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Carta ao Leitor

A sanha intervencionista dos tecnocratas, a ciência fajuta do 'lockdown' e a morte da universidade

Ana Paula Henkel é uma das mais argutas analistas do país e ministra um bem-sucedido curso de história política norte-americana. Ana estuda ciências políticas e está na sua segunda carreira. Antes, durante 24 anos, foi atleta de alta performance. Como jogadora de voleibol na Seleção Brasileira, conquistou a medalha de bronze nos Jogos Olímpicos de 1996, em Atlanta, nos Estados Unidos. Ana Paula, portanto, sabe muito bem o que falar quando o assunto é esporte — e também se a questão em debate é política. Nesta edição, ela analisa a repercussão das primeiras ordens executivas do governo Joe Biden. Ana detém-se especialmente na medida que obriga instituições beneficiadas por recursos federais a aceitar a autodesignação de gênero por parte de atletas. Na prática, homens transgênero que se declarem mulheres poderão competir em times femininos. O sexo biológico deixa de ser um critério determinante. É possível imaginar onde isso vai dar.

As medidas que o governo Biden baixou demonstram o crescente intervencionismo do Estado na vida dos cidadãos. Nos primeiros três dias na Casa Branca, Biden assinou 19 ordens executivas, ante apenas uma de Donald Trump, cinco de Barack Obama, nenhuma de George W. Bush e uma de Bill Clinton. Como um presidente não inventa da própria cabeça um conjunto de normas, regulações e decretos, é evidente a ação do grupo de tecnocratas que o cerca.

O mesmo fenômeno é observado no governo de São Paulo. Critérios e horários para abertura e fechamento de estabelecimentos comerciais e equipamentos públicos foram estabelecidos no início da pandemia, quando havia escassez de dados, e esses parâmetros continuam em vigor até hoje. Tecnocratas comandam o “abre/fecha”, em muitas ocasiões num flagrante conflito com o bom senso, e o governador João Doria segue a reboque. O mantra “em nome da ciência” desconsidera uma ciência fundamental: a matemática. É o que as editoras Paula Leal e Branca Nunes comprovam na reportagem de capa, “O fracasso do lockdown”. E o editor-executivo Silvio Navarro expõe o funcionamento do gabinete da quarentena do governo paulista no artigo “Os tecnocratas da pandemia”.

O cidadão vigilante precisa ter cada vez mais atenção às investidas de burocratas sem voto mas com canetas afoitas. O poder está na mão dessa turma — técnicos com estabilidade no emprego e altíssimos salários que almoçam de segunda a sexta em restaurantes de charme, sempre pagando a conta com o cartão de crédito corporativo. Trata-se de grupos de alto prestígio social que não são impactados pelas decisões que tomam. Têm notável apetite pelo autoritarismo e seu ideário é marcadamente progressista. Mesmo em instituições que, em teoria, deveriam preservar os fundamentos liberais, identificam-se graves desvios de princípios. O Banco Mundial, por exemplo, ao avaliar as desditas da América Latina, recomenda como prioridade “o combate à desigualdade”. Com propriedade, o professor Ubiratan Jorge Iorio contesta: “Precisamos aprender a extrair coisas boas desse turbilhão de dificuldades em que está rodopiando o mundo e, sem dúvida, uma delas é nos livrarmos da falácia de que o Brasil e a América Latina são ricos e que nossos problemas se resumem às desigualdades e à distribuição de renda”.

No que depender das universidades brasileiras, esse “pensamento mágico” perdurará — ao menos nos cursos de humanidades. No artigo “A universidade morta”, J. R. Guzzo mostra o tipo de profissional de nível superior que o Brasil está formando. “É terminante a proibição à criatividade intelectual, ao debate e às opiniões independentes. Só são admitidos como válidos os pontos de vista de esquerda”, escreve Guzzo.

Entende-se, portanto, a razão pela qual há gente ilustrada disposta a sair em defesa do regime de Nicolás Maduro e pedir o impeachment do presidente Jair Bolsonaro. “Não pode governar país nenhum quem conversa com passarinhos e interpela vacas, certo?”, pergunta Augusto Nunes, em mais um artigo extraordinário. “Errado, berram os devotos da seita que promoveu a único deus um corrupto duas vezes condenado em segunda instância.”

Boa Leitura.

Os Editores.

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