Nesta segunda-feira, ao chegar em casa depois de um longo dia de trabalho, Jairo Leal decidiu, pelo menos naquela noite, trocar os ovos e o frango grelhado por uma bela macarronada. “Fiquei pensando no que o Guzzo gostaria de comer e resolvi homenageá-lo”, contou o publisher da Oeste, revista que fundou ao lado de José Roberto Guzzo e Augusto Nunes.
Amigos de longa data, Jairo e Guzzo trabalharam juntos na Editora Abril por décadas. Foram responsáveis por reformular e reerguer diversas publicações até então condenadas à derrocada. “A melhor definição do Guzzo que já escutei foi feita por um vice-presidente da Abril”, conta Jairo. “‘Pegue um barbante, dê um nó bem forte e peça a um milhão de pessoas para desatá-lo. As que conseguirem levarão horas. O Guzzo faz isso em dois segundos.’”.

A ideia de criar uma revista como a Oeste demorou alguns anos, centenas de conversas e muitos jantares para tomar forma. O empurrão que faltava veio com a repentina saída de Guzzo da Abril, depois que um texto seu sobre o Supremo Tribunal Federal foi censurado pela direção da empresa.
Jairo é um dos poucos que conheceu o homem por trás do jornalista brilhante. “Conversávamos sobre música. Ele gostava muito de jazz. Falávamos de filmes — ele adorava Perfume de Mulher —, de teatro e esqui”, conta. “O Guzzo foi um excelente esquiador.” Depois da revelação inesperada, Jairo faz uma pausa, respira fundo e conclui: “É difícil falar dele no passado.”
Como o senhor conheceu o J. R. Guzzo?
Na década de 1980, fui trabalhar com o Thomaz Souto Corrêa, que era vice-presidente da Editora Abril e comandava uma área que incluía todas as revistas, exceto Veja e Exame. Minha missão era ajudar a reorganizar os processos editoriais. Conheci o Guzzo em um jantar na casa do Thomaz. Ele contou uma história interessante. Ao entrevistar o presidente da França, Valéry Giscard d’Estaing, percebeu que ele estava deprimido e perguntou: “Poxa, mas você tem tudo, muito dinheiro, pode comprar o que quiser, ter o que quiser…”, e o presidente respondeu: “Desde que assumi o cargo, eu não sei o que é escolher uma roupa, usar uma carteira, portar um documento. Toda vez que viajo e quero algo, eu tenho. Quando chego a Paris, fecham o aeroporto. Isso o dinheiro não compra”. Antes disso, já tinha visto o Guzzo andando pelo estacionamento da Abril nas madrugadas de fechamento, com a cabeça meio baixa, mãos para trás, caminhando de um lado para o outro. Naquela época, a Veja não era automatizada, então começava a fechar na quarta e terminava no sábado de manhã. Tinha gente que ficava um, dois dias sem ir para casa. E ele ficava ali, andando sozinho, sem conversar com ninguém. Eu pensava quanta coisa ele devia ter em mente naquele momento.
Quando vocês começaram a trabalhar juntos?
Em 1994, o Guzzo saiu da Veja decidido a ter um ano sabático. Mas o Roberto Civita pediu para ele dar uma olhada na Exame, ver se depois da pausa poderia fazer algo para ajudar a reerguer a publicação. A Exame era uma revista de economia e negócios, mas tinha uma administração não muito capitalista. O Guzzo mudou toda a equipe. Acabei também indo para lá e aí começou nossa relação. Fiquei até 2000, quando fui para a Veja e ele ficou como conselheiro editorial. Depois, assumi as outras revistas da Abril e, mais tarde, a presidência, sempre mantendo contato estreito com o Guzzo. Ele escrevia de vez em quando para a Exame, e tinha tempo para conversar com os editores, aconselhar colegas. Lá por 2006 ou 2007, acertamos que escreveria artigos quinzenais para a Veja. Algumas pessoas foram contra. Três meses depois, ele era o mais lido da revista.
Como ele era visto na Editora Abril naquele tempo?
Guzzo sempre foi temido, invejado. Ele gerava certa insegurança nas pessoas em função do talento e do tamanho que tinha, por ser um ponto fora da curva. Além de escrever melhor do que os outros, ele entendia a lógica das coisas mais rapidamente. Nas reuniões, ele ficava fazendo desenhos e de repente falava: “Tá bom, o resumo é tal, tal, tal, tal… Isso aí poderia ter durado dez minutos”. Tem uma história que ouvi de um vice-presidente da Abril, no fim da década de 1970. Eu era um garoto, e o Guzzo, que assumiu a Veja depois do Mino Carta, já era considerado um cara brilhante. Perguntei a este vice-presidente como ele definiria o Guzzo. Ele falou: “Pega um barbante. Dá um nó bem forte e pede a um milhão de pessoas para desatarem. Elas vão levar uma hora. O Guzzo fará isso em dois segundos.” Nos textos, ele pegava um assunto complexo e escrevia sobre ele de uma forma simples, que todo mundo entendia.
O senhor chegou a comentar com o Guzzo sobre essas caminhadas solitárias na madrugada?
Sim. Ele dizia que era uma forma de aliviar a tensão. Era um tempo pesado também, estávamos sob uma ditadura. O Guzzo tinha algumas tiradas incríveis. Se alguém começava a elogiar muito o Brasil, por exemplo, ele dizia: “Quando você acha que o Brasil está muito bom, é hora de viajar para conhecer outras coisas”. É muito difícil falar dele no passado.
O que o Guzzo representa para o senhor?
Ele era um mentor. Ocupei posições nas quais você não tem com quem conversar e precisa tomar decisões o tempo todo sobre coisas que envolvem muita gente. E não dá para você sair e ter muitos amigos. O Guzzo sempre foi um cara que me ajudava a estruturar o pensamento. Quando você assume uma posição dessas, precisa ter gente em quem confiar.
O Guzzo costumava falar sobre o fato de a Veja ter crescido tanto nas mãos dele?
Ele gostava de ser reconhecido pelo feito, mas não ficava enfatizando isso. No enterro dele, a irmã falou o seguinte: “A vida toda ele foi empregado. Na Oeste, pela primeira vez ele foi patrão”. Não sabia que isso era algo tão importante para ele. Porque o Guzzo fez muito. O que ele fez na Veja foi espetacular. O conceito da revista, que nasceu de um jeito, foi se transformando num negócio vencedor. Tem uma lembrança muito legal. O Guzzo costumava colecionar frases para ajudar nas matérias. Um dia, estávamos conversando eu, ele e o Augusto Nunes, quando o Guzzo disse: “Augusto, eu queria passar isso para alguém e gostaria que fosse para você”. O Augusto ficou emocionadíssimo. Era uma coleção de 50 anos, um verdadeiro tesouro. E não tinha ninguém melhor do que o Augusto para ele passar isso.
Como foi que decidiram criar a Oeste?
Eu saí da Abril em 2013. Ele continuou escrevendo lá até que, em 2019, teve negada a publicação de um artigo em que criticava o Supremo Tribunal Federal. Havia um ou dois anos a gente já vinha conversando sobre lançar um projeto editorial. Éramos um grupo grande no começo, que foi diminuindo com o tempo até que ficamos eu, o Augusto (que na época estava na Veja) e o Guzzo, que escrevia um pouco na Exame, um pouco na Veja, mas não tinha mais uma atividade rotineira. Em outubro de 2019, no dia em que o Guzzo teve o artigo rejeitado, decidimos concretizar o projeto. Em março de 2020, lançamos a Oeste. De lá para cá, foram cinco anos em que o melhor do Guzzo apareceu. Foi na Oeste que ele se tornou o grande articulista, com textos extensos e maravilhosos, e onde teve liberdade total para escrever. Acho que não existirá outro Guzzo, de verdade.
Quando saíam para jantar, Guzzo costumava falar mais de jornalismo ou também sobre outros assuntos?
Ele era um grande crítico de como a imprensa dos últimos anos não estava conseguindo ter uma leitura correta do país, do mundo, levada muito por aspectos subjetivos, muita ideologia woke. Narrativas, em vez de fatos. Era difícil ele falar do passado. O Guzzo tinha apertado a mão de Mao Tsé-Tung. Foi um cara que conheceu o mundo inteiro, que viveu histórias fantásticas. Mas também conversávamos sobre coisas pessoais, que só se fala com um amigo.

Vocês tinham um gosto parecido para comida, certo?
Ah, muito. Na pandemia, os restaurantes não abriam, a Selma Santa Cruz me ligou e falou: “O Guzzo vai enlouquecer”. Eu o convidei para ir na minha chácara comer “um churrasquinho que eu faço, não é ruim”. Ele respondeu: “Nessa situação, eu como até rato”. Aí ele foi várias vezes, aproveitava para dar um mergulho. O Guzzo não conseguia entender como era possível fechar um país inteiro, enquanto o cara da feira e o do supermercado tinham que trabalhar. “Pô, Jairo, esses aí podem pegar covid?”, perguntava. Ele achava louco o processo todo, a higienização exagerada, o pânico monstruoso. Os fiscais soldando portas de lojas, bloqueando o trânsito e deixando todo mundo no metrô, onde mais gente ficaria concentrada. Nada fazia sentido e isso deixava ele irritadíssimo. Aí começaram a prender as pessoas na praia, nas praças. Na cabeça de um cara lógico como o Guzzo isso era bem difícil de entender.
Como era essa lógica do Guzzo?
Ele tinha expressões maravilhosas para explicar as coisas. Quando alguma coisa era impossível, o Guzzo dizia: “Isso aí é homem de 8 metros de altura”. Quando alguém falava que tinha carta-branca para fazer tal coisa, ele respondia: “É, mas carta-branca tem um monte de coisas escritas. Tem que saber ler”. Também gostava de dizer que “a mola que chia primeiro é a primeira que leva a graxa. Não deixe o tempo passar”. Passava conhecimento através de coisas simples, mas muito lógicas. E fazia isso dentro e fora das redações.
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Quem foi correto como J R Guzzo realmente não tem como entender o que fizeram na pandemia. Uns podem, outros não. Como?
Parabéns pelo texto, Ana Paula. O Guzzo foi uma inspiração para mim também. Agora você é uma das mãos que me ajudam com a espada.
Jairo Leal,tive o grande prazer em conhece-lo em um momento difícil, mas pude falar que você é um gênio do digital. Sim relatei que em uma pequena ilha do mar do Caribe,onde o celular não conseguia ter uma boa conexão, fiquei maravilhada quando tentei abrir a Revista Oeste e ela surgiu com perfeição em minha frente. Isso é para poucos. Sim o Guzzo nunca teve a possibilidade de expressar suas ideias tão livremente como na Oeste A Oeste o levou ao nível máximo do jornalismo, pura excelência. Os leitores sempre diziam que ele se superava a cada texto. Obrigada Jairo Leal por cuidar sempre de meu irmão. Bjo.