Manifestantes participam do protesto Extinction Rebellion, para acabar com os combustíveis fósseis, em Londres (9/4/2022) | Foto: Loredana Sangiuliano/Shutterstock
Manifestantes participam do protesto Extinction Rebellion, para acabar com os combustíveis fósseis, em Londres (9/4/2022) | Foto: Loredana Sangiuliano/Shutterstock

Por que os ecoativistas são tão hostis com a humanidade

O desprezo do grupo Just Stop Oil pelas massas não deveria ser uma surpresa

Algo parecido com uma guerra de classes irrompeu nas ruas de Londres. De um lado, estão os trabalhadores lutando pelo direito de fazer seu trabalho, de cuidar de seus afazeres cotidianos sem empecilhos. E do outro lado estão os refinados arautos da catástrofe ecológica do movimento verde. Aquelas figuras de classe média que em geral tiveram acesso ao ensino privado e acreditam que a Revolução Industrial foi a pior coisa que já aconteceu e que logo seremos consumidos por um apocalipse climático provocado pelas massas. Mais uma vez, as classes operárias estão se manifestando contra esses profetas do fim do mundo nascidos em berço esplêndido, e eu estou com elas.

Just Stop Oil, uma ramificação do lunático Extinction Rebellion, está bloqueando estradas em Londres. E está exigindo que o governo interrompa toda a produção de energia baseada em combustíveis fósseis. Sim, em plena crise energética, em que muitas pessoas não sabem se vão conseguir manter a calefação funcionando durante o inverno, esses ativistas de classe média alta estão basicamente dizendo: “Vamos produzir menos energia!”. O que estou ouvindo é: “Deixem os idosos morrerem de frio”. Como era de esperar, pessoas que têm empregos e vidas não estão felizes com todos esses bloqueios. E hoje alguns deles tomaram uma atitude. “Não estou brincando”, disse um motorista, para os agitadores antipetróleo.

Alguns tomaram os cartazes dos manifestantes. Outros os removeram das estradas. Enquanto um sujeito furioso arrastava um dos profetas amadores da rodovia, uma mulher afirmou: “Meu Deus, você vai machucá-lo. Pare”. Ao que o homem respondeu: “Então saiam das estradas”. Quero uma camiseta com essa frase. Encontrei um bloqueio do Just Stop Oil na Avenida Shaftesbury. Mais uma vez, foi uma batalha entre classes. Jovens trabalhadores com equipamento de construção tentavam conversar com os histéricos do clima para poder ir para casa. Os manifestantes, com o tom sofrido e paternalista de uma diretora de escola repreendendo um estudante indisciplinado, responderam que estavam fazendo o protesto para o bem deles e pelo bem do planeta. “Fantoches do inferno”, comentou um dos operários.

Jovens trabalhadores com equipamento de construção tentavam conversar com os histéricos do clima para poder ir para casa

O Just Stop Oil não está incomodando apenas os trabalhadores, pessoas que são social e economicamente produtivas, eles também estão prejudicando os doentes e vulneráveis. Hoje eles bloquearam um carro de bombeiros e uma ambulância. No trecho de um vídeo impressionante, é possível ouvir um homem dizendo para os manifestantes: “Tem uma pessoa doente, saiam da via! Alguém está passando mal, vocês são idiotas?” Com extrema insensibilidade, um manifestante responde: “Se a pessoa está doente, não deveria estar dirigindo”. Paciente e aflita, a pessoa abordada explica o óbvio: “Não, a pessoa no banco do passageiro está doente. Você é idiota?” Imaginem o grau de arrogância — e de desumanidade generalizada — que alguém precisa ter para bloquear a passagem de uma pessoa doente e depois zombar do cidadão que se compadece do doente e o deixa passar.

Em outro vídeo, um homem diz: “Tenho uma consulta no hospital. Sou surdo, me deixem seguir minha vida e parem de nos atrapalhar”. Depois, ele apela para a multidão, em que algumas pessoas claramente ainda entendem a importância da solidariedade e afirma: “Onde está a polícia? Para que estamos pagando impostos? Para ter nossa vida prejudicada por esses idiotas? Isso está errado”. Foi um discurso improvisado que tocou a razão central por que as pessoas estão tão bravas com tudo isso. Elas sentem que sua vida está sendo perturbada por ricos neuróticos e que as autoridades não estão fazendo o necessário para resolver o problema. No domingo, um policial me empurrou para fora da via — eu estava pacientemente explicando para os manifestantes que eles são uma ameaça para os direitos e os meios de subsistência dos trabalhadores — e deixou os ativistas no mesmo lugar. (Claro, muitos foram presos depois de um tempo.)

De minha parte, tenho um forte orgulho da revolta contra o Just Stop Oil. Essa é uma ação direta. Ela ecoa os protestos anteriores contra o Extinction Rebellion e o Insulate Britain. Quem consegue esquecer o grito de um dos homens que retiraram um fantoche do Insulate Britain da rodovia em outubro do ano passado para deixar uma ambulância passar: “É uma ambulância, seu imbecil de merda. Saia da estrada!”. A linguagem política em sua forma mais simples e mais universal. As elites — de policiais à classe política, passando pela maior parte da mídia — podem se solidarizar com esses grupos do Fim dos Tempos, mas a maioria das pessoas normais, não.

Manifestantes participam do protesto Extinction Rebellion, para acabar com os combustíveis fósseis, em Londres (9/4/2022) | Foto: Loredana Sangiuliano/Shutterstock

A questão é: o mal que os manifestantes fazem às pessoas comuns não é um subproduto acidental dessa agitação apocalíptica. Até mesmo o desdém que eles claramente sentem — e às vezes expressam — pelas pessoas que estão só tentando chegar ao trabalho ou a uma consulta no hospital não é apenas um desdobramento de seu objetivo principal de “aumentar a conscientização”. Não, o incômodo é o objetivo. O desprezo mal disfarçado pelas massas é o principal. O escárnio que eles obviamente sentem por nós, concorrentes na corrida de ratos, andando pela cidade e fazendo nossos trabalhos estúpidos, é crucial para o panorama completo. O ambientalismo é fundamentalmente um movimento contra as pessoas, e é por isso que o Just Stop Oil — assim como o Extinction Rebellion, em termos mais amplos — fica tão feliz em irritar as pessoas.

Na raiz, o ambientalismo é uma ideologia antimassas e antimodernidade. Ele considera os seres humanos quase uma praga para o planeta. Consumimos demais, andamos de carro demais, geramos lixo demais. Tudo o que fazemos é medido não por quanta alegria ou importância isso tem na nossa vida, mas pela “pegada de carbono” deixada. Ter filhos, sair de férias, ir de carro para o trabalho — cada atividade nossa é considerada uma festa da poluição. E, quando você enxerga as pessoas como uma catástrofe, como os autores do apocalipse enxergam, você acaba sentindo muito desprezo por suas vidas e suas aspirações. É por isso que o Just Stop Oil não se importa de impedir que você chegue ao trabalho e até mesmo ao hospital: porque, de acordo com seu evangelho verde misantropo, todos esses comportamentos são poluidores e, em consequência, ruins. Logo, eles precisam ser restritos. Quando você considera a humanidade o problema, logo você vai começar a odiar os seres humanos.


Brendan O’Neill é o repórter-chefe de política de Spiked e apresentador do podcast da Spiked, The Brendan O’Neill Show. Ele também está no Instagram: @burntoakboy

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5 comentários Ver comentários

  1. Sou a favor de qualquer manifestação ou liberdade de expressão, seja ela qual for…desde que seja de forma pacífica e não retire o direito das pessoas de ir e vir.

  2. Algumas pessoas nascem com algum retardo mental e isso é motivo de nossa compaixão, mas outros nascem normais e escolhem ser retardados por conta própria… Isso não é crime, mas deveria.

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