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Os tecnocratas da pandemia

De quem são as decisões que pesam no bolso dos cidadãos com (muitas) contas a pagar

Ciência, ciência, ciência. #FiqueEmCasa. Não é necessária a aferição de nenhum instituto de pesquisa para concluir aquilo que as calçadas, os grupos de WhatsApp e as redes sociais já responderam sobre o enfrentamento da pandemia no Brasil (e aqui não se trata, frise-se de largada, de ser ou não favorável a vacinas): a maioria dos cidadãos não aguenta mais ouvir variações desse mantra porque compreendeu que economia também é saúde — e o cidadão precisa trabalhar.

O fato é que, por trás das trocas de farpas públicas entre governantes sobre a condução de políticas durante o caos, há uma engrenagem comandada por especialistas de diversas áreas que atestam decisões como as do governador de São Paulo, João Doria (PSDB), ou do prefeito de Belo Horizonte, Alexandre Kalil (PSD), de impor medidas restritivas ao funcionamento de estabelecimentos comerciais e à circulação em áreas públicas em pleno 2021. Em alguns casos, tal cenário não chega a ser muito diferente do “toque de recolher” que tem provocado protestos e degenerado em prisão de pessoas que estavam nas ruas em países na Europa, como ocorreu nesta semana na Holanda, por exemplo.

Na última quarta-feira, 27, representantes e funcionários de bares e restaurantes da cidade de São Paulo foram às ruas num ato contra o novo trancamento instituído pelo governo estadual. Com o Plano São Paulo de volta à cor mais aguda, somente o funcionamento de determinados serviços considerados essenciais, como supermercados, postos de combustíveis e farmácias, segue normalizado. Já os bares e restaurantes têm de baixar as portas às 20 horas, não podem reabri-las nos fins de semana (quando o faturamento muitas vezes salva o caixa do mês) e devem sobreviver do delivery de produtos. Representantes da Abrasel (Associação Brasileira de Bares e Restaurantes) já perderam a conta de quantos empregos foram sacrificados e das toneladas de alimentos que terminaram descartados. Para além do ramo, a régua é mais simples para o leitor: o IPVA já chegou, o IPTU também, o preço da carne e dos combustíveis subiu, mas, segundo a lógica dos sensatos de plantão, é melhor ficar em casa até o temporal passar — ou seja: mesmo que você morra de fome se seu cartão estiver estourado, lembre-se: é melhor morrer de covid-19.

E quem é o responsável por decisões como essa num território de 44 milhões de habitantes? A resposta: o Centro de Contingência da covid-19, assim como foi batizado por João Doria o comitê de especialistas que toma as decisões sobre a abertura do comércio, o ir e vir de pessoas em plataformas de transporte, a desativação dos hospitais de campanha e também a retomada das aulas presenciais nas escolas públicas — esta, talvez, uma das mais tardias do mundo.

Paleta de cores

Esse grupo já foi chefiado em rodízio pelos médicos David Uip, Helena Sato, José Medina e Paulo Menezes. O diretor-executivo é João Gabbardo dos Reis, ex-número 2 do então ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta. Todos detêm reputação notável, mas parecem estar trancafiados numa bolha, obcecados na busca dos imunizantes — contudo, até lá, permanecem fixados em paletas de cores que pintam o coração do país em áreas de risco.

Uma das principais críticas de prefeitos, entidades de classe e até de integrantes do Ministério Público e do Judiciário às medidas adotadas pelo comitê de notáveis paulista é o mapa que muda de tonalidade conforme a disponibilidade de leitos em hospitais e o volume de casos registrados nas regiões — uma espécie de caixa de lápis coloridos usados nas escolas até agora fechadas: amarelo, laranja, vermelho e por aí vai.

“Quando sai um decreto do governo, eu preciso seguir, mesmo que seja contra aquilo em que acredito e as orientações de meus próprios técnicos. Meu maior problema durante a pandemia foi a abordagem tecnocrata de enfrentamento à doença”, afirmou o prefeito de São José dos Campos, no Vale do Paraíba, Felicio Ramuth, do mesmo partido do governador.

“Estamos há dez meses vivendo essa pandemia, está na hora de entender esses dados. Mas as atitudes são as mesmas, tentativas e erros que estavam sendo feitos nos primeiros dois, três meses. Tenho grande respeito pelos técnicos do Centro de Contingência, eles são muito bem formados, mas conhecem a realidade dos grandes centros e têm pouco contato com as pequenas cidades”, completou Ramuth em entrevista à rádio Jovem Pan.

Em Bauru, o mais populoso município do centro-oeste paulista (400 mil habitantes), o Ministério Público decidiu contestar o trancamento imposto pelo governo em apoio à prefeita Suéllen Rosim (Patriota), avessa às portas cerradas. Sim, a promotoria apoiou a prefeitura.

“Esse índice utilizado pelo Plano São Paulo é completamente enganoso, e não é justificável para classificar o DRS-6 [Departamento Regional de Saúde – 6ª Região] como faixa vermelha, principalmente porque isso decorreria da própria negligência do Estado, que não fez seu dever de casa nos dez meses da pandemia e, agora, por conta de sua própria falha quer rebaixar e trazer mais restrições e sofrimentos para as pessoas impondo regras arbitrárias e desconectadas com a realidade local”, afirmou o promotor Enilson Komono.

Exemplos de clara ineficácia

João Gabbardo rebateu dizendo que o membro do Ministério Público é um irresponsável, e o governo estadual afirmou que, “dentro do ordenamento jurídico estabelecido pelo Supremo Tribunal Federal, os municípios podem ter regras de maior endurecimento no combate ao coronavírus, e nunca mais flexíveis”.

Medidas pouco eficazes repetidas à exaustão como os lockdowns não são primazia do maior Estado do Brasil. Assistentes bancados com o dinheiro de quem paga seus impostos em dia insistem em não dar o braço a torcer, mesmo diante de exemplos de clara ineficácia observada na grama do vizinho, e continuam a inventar normas inexplicáveis — como o vírus que só chega aos bares nos finais de semana ou só assalta o contribuinte depois do cair da noite. Não é exagero notar que suas canetas, em alguns lugares, às vezes parecem ter mais tinta do que as dos líderes eleitos.

O Parlamento Europeu registra o fenômeno. Em Washington, não é diferente. Os tecnocratas da Casa Branca levaram ao presidente norte-americano Joe Biden nada menos que 19 “ordens executivas” — o equivalente a decretos presidenciais. Nunca se viu isso antes nos Estados Unidos: Donald Trump assinou apenas uma ordem nos seus três primeiros dias de governo; Barack Obama, 5; George W. Bush, nenhuma; e Bill Clinton, uma. Os números evidenciam o aumento da interferência do Estado na vida dos cidadãos — e essa interferência se dá pela ação dos tecnocratas.

Resta a impressão de que alguns deles, depois de convocados para a guerra contra o inimigo invisível, seja no Brasil ou no mundo, se perderam nos próprios labirintos.

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27 comentários

  1. Discordo da análise. A presença de técnicos no Centro de Contingência objetiva tão somente a dar aparência de racionalidade às decisões exclusivamente políticas do governador.

  2. Navarro com grande clareza discorreu sobre um assunto que tem sido uma das causa de muita incompreensão no nosso maravilhoso estado chamado São Paulo, como esses tecnocratas que vivem dentro de uma bolha podem discorrer ou criar leis que barram o funcionamento de estabelecimentos por causa que o virus só se movimenta em um determinado horário, seria mais plausivel do governo abrir e fazer um isolamento vertical e deixar a economia voltar a funcionar novamente, estão acabando com a nossa liberdade

  3. É necessário que todos sejam processados pelos danos causados à população. Tanto pelos equivocados trancamentos como pelo negacionismo do tratamento precoce.

  4. Se o critério é o percentual de ocupação em leitos de UTI e enfermaria, em vez dos maleditos aumentarem o número de leitos, contratarem mais médicos e enfermeiros (já que os equipamentos eles já tem), preferem prender o povo dentro de casa e ainda querem me fazer acreditar que isso é decisão de gente inteligentíssima, que sabe o que faz, que é especialista, cientista, phd. É um circo né não?

  5. Quanto mais leio textos e comentários, mais espantado fico ao ver que tanto os jornalistas quanto os leitores não apresentam soluções. Ou seria a solução óbvia?
    Até quando vamos permanecer “deitados em berço esplêndido”?
    “Todo poder emana do povo e em seu nome (e não no dos canalhas que estão no “stf” e no “congresso” nacional), é exercido”.

    1. No programa diário da Jovem Pan, às 18:00, Os Pingos nos Is, todos os dias dão dicas para esses tecnocratas. Infelizmente, está claro de que não são ouvidos. Alberto, a única saída, corajosa e sadia, está na DESOBEDIÊNCIA CIVIL, Já. Pra ontem. #ACORDAMPAULISTASEPAULISTANOSPRASRUASJÁ

  6. Nada contra a ciência, mas aquela que não titubeia e não politiza vacinas em tão grave momento sanitário, fiscal e politico nacional e global.
    Nada contra vacinas pois com 75 anos já tomei até aquela que raspava o braço e deixava uma cicatriz permanente, mas com a incerteza que a ciência demonstra quanto a segurança e eficácia destas vacinas, criadas em 1 ano e não plenamente testadas em todas as faixas etárias, contestada ate por cientistas que enquanto não existiam vacinas tiveram que tratar seus pacientes com as mais variadas medicações existentes e aprovadas no mercado para tratamento de outras enfermidades ou infecções. Mesmo aqueles cientistas que contestam essas medicações, evidentemente que não receitaram para seus pacientes somente antitérmicos. Alguns até se trataram com medicações que dizem ineficazes. Então, a “ciência”, nos deve a informação que esclareça como recuperaram 90% dos casos positivados no Brasil? Existem grandes meios de comunicação que jamais informaram a quantidade de casos recuperados para nos dar alguma esperança. Qual o futuro desses comunicadores que desinformam?
    Portanto, não recuso e não provoco amigos a não tomar a vacina, até porque na minha idade corremos mais riscos graves sem vacina, porem, é inaceitável que tenhamos no mercado e especialmente na direção do Instituto Butantã, um notável diretor comercial de vacinas fazendo politicas de comercialização assustadoras ao governo federal, como, “ou compra ou vendo para a Argentina”, uma vacina que vários cientistas não gostaram de sua eficácia, mas disseram “é o que temos”. Ora, se breve tivermos comprovadas vacinas muito mais eficazes, o glorioso Butantã só saberá produzir a CORONAVAC? Afinal, com 50,38% de eficácia qual o futuro comercial dessa vacina comercializada pela “Dória empreendimentos políticos e sanitários”? Pensar que como ex tucano votei nele para prefeito e governador.

    1. Disse tudo sr. Neves: ponderado, objetivo e preciso! A ambição desmedida de João Doria acabou com sua carreira política antes que começasse e jogou uma pá de cal no PSBD.

    2. Antônio Carlos, gostei muito do teu texto. Como médica me sinto envergonhada e revoltada por estar assistindo minha profissão ser vilipendiada por doutores de redes sociais, governantes inescrupulosos e colegas prostituindo por poder. Em relação às vacinas, também concordo com tuas palavras sem acrescentar nada, você expôs lucidamente e de forma coerente o que assombrosamente muitas pessoas não conseguem enxergar.

      1. Cara Vanessa; Não existem médicos sérios na camarilha do “DITADÓRIA”. E sim impostores, fingindo-se de “homens sérios” conforme foto do belíssimo artigo do Silvio Navarro. Charlatões, aproveitadores e “papagaios de pirata do chefe aloprado” Repetem ad nutum que lhes é ordenado pelo “chefe”. Desqualificados, despreparados, ignóbeis e abjetos igualzinho ao calcinha apertada. Moral e credibilidade são valores inexistentes para esse tipo de gente. Nosso muito AMADO ESTADO DE SÃO PAULO E A NOSSA GRANDIOSA CAPITAL, NÃO MERECEM TAMANHO DESCALABRO, DESFAÇATEZ, INCÚRIA, DESONESTIDADE, PATIFARIA, VILANIA E LAST BUT NOT LEAST, MENTIRAS … MENTIRAS … MENTIRAS …

    3. Concordo com tudo que disse, especialmente quanto a ideia de sabermos como se deu a recuperação de tantos brasileiros. Não tinha pensado nisso e achei excelente idéia.

      1. Com relação ao dito pelo Sr. Neves acima.

  7. Os técnicos dos governadores, não são nada além de políticos e não tem nenhum compromisso com a ciência e muito menos com as vidas das pessoas.

  8. FINALMENTE VEJO UM IMPRENSA HONESTA !!!!!
    Não podemos continuar usando a palavra CIENCIA como sinônimo de corrupção, desmandos e vontade politica de alguns INCAPAZES.
    A IMPRENSA não comentou o ROUBO DA PANDEMIA NO AMAZONAS, mas comentou as responsabilidades do Presidente, porque o tratamento nao foi o mesmo.
    Sem recursos fica difícil medir ações do governo frente aos doentes – afinal dinheiro não da em arvore – somente para ex-presidente presidiário, solto por nossa corte suprema que seja chama STF.

  9. Santa burrice!! Só mesmo num país com esse criminoso, corrupto e infame STF poderia se ver algo semelhante. O engraçado é que ninguém questiona: Qual a lógica e o racional por trás da interpretação que a prefeitura só pode restringir mais e não menos? Pois é! É a premissa que se mostra errada de que quanto mais restrição melhor. Ou se dá autonomia para o governo Federal traçar as políticas de enfrentamento ou se dá para os municípios. Dar para o Estado é ficar no meio do caminho e perdido. Ainda assim, qual a lógica do município poder, por exemplo, gastar mais e não menos? Ou se dá autonomia ou se tira de vez!

  10. Perfeito artigo publicado pelo Navarro! Creio que daqui alguns anos poderemos analisar com calma e sabedoria os acontecimentos dos fatos, isto é, quando a fumaça dissipar. A crise humanitária na saúde instalada no mundo é real, porém estranha-me os efeitos decorrente dessa causa, pois como uma forma de distração, os países e governantes de Estados/províncias implementam políticas que não deveriam ser feitas em um Estado Democrático de Direito ao ferir direitos fundamentais a começar pela liberdade (expressão, religiosa, ir e vir, trabalho etc). Parece haver uma preocupação somente com a morte, quando penso que deveria ter a preocupação em viver e como viver. Utilizam a pandemia como um catalisador para o Estado implementar mudanças bruscas na vida do cidadão com consequências e criação de cicatrizes profundas em crianças e adultos. A Constituição Federal é clara que tais direitos na teoria somente poderiam ser suprimidos em caso de Estado de Sítio ou de Defesa, que não é a atual situação. Com uma estratégia de inteligência aplicada pelas autoridades, há uma distração quanto ao aspecto econômico ao ser autorizado um “cheque em branco” do Congresso Nacional e Assembleia de SP ao reconhecer calamidade pública com possibilidade de gastos sem ferir o teto da Lei de Responsabilidade Fiscal. O dinheiro do contribuinte está saindo para fora do país e a conta que está sendo criada que vamos pagar muito em breve e, como sempre, os ocupantes dos poderes Legislativo/executivo em nível Federal e Estadual que gastam nosso dinheiro de impostos já não estarão nas cadeiras que ocupam. Além disso, no aspecto geopolítico mundial não vejo no noticiário sobre as graves tensões que se instalam no mundo com os conflitos políticos, econômicos e até bélicos que acontecem na Ásia! (vide o conflito entre Índia-China). Fico atônico ao ver algumas semelhanças com a mesma década do século passado. Gripe, crise financeira, escassez de recursos, conflito bélicos regionais e, por fim, mundial. Ainda me resta a esperança que o bem, a fé (seja qual for a sua religião) e a racionalidade serão superiores ao mal que assola a sociedade.

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