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“Os governos social-democratas são responsáveis pela desigualdade no Brasil”

Salim Mattar trabalha para propagar no país o ideário liberal e defender o cidadão pagador de impostos da sanha do Estado ineficiente

Burocracia excessiva, morosidade, interferências políticas, desperdício de dinheiro público… A lista vai longe. Mesmo depois de um ano e meio enfrentando tantas deformações inerentes ao Estado brasileiro, Salim Mattar continua “irremediavelmente otimista”. “Tenho certeza de que o Brasil tem jeito”, diz o empresário, que comandou de janeiro de 2019 a agosto deste ano a Secretaria Especial de Desestatização, Desinvestimento e Mercados. “Deixei o governo quando percebi que o esforço despendido estava sendo muito maior que o resultado obtido”, explica. “Isso para mim é investimento negativo.” Apesar disso, acha que valeu a pena: durante sua gestão, 84 estatais foram privatizadas, o que gerou uma economia de R$ 150 bilhões.

Longe do governo e distante das empresas que fundou, Mattar resolveu dedicar seu tempo à disseminação e propagação do ideário liberal. Além de mapear mais de 120 grupos brasileiros que perseguem esse mesmo objetivo, ele pretende criar o Instituto de Defesa do Cidadão Pagador de Impostos para defender a população do Estado onipresente.

Com permanente bom humor, Salim recapitula a história do mineiro de Oliveira — cidade de 40 mil habitantes a 160 quilômetros de Belo Horizonte — que fundou a Localiza, uma das maiores locadoras de veículos do mundo. Um dos episódios inclui a resposta que escutou do pai quando revelou, aos 6 anos, que queria ser pianista: “Esqueça o piano, empreenda e, com o dinheiro de seu suor, compre os melhores discos e as melhores vitrolas”. Foi o que fez.

O sorriso fácil desaparece ao identificar a origem de um dos principais problemas do país: “A social-democracia é a grande responsável pela desigualdade social e pela pobreza”.

O senhor deixou o governo há pouco mais de dois meses. O que tem feito?
Quando deixei o comando das minhas empresas para assumir o ministério, dei a minha palavra de que não reassumiria meu antigo cargo e vou honrar esse compromisso. Fiquei muito satisfeito ao descobrir que os processos sucessórios nas companhias foram um absoluto sucesso. Decidi que vou me dedicar à disseminação e propagação das ideias liberais. O Brasil se encontra nesta situação marcada pela desigualdade social e pela pobreza da população por causa dos governos social-democratas que tivemos até aqui.

Como o senhor pretende disseminar o ideário liberal?
Estou levantando a relação de todos os institutos liberais do Brasil. Até agora, identificamos mais de 120. Estamos ouvindo os responsáveis por cada um deles, conhecendo a situação de caixa, verificando a infraestrutura e o quadro de funcionários. Devemos finalizar esse mapeamento em 30 dias. A partir disso, decidiremos como ajudar essas instituições e o que fazer com esse volume de informações. Também vou criar o Instituto de Defesa do Cidadão Pagador de Impostos com o objetivo de defender a população do Estado. Queremos mostrar que o dinheiro pertence a nós. O governo é apenas um administrador desses recursos e tem o dever ético de aplicá-los corretamente.

Como atuará na prática o Instituto de Defesa do Cidadão Pagador de Impostos?
Queremos denunciar o que está errado e apontar caminhos para que o dinheiro público seja bem aplicado. O Brasil tem centenas de estatais desnecessárias. Ao mesmo tempo, tem 11 milhões de analfabetos, além de milhões de outros brasileiros que não compreendem o que leem nem conseguem fazer contas simples. Não faz sentido gastar com essas empresas o dinheiro que falta para educar pessoas. É uma irresponsabilidade. A população tem de discutir o que quer ver tratado como prioridade: construção de creches na periferia, melhora da qualidade dos postos de saúde, modernização da frota de viaturas de polícia ou mais casas populares. Precisamos alertar o Executivo, o Legislativo e o Judiciário. É emblemático que a última canetada do ministro Dias Toffoli como presidente do STF permitiu outro aumento de salário de juízes. Os magistrados já são muito bem remunerados. Esse dinheiro poderia ser destinado a outros setores.

“Na Noruega, é possível abrir uma empresa em um dia. Na Nova Zelândia, em dois. Aqui, são 180”

Na década de 60, o ator Mário Lago dizia que a esquerda só se une na cadeia. Com 120 institutos liberais, é possível uni-los em torno de objetivos comuns?
Diria que 80% a 90% do que esses institutos querem são assuntos convergentes. Claro que existem algumas diferenças. O Instituto Liberal, do Rio de Janeiro, por exemplo, tem uma linha mais voltada para o pensamento político; o Instituto de Formação de Líderes, de Belo Horizonte, se concentra em jovens lideranças. Mas todos têm em comum a defesa intransigente da liberdade de mercado, das empresas e dos cidadãos.

Por que o pensamento liberal ainda é pouco conhecido e mal compreendido no Brasil?
Por causa do patrulhamento da esquerda ideológica. Até os anos 1970, nenhuma editora publicava livros sobre liberalismo. Foi nessa época que alguns empresários começaram a pagar para imprimi-los. Ainda hoje são poucos os exemplares nas livrarias e bibliotecas universitárias. É muito mais fácil encontrar Karl Marx que Ludwig von Mises. É uma pena, porque o atraso na diversidade de conhecimento é muito grande.

Como resumir com clareza o pensamento liberal?
Dois exemplos simples. Primeiro: quem acha que vacina deve ser obrigatória para todos simpatiza com a esquerda socialista. O liberal não acredita que o Estado deve decidir por ele. Acredita que o cidadão é capaz de saber sem tutores o que é melhor para ele e sua família. Segundo: um vegano que vê com naturalidade um vizinho que come um suculento bife malpassado tem uma tendência liberal. Caso considere isso um absurdo, está mais à esquerda. A esquerda, aliás, quer que todo mundo pense igualzinho a ela e não aceita opiniões contrárias. Os esquerdistas são pobres de espírito.

Que conselho daria a quem quer empreender no Brasil?

Se conselho fosse bom, seria pago. Quando decidi abrir a Localiza, todos — inclusive a minha namorada na época — me chamaram de louco e recomendaram que mudasse de ideia. Fiz, e deu certo. O empresário no Brasil tem tudo contra ele: dificuldade de levantar capital, um emaranhado legislativo, dezenas de impostos e uma porção de licenças para conseguir — ambiental, da prefeitura, do Estado e até do corpo de bombeiros. Então, se ele não desistir no meio do caminho, é bem grande a chance de dar certo. Minha dica seria: siga a sua intuição, vá em frente e trabalhe. Trabalhe 12, 14, 16 horas por dia. Trabalhe, trabalhe, trabalhe…

Aos 6 anos o senhor disse a seu pai que queria ser pianista. Ele sugeriu que abandonasse a ideia. No Brasil, é mais difícil ser pianista ou empresário?

Empresário, sem dúvida. O Estado não gosta do empreendedor. Na Noruega, é possível abrir uma empresa em um dia. Na Nova Zelândia, em dois. Aqui, são 180. O brasileiro tem vocação empreendedora, mas tudo parece feito contra ele. Um jovem que tenta providenciar uma carteira assinada poderia tornar-se um empreendedor. Isso inclusive geraria mais empregos. Mas tanto o socialista quanto o social-democrata não gostam de capital, não gostam de lucro. Enquanto 30 milhões de brasileiros têm carteira assinada na iniciativa privada, existem 12 milhões de servidores públicos com estabilidade no emprego e salários muitas vezes maiores. Isso é ou não transferência de renda da sociedade para um pequeno grupo? Precisamos ter um governo liberal. Com Jair Bolsonaro e Paulo Guedes, pela primeira vez existe essa possibilidade. Mas, para aprovar medidas liberais, é preciso ter maioria na Câmara dos Deputados, no Senado e ter um Judiciário liberal.

“Voltaria [ao governo] se me dessem a caneta na mão, a decisão final sobre o processo de privatização”

O brasileiro critica a ineficiência do Estado, mas entrega ao governo a busca de soluções para qualquer problema. Como mudar esse comportamento?
O brasileiro-padrão é típico da social-democracia. Ele detesta políticos, mas ama o Estado. A Constituição é o retrato desse comportamento. Os textos constitucionais tomam decisões pela coletividade. A pandemia de coronavírus tornou evidente essa realidade. O “fique em casa”, o “não saia” são coisas do Estado autocrático. Já o governo liberal mostra quais são os riscos, mas acredita que o cidadão sabe se cuidar. O Estado liberal preza a liberdade e entende que as pessoas são capazes de pensar e agir por si próprias.

Depois dessa temporada no governo, continua achando que o Brasil tem jeito?

Sou irremediavelmente otimista. O Brasil tem jeito e vai melhorar. Hoje, por exemplo, temos oito deputados do Partido Novo. Isso faz uma diferença brutal. A cada dois anos, podemos melhorar com o voto a qualidade dos nossos políticos.

Por que o senhor deixou o governo? Houve uma gota d’água?

Sou mineiro. Ou seja, bastante cauteloso. Não acordei repentinamente e decidi que hoje estaria fora. Não foi uma decisão súbita. Durante a minha gestão, conseguimos vender 84 empresas e montar uma fila com 14 estatais à espera da privatização, sem contar as subsidiárias. Numa determinada hora, concluí que o esforço despendido era muito maior que o resultado obtido. Isso para mim é investimento negativo. O Congresso impediu a provatização da Casa da Moeda. A da Eletrobras também não avançou. Sem o toma lá dá cá fica muito difícil aprovar alguma coisa.

O senhor admite a possibilidade de voltar ao governo?
Voltaria se me dessem a caneta na mão, a decisão final sobre o processo de privatização. Como não receberei essa caneta nem do presidente nem do ministro Paulo Guedes e menos ainda dos ministros das outras áreas, não vou voltar.

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