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Chegou a hora de enfrentar a China — e a Rússia

O Ocidente pode impedir que os governos autoritários da China e da Rússia conquistem mais poder e continuem a subjugar seus povos

Os efeitos negativos do novo coronavírus expuseram os riscos das relações políticas e comerciais do Ocidente com o Partido Comunista chinês. Sucessivas lideranças políticas acreditaram nessa possibilidade, negligenciando o problema ético, comercial e geopolítico internacional. A estupidez política e o interesse econômico colocaram o mundo Ocidental numa situação delicadíssima.

O Reino Unido, por exemplo, está travando duas batalhas contra o Partido Comunista chinês: política e econômica. Na frente política, desde que devolveu a ilha, em 1997, tenta fazer pressão contra o aumento do controle da China sobre Hong Kong, que teve seu ponto mais crítico com a entrada em vigor da lei de segurança nacional, em 30 de junho. Na trincheira econômica, proibiu recentemente a utilização de equipamentos da empresa chinesa Huawei na instalação da tecnologia 5G no país. Os equipamentos já em uso deverão ser substituídos num prazo de sete anos.

A justificativa para a mudança de posição do governo britânico, que em janeiro autorizou uma participação restrita da Huawei na implantação da infraestrutura do 5G, foi a sanção do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que vedou a exportação para a empresa chinesa de semicondutores produzidos por empresas norte-americanas.

O Reino Unido está envidando esforços para conter a escalada intervencionista do PC chinês em Hong Kong

A decisão de Trump é parte da batalha maior, com consequências mais amplas e profundas, que vem sendo travada entre o governo dos Estados Unidos e a ditadura socialista da China. O mais recente episódio foi a ordem dada na quarta-feira pelo presidente Donald Trump para o fechamento do consulado chinês em Houston (Texas) até esta sexta-feira, dia 24. Presidente e políticos republicanos, como Marco Rubio, afirmaram que o consulado chinês opera como um centro de espionagem.

No início da semana, o Departamento de Justiça já havia acusado o regime chinês de contratar hackers para conseguir informações das vacinas que estão sendo desenvolvidas por laboratórios norte-americanos. Como parte dessa batalha, Trump vem pressionando países aliados para evitar negociações com a China. Um deles é precisamente o Reino Unido, que está envidando esforços para conter a escalada intervencionista do PC chinês em Hong Kong.

Desde 1842, com o fim da Guerra do Ópio, Hong Kong integrava o Império Britânico como colônia e voltou a pertencer à China, com o status de região administrativa especial, em 1997. Desde então, o regime chinês vem minando sua autonomia, violando liberdades, tomando as rédeas da política para submetê-la, de fato, ao socialismo em vigor no continente.

É impossível estabelecer qualquer relação política e comercial sem incorrer num dilema ético

Com o aumento da intervenção chinesa, Hong Kong pode repetir a triste sina de países que tiveram suas liberdades cassadas e empobreceram depois de submetidos ao socialismo. Caso a investida do Partido Comunista chinês continue no futuro, Hong Kong poderá ser comparada a si mesma como mais um exemplo negativo provocado pelas ideias e práticas socialistas, a exemplo da Coreia do Norte quando cotejada com a Coreia do Sul e Berlim Oriental com Berlim Ocidental.

Sendo a China governada por um Partido Comunista que mantém os cidadãos sob o jugo da ditadura do proletariado achinesada, é impossível estabelecer com o país qualquer relação de confiança, que é a base de relações políticas e comerciais, como demonstrou Alain Peyrefitte em seu livro Sociedade de Confiança: Ensaio sobre a Origem e a Natureza do Desenvolvimento (Topbooks, 1999).

Tendo conhecimento, mesmo que parcial, do que os líderes do PC chinês fazem com os chineses, é impossível estabelecer qualquer relação política e comercial sem incorrer no problema ético de ser coautor e financiador da violação sistemática das liberdades individuais e de prisão e assassinato de todos aqueles que são declarados inimigos do regime.

Economicismo marxista não combina com ideias liberais, muito menos conservadoras

É, aliás, uma brutal contradição usar o liberalismo, que se fundamenta na moral, para defender as relações comerciais com a China. Economicismo marxista não combina com ideias liberais, muito menos conservadoras. Mas há quem seja ingênuo ou tolo o suficiente para achar que a ampliação do intercâmbio econômico com o país resultará na ruína do sistema e no alvorecer de uma democracia liberal. É exemplo cabal a ênfase dada pela imprensa internacional ao aumento dos custos e ao atraso da implantação do 5G a partir da decisão do governo britânico.

Tirando os tolos e ingênuos, há quem ganhe muito dinheiro com o esquema atual e não esteja minimamente preocupado com as consequências do poder geopolítico e econômico que a China detém.

O que o PC chinês vem fazendo desde as reformas conduzidas por Deng Xiaoping a partir do final dos anos 1970 é justamente usar o mercado como instrumento de preservação da ditadura do proletariado e de um sofisticado mecanismo de intervenção social, política e econômica que se aproveita da tradição de 25 séculos do confucionismo, sistema baseado no respeito à hierarquia, para assim manter a população cativa, leal e obediente.

O regime chinês ainda mantém uma poderosa aliança com o governo da Rússia, comandado autocraticamente por Vladimir Putin. Nesse xadrez geopolítico, ambos os governos atuam em parceria tática para expandir suas respectivas áreas de influência sem que haja conflitos entre eles. E, sempre que necessário, aliam-se ocultamente para avançar com seus planos e neutralizar adversários, principalmente no Oriente e na Ásia.

O momento agora é de fazer uma escolha entre enfrentamento e capitulação

Para reverterem a dependência da China, governos terão de destravar sua economia interna e criar incentivos para repatriar ou atrair empresas estrangeiras que buscarem ambiente comercial mais favorável e mão de obra barata. Só com alternativas viáveis os empresários decidirão sair do território chinês. Isso abre uma grande janela de oportunidades também para o Brasil, que não pode cair no erro de facilitar investimento estrangeiro sem eliminar os entraves (burocracia, carga e sistema tributários) que atrapalham os empresários brasileiros com negócios aqui.

Para iniciar um movimento nesse sentido, que pode produzir um efeito irradiador importante e positivo internacionalmente, é fundamental a aliança especial e histórica entre Reino Unido e Estados Unidos — com apoio da União Europeia. A mesma aliança que foi vencedora na 2ª Guerra Mundial contra o nazi-fascismo pode impedir que os governos autoritários da China e da Rússia conquistem mais poder e continuem a subjugar seus povos. Certamente, haveria uma valiosa adesão de países do Leste Europeu que foram vítimas sob a União Soviética. Já passou da hora de corrigir o erro histórico que foi a parceria com Stalin para derrotar Hitler.

O momento agora é de fazer uma escolha entre enfrentamento e capitulação, mesmo sabendo que o custo econômico será significativo. Mas o ônus dessa transição será menor do que manter o Ocidente refém de Vladimir Putin e do Partido Comunista chinês.

Leia mais sobre os desafios do Ocidente no artigo de Selma Santa Cruz, “O que nos espera depois da pandemia?”


Bruno Garschagen é cientista político, mestre e doutorando em Ciência Política no Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa (Lisboa) e autor dos best-sellers Pare de Acreditar no Governo e Direitos Máximos, Deveres Mínimos (Editora Record).

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