Foto: Montagem Revista Oeste/Shutterstock/Freepik
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Vivendo no inferno

Politicos de hoje perdem a noção de honra sendo observados 24 horas por dia, sete dias por semana

“A mudança de governantes é a alegria dos tolos”, diz um antigo ditado popular romeno; e, sem dúvida, os últimos eventos no Reino Unido deram a esses tolos muito para celebrar. Tivemos três primeiros-ministros na mesma quantidade de meses e, apesar de todos serem diferentes entre eles, porque todos os seres humanos são diferentes, não existe nenhuma certeza de que nenhum deles seja melhor que os demais. É como se pertencer à classe política fosse em si uma prova de mediocridade aliada à ambição, uma combinação bastante infeliz de características.

Sempre foi assim? Talvez eu esteja romantizando o passado, mas me parece que, pelo menos na Inglaterra, a classe política, se é que ela existia de forma nítida e claramente distinguível em relação ao restante da população como é hoje, tinha uma qualidade superior à atual. Em geral, ela tinha enfrentado alguma dificuldade pessoal, ainda que tivesse sido apenas na Segunda Guerra Mundial, e a dificuldade (que eu mesmo nunca vivenciei para além do tipo causado por mim mesmo) é a escola do caráter.

Charles de Gaulle, enfrentando François Mitterrand em uma eleição na França, foi informado por seus conselheiros de alguns dos muitos defeitos morais de seu oponente, mas se recusou a fazer uso dessas informações — que, de todo jeito, não eram novidade para ele — porque, para De Gaulle, o outro candidato podia ser eleito, e o país precisava que seu presidente mantivesse algum tipo de autoridade moral, ainda que na verdade Mitterrand fosse um canalha desprovido de princípios. É difícil imaginar algum político atual na mesma situação colocar os interesses do seu país acima de sua própria sede de poder.

Charles de Gaulle
Charles de Gaulle | Foto: Reprodução/Élysée

Richard Nixon, que estava longe de ser um gigante moral, sabia perfeitamente que os democratas haviam roubado as eleições em 1959 e que John F. Kennedy não era um presidente eleito legitimamente. No entanto, ele se recusou a fazer escândalo sobre isso, porque achava que o bem do país estava acima de sua ambição pessoal, e a Presidência era maior que o homem, incluindo ele mesmo.

Richard M. Nixon, em 1971
Richard M. Nixon, em 1971 | Foto: National Archives and Records Administration (NARA)

Na Inglaterra, um homem chamado John Profumo caiu em desgraça por causa de um escândalo sexual do tipo adorado pelos britânicos profundamente puritanos, mas também profundamente hipócritas, durante o qual ele supostamente colocou a segurança nacional em risco. Ele foi forçado a renunciar, e posteriormente seu caso foi tratado como prova da decadência moral e da corrupção da classe governante da época.

No fim das contas, essa foi a lição errada a ser extraída desse acontecimento. Imediatamente depois da renúncia, Profumo desapareceu por completo da vida pública, dedicando-se ao trabalho social e nunca tirando vantagem da fama, para, por exemplo, escrever um livro de memórias, que teria lhe rendido uma fortuna. Ele se manteve em silêncio de 1963 até sua morte, em 2005. Longe de ser um homem inescrupuloso, ao contrário, Profumo foi honrado, ainda que falho.

John D. Profumo
John D. Profumo | Foto: Reprodução/Wikimedia Commons

A honra de Profumo foi do tipo muito raro, se não totalmente extinto da política atual. Se um político é forçado a renunciar ao ser pego fazendo algo que não deveria estar fazendo, ele é submetido a uma breve suspensão e volta pouco depois, de forma totalmente descarada e em geral em um cargo superior ao que foi obrigado a deixar. Praticamente nada consegue acabar com uma carreira na política moderna: hoje Profumo não apenas teria retornado à política rápido, mas teria uma carreira paralela na TV como celebridade. É necessário para o sucesso na política hoje em dia, ter o couro de um rinoceronte e a moral de uma cobra.

A vida de um político é piorada pelo escrutínio constante e inescapável a que é submetido. Sua vida é vivida como se estivesse sob constante advertência policial

Claro, isso significa que apenas as piores pessoas entram nessa ou, pelo menos, chegam longe quando de fato embarcam nessa. É perfeitamente possível, até provável, que muitos políticos comecem com a vontade de fazer o bem, mas abandonam tudo ou são corrompidos no processo pela desonestidade generalizada, pelo cinismo e pelo empurra-empurra dos cargos que a profissão exige. A vida de um político moderno é um inferno, com exceção dos narcisistas e dos exibicionistas. O desejo de poder ou, pelo menos, de mandatos (o que não é a mesma coisa) deve ser arrebatador, e todo o resto é sacrificado em nome dele. Um dos principais talentos necessários é a traição sem crise de consciência.

A vida de um político é piorada pelo escrutínio constante e inescapável a que é submetido. Sua vida é vivida como se estivesse sob constante advertência policial. Quando um suspeito de cometer um crime era preso na Inglaterra, a polícia costumava dizer (os termos mudaram para pior, claro): “Você não precisa dizer nada, mas tudo o que disser será registrado e pode ser usado como prova contra você”. Só que, no caso de um político, ele não pode se manter em silêncio e precisa falar, como um jogador precisa chutar bola, mas para o político a partida dura 24 horas por dia, sete dias por semana, e não 90 minutos. Ele está sob vigilância constante, ainda mais porque todo mundo na sua equipe pode gravar alguma coisa ou tudo o que ele disser, como se estivesse vivendo em um Estado totalitário. Portanto, ele está trabalhando o tempo todo e nunca pode baixar a guarda. Isso esvazia sua mente e o leva implacavelmente ao clichê. Se você fala em clichês por muito tempo, começa a pensar em clichês, e então não consegue mais pensar em nada. Quanto ao humor, ele se torna um risco, porque piadas podem afundar carreiras.

Em geral, a transparência na política é considerada uma coisa boa, mas com certeza Bismarck estava certo ao dizer que não se deve revelar como são feitas as salsichas e as leis. Precisa haver uma interação entre o oculto e o revelado, assim como na nossa vida. Quem de nós iria querer viver sob as condições exigidas pela vida política moderna? Enquanto exigirmos exposição total e abertura total dos nossos políticos, vamos ter tanto o que desejamos quanto o que desprezamos profundamente. Nossa mistura de pruridos intermináveis e pronta indignação vão garantir isso.

Leia também “Aversão a eleições”

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9 comentários Ver comentários

  1. A nova ‘cultura’ esvaziou o conceito de verdade objetiva, tudo é julgado segundo um critério ideológico. Um político de esquerda que seja discreto é apenas chamado de reservado, mas um político de direita discreto é rotulado de obscuro…..

  2. Mas a vida pública é uma escolha e se ganha muito bem para aguentar essas pressões. Se a pessoa acha que tá ruim é só não se candidatar mais. Pronto.

  3. Caro Theodore, saudações. Sou grande admirador de seus artigos. Raciocínio simples, claro e inteligível, à altura da compreensão de qualquer um. Sua visão da política é a que mais me inspira e agrada. Como não podemos mudar os políticos, podemos pelo menos mudar de alguma forma a ordem das coisas. Minha bandeira na política é impedir o comunismo no Brasil. Com os políticos a gente se ajeita.

  4. Todos temos qualidades e defeitos. Na política temos de escolher quais defeitos são aceitáveis e quais não são, o que não aconteceu nas eleições de 2022. Nivelaram o jeito grosseiro do Bolsonaro e a inevitável aproximação ao centrão, com todos os crimes perpetrados por Lula e sua quadrilha petista. O resultado será a falência completa do país.

    1. “Nivelaram”? Segundo a narrativa o Bolsonaro é a personificação do mal, assassino de índios e negros, genocida, colocaram até 700 mil mortes nas costas dele. Oh, ele queima a Amazônia também e é um risco para toda humanidade. Por fim, ele é um risco para a democracia…

      Já Lula, ora, este é amor, não deve nada a justiça, é a esperança de quem quer o fim do racismo e do desmatamento. O fato do Lula ter feito um dos esquemas mais anti-democráticos da história recente, ao comprar políticos para votarem de acordo com a intenção do PT, desconsiderando o povo que os representa, foi devidamente esquecido. E se alguém tentasse lembrar, era ou censurado pelo STF, ou recebia como respostas algo como “Bolsonaro fez pior!”, sem que nenhuma evidência fosse apresentada.

      Essa foi a eleição que provou que narrativa são mais fortes do que fatos. Sempre. É uma deficiência do ser humano que é explorada com maestria por malandros que sabem se aproveitar da democracia. Como diz aquele árabe do vídeo, “democracia é o governo do povo para o povo, mas o povo é retardado”.

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