Túnel que dá acesso ao Anexo 4 da Câmara dos Deputados | Foto: Afonso Marangoni
Túnel que dá acesso ao Anexo 4 da Câmara dos Deputados | Foto: Afonso Marangoni

Carta ao Leitor

A disputa silenciosa pelos gabinetes da Câmara e os mais recentes absurdos do Judiciário estão entre os destaques desta edição

Poucas coisas podem ser tão reveladoras — e com frequência surpreendentes — como o primeiro olhar de um jornalista sobre o objeto da sua reportagem. Há poucos dias, o editor assistente Cristyan Costa fez sua primeira incursão pelo Congresso. Ele poderia, por exemplo, ter ficado especialmente impressionado com as arrojadas esculturas de Oscar Niemeyer ou com o mosaico partidário que se cruza o tempo inteiro na sala do cafezinho. 

Mas o que o deixou particularmente intrigado foi um túnel. Não o túnel do tempo, que liga a Câmara ao Senado — assim apelidado por separar os cabelos brancos dos senadores dos fios negros (naturais ou tingidos de preto Brasília) dos deputados. Cristyan ficou cismado com o corredor que os parlamentares com gabinetes no Anexo 4 precisam percorrer durante os dez minutos que os separam do plenário da Câmara. “É claustrofóbico”, disse. “É escuro, sem janelas, acarpetado, com pé direito baixo, marrom do chão ao teto.” 

Nesta edição, ele descreve aos leitores de Oeste como acontece a disputa silenciosa pelos melhores gabinetes da Câmara. Uma briga que começa logo depois de encerradas as eleições e que esconde também as castas invisíveis que separam os deputados, como as que existem na Índia.

Os brâmanes do Congresso incluem ex-presidentes da Câmara — atualmente, Aécio Neves (PSDB-MG) e Arlindo Chinaglia (PT-SP) —, além do atual e do vice-presidente da Casa. Seguem-se a eles parlamentares que já tiveram pelo menos um mandato, filhos e cônjuges de deputados, mulheres e portadores de alguma deficiência. Os páreas são aqueles que não se enquadram em nenhuma dessas categorias. Nas eleições de 2018, eram 154 homens — ou 30% da Câmara —, que acabaram enclausurados nos piores gabinetes, geralmente menores e mais distantes.

O descontentamento com essas regras discriminatórias chegou ao Supremo Tribunal Federal (STF) em 2018. O calouro Marcelo Calero (PSD-RJ) reivindicou a eliminação dos privilégios determinados pelo parentesco. Dias Toffoli, então presidente da Corte, preferiu não interferir e determinou que a decisão final fosse da Câmara. Naquele tempo, os ministros ainda não se intrometiam com tanto desembaraço na atribuição de outros Poderes.

Por falar em Supremo, o artigo de J.R. Guzzo mostra que a Justiça brasileira chegou ao fundo do poço. Nesta semana, Alexandre de Moraes conseguiu descer mais alguns metros ao mandar de volta ao regime fechado um pedreiro do interior da Paraíba que cumpria pena em regime domiciliar, por ter saído de casa para trabalhar 20 minutos antes da hora permitida. 

“É alucinante”, observa Guzzo. “O homem não saiu de casa às 04h40min para tomar uma pinga, mas para trabalhar, numa hora em que os ministros do STF e milhões de outros brasileiros estavam dormindo o sono dos justos. Quer dizer: foi punido por levantar cedo, castigo possivelmente inédito na história do direito universal.”

O mais recente levantamento do World Justice Project, um ranking que mede a qualidade da Justiça de 139 países, colocou o Brasil na 112º colocação. No quesito “imparcialidade dos juízes criminais brasileiros”, o país conseguiu ficar em penúltimo lugar. Como afirma Guzzo, “pior que isso, em toda a face da Terra, só a Venezuela”.

Boa leitura.

 

Branca Nunes

Diretora de Redação

O ex-governador do Estado de São Paulo João Doria (PSDB) anunciou que deixa sua candidatura à Presidência da República na segunda-feira 23 | Foto: Aloisio Mauricio/Fotoarena/Estadão Conteúdo

 

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12 comentários Ver comentários

  1. No túnel escuro, no fundo do poço da justiça minúscula, nas inconsistências da imprensa falida, vamos continuar resistindo e resistindo. Junto com Oeste.

  2. Certos juízes, que vivem numa bolha, perderam, ou nunca tiveram, a noção da realidade da vida das pessoas comuns. como permitir que pessoas assim possam julgar a nós, pobres mortais ? Eles não têm empatia, e, principalmente, senso de proporção. São sentenças que, em q pese a legislação em alguns casos deficiente, poderiam no mínimo contar com um senso real de Justiça e proporcionalidade. Muito triste e revoltante. E, tudo o que revolta, tem potencialmente consequências.

  3. Desculpem, mas preciso usar esse espaço para um breve comentário/questionamento sobre a coluna do J.R.Guzzo. Como que os deputas estaduais de Alagoas aceitam uma barbaridade dessas? Estão todos com medo do judiciário? Tem algo a esconder? e o nosso Congresso Nacional, quando vai agir contra os desmandos do STF. Agora levantar cedo para trabalhar, buscar o sustento honesto da família virou crime e soltar traficantes é justiça? Determinar que ações da POLÍCIA sejam investigadas porque mataram um monte de traficantes, mas não se determina investigações sobre por que da reunião de bandidos no Rio de Janeiro. Senhores congressistas e deputados estaduais, tenham vergonha na cara, vamos agir em prol da sociedade e não cuidar somente do próprio rabo.

  4. Ranking da qualidade da justiça brasileira em centésimo décimo segundo para um total de 139 é mostrar um esfregão limpo que nunca foi usado. Nossa justiça é porca. 😭

  5. Sugiro a excelente revista oeste que explore a inflação nos preços dos combustíveis com a isenção própria da nova e boa imprensa, esclarecendo leitores e consumidores quem são os vilões desses elevados preço e parem de insultar a Petrobras e suas competentes e honestas diretorias desde o governo Temer. Basta ler no site da Petrobras “Para nós transparência é fundamental” e compreender as claras informações sobre as atividades e os componentes dos preços semanalmente atualizados com coletas feitas pela ANP, e lá identificarão os principais vilões dos preços nas bombas que nunca são questionados por maus políticos, governadores e velhaca imprensa. Creio que é excelente matéria para Rodrigo Constantino detalhar aos leitores, para que a ira popular não atribua somente a Petrobras pela politica de preços PPI, a inflação de combustíveis e pasmem até dos alimentos, entendendo que as commodities agropecuárias estão com elevados preços devido ao diesel utilizado nos transportes de cargas. É isso que ouvimos e lemos nos meios tradicionais de comunicação, evidentemente para combater o governo Bolsonaro. Afinal, por que nosso negócio agropecuário também pratica a PPI e ninguém discute, sabendo que somos campeões mundiais na produção de SOJA, CANA, CARNE, CAFÉ, MILHO, etc. etc.? Não precisa ir a supermercados para ver que em 2019 uma garrafa de 900 ml de OLEO DE SOJA custava R$2,60 e atualmente R$9,60 e um pacote de 500 g. de CAFÉ MOÍDO custava R$7,50 e atualmente R$19,50, e a CANA (açúcar, álcool) e a CARNE, FEIJÃO, MILHO, etc. etc. etc.? Combustíveis tem importantes agentes como ICMS dos governadores, DIST./REV. da atividade privada, ÁLCOOL ANIDRO E DIESEL dos Usineiros que tem elevada participação nos preços das bombas.

  6. Como fiz na semana passada e forneci um “furo” e não entenderam. Vai mais um agora: o pessoal de Gramado já está fazendo campanha para impedir a chegada de Tófoli a um Seminário em Julho. Dizem também que o comício do Lula em Porto Alegre terá mais bolonaristas do que petistas… a conferir.

  7. As coisas estão se invertendo a tal ponto, que um simples pedreiro foi condenado pela mais alta corte de justiça do Brasil, justamente por um ministro useiro e vezeiro em desrespeitar a regras de convivência dentro da sociedade..

  8. Mais uma brilhante edição da Oeste.
    Triste é saber que essa realidade não muda, que o povão (seja rico ou pobre, jovem ou velho) não se importa e não deseja mudanças. Ou pior: se ilude achando que quer algo que efetivamente não melhorará a sua vida e de seus semelhantes.

  9. “DORIA FICOU EM CASA”. Navarro que bela tirada. O que faz a pusilanimidade de um sujeito arrogante, inescrupuloso, oportunista (Bolsodória). Literalmente foi para o espaço e por lá ficará rodando. É o melhor que possa lhe acontecer.

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