Adolfo Sachsida, novo ministro de Minas e Energia | Foto: Ascom/ME
Adolfo Sachsida, novo ministro de Minas e Energia | Foto: Ascom/ME

‘O governo faz uma reforma administrativa silenciosa’

Adolfo Sachsida, novo ministro de Minas e Energia, detalha os avanços do governo na área econômica e afirma: “Depois de maio, a inflação entrará numa trajetória decrescente”

Adolfo Sachsida, 49 anos, está no governo do presidente Jair Bolsonaro desde o início. De janeiro de 2019 até agora, ocupou dois postos estratégicos no Ministério da Economia antes de assumir, nesta quarta-feira 10, o Ministério de Minas e Energia. Sachsida, que lecionou na Universidade do Texas, possui doutorado em economia pela Universidade de Brasília e pós-doutorado pela Universidade do Alabama, nos Estados Unidos. 

Fiel escudeiro de Paulo Guedes e do pensamento liberal, Sachsida participou da montagem do programa de governo de Jair Bolsonaro ainda durante a campanha eleitoral de 2018. Grande defensor da atual política econômica e das privatizações, é também um dos primeiros a afirmar que o mercado está errado em suas previsões pessimistas de crescimento econômico para este ano. Sachsida garante, por exemplo, que a inflação entrará em trajetória decrescente depois de maio. 

Em entrevista à Revista Oeste uma semana antes de assumir a nova pasta, o então chefe da Assessoria Especial de Assuntos Estratégicos do Ministério da Economia destacou uma série de ações do governo federal, nem sempre divulgadas pela imprensa. Entre elas, a diminuição do número de servidores e a redução da folha de pagamentos estatal. Segundo Sachsida, no fim do ano passado, o país tinha quase 50 mil funcionários públicos a menos do que em 2018. “Nós mudamos a regra de reposição”, explicou. “Quando um funcionário público se aposenta, a contratação de outro não é automática. Estamos fazendo uma reforma administrativa silenciosa, com base na digitalização dos serviços públicos.” 

A seguir, os principais trechos da entrevista: 

O senhor disse recentemente que o Brasil vai crescer mais do que o mercado espera. A expectativa se mantém mesmo com as adversidades do cenário internacional?

Em novembro do ano passado, a Secretaria de Política Econômica projetou que o Brasil iria crescer 2,1% neste ano. Várias instituições de mercado projetaram inclusive um PIB negativo. Em janeiro deste ano, o Boletim Focus chegou a prever uma mediana de 0,3% de crescimento. Fomos criticados porque essa diferença é muito grande, e eu sempre fui muito claro: nós estamos certos. Estávamos certos em 2020. O mercado chegou a prever uma queda de 6,6% do PIB. Nós falamos: vai cair abaixo de 5%. Foi 3,9%. Em 2021, fomos bem enfáticos: o PIB vai crescer acima de 3%. Acertamos. E agora o mercado diz que o PIB vai crescer perto de zero. Quantas vezes não ouvimos “estagnação”, “estagflação”, “não vai crescer nada”? O crescimento do PIB será maior do que 1%.

O que faz a previsão da equipe econômica apresentar divergências tão grandes em relação às realizadas pelo mercado?

O mercado está olhando demais para alguns fatores do passado. Esses modelos funcionam muito bem quando os choques estão vindo do lado da demanda. O que acontece é que, tal como falamos no ano passado, os principais choques da economia estavam vindo do lado da oferta, com restrição à oferta de trabalho e à locomoção de bens e serviços, devido à pandemia. Tivemos no ano passado a quebra de cadeias globais de produção, a maior crise hídrica em cem anos, tudo derivado de choques de oferta. Esses choques vão se normalizar. À medida que isso ocorrer, a economia vai voltar muito mais rápido do que estão prevendo. 

O senhor pode destacar ações do governo que foram importantes para a economia do Brasil? 

Foram tomadas medidas importantes no âmbito microeconômico, como os novos marcos legais do saneamento, do gás, da cabotagem, das ferrovias, cambial, das startups e do ambiente de negócios. Essas medidas melhoraram e fortaleceram a segurança jurídica no Brasil. Também mudamos a regra de concessões. Hoje, parte expressiva delas olha quem oferece o maior investimento privado e não quem promete a maior outorga para o governo. Foi feita neste ano a maior privatização de portos da história do Brasil. Também vamos privatizar a Eletrobras. O mercado não levou em conta essa agenda microeconômica e seu impacto no investimento privado. Estamos trabalhando com uma concepção muito parecida com o que aconteceu no governo Ronald Reagan, nos Estados Unidos. É a economia pelo lado da oferta. Quando aumenta a oferta agregada, aumenta o crescimento econômico de longo prazo. Nunca houve isso no Brasil, então é natural que os analistas tenham dificuldade de compreender o que estamos fazendo, e estão sendo surpreendidos, positivamente, pelos dados do próprio mercado.

O Ministério da Economia está fazendo um trabalho estrutural de longo prazo?

O ministério e todo o governo. As pessoas às vezes confundem ruído com sinal. Existem ruídos que são naturais em uma democracia, o que fica em silêncio é a ditadura. O fato de haver ruídos não altera uma verdade muito clara: o Congresso Nacional, na agenda econômica, foi um grande parceiro do governo. A nova Previdência, a lei de liberdade econômica, a nova lei do agro, a lei do contribuinte legal e a PEC emergencial. Durante a pandemia, já estávamos pensando no pós-pandemia e em quais gastos teriam de ser pagos. Não faltou dinheiro para a saúde, oferecemos o auxílio emergencial, houve a preservação de empregos, Estados e municípios receberam R$ 120 bilhões — R$ 60 bilhões de transferência direta e R$ 60 bilhões via renegociações de dívidas. Todo brasileiro que quis conseguiu se vacinar. As medidas foram tomadas, e depois nos preocupamos em controlar o gasto. Tanto é que esse governo vai ser o primeiro em duas décadas que vai terminar seu ciclo de quatro anos gastando menos em relação ao PIB do que quando assumiu.

E em relação ao funcionalismo público?

As pessoas dizem: “Não fez a reforma administrativa”. Vamos olhar os dados. Em 2021, tínhamos 584 mil funcionários públicos. Em 2018, esse número era de 630 mil. Ou seja, hoje são quase 50 mil funcionários públicos a menos. Por quê? Porque mudamos a regra de reposição. Quando um funcionário público se aposenta, não é automática a contratação de outro. Nós estamos fazendo uma reforma administrativa silenciosa, com base na digitalização dos serviços públicos. Quantas vezes vimos um idoso, às vezes doente, tendo de andar 50 quilômetros de ônibus para ir até um posto do INSS e ainda pegar fila só para fazer a prova de vida? Hoje é possível fazer pelo celular. Em 2018, gastamos 4,2% do PIB com pessoal. Em 2022, vamos gastar 3,5%. Em 2018, foram 8,2% do PIB com benefício previdenciário. Em 2022, vamos gastar 8%. Todas as principais despesas do governo estão sendo reduzidas. É a menor taxa de reposição de funcionalismo público da história brasileira. 

“A prioridade do governo federal neste ano é a privatização da Eletrobras”

Os parlamentares estão dispostos a votar projetos que modernizam a economia brasileira?

Em todas as propostas que trabalhei em parceria com o Congresso, o Legislativo melhorou os textos. No novo FGTS, nós trabalhamos muito próximo aos parlamentares, e o projeto aprovado efetivamente aprimorou o que tínhamos escrito. Temos de entender também que o Congresso é o legítimo representante da população, e, tal como nós, eles também querem melhorar o Brasil. 

Qual tema o senhor considera o mais importante para passar no Congresso neste ano?

Estamos trabalhando na medida provisória que moderniza os cartórios. Metade dos cartórios de registros públicos no Brasil não tem página na internet. Ou seja, você quer saber onde é o cartório? Tem de consultar as páginas amarelas da lista telefônica. Em pleno século 21, chegar a um cartório e dizer que vai pagar no cartão e ouvir: “Aqui só aceita cheque e dinheiro”, isso é um absurdo. A medida que moderniza cartórios é uma revolução. O brasileiro não vai precisar mais fazer aquela maratona por cartórios e poderá fazer tudo no conforto de casa. Vou usar um exemplo que me toca: imagine uma mãe solteira, que acabou de ter seu filho e está passando por várias dificuldades. Hoje ela tem de ir ao cartório registrar a criança. Com a nossa medida, essa mãe poderá fazer o registro pelo celular, de dentro do hospital. Não é só uma questão econômica, é uma tremenda questão social. 

Existe uma expectativa real de que a privatização da Eletrobras ocorra ainda neste ano?

Sim. Se pudesse citar as prioridades da agenda econômica, a primeira é a privatização da Eletrobras. Ela é fundamental, porque alinha corretamente os incentivos econômicos. Não é só a quantidade de dinheiro que vamos receber. Vamos abater um pouco a dívida e, com isso, tornar a situação fiscal mais adequada. Quando se privatiza uma empresa, isso gera aumento de produtividade. Por exemplo: em 1994, eu dava aula de informática, e metade das localidades brasileiras não tinha telefone. Comprava-se ficha de orelhão como investimento. Em 1998, a Telebrás foi privatizada, e aí? Será que é tão difícil ver o ganho de bem-estar? Olha a Vale, a Companhia Siderúrgica Nacional, a mesma coisa vai acontecer com a Eletrobras caso seja privatizada.

Tem sido criticado o pacote de bondades do governo federal em ano eleitoral. Como o senhor vê essa questão?

A gente precisa separar o joio do trigo. Quando a carga tributária aumenta, o mundo cai na nossa cabeça. Aí vamos lá e baixamos o imposto, também cai o mundo. Não adianta se basear nos outros. O que temos de ter é autocrítica, saber quando a crítica é honesta e corrigir. Existe um avanço importante na nossa agenda e temos de seguir nele. Não posso fazer porque é um pacote de bondades? Desculpe, isso não existe. Estamos melhorando a estrutura de cartórios, estou conseguindo liberar dinheiro do FGTS para retornar ao trabalhador, não é bondade, o dinheiro é da pessoa. Honestamente, não existe pacote de bondades, o que existe são medidas estruturais sendo construídas para colocar o Brasil no caminho da prosperidade.

Como é para o senhor integrar a equipe econômica do governo Bolsonaro?

Conheço o presidente desde outubro de 2017, até acho que o conheci antes do ministro Paulo Guedes. Vou ser bem honesto: o Brasil deu muita sorte de ter o presidente Bolsonaro e o ministro Paulo Guedes neste momento. Se você olhar para 2019, o maior desastre ambiental da história brasileira, em Brumadinho, derrubou a produção de extração de minério no Brasil. Em 2020, a maior pandemia da história. Em 2021, piora a pandemia, ocorre a maior crise hídrica em quase cem anos, o maior choque negativo do agronegócio em quase uma década em relação à seca do meio do ano passado. Em 2022, você acha que está melhorando, e a pandemia piora em janeiro, o que também já ficou para trás. Quando você acha que vai escapar, eclode a guerra na Ucrânia, a maior movimentação de tropas desde a Segunda Guerra Mundial. É um choque negativo que não acaba mais, e, mesmo assim, o Brasil continua, está batendo recorde de atração de investimentos. Graças às reformas microeconômicas, o país é o grande porto seguro de investimentos. Trabalhar aqui é a maior honra da minha vida profissional. 

Qual momento o senhor considera que foi o de maior adversidade neste período em que está no governo?

Em abril de 2020, comecei a acordar às 5 da manhã e rezar. Só na mão de Deus, porque não tinha o que fazer: a produção industrial caiu, a produção automobilística despencou 98% em abril daquele ano. Tinha governador fechando estrada, gente querendo fechar portos. Entendo os medos de cada um, mas era um momento em que a economia brasileira poderia colapsar. O dado que tinha aqui comigo era o seguinte: depois que você decreta o lockdown, independentemente de ser correto ou não, metade da população residente em favelas começaria a passar fome em 14 dias. Muitas pessoas acabam tendo dificuldade em entender o ministro Paulo Guedes, porque ele está três lances à frente. Está olhando modelos de equilíbrio geral, sabe que às vezes é melhor ceder em um ponto e ganhar em outro. E aqui faço também um elogio ao presidente Bolsonaro, que apoiou nossa agenda econômica em momentos difíceis, porque a quantidade de gente que estava louquinha para o governo gastar mais não é pequena. Não falo de pessoas do governo, mas da imprensa.

Recentemente, o senhor disse que a inflação entrará em trajetória decrescente depois de maio. Esta previsão está mantida?

Sim. O Brasil encerrou com os benefícios fiscais antes do restante do mundo. Nossos programas emergenciais de combate à pandemia já acabaram, enquanto no restante do mundo ainda estão rodando. O Brasil começou a ter uma política monetária mais dura, antes de outros países. Os Bancos Centrais europeus estão aumentando os juros agora, nós já começamos desde o ano passado. Tomamos corretamente as medidas econômicas, retiramos os estímulos artificiais, fiscais e monetários bem antes dos outros países. A economia brasileira cresceu 4,6% no ano passado, o que mostra que fizemos certo, e vai crescer neste ano mais de 1%. A inflação é um desafio. Temos de combatê-la, e tenho certeza de que o Banco Central vai tomar as medidas necessárias para isso. A inflação vai ter o seu máximo agora em maio e, depois disso, entrará numa trajetória decrescente.

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15 comentários Ver comentários

  1. Excelente entrevista. Brasileiros como Sachsida enche-nos de esperança no futuro do Brasil. A equipe montada pelo nosso Ministro Paulo Guedes e referendada por nosso Presidente é sensacional.

  2. Espero que o competente economista Sachida leve aos políticos que trata com elegância, que a PETROBRAS não é o VILÃO da inflação dos combustíveis mesmo dando excelente lucro que entregou para a UNIÃO mais de R$30 bi em dividendos relativos ao exercício de 21 e que entregará mais R$17 bi até meados de 2022, que provavelmente não foram distribuídos nos últimos 10 anos devido a exercícios seguidos com prejuízos e resultados pífios devido a politica de preço populacionista e ao assalto ao seu patrimônio que criaram endividamento superior a US$150 bi.
    É necessário esclarecer a imprensa e políticos qual é a verdadeira participação da Petrobras nos preços dos combustíveis e denunciar os verdadeiros vilões como ICMS, DIST/REV., ÁLCOOL ANIDRO e BIODIESEL dos usineiros nos preços nas bombas, que tem levado o presidente Bolsonaro, que ainda admiro, a fazer política para atender Lira, Pacheco e outros e denegrir a gestão da Petrobras inclusive criticando seus altos salários. Esse clima esta levando seus simpatizantes inclusive da imprensa em acusar a Petrobras de praticar uma politica de preços anti social. Penso que a função social é da União para fazê-lo com os enormes recursos que a Petrobras lhe proporciona. É importante evitar essa demagogia e volta ao passado da empresa, que afugentará investidores que em 2010 investiram mais de R$120 bi naquela famigerada capitalização para a cessão onerosa do pré-sal.

  3. E o vice presidente da câmara que entrou no STF pra derrubar a diminuição do IPI, e esse STF acata, esse sujeito tá num cargo que é do PL e ele não é do PL, e ainda esse STF toma medidas pra que ele continue no cargo, coisa do regimento interno do poder legislativo. Vocês não acham que estamos vivendo numa política fantasmagórica ?

  4. Tão reconfortante ouvir um ministro tão confiante e otimista. Paulo Guedes e sua equipes foram enviados por Deus. Eu fico assustada quando penso na possibilidade do PT estar no poder durante a pandemia.
    Acho que o governo conseguiu fazer milagres durante esse caos que foi a pandemia. Obrigada Deus 🙌🙏

  5. É jovem, talentoso e muito bem qualificado. Vamos para mais quatro anos, e o Brasil de 2023-2026 será o inicio de um ciclo virtuoso. Parabéns, tanto à OESTE quanto ao novo Ministro.

  6. Reconfortante o grau de otimismo do novo ministro. Especialmente quando sabemos de sua capacidade e conhecimento do funcionamento da máquina pública.

  7. parabens pelo inicio do que se Deus quiser vai ser a privatizaçao da Petrobras,e nao desanimem,o povo ,o brasileiro de verdade estao ao vosso lado!!!

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