Sergio Moro | Foto: Gabriela Biló/Estadão Conteúdo/AE
Sergio Moro | Foto: Gabriela Biló/Estadão Conteúdo/AE

O mais obsceno faroeste à brasileira

A bandidagem punida pela Lava Jato quer de volta o dinheiro que entregou para escapar da cadeia

Quer dizer que agora existem vagas na cadeia também para delinquentes da classe executiva?, intrigaram-se em 20 de março de 2014 milhões de brasileiros fartos da roubalheira institucionalizada pelos governos do PT. A recém-nascida Operação Lava Jato, que agrupava juízes, procuradores e policiais federais, prendera Paulo Roberto Costa, diretor de Abastecimento da Petrobras de 2004 a 2012. Ao executivo nomeado pelo presidente Lula, que o chamava de Paulinho, não demorariam a juntar-se outros três diretores da estatal — Renato Duque, Nestor Cerveró e Jorge Zelada. Quer dizer que enfim seria dissolvido o clube dos condenados à perpétua impunidade? Seria, começou a acreditar o país que presta quando a devassa do escândalo do Petrolão pareceu ter atingido, em 20 de novembro de 2014, o ponto de não retorno.

Naquele dia, a fase da Lava Jato batizada de Juízo Final iniciou a varredura das catacumbas que ocultavam empresários premiados com obras públicas multibilionárias. Convocado para depor na Polícia Federal de Curitiba, um bando de figurões homiziados no comando das nove maiores empreiteiras nacionais provocou o primeiro congestionamento de jatinhos na história do aeroporto da capital paranaense, fez uma escala nos quartos de hotéis que reservara por uma noite e foi caprichar no papel de inocente. Aquilo não duraria mais que duas horas, informava o sorriso confiante dos depoentes. Todos só voltariam para casa depois de longos meses hospedados na gaiola. E então mesmo os céticos profissionais desconfiaram que a coisa era para valer. Disso o país inteiro teve certeza com o início do cortejo de delações premiadas.

Para escaparem da cadeia, quadrilheiros toparam escancarar caixas pretas, contar tudo o que sabiam e, para espanto das vítimas da quadrilha, devolver à Petrobras ao menos parte do produto do roubo. Passados 500 dias, a Lava Jato havia recuperado R$ 870 milhões. Pedro Barusco, ex-gerente de Serviços da estatal, nem esperou por cobranças: em fevereiro de 2015, avisou que entregaria aos integrantes da Lava Jato pouco menos de US$ 100 milhões. A rendição do novo rico acampado no segundo escalão inaugurou o desfile de cifras inverossímeis, produzidas por refinarias que não saíram das pranchetas e promessas ou ultrapassaram em décadas o prazo fixado para a conclusão das obras. Todas acabaram reduzidas a usinas de licitações criminosas, contratos superfaturados, aditivos pornográficos, propinas de dimensões siderais e outras bandalheiras espantosas.

Em 28 de janeiro de 2015, a presidente da Petrobras, Graça Foster, informou que o saque somara R$ 88,6 bilhões. Tal façanha resultou da mobilização de um elenco de filme épico italiano. O Petrolão juntou gatunos em ação no comando da estatal, empreiteiros de grosso calibre, ministros de Estado, senadores, deputados e donos de distintos partidos, doleiros lavadores de dinheiro, empresários com livre acesso ao Planalto, vigaristas tarimbados (como José Dirceu e Antonio Palocci), sumidades ainda pouco valorizadas (como Sérgio Cabral), um presidente da Câmara, o marqueteiro do rei, três tesoureiros do PT e, fora o resto, um ex-presidente da República. Mas havia topado com adversários bons de briga, bem equipados e extraordinariamente eficazes, que já no início do embate venceram a disputa pelo apoio da torcida brasileira.

Entre o início de 2014 e o fim de 2018, a grande maioria dos brasileiros festejou a ampliação diária do acervo de provas, evidências e indícios de que, se é verdade que chegou com as primeiras caravelas, a corrupção havia alcançado proporções pandêmicas com a Era PT. Para os poderosos patifes, 6 da manhã tornou-se a mais cruel das horas: era nesse momento que soavam as pressagas batidas na porta. Em março de 2016, conversas grampeadas atestaram a onda de angústia que invadira o Congresso. Era preciso estancar a sangria, implorou o senador Romero Jucá aos parceiros Renan Calheiros e José Sarney. A publicação da súplica custou a Jucá a antipatia nacional, a suspensão de viagens em aviões de carreira e a derrota na tentativa de reeleger-se.

Em contrapartida, foram promovidos a heróis nacionais os participantes da ofensiva que, por ter desmontado o maior esquema corrupto de todos os tempos, tornou-se a mais eficiente operação anticorrupção da história. Nos desfiles de 7 de Setembro, a passagem das viaturas da Polícia Federal foi aclamada pela multidão. Nas raras aparições públicas, o juiz Sergio Moro passou a ser aplaudido de pé. É compreensível que os brasileiros honestos tenham enxergado na prisão de Lula a efetiva entrada em vigor de um preceito esquecido numa página da Constituição: todos são iguais perante a lei. A sentença de Moro, expedida em julho de 2017, foi confirmada em janeiro de 2018 pelo Tribunal Regional Federal de Porto Alegre. E começou a ser cumprida em em 7 de abril de 2018.

“O Brasil se tornou um país de corruptores sem corruptos”

Sentenciado a pouco mais de 12 anos de cadeia pelas trapaças que envolveram o tríplex do Guarujá, o ex-presidente foi solto em 8 de novembro de 2019 pela mão amiga do Supremo Tribunal Federal. Na véspera, para devolver às ruas o criminoso já punido em segunda instância também pelo que andou fazendo com o sítio em Atibaia, a maioria da Corte decidira que ninguém pode ser preso antes da tramitação em julgado da sentença condenatória. Em março de 2021, o socorro indecoroso se completou com a inacreditável acrobacia executada pelo ministro Edson Fachin, relator dos processos da Lava Jato no Supremo Tribunal Federal.

Desde que assumiu o posto vago pela morte de Teori Zavascki, Fachin vinha julgando com a placidez de monge tibetano os recursos fabricados pelos advogados de Lula. Só ao deliberar sobre a derradeira manobra o malabarista togado decidiu que o réu deveria ser julgado em Brasília, não em Curitiba. Ao inventar a Lei do CEP, o juiz nomeado por Dilma Rousseff arrancou a máscara que camuflava o mais dissimulado dos ministros. Ele reivindicara o lugar deixado por Zavascki para consumar o assassinato da Lava Jato, desativada pelo procurador-geral Augusto Aras em fevereiro de 2021. E também inspirar-se no avesso da verdade para transformar um belo capítulo da saga republicana no mais obsceno faroeste à brasileira.

Graças ao roteirista espertalhão, neste outono de 2022 Lula disputa a Presidência caprichando na pose de inocente, aciona judicialmente o procurador federal Deltan Dallagnol por “danos morais”, exige a condenação de Moro por ter perseguido a alma viva mais pura da nação e afirma que o Petrolão nunca existiu. No momento, quem deve explicações é o juiz que cumpriu seu dever. No faroeste à brasileira, é o bandido que vence no final. O PT acha pouco: para bancar a festa da vitória, quer que o Supremo obrigue Moro a pagar uma indenização de bom tamanho ao partido que virou bando. Animados com a soltura do chefe, numerosos quadrilheiros solicitam que a conversa fiada que livrou Lula da cadeia seja estendida aos demais companheiros. Previsivelmente, apareceram no palco delatores premiados que querem recuperar o produto do roubo usado para driblar a gaiola. A realidade brasileira supera o que há de mais inventivo na estante do realismo fantástico.

“É simplesmente imoral pretender a devolução do dinheiro saqueado por ímprobos administradores”, ensina o jurista Ives Gandra Martins, que também contesta as críticas à operação que enquadrou os saqueadores da Petrobras. “Não houve qualquer cerceamento de defesa e as decisões foram baseadas em provas materiais de corrupção, concussão, desvio de verbas públicas, favores inadmissíveis e retorno da parte do assalto às finanças estatais”, resume Gandra. “Não creio que tenha sido esta a intenção da Corte, mas o STF desmontou a Operação Lava Jato. O Brasil se tornou um país de corruptores sem corruptos.”

O jurista Adilson Dallari endossa os pareceres de Gandra. “Tentou-se mostrar que havia um conluio entre o Ministério Público e o juiz. Juízes, promotores e advogados conversam, sim, fora dos autos, mas isso não compromete o curso do processo, nem anula a decisão. Basta ler o texto das sentenças, muito bem elaboradas e confirmadas nas instâncias superiores.” Dallari vê as coisas como as coisas são. “Não há ex-condenados, mas descondenados. O STF buscou e encontrou um subterfúgio para livrar o Lula. Outros réus pegaram carona na ação entre amigos que beneficiou o ex-presidente.” Para o jurista, denúncias e ações contra procuradores e juízes têm vida curta: “Depois das eleições serão todas arquivadas, pois são totalmente despropositadas e infundadas”.

Na História Nacional da Infâmia, a sinopse do mais torpe faroeste à brasileira caberá em uma única frase: “Quando as investigações se aproximaram perigosamente de alguns ministros do Supremo e seus amigos, os ameaçados resolveram estancar a sangria”.


Com reportagem de Artur Piva e Cristyan Costa

Leia também “A Constituição estuprada”

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44 comentários Ver comentários

  1. Eu como um pai e avô (73 anos), pensava que já havia visto tudo; contudo oro ao Senhor todos os dia para livrar: da mentira, da safadeza… que impera no nosso amado Brasil.
    Sobre a questão o que me conforma é o que Deus fala no Livro de Gálatas 6:7 ” Não erreis: Deus não se deixa escarnecer; porque tudo o que o homem semear, isso também ceifará”. Um dia todos haveremos de comparecer diante do trono de Deus e prestar contas a Ele. Eis uma verdade para todos nós!

  2. Em meio o todo, não podemos deixar a peteca cair, temos responsabilidade naquele dia. Não podemos esquecer das eleições de (1950). Entre Carlos Lacerda e Getulio vargas. Confesso! É difícil depois de decatas, presenciar o mesmo erro. Esperança!!

  3. A obscenidade de se imaginar a devolução do dinheiro que restituíram aos cofres públicos, passa a ser uma hipótese plausível na eventualidade de um governo Lula. E quiçá, com determinação do STF.

  4. Nunca houve nada tão meritório neste país qto a Lavajato, que nos encheu de esperança e fez com que sonhássemos com um país melhor, mais justo e digno . Que fim mais melancólico, triste e decepcionante! E o pior de tudo foi esse desmanche ter aberto caminho para a descondenação dos facínoras atingidos por ela! Nosso país realmente não é pra amadores!

  5. LAMENTAVELMENTE DECISÕES DA PIOR COMPOSIÇÃO DO STF DA HISTORIA DO BRASIL ESTA LEVANDO A ESTE SITUAÇÃO .
    O STF NÃO PERCEBEU QUE O DESEJO E A LIBERAÇÃO DO LULA PARA PARTICIPAR DA ELEIÇÃO LEVARIA A NECESSIDADE DE LIBERAR TAMBEM OS SOCIOS DO LULA E DA QUADRILHA !!!

    1. Além do compromisso com a verdade, o texto é uma aula de cultura. Ficou registrado no imaginário a expressão “Manobra do malabarista togado que inventou a lei do CEP”. Kkkkk

  6. Augusto Nunes,
    como SEMPRE VOCE É PRECISO E REALISTA !!!!!
    estamos vivendo esta situação acredito que algo deva acontecer pois a grande maioria não esta aceitando este presidente do senado e da camara e a\ pior composição do STF da historia do pais.
    O que esta segurando o povo é uma administração CORRETA DE UM PRESIDENTE E DE MINISTROS HONESTOS E COMPETENTES.
    ATE QUANDO ???
    NÃO SEI VEJA O EXEMPLO DO GOVERNO DILMA UMA HORA O POVO VAI PARA RUA !!!!!

  7. Excelente reportagem. Parabéns. Esse texto deveria divulgado em todos os meios de comunicações disponíveis para o conhecimento de todo o país e quem sabe pudéssemos ter um fio de esperança de que a atual situação mudasse.

  8. É de rasgar o cool no chão! São tantas provas! Tantas evidências! Tantas delações!
    Tanto dinheiro roubado e tanto outro devolvido como confissão de crime…!! Mas nada disso teve um único valor para o Ministro Fachin inocentar Lula. E consequentemente todos os seus 40 ladrões agora estão com as suas cartas de liberdade prontas para serem assinadas e saírem livres e com ficha limpa! É de rasgar mesmo!!

  9. stf e tse são golpistas!!! são vergonha INTERNACIONAL e geram insegurança jurídica e desemprego…NINGUÉM INVESTE NUM PAÍS CUJO stf é instável.

  10. Mas, vamos lembrar a verdade: quem iniciou tudo para varrer a Lava Jato para debaixo do tapete, foi o Aras!!! Queria muito saber, porque nosso presidente colocou este cara lá… Isto eu nunca entendi. O Aras não tem uma atitude, em favor do povo, vocês já notaram isto?? E pouco se fala sobre este indivíduo…

  11. Augusto e equipe do bom jornalismo da revista oeste, jovem pan e gazeta do povo, julgo importante manifestarem-se publicamente pela ativa participação do MINISTÉRIO DA DEFESA com seus TIs e até independentes como o engro. Carlos Rocha na DIREÇÃO das urnas eletrônicas do TSE, desenvolvendo software e rotinas adequadas, para implantar uma urna adicional eletrônica substituta da urna do VOTO IMPRESSO, que conteria os mesmos votos da urna eletrônica original desde que confirmados pelo eleitor, assim como estava estabelecido na rotina do VOTO IMPRESSO. Esta urna eletrônica adicional seria de exclusiva utilização das FFAA e de Auditores para inicialmente AUDITAR urnas sorteadas pós votação e se necessário RECONTAR a totalidade das urnas para VALIDAR o apurado pelo TSE. Se houver diferença vale a apuração da urna AUDITADA. Penso que não há porque o TSE desconfiar do Ministério da Defesa como desconfia de Bolsonaro, e portanto a nação brasileira que confia nas FFAA jamais criarão conflitos com o resultado e tampouco Bolsonaro que já várias vezes afirmou, que passa a faixa para o vencedor das eleições com urnas AUDITÁVEIS. Por que só o TSE, STF e oposição não confiam nas urnas TRANSPARÊNTES?
    Minha sugestão é de um idoso leigo em tecnologia da informação, mas, se a urna do VOTO IMPRESSO funcionaria para AUDITAR porque não a urna eletrônica com o mesmo conteúdo e na rotina que seria do VOTO IMPRESSO, na qual o eleitor é o primeiro AUDITOR ao confirmar o BILHETE IMPRESSO sem manuseá-lo?.

      1. Pois é Erico, o Ministério da Defesa tem autoridade para agir rapidamente e impor essas medidas, que terão apoio da sociedade.

  12. Quando o castelo está sendo ferozmente atacado, não há negociação possível. Só a resistência e o contra ataque podem conter o inimigo.

  13. o mais velho “país do futuro” perdeu mais uma vez … aos cidadãos que ousaram sonhar com dias melhores restou, e continuará restando, trabalhar para pagar a conta de tanta bandalheira …

  14. Será que existe atualmente alguma coisa fora do comum? Esse poder judiciário sabe ler?E a imprensa sabe ler? Ou tamos vivendo um sonho que o Brasil é urano?

  15. Alguns delinquentes de alta patente estão colocando em risco a sobrevivência digna de milhões de brasileiros. Não podemos permitir que isso continue. A população que trabalha e paga seus impostos deverá tomar as rédeas desse processo.

    1. Será que os do supreminho lerão isso e continuarão a fazer descarada campanha oro luladrão liberado por eles? Vão devolver o dinheiro recuperado aos bandidos que lhes darão miolionárias propinas?

  16. É uma história de terror, o que vivemos hoje no Brasil!
    Parabéns Augusto Nunes por nós lembrar desse período que vivenciamos a justiça, que foi para o brejo!!

  17. Me dá uma angústia enorme ler e vivenciar todas essas sacanagens. E não poder fazer nada pelo Brasil. A única coisa que posso é o meu voto, mas até isso estão fraudando.
    Acho que ateDEUS está vendo e perplexo pela qualidade do STFL(supremo tribunal federal do Lula)

  18. Putz! Todos esqueceram… “Teori Albino Zavascki foi um jurista, professor e magistrado brasileiro. Foi relator da Lava Jato no STF. Morreu em 2017 com 68 anos, numa queda de avião…”. O Fachin foi escolhido a propósito ou já estava tudo combinado?

  19. O Brasil desta fase, neste pedaço entre 2019 e 2022, foi transformado pelos inimigos da verdadeira liberdade e de um governo honesto, numa farsa gritante de como se pode destruir um país para a preservação de interesses mesquinhos ,grupais e ideológicos.
    A fase passará e os protagonistas -todos- desta ópera-bufa, serão tragados pela história como maus brasileiros.

  20. Achávamos que o país estava no caminho da justiça para todos, porém, atualmente é uma decepção a cada dia. Hoje não sabemos que esperar deste país, cada vez mais ,com viés antidemocrático.

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