Giorgia Meloni, futura primeira-ministra da Itália | Foto: Piero Tenagli/IpaAgency/Shutterstock
Giorgia Meloni, futura primeira-ministra da Itália | Foto: Piero Tenagli/IpaAgency/Shutterstock

Os italianos votaram pela mudança

A eleição de Giorgia Meloni é uma resposta dos eleitores às políticas desastrosas que arruinaram a Itália

Durante um discurso político em Roma, em 2019, a futura primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni, na época com 42 anos, ganhou destaque no país ao afirmar: “Sou mulher, sou mãe, sou italiana, sou cristã”. A clara posição conservadora e as promessas de mudanças fizeram com que, três anos depois, no último domingo 25, a coalizão encabeçada pelo seu partido, o Irmãos da Itália (Fratelli d’Italia), fosse a grande vencedora das eleições parlamentares. Giorgia será a primeira mulher a ocupar o cargo de premiê italiana.

Ao assumir a terceira maior economia da União Europeia (UE), atrás apenas da Alemanha e da França, ela terá desafios enormes e, de maneira geral, muito parecidos com os enfrentados por toda a Europa, como inflação alta, risco de recessão, escassez de energia e alta dos preços, crise demográfica, imigração em massa, desemprego, violência. Parte dos problemas, especialmente a crise econômica, é reflexo das medidas restritivas adotadas pelos governos da UE para combater a pandemia de covid-19 e das sanções impostas à Rússia pela invasão da Ucrânia.

Considerada uma eurocética, a italiana deverá adotar um postura mais rígida e crítica em relação à UE, especialmente quanto a repasses e tentativas de alteração das leis de imigração. Um “Brexit” italiano, contudo, está fora de cogitação, uma vez que a Itália é um dos países fundadores do bloco.

Uma conservadora no comando da Itália

O fato, porém, de ser a primeira mulher a comandar a Itália não despertou comoção da imprensa mundial. Pelo contrário. Os meios esquerdistas falam em “temor” pelas posições políticas conservadoras da futura primeira-ministra, que, durante a campanha, fez discursos claros contra as ideologias ditas “progressistas”, que se alastraram pelo Ocidente, sobretudo pela União Europeia e pelos Estados Unidos.

Ao discursar para conservadores na Espanha, em junho deste ano, Giorgia inflamou a plateia ao anunciar suas bandeiras, de forma explícita: “Ou se diz sim ou se diz não. Sim à família natural, não aos lobbies LGBT. Sim à identidade sexual, não à ideologia de gênero. Sim à cultura da vida, não ao abismo da morte. Sim à universalidade da cruz, não à violência islâmica. Sim às fronteiras seguras, não à imigração em massa. Sim ao trabalho para nossos cidadãos, não às grandes finanças internacionais. Sim à soberania dos povos, não aos burocratas de Bruxelas. Sim à nossa civilização, e não àqueles que querem destruí-la”.

O trecho do discurso abarca um sentimento de muitos conservadores, que se veem representados por posições diferentes do pensamento único de esquerda, dominante na UE. Um dos focos é a política migratória europeia, que promove um processo descontrolado. Hoje, de acordo com o Departamento de Estatísticas da Itália (Istat), o país registra pouco mais de 5 milhões de estrangeiros residentes, que somam cerca de 10% da população, de um total de 59 milhões. É um porcentual muito elevado. Conforme dados do Eurostat de 2021, a UE tem 5,3% de estrangeiros na população de 447,2 milhões de habitantes nos 27 Estados membros. A título de comparação, o Brasil tem 0,4% de estrangeiros.

Os imigrantes custam muito para o Estado. De acordo com a lei nacional e tratados internacionais com a União Europeia, o governo deve garantir moradia e alimentação enquanto o estrangeiro permanecer em solo italiano. A maioria é formada por imigrantes econômicos, e não por exilados políticos, e, portanto, não teria direito de permanecer na Europa. Porém, enquanto não são identificados, o governo deve garantir aos forasteiros uma estada digna.

Carlo Cauti, cientista político e jornalista italiano que mora Brasil, lembrou a existência de cidades do sul da Itália — a linha de frente para a chegada de imigrantes do norte da África, especialmente Tunísia, Líbia e Argélia, e do Oriente Médio — que já têm mais moradores estrangeiros do que italianos. “Isso não é apenas uma migração, mas uma substituição da população. É inaceitável para qualquer país.”

Em Prato, por exemplo, uma cidade na Toscana, região central do país, há uma comunidade de 29 mil chineses, que corresponde a 15% da população total. Nesse caso, a prefeita, Adriana Nicolina Rosaria Cogode, disse que mais da metade dos chineses vive como fantasma. “Nada sabemos, nem onde trabalham, nem em que condições vivem”, declarou à comissão bicameral do Parlamento italiano, em fevereiro deste ano. “São pessoas que chegam com visto de turista e vão ficando, sem se preocupar com a legalidade.” Segundo a prefeita, em 2021 apenas um imigrante chinês fez a solicitação para adquirir cidadania italiana. “A Europa está sendo invadida por milhões de pessoas que não querem se integrar, que, muitas vezes, olham a cultura europeia com hostilidade”, resumiu Cauti, cuja família mora na Itália.

O mesmo fenômeno ocorre com os islâmicos, mencionados por Giorgia em seu discurso, que chegam à Europa e continuam vivendo com suas próprias regras sociais e culturais. “A abordagem inteligente é: ‘Você entra na minha casa de acordo com as minhas regras’”, afirmou Giorgia, ao jornal The Washington Post.

Apesar de ser uma sigla que usa cores e símbolos associados ao Movimento Social Italiano, partido fundado por apoiadores do ditador italiano Benito Mussolini, o grupo nunca defendeu o fascismo

Na campanha, ela chegou a propor asilo a imigrantes venezuelanos — castigados pela ditadura de Nicolás Maduro — que são cristãos, em vez de receber islâmicos. “Duvido fortissimamente que consiga”, avaliou o cientista político Adriano Gianturco, coordenador do curso de Relações Internacionais do IBMEC de Belo Horizonte. “É uma fala de propaganda eleitoral”, Giorgia também associou a migração desordenada ao aumento da criminalidade. “Permitir a entrada de centenas de milhares de pessoas e depois deixá-las traficando drogas ou se vendo forçadas a se prostituir nas margens da nossa sociedade não é solidariedade.” Em Prato, a maior Chinatown da Europa, dados apresentados na comissão parlamentar revelam que 59% dos acusados de crimes e 68% dos presos em 2021 eram estrangeiros.

Em relação à pauta feminina, Gianturco lembrou que Giorgia não é apenas a primeira mulher eleita para o cargo, mas a primeira candidata entre os principais partidos italianos. “Quem defende pautas ligadas à igualdade de gênero, que são os partidos de esquerda, nunca lançou uma candidata mulher”, observa. “Como ela é de direita, isso não conta”, diz o professor, lembrando que Giorgia pertence a um partido chamado pela oposição de ultraconservador de extrema direita e o preside há oito anos. “É muita hipocrisia.”

Apoiadores com bandeiras do Irmãos da Itália durante a viagem eleitoral de Giorgia Meloni em Caserta, para as eleições políticas italianas (18 de setembro de 2022) | Foto: M. Cantile/Shutterstock

A imprensa mundial publicou manchetes condenando Giorgia Meloni aos títulos de “extremista”, “fascista” e “totalitária” e acusou o Irmãos da Itália de ser um partido pós-fascista. Gianturco explicou que se trata, de fato, de uma sigla herdeira do velho Partido Fascista, de Benito Mussolini. No entanto, evidentemente não é fascista, ideologia cuja apologia é proibida na Itália, assim como o nazismo é proibido na Alemanha e em diversos países.

Apesar de ser uma sigla que usa cores e símbolos associados ao Movimento Social Italiano, partido fundado por apoiadores do ditador italiano Benito Mussolini, o grupo “nunca defendeu o fascismo”, disse Henry Olsen, colunista do Washington Post. “O fascismo é um fenômeno histórico que acabou com a morte de Mussolini”, acrescentou Carlo Cauti. “A Giorgia Meloni não é fascista. É conservadora, é de direita, o que é perfeitamente legítimo. Não há nenhum risco de ruptura democrática ou rompimento da ordem pública.”

Os estragos da pandemia e os desafios econômicos 

Na área econômica, Giorgia terá um enorme obstáculo a transpor: fazer o país crescer, em meio a uma crise global. Desde que a UE adotou o euro como moeda única, em 2002, a economia italiana estagnou — a Itália nunca cresceu mais de 2% ao ano, exceto pelo salto pós-pandemia do ano passado. Também nunca se recuperou da crise financeira de 2008; de lá para cá o desemprego nunca ficou abaixo de 8%, e seu PIB real per capita permanece mais baixo do que era em 2007.

E é exatamente por isso — mas não só — que os italianos votaram pela mudança. Eles também ficaram descontentes com as medidas draconianas adotadas durante a pandemia. “Entre os países democráticos, foram as medidas mais restritivas do planeta”, afirmou Gianturco. Além da supressão de direitos, as medidas arrasaram com a economia. O Irmãos da Itália foi um crítico assíduo dos desmandos do então primeiro-ministro, Giuseppe Conte, que, com a crise gerada pela pandemia, perdeu apoio no Parlamento e acabou renunciando, em fevereiro de 2021. O sucessor, Mario Draghi, também não aguentou a pressão e renunciou, em julho deste ano, mas continua interinamente no cargo.

Enquanto ainda se recuperava dos efeitos da pandemia, a Itália precisou enfrentar uma seca severa, a pior em 70 anos, no verão deste ano. A falta de chuvas e o calor extremo castigaram o Vale do Rio Po, no norte da península, lar do arroz arbóreo e responsável por um terço de toda a produção agrícola. A seca também reduziu a produção e a distribuição de dois itens tradicionalíssimos da gastronomia italiana  — o azeite e a passata (polpa de tomate cozida), que começaram a faltar no país.

A mudança nas urnas

No domingo 25, o desejo de mudança ficou claro. O partido de Giorgia recebeu 26% dos votos; a Liga, do senador e ex-ministro do Interior (2018-2019) Matteo Salvini, 8,8%; e o Força Itália, do ex-primeiro-ministro Silvio Berlusconi, 8,1%. Somados, os três partidos terão 237 das 400 cadeiras na Câmara dos Deputados. A coalizão também terá maioria no Senado, com 115 cadeiras de 200.

O apoio dado à coalizão, que terá 60% das cadeiras do Parlamento — um número inédito na história da República italiana —, pode não garantir todas as reformas prometidas na campanha, mas traz uma esperança: “Será um governo mais duradouro”, disse Gianturco. “Isso é praticamente uma certeza”. A média de duração dos governos dos primeiros-ministros italianos é de um ano e meio. O forte apoio ocorreu depois de mudanças na legislação eleitoral, que tinham justamente o objetivo de garantir mais governabilidade ao país.

Gianturco lembra que o Movimento 5 Estrelas (M5S), da base do atual governo, tinha uma posição contrária aos Estados Unidos, à Organização do Tratado do Atlântico Norte e à UE. “Quando chegou ao governo, reviu totalmente essas posições”, comentou. Isso faz com que ele acredite que Giorgia dificilmente conseguirá manter a postura defendida em campanha. “Muitas coisas são discursos de campanha. Quando se chega ao governo, aí se enxerga a realidade.” Isso porque seu governo dependerá, no âmbito econômico, em grande parte, do apoio da União Europeia e do Banco Central Europeu. Quanto à visão mais conservadora, a italiana poderá enfrentar resistência no Parlamento Europeu. A França, depois da vitória de Giorgia, já declarou que “estará atenta” a eventuais mudanças legislativas na Itália, para proteger o acesso das mulheres ao aborto.

Para Carlo Cauti, a vitória da direita italiana se soma a uma tendência mais conservadora na Europa, com Suécia, Hungria e Polônia, natural nas democracias, mas revela que a UE “terá de mudar, sob pena de mais europeus continuarem votando em partidos críticos em relação a Bruxelas [sede da UE]. Tem de dar um sinal positivo para que os cidadãos voltem a acreditar que a União Europeia é solução, e não parte do problema”.

Como observou o jornalista J.R. Guzzo, colunista de Oeste, “Giorgia Meloni, acima de tudo, comete o desafio imperdoável de pensar com a própria cabeça, propor medidas que os seus eleitores aprovam, e não levar a sério, como mandam as leis religiosas da mídia mundial, a política miúda das merkels, macrons e outras nulidades absolutas, com pose de estadista, que levaram a Europa à situação em que ela está no momento — recessão, inflação recorde, mendicância energética e medo do frio no próximo inverno”.

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5 comentários Ver comentários

  1. Os europeus sempre foram socialistas de exportação, agora começaram sentir na pele o que é escassez. Com a pólvora dos outros eu também atiro

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