Feminismo: o novo machismo

A nova lógica das ativistas é a submissão à ideia do feminismo pelo sofrimento e pela força, não pelo convencimento e por vitórias

Há uma resistência entre as mulheres a se dizerem feministas, e ela não está ligada à questão da equidade entre os sexos, é relacionada a características da militância mais aguerrida e, provavelmente, à falta de resultados práticos nos últimos anos.

Exceto em países que sofreram retrocessos políticos significativos, como Irã e Afeganistão, nos demais as mulheres efetivamente conquistaram nas últimas décadas liberdades e direitos de que não dispunham anteriormente. “Houve um progresso notável na igualdade de gêneros. Durante o último século, na maioria dos países as mulheres receberam direitos políticos, econômicos e sociais básicos. Restrições a votar, ir à escola e trabalhar em diferentes áreas econômicas foram suspensas, com o princípio da equidade garantido em Constituições”, aponta o relatório Perspectivas de Desenvolvimento Humano 2020 do Pnud, o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento.

A publicação questiona se, apesar de ainda existir desigualdade de direitos, teríamos chegado a um platô no avanço da equidade, já que os dados da última década mostram que não há resultados significativos ou comparáveis aos obtidos em anos anteriores. Pode ser coincidência, mas o período de estagnação na conquista de direito das mulheres corresponde ao que é descrito como a “Quarta Onda” do feminismo pela escritora Meghan Daum, autora de The Problem with Everything — My Journey through the New Culture Wars (O Problema com Tudo — Minha Jornada pelas Novas Guerras Culturais), ainda sem edição no Brasil.

Conforme define Meghan Daum, “a Quarta Onda do feminismo surgiu por volta de 2012, muito baseada na internet, e é uma espécie de ativismo que se expressa on-line, com muito mais intersecções; é um feminismo bem mais preocupado com questões raciais, de gênero”.

Para a escritora, o problema principal é o descolamento entre o ativismo e a realidade. “As mulheres obtêm mais diplomas de nível superior, são mais saudáveis do que sempre, estão indo melhor em todos os setores, mas você não saberia disso pelo que tem dito o movimento feminista. O feminismo tem essa ideia de que toda a imprensa é patriarcal, de que as mulheres vivem sob o jugo da masculinidade tóxica, da cultura do estupro e que essas ideias são as que prevalecem. Então, é aí que eu acho um tanto… um tanto esquisito”, observa Meghan Daum.

Muitas mulheres querem equidade de direitos, mas preferem não se posicionar como feministas

Existe uma resistência grande a identificar-se com o feminismo mesmo entre as pessoas que conhecem bem o movimento e acreditam na ideia de equidade de direitos entre homens e mulheres. A sociedade brasileira na prática se divide em duas quando o tema é saber exatamente o que é feminismo, aponta a pesquisa do Instituto Locomotiva, encomendada pelo Instituto Avon, “O papel do homem na desconstrução do machismo”. Entre os 49% que conhecem o feminismo só de ouvir falar, apenas 23% o consideram positivo. Mas, entre os 51% que o conhecem (bem ou um pouco), os números também não são animadores: 44%, menos da metade, acham o feminismo positivo.

Mas o que explicaria o fato de mulheres concordarem com a equidade de direitos, o que está nas raízes do movimento feminista, mas não se dizerem feministas? A questão foi aprofundada em um estudo de 2017 conduzido pela doutora em filosofia Maartje van den Dungen Meijs e pelo professor de psicologia social Joris Lammers. Eles publicaram, pela Universidade de Colônia, na Alemanha, A Discrepância entre Como as Mulheres se Veem e Veem as Feministas.

O trabalho, que teve como base três pesquisas com mulheres norte-americanas, lista outras características apontadas em estudos anteriores, tais como:

  • não apoiam a equidade;
  • apoiam a equidade mas não veem o tema como bandeira feminista;
  • não conhecem o tema;
  • não consideram vantajoso lutar coletivamente por esses direitos;
  • veem feministas de forma negativa;
  • sentem-se diminuídas diante das feministas;
  • temem ser estereotipadas caso se digam feministas.

Uma das conclusões é que “algumas mulheres são desestimuladas a se identificar com o feminismo não apenas por terem uma visão negativa das feministas, mas porque a visão que têm das feministas não combina com a imagem que cultivam de si próprias”.

A pesquisa dividiu as características entre “competência” e “calor humano”. As mulheres atribuem a si uma nota menor em competência e maior em calor humano do que atribuem às feministas.

Detalhando as características, temos na categoria calor humano:

  • preocupada com a aparência;
  • atraente;
  • engraçada;
  • simpática;
  • afetuosa;
  • mente aberta.

Apenas no quesito “atraente” as mulheres deram a si notas semelhantes àquelas que atribuem às feministas. As maiores diferenças estão em preocupação com a aparência e mente aberta.

Na categoria competência, temos:

  • ambiciosa;
  • independente;
  • teimosa;
  • prioriza a carreira;
  • inteligente.

Em todos os quesitos, as mulheres se atribuíram notas menores que as dadas às feministas, ficando a maior semelhança em inteligência.

“Quando a cantora pop Katy Perry ganhou o Billboard Women in Music Award, em 2012, ela disse, em seu discurso de agradecimento: ‘Não sou feminista, mas realmente acredito na força das mulheres’. Não foi um incidente isolado. Muitas mulheres que aceitam as premissas básicas da ideologia feminista são, apesar disso, relutantes em se intitular feministas. Um estudo descobriu que, embora mais de 90% das mulheres norte-americanas concordem com pelo menos algumas das premissas básicas da ideologia feminista, apenas 16,6% se identificam como feministas”, diz a pesquisa publicada na Alemanha.

Utilizar clichês como “opressão do patriarcado” ou “cultura do estupro” é passaporte para ser considerada feminista

 E aí surge outro questionamento: será que as mulheres que formam um movimento ruidoso e superficial de frases feitas realmente acreditam nas premissas feministas? “Definitivamente há uma espécie de ‘mensagem aprovada’ que você deve disseminar”, aponta Meghan Daun, dando como exemplo um dos mitos preferidos nas redes sociais: “É a ideia de que existe algo como masculinidade tóxica. É muito fácil simplesmente despejar termos como esse por aí sem que ninguém se dê ao trabalho de defini-los com algum tipo de precisão. Se você usa esses termos nas redes sociais, ganha likes, retweets, todos os benefícios que vêm daí. Então, o incentivo para perpetuar essa cultura da reclamação é bem grande. E o prejuízo por questionar a cultura da reclamação e do ressentimento é enorme: você é posta no ostracismo e acusada de não apoiar as mulheres. Ser excluída do próprio grupo é realmente dolorido”.

Utilizar clichês como “opressão do patriarcado”, “cultura do estupro”, “homem branco opressor” ou “sororidade” é, dentro do feminismo cibernético, o passaporte para ser considerada feminista. Pouco importa agir em defesa das mulheres, da equidade de direitos ou até mesmo da liberdade da mulher. Um exemplo notável é o da geógrafa inglesa Sophie Lewis, autora de Full Surrogacy Now — Feminism against Family (Barriga de Aluguel para Todos — Feminismo contra a Família), que considera uma utopia a série O Conto da Aia.

Trata-se de uma série de ficção em que mulheres perdem todos os direitos básicos como trabalhar, ter propriedades, ler e controlar dinheiro. A maioria também deixa de ser fértil e, por isso, as que ainda podem ser filhos são isoladas e oferecidas como reprodutoras aos casais da elite. De que forma isso seria uma utopia aos olhos de uma feminista?

 “Ao prometer que uma solidariedade feminista ‘universal’ floresceria no pior de todos os mundos, a distopia funciona como um tipo de utopia: a visão da vasta maioria das mulheres finalmente vendo a luz e se reconhecendo feminista porque a sociedade começou a tratar como gado a todas elas, não somente as mulheres negras”, escreveu a feminista Sophie Lewis numa crítica.

Trata-se de um exemplo extremo, em que o uso da “mensagem pré-aprovada” e do vocabulário feminista glorifica o tratamento degradante a todas as mulheres como forma de conversão ao feminismo. A lógica é a submissão à ideia do feminismo pelo sofrimento e pela força, não pelo convencimento e por vitórias. O raciocínio de fundo não é muito diferente daquele utilizado por mulheres que apontam outras como “aliadas do patriarcado” ou “defensoras da cultura do estupro” quando estas questionam exageros ou afirmações inverídicas. As militantes esperam que as outras sucumbam às regras do grupo feminista pelo medo ou pelo sofrimento.

São novos tempos. Muito antigamente, quando se tentava tutelar a opinião de uma mulher, as pessoas chamavam esse comportamento de machismo.

Leia também nesta edição os artigos de Selma Santa Cruz e Dagomir Marquezi

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