Por que criar filhos se tornou tão difícil

O esfacelamento da família burguesa e o “culto do eu” por parte dos adultos prejudicam a socialização das crianças e produzem grandes conflitos

Um novo livro, The Problem with Parenting: How Raising Children Is Changing Across America (O problema da criação dos filhos: como a educação das crianças está mudando nos Estados Unidos), de Nancy McDermott, escritora norte-americana e colaboradora da Spiked, sintetiza cultura popular, pesquisa acadêmica e diversos relatos que compõem uma corajosa defesa da família.

McDermott lida com uma questão importante ao longo da obra: “Por que criar filhos se tornou tão difícil?”. Existem muitos livros populares que exploram a mesma questão, mas com frequência eles recaem em uma ou duas áreas pouco esclarecedoras. Por um lado, existe o gênero “mãe bagaceira”, que diminui a importância da responsabilidade de ter filhos, rendendo-se a histórias de “fracassos maternos” e “taças de vinho”, aceitando a impossibilidade de “dar conta de tudo” e reivindicando o direito humano de “ter tempo para si mesma”. Do outro lado, existe o gênero “superação pessoal”, que aproxima a responsabilidade da obsessão, faz promessas de “sucesso” na criação dos filhos dignas de programas do Terceiro Reich e exige uma intensa atenção dos pais desde a concepção até a universidade.

The Problem with Parenting é diferente. McDermott reconhece, de maneira muito mais profunda, o significado fundamental de criar filhos como um projeto humano, em vez de uma questão de estilo de vida para indivíduos no aqui e agora. A autora adota uma perspectiva histórica e olha para a ascensão e a queda da “família burguesa”, que, como ela explica, surgiu na Europa no fim do século 16:

A família burguesa foi uma união sancionada legalmente, livremente escolhida em que os pais trabalhavam juntos para criar os filhos em um lar privado e compartilhado. Suas características mais distintas eram a natureza voluntária (muitas vezes um casamento por amor), os vínculos emocionais relativamente intensos entre os membros da família e a ênfase na criação e educação dos filhos.

Mas, como McDermott comenta, a família burguesa como espaço de criação dos filhos praticamente desapareceu da vida nos Estados Unidos. Em seu lugar, surgiu uma nova forma institucionalizada de criar os filhos conhecida em inglês como parenting.

Desde os anos 1970, essa abordagem — mais unilateral, individualizada e imediatista  — se tornou socialmente dominante. Mas, em vez de simplesmente culpar a secularização, o egoísmo ou o “neoliberalismo” pelo surgimento do parenting, McDermott mergulha fundo em seus complexos alicerces históricos. Ela observa a complicada interação entre as mudanças nos papéis de gênero no mercado de trabalho e a consequente ruptura dos esquemas domésticos, a revolução do divórcio, que prejudicou o casamento, e o desafio de algumas ideias tradicionais da maternidade gerado pelo aborto. E trata dessas tendências em termos de uma incerteza social mais ampla desencadeada pelos “horrores das duas guerras mundiais, do Holocausto e da barbaridade do totalitarismo”, que “colocaram a ideia em si de um esforço benigno por um bem maior em questão”.

Em meio à incerteza histórica e a mudanças sociais tão monumentais, a sociedade desenvolveu, como reação, uma cultura psicológica ou terapêutica. Isso, ela explica, “pareceu oferecer uma forma mais contundente para as pessoas entenderem a condição humana, e a busca pelo autoconhecimento pareceu uma… rota realista para uma vida com sentido”. No entanto, essa orientação rumo ao eu não pode desempenhar o papel da instituição “voltada para a criança e voltada para o futuro” da família burguesa, que conseguia equilibrar o individualismo com a responsabilidade social, “o sucesso mundano com o altruísmo, e o desejo de liberdade com uma ideia de obrigação moral”. De acordo com McDermott, gerações de filhos criados no formato da família burguesa “tendiam a um forte desejo de pertencer às suas comunidades, temperado com uma disposição para questionar a autoridade estabelecida, com o objetivo de inovar”.

A criação dos filhos é importante demais para ser construída com base em sentimentos

A cultura contemporânea parece colocar muito foco nos filhos, com cada gravidez, aborto espontâneo, nascimento e chá de bebê das celebridades registrado, e um mercado enorme para brinquedos, roupas infantis e outras parafernálias. Mas, como McDermott observa, a sociedade e a família não põem mais o “foco na criança”. Como ela explica, os valores fundamentais da família burguesa se dissolveram, e a atenção dos pais foi desviada de uma preocupação básica com a socialização das crianças na direção de um etos terapêutico, com foco no adulto, obcecado pelo eu:

As famílias que surgiram na esteira das mudanças domésticas dos anos 1970 não apenas eram diferentes das famílias das décadas anteriores, com muito mais famílias com apenas um adulto responsável e famílias misturadas(formadas quando casais divorciados se casam de novo), mas também eram movidas por um sentido diferente. Elas não eram mais fundamentalmente voltadas para a formação da próxima geração, mas mobilizadas pelas aspirações dos adultos (com base na suposição de que as crianças seriam mais felizes se os pais fossem mais felizes). Só que a satisfação dos adultos e as necessidades das crianças nem sempre são compatíveis, especialmente quando a busca por felicidade dos adultos leva à incerteza.

É um conceito ousado. McDermott não está clamando por um retorno ao passado, que ela reconhece não ser possível. Em vez disso, a autora nos desafia a redescobrir uma orientação rumo à socialização das crianças como uma missão fundamental dos pais e coletiva. Ela o faz de maneira sutil. Chama a atenção para o problema da vida familiar com foco nos pais, o tempo todo evitando culpar os próprios pais.

No fim das contas, como ela destaca, a abordagem terapêutica é profundamente insatisfatória tanto para os pais quanto para os filhos. Os sentimentos, sem referência a um arcabouço moral e social mais amplo, não são bases adequadas para a família ou para a criação de futuros cidadãos. Isso fica evidente na nova tendência das mães de manifestar seus sentimentos ambivalentes sobre os filhos e expressar seu arrependimento ao escolher a maternidade. A criação dos filhos é importante demais para ser construída com base em sentimentos. Em vez disso, ela precisa ter como base tarefas socialmente validadas e a presunção incondicional da responsabilidade adulta.

McDermott afirma isso, sua tese principal, na primeira metade do livro, antes de investigar ainda mais a fundo os quatro pontos de virada ou controvérsias principais no desenvolvimento da criação dos filhos. Então, em primeiro lugar, ela se volta para o impulso de estigmatizar o consumo de álcool por grávidas nas últimas décadas. Como explica, essa responsabilidade parental estendida, e o escrutínio do comportamento das mulheres, é uma volta no tempo, até o momento da concepção ou ainda antes. Esse foco intenso no feto sugere uma reorientação da autonomia social. Em vez de tentarmos criar o futuro no mundo lá fora, estamos cada vez mais voltados para uma tentativa de criar o futuro dentro do útero.

A segunda polêmica que McDermott explora é aquela que se verifica na contraposição entre leite materno e leite de fórmula, que se tornou tão familiar em anos recentes. Ela remonta aos meandros de abordagens culturais e especializadas em relação à fórmula e à amamentação nos Estados Unidos modernos, e contextualiza os recentes conflitos culturais em termos da mudança no papel da mulher como mãe e dona de casa.

A terceira polêmica de que McDermott trata é a questão altamente controversa da identidade de gênero. Em um capítulo intitulado “A luta dos pais defensores do gênero neutro contra as regras sociais”, ela segue uma abordagem inteligente e interessante em relação às polêmicas questões trans e explica que o sexo binário forma o alicerce mental fundamental sobre o qual a compreensão que as crianças têm do mundo se desenvolve. Ela escreve:

Por mais diversos que sejam os seres humanos, existem duas distinções universais em todas as sociedades: entre adultos e crianças, e entre homens e mulheres. Por sua vez, elas geram as categorias sociais que existem em toda sociedade.

Conforme a criança se desenvolve, essas distinções tendem a evoluir de pensamentos estereotipados basicamente crus para uma compreensão mais flexível que reflete o mundo de maneira mais correta.

E, finalmente, McDermott lida com o conflito entre os chamados pais-helicóptero, que superprotegem os filhos para mantê-los em segurança e garantir que seu caminho na vida seja tranquilo, e pais free-range, que tentam ressuscitar um modelo mais antigo de criação — que era menos intenso e dava aos filhos mais autonomia. A autora sugere que ambos os modelos emergem de problemas associados com o afastamento do padrão de família burguesa e uma aproximação com o parenting. Existe um foco intenso no que pais e mães estão fazendo como indivíduos, em vez de em como a sociedade pode ajudar os pais a criar seus filhos de forma que seja benéfica para todos. Além disso, esse foco intenso no pai e na mãe individualmente vem acompanhado de um temor crônico sobre o futuro, que interrompe a “dança” mais privada e espontânea entre o adulto responsável e a criança.

No capítulo de conclusão, McDermott oferece algumas ideias práticas para “solucionar o problema da criação dos filhos” sem culpa nem autoritarismo. É um final apropriado para um livro que deve ser lido por pais, mães e por quem não tem filhos. Em seu cerne está a exigência vital de todos nós assumirmos a responsabilidade de criar nossas crianças.

 

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