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O presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, participa de entrevista coletiva no Palácio do Planalto, em Brasília, Brasil, 3 de junho de 2025 | Foto: Adriano Machado/Reuters
Edição 288

Por quê?

O certo está nos certos, não nos errados. É imprescindível que não se perca isso de vista

Em que momento da história recente do País uma parte da sociedade brasileira decidiu que o absurdo não é absurdo, o abuso não é abuso, o inconstitucional não é inconstitucional e o erro pode ser relativizado a depender de quem? E que o CPF também é fator decisivo na hora de garantir direitos, os mais elementares e tidos como inalienáveis, assim como o ódio e a comemoração da morte, justificáveis? São questões que deveriam nos atormentar como sociedade por inteiro, não apenas a parte que continua defendendo o certo como certo e dizendo que o errado… bem, o errado é errado. E ponto. Deveria ser assim. Como não tem sido, apesar da evidência gritante dos fatos políticos, econômicos e sociais recentes, é lamentavelmente fácil expor as idiossincrasias atuais, as incoerências, as hipocrisias de tudo o que está errado, mas que, veja só, muita gente ainda encontra motivos para explicar ou fazer de conta que está tudo bem. O famoso “passando pano”. 

Na economia, a dívida pública já chegou aos 90% do Produto Interno Bruto, segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI). Nos cálculos do Banco Central, é menor: 77,6% em julho deste ano. Uma rápida comparação: em 2022, era de 71,7%, um valor muito menor que os 75,3% herdados de Michel Temer, em 2018. Em que pesem a revisão do Banco Central que diz que, no final do governo Bolsonaro, o endividamento teria sido de 73,2%, e a metodologia do FMI que se contrapõe ao banco Central, Lula está explodindo — de novo — as contas públicas do país. O Brasil sofreu com Dilma justamente pela insistência do famigerado “gasto é vida”, uma leniência que nos levou à recessão de 2015 e 2016, a maior de nossa história, muito pior que a pandemia. E, nesse caso, cometida única e exclusivamente por erros de política econômica doméstica do lulodilmismo, que está de volta com tudo o que pode de errado. Economistas chamam isso de explosão fiscal. Não se deixe abalar pelo tecnicismo. No final do dia, significa que esta geração e as próximas vão pagar uma dívida maior, sem nos ter trazido nenhuma melhora para a vida dos brasileiros, nem para os de hoje, nem para os do futuro. Ou alguém acha que a vida está melhor? Só o ingrediente da manipulação partidária, paga ou alienada, seria capaz de defender o atual governo. Ou a dependência atroz de bolsas e afins que “vicia o cidadão”, parafraseando Luiz Gonzaga. 

O nome disso é erro. O atual governo aumenta a dívida porque gasta sem pudores, emprega milhares em cabides públicos, os Correios registram déficits pornográficos — só no primeiro semestre deste ano, o rombo foi de quase R$ 4 bilhões, maior que o do ano passado inteiro —, e o país que trabalha e paga as contas que se vire. Mesmo assim, só uma parte reclama. A outra justifica que é para salvar a democracia. De quem?

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Prédio dos Correios | Foto: Reprodução/Flickr

Ainda na economia, o índice de desemprego de 5,6% é considerado baixo, “o menor da história”. Seria ótimo, não fossem dois aspectos que demolem a propaganda do governo atual de que tudo está bem: a baixa produtividade do trabalhador brasileiro e a alegação de que os Estados governados pela oposição ou os do agronegócio é que puxam a média brasileira para baixo. Duas coisas sobre as quais Lula não tem mérito ou faz campanha contra. A produtividade é medida em dólares gerados por trabalhador. O Brasil registrou a marca de US$ 22 por hora trabalhada em 2023. É abaixo da média mundial, de US$ 30. Como o país está nessa guerra tresloucada de Lula com os Estados Unidos, vale a comparação. Nos EUA, a produtividade do trabalhador chega a US$ 80 por hora trabalhada, fruto de inovação, investimento em educação e tecnologia. Em linhas gerais, para tornar os números mais simples, a comparação demonstra que a produtividade brasileira representa no máximo 30% da produtividade do trabalhador norte-americano, apesar de ter jornadas de trabalho mais longas, em torno de 40 horas semanais. É o resultado perverso da combinação atroz de baixa escolaridade média, informalidade alta e nível de investimento insuficiente. Não basta gastar muito com o inchaço do Estado e programas sociais. Isso gera, se tanto, sensação de conforto, nunca uma melhora de vida efetiva e sustentável. Lembra do aumento da classe média no segundo mandato de Lula e no primeiro de Dilma? Foi temporário. Eles mesmos fizeram o sonho voltar a ser um pesadelo.

Ainda sobre o desemprego, um olhar detido revela muito mais que nuances regionais. A taxa do Estado de Santa Catarina, por exemplo, que se orgulha de dizer que o PT nunca ganhou uma eleição para o governo estadual, é de 2,2%. Por outro lado, na Bahia governada pelo PT há 18 anos, o índice de desempregados é de 9,1%. Lembra da anedota de que a cabeça no fogão e os pés na geladeira geram uma média de temperatura razoável? A média é só um dado aritmético. Sem detalhes que expliquem como se chegou aos 5,6% de desemprego nacional, isso vira argumento populista de governos incompetentes que nunca se embrenharam de fato para resolver a histórica desigualdade nacional, embora explorem o tema a cada eleição. Nas regiões Norte e Nordeste, de maioria governista ligada ao PT, todos os Estados têm desemprego acima da média nacional, como Pernambuco, com o recorde de 10,4%. No Sul, no Sudeste e no Centro-Oeste, à exceção do Rio de Janeiro, muito, muito abaixo.

Lembra da tal produtividade do trabalhador brasileiro e da sua relação com programas sociais? Então, é no Nordeste que a dependência do Bolsa Família, por exemplo, registra o maior índice: 35,5% dos brasileiros da região dependem diretamente do benefício. Voltando à comparação anterior entre os dois Estados, a Bahia tem quase 30% de dependentes, enquanto Santa Catarina, 4,4% dos domicílios, o menor do país. Além da média, dos números ou dos aspectos comparados, o que importa é perguntar qual modelo é sustentável, pois os números são reais. Não se trata de dar subsídios para qualquer loucura separatista. Longe e exatamente o oposto disso! Apenas enfatizar que modelos de governo, ideologias ou visões políticas expõem as diferenças que devem ser levadas em conta na hora de escolher ou julgar um governante. Daí, como manter esse insolente debate político que parte da mídia faz, movido a politiquês baixo e interesses estranhos, entre um modelo e outro sem levar em conta o que de fato é mensurável? Vão continuar fingindo que nada disso existe?

Os beneficiários agora enfrentam o desafio de garantir que seus empregos formais compensem a perda de renda do Bolsa Família | Foto: Lyon Santos/Ministério do Desenvolvimento Social
Cartão do programa Bolsa Família | Foto: Lyon Santos/Ministério do Desenvolvimento Social

Na semana passada, parte da sociedade se fez de cega, muda e surda ao não reconhecer a tecnicidade do brilhante voto do ministro Luiz Fux, no Supremo Tribunal Federal, que mostrou as vísceras de um processo absurdo, ilegal, inconstitucional e injusto, o da “trama golpista”. Demonstrou, com argumentos jurídicos, semântica básica e português acessível que a acusação era infundada, sem provas, e defendeu a anulação de tudo, o que poderia pacificar um país que não vai deixar de acreditar no que seus olhos lhe mostram, apesar da mídia enviesada ou omissa. Derrotado por 4 a 1, sendo que três dos juízes eram notoriamente suspeitos, condenou-se ali um ex-presidente que superou a pandemia, a guerra na Ucrânia e a alta global da inflação. E que, mesmo assim, entregou um país menos endividado, mais eficiente, com recorde histórico de investimento externo direto, inflação em queda, crescimento de quase 3% e redução de carga tributária. Haverá os incautos que dirão que Bolsonaro não respeitava as liturgias do cargo por seu estilo mais rude, até simplório. Depois de vermos ministros da Primeira Turma do STF, adornados de togas pretas e muita empáfia, rindo e confraternizando, falando de futebol e cantoria, ao final da sessão de condenação, de qual falta de decoro ou liturgia estamos falando? Sem contar os muitos “deslizes” — para ser elegante — do atual presidente e de sua inseparável primeira-dama.

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O presidente recém-empossado do STF, ministro Luiz Fux – 10/9/2020 | Foto: Rosinei Coutinho/STF

Esta coluna ainda poderia se esmerar em trazer um a um os escândalos do governo do terceiro mandato de Lula, como o Arrozão, durante as enchentes do Rio Grande do Sul, e o roubo de aposentados por entidades historicamente ligadas ao PT, uma das quais tem o irmão do presidente da República como vice. Ou do Supremo Tribunal Federal, que está à frente do maior descalabro institucional da história brasileira, piorado pelo pretensioso e desbotado verniz de “defensor da democracia”. Tudo está à mostra para quem aprecia verdades e não se permite versões fantasiosas e manipuladoras dos fatos. A realidade de um governo inepto está posta. Aceleradamente, Lula 3 leva o país a um caos fiscal já em 2027, com projeção interna dos próprios técnicos dos Ministérios da Fazenda e do Planejamento de que pode faltar dinheiro até para o pagamento de despesas correntes do dia a dia, como a conta de luz de repartições públicas. É o mesmo que arrebentou a tradicional diplomacia do Itamaraty e criou, por um antiamericanismo mofado, uma crise diplomática como nunca antes vista com a Casa Branca. Tudo movido pela obsessão única de reeleição no ano que vem, custe o que custar. Parceira de consórcio, a ala radical do STF ameaça deputados e senadores com inquéritos, atropela o Congresso em suas prerrogativas e faz de tudo para se colocar como vestal da República. A democracia dos três poderes independentes e harmônicos entre si é falha, mas corrigível. Ninguém acredita em pretensos impolutos que se impõem sobre outros mediante autoritarismos. Ou que desprezem vidas perdidas sob sua tutela, porque não se sentem responsáveis, como no caso de Clériston da Cunha. Nem o parecer favorável do Ministério Público foi suficiente para uma análise rápida do caso pelo ministro Alexandre de Moraes, que poderia ter evitado a tragédia.

O ministro da Fazenda do Brasil, Fernando Haddad, durante uma reunião em Brasília, Brasil, em 3 de junho de 2025 | Foto: Adriano Machado/Reuters

Tudo o que estamos vivendo no Brasil de 2025 está visível, à altura dos olhos e da consciência de todos. Inclusive que a Lava Toga, que expõe um articulado esquema entre STF e TSE para perseguir brasileiros à direita, é muito pior que a Lava Jato. Por que, então, apenas uma parte da sociedade brasileira se comove e denuncia tudo isso? Talvez porque a outra parte escolheu realmente estar do lado de lá, apreciar a condenação de inocentes sem julgamento justo, sem o devido processo legal e direito à ampla defesa. Talvez porque relativize os abusos “até segunda-feira” ou até que seus opositores políticos sejam presos e calados por censura. Talvez seja isso mesmo. São moralmente questionáveis. Afinal, vieram desse mesmo lado os que comemoraram a morte do ativista de direita Charlie Kirk, assassinado na frente da esposa e das filhas. E apesar da indecência moral, da selvageria, crueldade e desumanidade, ainda se consideram certos. Não, não estão. O certo está muito longe dessa gente errada, errática e desumana. O certo está nos certos, não nos errados. É imprescindível que não se perca isso de vista.

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4 comentários
  1. Stella Maris Falcão Marques Pereira
    Stella Maris Falcão Marques Pereira

    Excelente análise Piotto.
    RX da real situação do Brasil, consequências atuais e futuras .
    Um populismo a beira das mentiras tragicas e populistas do governo petista . Parabéns !

  2. Jaime Moreira Filho
    Jaime Moreira Filho

    Cada dia mais aprecio as explanações do Piotto. Este artigo está sensacional não só como análise mas também como explanação dos fatos que estão regendo o Brasil na atualidade. Todos fatos extremamente ruins para nosso país. Tanto ao que se refere à Justiça – Judiciário – quanto ao que se refere à Administração Pública – Executivo. O povo brasileiro precisava saber disso. Parabéns Piotto.

  3. Ana Cláudia Chaves da Silva
    Ana Cláudia Chaves da Silva

    Estamos vivendo tempos sombrios, com uma grande parcela da população fingindo que está tudo bem. O que será mais necessário para que essa parcela da população acordei?

  4. JOSE CARLOS GIOVANNINI
    JOSE CARLOS GIOVANNINI

    Sua afirmação de que ” é muito pior que a lava-jato” é uma equivalencia lamentável.

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