Ilustração: Shutterstock
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A importância do voto

O voto de cada um é a maior contribuição do cidadão para a causa do país onde vive

O voto em uma democracia exemplar deveria ser um direito do cidadão, mas não uma obrigação. Muito correto o art. 14 da Constituição de 1988 quando diz que “a soberania popular será exercida pelo sufrágio universal e pelo voto direto e secreto, com igual valor para todos”, mas fraqueja quando em seguida diz que será obrigatório para os maiores de 18 anos. Acredito que nossos ilustres constituintes pensaram que, tendo o princípio do voto obrigatório, nossa democracia seria mais pura e resiliente. Obrigatoriedade do voto tem correlação com autoritarismo, com imposição, opressão e tirania. De fato, a obrigatoriedade de votar foi iniciada em 1965, num ambiente de regime forte quando os militares estavam no poder. A decisão de votar ou não deveria ser do indivíduo, e não do Estado. O Estado existe para servir ao indivíduo, e não para lhe impor certas obrigações, contrariando seus direitos e sua liberdade. Uma democracia se revela mais madura e autêntica quanto mais respeita e dá liberdade aos seus cidadãos.

Em 1932, decreto do então presidente, Getúlio Vargas, que criou a Justiça Eleitoral, contemplou o direito de voto da mulher, que foi um grande avanço institucional e democrático, e não era obrigatório. Em 1933, 90 anos atrás, as mulheres puderam, pela primeira vez, votar e ser eleitas para a Assembleia Nacional Constituinte. A Constituição de 1934 consolidou o voto feminino facultativo.

Em 1985, no primeiro ano de governo civil após o período militar, através de Emenda Constitucional, ficou garantido também aos analfabetos o direito de votar, e assim atingimos uma democracia em que impera o sufrágio universal. É discutível, mas não deveríamos nos gabar de dar o direito de votar aos analfabetos, mas, sim, erradicar o analfabetismo. Temos 11 milhões de pessoas nessa condição que deveriam receber especial atenção do Estado e dos governos para eliminar essa estatística que nos expõe perante países vizinhos e outras nações.

Escolha um candidato e vote de acordo com a sua consciência. Isso é exercício da cidadania

A democracia se enfraquece quando, de posse do direito e da obrigação de votar, analfabetos, pobres e miseráveis, todos em estado de fragilidade social, podem ser facilmente conduzidos por discursos e falácias de políticos populistas. Daí a importância de retirar essas pessoas da pobreza, inseri-las na sociedade de consumo com inclusão social, moradia, educação e alimentação saudável. Nossa democracia só será fortalecida se tivermos uma sociedade com menos desigualdade e sem tamanha pobreza.

O eleitor fica perdido diante de mais de 30 partidos sem claras linhas de atuação e posicionamento ideológico. Fica confuso por tão parecidas ou diferentes propostas de candidatos, promessas que jamais acontecerão, falácias que encantam seus ouvidos e suprem sua esperança. Carência do eleitor gera fragilidade, que influi no direito de escolha que nem sempre seria a melhor. Muitos dos candidatos eleitos, que legalmente deveriam representar o povo, se transformam em legisladores e governantes que servem principalmente ao establishment, a seus partidos, a interesses corporativistas e pessoais, deixando as prioridades de seus eleitores em segundo plano. Não é verdade que todo povo tem o governo que merece.

Na maioria das vezes, os discursos de palanque são abandonados, promessas para obter votos que encheram pessoas de esperança são esquecidas, e o eleitor decepcionado perde a confiança nos políticos.

Voto nulo ou em branco

Um certo número de eleitores, cidadãos que são de fato o povo, vê com desconfiança o sistema de urnas eletrônicas sem a comprovação do voto em papel. Criticar o atual sistema de votos propondo melhorias é quase um crime, pois a Justiça Eleitoral defende as urnas como se perfeitas fossem. Aliado a isso, no momento há também uma intensa polarização entre os principais candidatos, e muitos buscarão manifestar seu descontentamento no voto nulo ou em branco.

O voto de cada um é a maior contribuição do cidadão para a causa do país onde vive. É momento de grande responsabilidade, pois cada um deveria fazer um exercício de escolha dos melhores candidatos, independentemente de viés ideológico, fazendo se representar por pessoas de ilibada reputação, fichas limpas, não envolvidas em crimes ou corrupção e com passado que lhe recomende. O eleitor deve se sentir representando e escolher um político que venha a defender os seus interesses, de sua família, de sua comunidade e de seus valores.

Deve o eleitor fazer detida análise dos candidatos, mas evitar votar em branco ou anular seu voto, pois esse posicionamento talvez não seja o melhor. Escolha um candidato e vote de acordo com a sua consciência. Isso é exercício da cidadania, e a forma de cada eleitor contribuir para o futuro de todos.


Salim Mattar é empresário e presidente do Conselho do Instituto Liberal

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5 comentários Ver comentários

  1. A despeito de ser um direito, entendo que votar é um DEVER cívico. Não à toa, países se tornaram menos democráticos pela preguiça de expressar sua vontade, e ter esta ditada por uma minoria, que se dispôs a votar. O Chile é apenas o último exemplo.

  2. Não sei se é válida completamente a idéia de que o analfabeto é sugestionável e pode ser levado a votar em demagogos e suas propostas falaciosas. Penso que muito pior do que o ignorante de mente limpa é o universitário de mente poluída por ideologias nefastas e ideias fajutas, em prejuízo do verdadeiro ensino, transformando muito jovem (e adulto) em analfabetos funcionais.

    Uma escola ruim é pior do que escola nenhuma. Antes uma terra inculta que repleta de joio.

    Também não me afino muito com a ideia de melhor candidato, já que o voto é proporcional para deputados e vereadores, e estamos fartos de ver bons candidatos não eleitos, com picaretas lhes tomando o lugar.

    Penso que é aconselhável focar num determinado partido, e a partir daí escolher um candidato de nossa preferência.

  3. Por isso Bolsonaro eleito no primeiro turno e uma limpa no Congresso Nacional, reelegendo apenas aqueles candidatos que verdadeiramente defenderam o interesse do povo e do país. Aí quem sabe podemos começar uma reformulação total no sistema eleitoral brasileiro.

  4. Os “CARRAPATOS” do Brasil estão morrendo por “AB$TINÊNCIA”. E o brasileiro honrado e trabalhador não tem mais medo de se manifestar e não quer mais se abster de votar, porque finalmente encontrou alguém tb honrado que o representa.

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