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Carro da Polícia Militar do Rio de Janeiro patrulhando o bairro de Copacabana | Foto: Shutterstock
Edição 325

Segurança pública, um sistema falido                 

O desabafo de uma vítima de assalto no Rio de Janeiro diante da impotência dos cidadãos, mesmo quando todos os recursos de segurança estão presentes

A experiência definidora da brasilidade é ser assaltado à mão armada. Esse se tornou um evento rotineiro. Quando passa por isso e procura a ajuda do Estado, o brasileiro descobre que não terá proteção, justiça ou reparação.

A discussão sobre segurança pública é sempre feita em termos abstratos, usando o “juridiquês” e a retórica marxista, como se vivêssemos na Suíça ou na Dinamarca. A realidade do cidadão comum é ignorada.

Ser assaltado à mão armada se tornou um evento rotineiro | Foto: Montagem Revista Oeste/IA

O relato a seguir fala dessa realidade. Alguns dados foram alterados para proteger os envolvidos.

Caro Roberto Motta,

Resolvi escrever porque penso em você quando o assunto é segurança pública. Talvez você tenha um bom conselho. Talvez este relato sirva de semente para alguma melhoria em nosso sistema falido. Talvez seja apenas um desabafo.

Na sexta-feira, fui assaltado no coração de um bairro da Zona Sul do Rio de Janeiro. Com um revólver apontado para a minha cara. Com meu filho de um ano e meio sentado na cadeirinha da bicicleta e sua mochila de dinossauro na cestinha.

Eu havia acabado de buscá-lo na escola, como faço quase todos os dias ao meio-dia. É uma das boas escolas da região, em uma das ruas mais nobres do Rio, cercada por segurança privada, câmeras da Gabriel em praticamente todos os prédios e um posto do Segurança Presente em uma praça, a poucos metros.

Nada disso intimidou um motoqueiro que emparelhou com a minha bicicleta na própria rua da escola, apontou a arma para mim e levou meu relógio, minha aliança, minha pulseira e meu cordão — que precisei arrebentar com as próprias mãos para lhe entregar e poder sair dali com meu filho. Graças a Deus, meu filho nem percebeu o que estava acontecendo.

Avisei imediatamente o segurança da rua, que estava a poucos metros, deixei meu filho em casa correndo, repetindo para mim mesmo a placa da moto para não esquecer, liguei para a Gabriel e fui pessoalmente acionar a equipe do Segurança Presente na praça. Eles se mobilizaram rapidamente e avisaram o grupo da região. Em seguida, fui à delegacia registrar o boletim de ocorrência.

Foto: Montagem Revista Oeste/IA

A Gabriel localizou o vídeo do assalto em poucos minutos, mas não acompanhou a trajetória da moto dali em diante. Disse que só poderia se comunicar com a polícia depois que eu fizesse um boletim de ocorrência. Na delegacia, em horário de almoço, levei mais de uma hora para ser atendido. O próprio policial me disse que tinha pouca esperança de recuperar qualquer coisa e que só poderia receber o vídeo em pen drive, mesmo depois que eu o mostrei no meu celular, que, por alguma sorte, foi poupado do roubo. Quando voltei à praça, a equipe do Segurança Presente já havia retornado e me explicou que, infelizmente, “moto é complicado”.

O que mais me impressionou foi perceber como todos esses recursos podem ser tão inócuos, mesmo quando acionados tão rapidamente e tão perto do local. Se eu fosse desenhar um sistema para tentar pegar assaltantes, não sei o que mais poderia pedir: segurança privada na rua, centenas de câmeras no bairro, policiamento presente e uma delegacia acessível. Ainda assim, nenhuma das partes parecia sequer ter esperança.

Passaram-se mais de 24 horas e, de fato, meu assalto não teve qualquer consequência.

No dia seguinte, porém, circulou um vídeo de um motoqueiro detido pelo Segurança Presente após fugir de uma tentativa de furto. Ele caiu da moto e acabou sendo agredido por pessoas que estavam no local. Pelo vídeo, a moto e o capacete pareciam os mesmos do meu assalto, embora a placa fosse diferente e eu não tenha convicção sobre a fisionomia. Ainda assim, pela proximidade, pelo modus operandi e pelo contexto, ao que tudo indica, pegaram o bandido.

Por um instante, senti um sopro de justiça. Entretanto, mais tarde eu soube que ele teria sido solto porque não havia flagrante suficiente. Na mesma noite, houve mais um assalto no mesmo quarteirão onde eu fui assaltado.

Conversei com um policial militar da região. Ele me disse que, se eu fosse à delegacia reconhecer o homem do vídeo, ele seria intimado. Se ele não respondesse à intimação, ele poderia finalmente ser preso.

Levantei imediatamente para ir à delegacia, mas fui persuadido pela minha família a não fazer isso.

E aqui está o ponto mais perverso de todos.

Nos autos, ele saberia que foi reconhecido pela vítima do roubo na rua da escola. Saberia que era o pai que estava de bicicleta com o filho pequeno na cadeirinha, de quem ele levou relógio, aliança, pulseira e cordão. Saberia exatamente qual é a esquina pela qual eu passo com meu filho quase todos os dias. E, se fosse preso, certamente em pouco tempo estaria novamente na rua. Pior, na minha rua.

Como posso expor meu filho a esse risco?

Ao que tudo indica, talvez tenham capturado o homem que apontou uma arma para mim e para meu filho na rua da nossa casa. Mas os incentivos são tão perversos que minha família parece ficar mais ameaçada se eu colaborar com a prisão dele do que se eu assistir inerte, esperando que ele seja capturado em flagrante com alguma das próximas vítimas. Que dilema horrível.

Existe algum caminho institucional que eu não esteja enxergando? Algum recurso para proteger de verdade a vítima que colabora com a polícia? Alguma forma de impedir que o criminoso saiba exatamente para qual esquina voltar?

Enquanto isso, o que me resta é seguir o triste conselho que tanto o delegado quanto a equipe do Segurança Presente me deram prontamente: andar sem relógio, sem cordão e com o “celular do bandido”. O conselho que todo carioca conhece. Apesar disso, mantemos a ilusão de que, pelo menos nesse quadradinho de bolha que eu e minha esposa tanto lutamos para um dia chamar de casa, estaríamos protegidos.

Muito obrigado pela luz e pela voz que você representa para tantos de nós.

Um forte abraço,

Antônio

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7 comentários
  1. Adriano M
    Adriano M

    Triste!!!! Enquanto PT comandar o Brasil, não vejo sinais de melhora

  2. Lauro Patzer
    Lauro Patzer

    Um relato que gera revolta. Demonstra a mão armada do bandido e a situação desarmada do cidadão. Você deve estar lembrado que Lula fez de tudo para desarmar o cidadão, prometendo o florescer do amor em seu governo e que todos trocasse sua arma por um livro. Porque em contrapartida, seu opositor, o Bolsonaro, se vencesse, o Brasil perderia a soberania e ser converteria num país fascista. O amor em seu governo, porém, não aconteceu, nem a proverbializada picanha. Hoje Lula está preocupado com o PCC e o CV. Acusa o “Trumpi” por ter enquadrada estas organizações criminosas dentro do terrorismo mundial. Ele nem está aí para o cidadão que é assaltado e perde seus relógio, seu anel de casamento e tudo o que tinha no bolso ao ser intimado com uma arma apontada à cabeça, conforme o relato do Motta. Sua preocupação é com os narcoterroristas, seus eleitores garantidos, pelo prejuízo que terão com a medida do Trump.

  3. Alexandre Venério
    Alexandre Venério

    Compra uma arma! Mete bala no vagabundo e depois resolve!! Bandido bom é bandido morto!!dn

  4. Carlos Perktold
    Carlos Perktold

    Eu também passei pela experiência de ser assaltado à mão armada e por agressão desnecessária no transito. Processeis o agressor e no dia da audiência, o juiz se desinteressou por um acareação entre mim e o agressor. Pior ainda foi ouvir do promotor: lamento, mas as leis no Brasil são feitas para favorecer os bandidos.

  5. MAURO CESAR CALVAO MONNERAT DO PRADO
    MAURO CESAR CALVAO MONNERAT DO PRADO

    Esse é, infelizmente, o país em que vivemos, onde os direitos do bandido são mais importantes do que os da vítima se é que essa tem algum. Há quase dez anos me mudei para um condomínio fechado após sofrer 3 assaltos na rua onde morava.

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