentos, depende de importações de trigo.

Em 2021, houve uma exportação recorde de mais de 2 milhões de toneladas de trigo brasileiro

O Brasil é o sétimo importador mundial de trigo e compra na ordem de 7 milhões de toneladas por ano, essencialmente da Argentina (85%). Foram quase US$ 3 bilhões, apenas em 2021, enviados ao exterior para não faltar pão nem macarrão. Em 2021, o país plantou 2,74 milhões de hectares de trigo e colheu 7,7 milhões de toneladas. Uma safra recorde. O consumo interno foi de 12,5 milhões. A atual produção brasileira atende mais da metade da demanda interna.

Colheita de trigo maduro | Foto: Jair Ferreira Belafacce/Shutterstock

Os cinco principais exportadores de trigo são Rússia, Estados Unidos, União Europeia, Ucrânia e Argentina. A produção mundial em 2020 foi da ordem de 770 milhões de toneladas, cultivados em cerca de 219 milhões de hectares. Rússia e Ucrânia representam juntas cerca de um terço do trigo exportado no mundo e são os grandes fornecedores da África do Norte. A Ucrânia é o quarto exportador de trigo. A guerra elevou o preço internacional do trigo em mais de 30%.

Moinhos, indústria agroalimentar e de rações relutam em pagar por aqui as valorizações refletidas do mercado internacional pela guerra para os cereais. O milho está em patamares próximos das máximas históricas no Brasil. As cotações do trigo atingiram o maior valor em 14 anos. O mercado interno anda devagar, à espera de alguma pouco provável acomodação nos preços.

Réplica de um moinho, em Holambra | Foto: Shutterstock

O Brasil também exporta trigo. Milhões de toneladas. Todo santo ano. Em 2021, por razões logísticas e econômicas, houve uma exportação recorde de mais de 2 milhões de toneladas de trigo brasileiro. E a exportação prossegue em 2022. Razões de mercado não faltam, e a guerra na Ucrânia ajuda.

Com câmbio favorável e um mercado interno em marcha lenta, a exportação de trigo atingiu volumes nunca vistos. A estimativa de exportação de trigo do Brasil no período 2021/22 (de agosto a julho) foi revisada de 2,5 para 2,7 milhões de toneladas. De dezembro de 2021 a fevereiro de 2022, os embarques de trigo somaram cerca de 2 milhões de toneladas, o dobro do volume de todo o ano passado. Em todo o mundo, a guerra ampliou a exportação de trigo em 25%.

Isso comprometeu a disponibilidade interna e as margens dos moinhos. Logo, o Brasil só contará com as importações para atender à demanda interna, até a nova safra, em setembro. Para o presidente da Associação Brasileira da Indústria do Trigo (Abitrigo), Rubens Barbosa, o Brasil vive o livre mercado. Isso proporciona exportações na conjuntura atual e estimula a ampliação do plantio na nova safra. Em 2022, o Brasil semeará 3,6 milhões de hectares, a maior área dos últimos 36 anos. Se o clima ajudar e a produtividade média atingir 3 toneladas por hectare, a produção nacional se aproximará de 10 milhões de toneladas.

O trigo pode seguir o caminho da soja e do milho nas últimas décadas. Em 20 anos, o Brasil passou de 35 milhões de toneladas de milho por ano para cerca de 120 milhões. Para a Embrapa Trigo, limitados unicamente ao mercado interno, os triticultores tinham poucos incentivos. Agora, os preços externos elevados dão sustentação aos preços internos. A demanda da indústria brasileira é boa e oferece garantias aos produtores. A Argentina, principal exportador para o Brasil, está diversificando seus mercados. O Brasil tem boas oportunidades para ampliar a exportação ao mercado africano.

Plantação de trigo em Cascavel, Paraná | Foto: Shutterstock

As regiões tradicionais no Paraná enfrentam dificuldades para expandir a área de trigo. Os cultivos de inverno ocupam apenas 20% das áreas cultivadas no verão. Já no Rio Grande do Sul, a área poderá crescer em até 30% em 2022. A Embrapa, junto com o setor privado, lidera a expansão de área e o aumento da produtividade do trigo tropical. Minas Gerais e Goiás expandiram em mais de três vezes a área cultivada entre 2012 e 2020, e ultrapassaram 100 mil hectares.

Experimentos da Embrapa e parceiros comprovam o potencial de produção de trigo tropical de sequeiro no Norte e no Nordeste, como em Roraima, Piauí, Maranhão, Alagoas e Ceará. Algo inimaginável tempos atrás. É a capacidade científica de adaptar o trigo às condições tropicais, como foi feito para a soja, com variedades adaptadas até ao clima equatorial. E essa expansão poderá ocorrer sem implicar novos desmatamentos, em áreas já utilizadas nos cerrados com a produção de grãos. A Embrapa Territorial identificou 2,7 milhões de hectares com condições favoráveis para a triticultura nos cerrados brasileiros.

A produtividade do trigo aumenta constantemente. Na década de 1990, a média era de 1,5 tonelada/hectare (ton/ha). Na de 2000, chegou a 2,5 ton/ha, quase 70% a mais. Hoje, as melhores lavouras já superam 5 ton/ha nas regiões produtoras. No Cerrado, sob irrigação, com variedades da Embrapa, como a BRS 264, produtores atingem mais de 9 ton/ha. Paulo Bonato, de Cristalina (GO), colheu 9,63 ton/ha em 2021, um recorde mundial de produtividade. O trigo avança, graças às melhores tecnologias de produção, ao empreendedorismo e à competência dos agricultores.

Campo de trigo em Holambra | Foto: Rod Berton/ Shutterstock

A conhecida expressão “pão e circo” (panem et circenses) foi usada pelo poeta satírico romano Juvenal (Decimus Iunius Iuvenalis) para denunciar a distribuição de pão e a organização de jogos pelos imperadores romanos para desviar a atenção dos cidadãos de outras preocupações importantes. No circo político atual do Brasil, o pão tem sido usado para desviar a atenção dos legítimos problemas e de suas verdadeiras soluções. A falta de trigo derivada da guerra neste momento é estimada em menos de 1% do cultivo global. E a  produção de trigo no Brasil já é grande e pode avançar mais e rapidamente. Isso é relevante.

Para o presidente da Embrapa, Celso Moretti, tempos de guerra relembram a importância da segurança nacional, e isso inclui a segurança alimentar e a necessária autossuficiência brasileira na produção de trigo. O país deve adotar as políticas e os mecanismos necessários para expandir a produção tritícola. Não há solução mágica. O Ministério da Agricultura aprovou um plano da Embrapa Trigo para expansão da produção da triticultura no Cerrado. Os recursos previstos de R$ 2,9 milhões fomentarão ações por 36 meses. Os objetivos são: aumentar a área cultivada em 40% até 2025, de 252.000 hectares, em 2021, para 353.000 hectares; capacitar 70 assistentes técnicos; produzir 1.760 toneladas de sementes no período; apoiar dias de campo, unidades demonstrativas, lavouras expositivas e visitas técnicas, além de fóruns e reuniões de pesquisa.

As ações de pesquisa e transferência de tecnologia serão em São Paulo, Goiás, Minas Gerais, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Bahia, além do Distrito Federal. Deveriam complementar essas ações, melhorias na logística, impostos equilibrados e incentivos aos setores envolvidos, da produção à pós-colheita.

Pão de hoje, carne de ontem e vinho de outro verão fazem o homem são, diz o adágio latino. Carnem hesternam, panem hodiernum, annotina vina, sume libens dicto tempore, sanus eris. A sanidade alimentar está ao alcance de tratores e mãos dos produtores brasileiros. Sus! A Embrapa estima ser possível produzir até 22 milhões de toneladas/ano de trigo no Brasil. Isso triplicará a produção atual e tornará o país um dos dez maiores exportadores de trigo. Sus! O Brasil tem tecnologia e produtores preparados. Precisa subir no barco certo. Já dizia Gil Vicente no Auto da Barca do Inferno: “Companheiro… Sus, sus! Demos à vela!”.

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25 comentários Ver comentários

  1. Esta conexão entre a ciência (trigo tropical) e produção (produtores comprometidos) terá sucesso, se a política pública estiver presente. Entretanto a desinformação pode colocar tudo a perder. Por isso o texto do Dr. Evaristo torna-se fundamental e ainda saber que nem neste tempo de guerra, o pão nosso de cada dia não irá falta.

  2. Fico maravilhada ao ler seus artigos, que benção em 2021, o Brasil ter exportado 2 milhões de toneladas de trigo, bendito seja o Brasil com suas terras tão produtivas, ‘Tudo se plantando dá” disse Pero Vaz de Caminha.
    Não sabia, que o trigo é o segundo cereal depois do milho.
    O pão este alimento tão sagrado na mesa de todos nós, mais ainda é o pão nosso de cada dia..

  3. Excelente artigo Evaristo.
    Com objetividade mostra como o país pode sair da dependência, pelo menos em parte das importações feitas.
    Parabéns.

  4. Parabéns prof. Evaristo, seus trabalhos deveriam ser destacados no mundo sobre nossa agropecuária e meio ambiente e deixam claro como existem maus brasileiros e péssima imprensa tradicional propagando nosso pais como destruidor da natureza na produção de seu negocio agropecuário. Quem sabe uma Diretoria da ONU para alimentação e combate a fome sob sua direção e seus colegas brasileiros, fosse boa iniciativa deste governo.
    Apreciaria também seu trabalho no combate a inflação de preço dos alimentos que destaco na SOJA, que mesmo sendo campeões mundiais e temos para DAR e VENDER, uma garrafa de 900 ml de óleo de SOJA custava em 2019 R$2,70 e atualmente R$9,50. E os derivados de CANA, MILHO, PROTEINA ANIMAL, etc etc que também seguem essa politica de Paridade de Preços Internacionais, que só é combatida por políticos e pela velhaca imprensa quando praticada pela PETROBRAS que inclusive depende sim da importação de refinados para abastecer o mercado interno. Leve ao governo uma mensagem do que nosso empresário da agropecuária poderia proporcionar aos brasileiros, porque pela imprensa a inflação de preços dos alimentos é derivada da inflação de preços dos combustíveis praticada pela Petrobras. Alerte que álcool anidro e biodiesel são mais caros que os combustiveis derivados de petróleo vendidos pela PETROBRAS. Não entendo que tenha que haver interferência nos preços, mas orientações pela redução de impostos para estabelecer uma reserva de alimentos para o consumo interno a preços acessíveis como deve haver nos países desenvolvidos.

  5. Excelente esclarecimento de tema tão sensível, pela importância do trigo. Passa tranquilidade termos no Brasil cérebros privilegiados como do autor que pensam na frente e orientam as políticas públicas no sentindo do interesse nacional, buscando a segurança alimentar, não permitindo a imposição de interesses negociais em detrimento do público

  6. É de nos impressionar suas publicações. Uma fonte de conhecimento pouco vista, sobretudo por se tratar de matérias de grande relevância para a sociedade brasileira. Obrigado, mestre, Evaristo.

  7. Parabéns a Nossa Grande Embrapa e toda sua equipe, luta incansável pelo Brasil. E aos produtores pelo empreendedorismo nas novas fronteiras.
    Parabéns pelo trabalho.
    Brasil celeiro do mundo!

  8. PARABENS, EVARISTO, SEMPRE NOS BRINDANDO COM ASPECTOS DO AGRO DESCONHECIDOS PELA MAIORIA. PARABENS A EMBRAPA, CUJA AÇÃO PERMITIRÁ A IMPLANTAÇÃO DA TECNOLOGIA DO TRIGO TROPICAL

  9. Preciso renovar meu estoque de “ likes´´para atender a valiosa produção de artigos do Prof. Evaristo. Oportuno artigo, no momento critico que vivemos, em razão da guerra entre os maiores produtores de trigo internacionais. Estou certo que, dado o alcance atingido pela Revista Oeste, influenciará no planejamento de nossos produtores agrícolas positivamente.

  10. A exemplo da soja o Brasil atingirá a autossuficiência em trigo e será um grande exportador. Parabéns Evaristo, pelo excelente artigo, muita informação técnica, agradável de ler é rico em dados confiáveis.

  11. Excelente texto mostrando a pujança do nosso território, o papel fundamental da Embrapa que merece todo nosso reconhecimento e aos produtores rurais que assumem riscos e labuta para garantir o pão nosso.
    Bençãos e gratidão ao Eliseu e todos por ele formados que conduzem e executam a visão de Paulinelli e decisão de Geisel.

  12. Excelente artigo do Prof. Evaristo. Rico em detalhes, descreve a importância do trigo no Brasil e no mundo e demonstra o protagonismo da Embrapa na busca do aumento da produção em nossas terras.

  13. Os excelentes artigos do Professor Evaristo completam a excelente dieta: pão de hoje, carne de ontem, vinho velho e visão de futuro, brindada em novos artigos semanais sobre nossa Terra de Santa Cruz!

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