O emprego ou a vida?

A falsa equação que distorce o debate sobre o combate à pandemia

O estudo foi publicado na prestigiosa revista científica The Lancet Global Health no começo de novembro passado, antes que a palavra coronavírus implodisse nossa vida. No contexto da pandemia, porém, suas conclusões ganharam nova relevância por quantificar de forma inédita a relação entre recessão econômica e aumento da mortalidade nos países de renda baixa ou média, como o Brasil. Lançando por terra, portanto, a falsa equação segundo a qual salvar vidas e preservar a economia seriam objetivos excludentes, não políticas integradas que reconhecem o caráter sistêmico do desenvolvimento.

Fruto de uma parceria entre médicos sanitaristas do Brasil e do Reino Unido, com o fim de avaliar o impacto humano da última recessão brasileira, a pesquisa computou dados de 5.565 municípios e terminou por constatar o óbvio. Ou seja, quando a atividade econômica se contrai nesses países, eliminando empregos e renda, a vida inescapavelmente fenece — seja pela fome, pelo aumento de doenças ligadas ao estresse ou pela falta de meios para tratar outras morbidades. Uma constatação elementar, mas que muitos vêm se recusando a levar em conta, por razões políticas, nos debates sobre o combate à pandemia.

Como não é possível esconder a realidade indefinidamente, contudo, a perspectiva do desemprego em massa e de “fomes de proporções bíblicas” já ganha as manchetes. A expressão, empregada pelo diretor do Programa Mundial de Alimentos da ONU, David Beasley, veio acompanhada do cálculo de que nada menos do que 130 milhões de pessoas engrossarão as já imensas fileiras dos famintos do mundo, se nada for feito com urgência para reforçar programas assistenciais e evitar o colapso das cadeias de suprimentos.

“Há um risco real de que mais pessoas venham a morrer em decorrência do impacto econômico da covid-19 do que do próprio vírus”, alertou Beasley.

Em muitos países pobres, como a Nigéria, por exemplo, essa ameaça já é realidade. “Prefiro morrer do coronavírus a morrer do vírus da fome”, desabafou nesta semana um pai de família da capital, Lagos, diante das câmeras da CNN e em meio a uma aglomeração junto a caminhões de distribuição de comida.

Nesse quadro, o mérito do estudo divulgado pela The Lancet foi justamente calcular de forma matemática, para aqueles que precisam de números para enxergar um problema, a relação entre contração econômica e óbitos — no caso, a quantidade de mortes no Brasil entre 2012 e 2017 que podem ser atribuídas às políticas desastrosas do período e às autoridades responsáveis por elas, sob o governo, ou desgoverno, da ex-presidente Dilma Rousseff.

A conclusão foi que cada ponto porcentual na alta do desemprego, que saltou de 8,4% para 13,7%, acarretou crescimento de 0,5% na taxa de mortalidade.

Assim, o indicador avançou 8%, devido principalmente ao aumento de mortes por câncer e doenças cardiovasculares. Ou seja, um excedente de 31.415 mortes no período, concentradas sobretudo entre negros e pardos e nos municípios com baixo nível de assistência, seria consequência da recessão. E o número se refere apenas a pessoas acima de 15 anos, descontando-se crianças. Um total que, à guisa de comparação, representa mais de dez vezes o número de vítimas da covid-19 notificadas no país até a finalização deste artigo.

Não se trata aqui de tomar partido entre os defensores do confinamento estrito ou de políticas diferenciadas de acordo com especificidades de cada país ou região para preservar empregos. Até porque a primeira alternativa já se impôs. Trata-se de assumir a premissa inquestionável da relação entre economia e vida nas discussões em curso sobre as prioridades para o Brasil pós-pandemia. Principalmente quando se considera que, depois de uma década de estagnação, a tão esperada retomada do crescimento acaba de ser abortada mais uma vez. Agora, não obstante o escancaramento das burras do Tesouro, a previsão é de que a economia deverá encolher em torno de 5%. Quanto isso representará em vidas perdidas?

Como não há precedente de paralisação tão súbita e abrangente numa economia globalizada, sobram especulações sobre a duração da calamidade. Quão difícil e longa será a retomada? Que políticas seriam mais eficientes e sustentáveis para acelerar o processo?

Como ocorreu entre os cientistas, que não conseguiram entender-se sobre o vírus, os mais bem pagos economistas do mundo também não chegaram a um consenso a respeito da recuperação. Alguns buscam pistas no comportamento da China, cuja economia tenta dar sinais de vida depois de encolher 6,8% no primeiro trimestre. O americano Arthur Kroeber, fundador da consultoria especializada em Ásia Gavekal Dragonomics, por exemplo, acha que o país demorará a retomar o crescimento, principalmente pela dificuldade de reativação dos pequenos e médios negócios. E estende a mesma análise para as demais economias.

Diante da total desarticulação das cadeias globais de produção e da logística complexa que as sustentava, é compreensível que a maioria dos cenários penda para o catastrofismo. O Fundo Monetário Internacional (FMI) já previu que PIB global cairá 3%, sendo que a retração será muito mais grave nas economias ricas — 5,9% nos EUA, 7,5% na zona do euro e 5,2% no Japão. Bem como na América Latina, para a qual se estima a mesma porcentagem da queda prevista para o Japão, 5,2%.

Deve-se lamentar que tais projeções não sejam acompanhadas de estatísticas sobre o custo humano de uma depressão dessa magnitude: o aumento da fome e dos óbitos, o endividamento das famílias, a quebradeira de empresas de todo tamanho, a alta da violência e do crime e tantas outras pequenas e grandes tragédias. Também não há clareza sobre as consequências políticas de uma devastação dessa ordem, embora os fantasmas do Crash de 1929 e da Grande Depressão da década de 1930, que contribuíram para a ascensão de regimes totalitários e a eclosão da Segunda Guerra Mundial, pairem assustadoramente sobre o horizonte.

Boa parcela de economistas antevê um retrocesso na globalização, com o aumento do protecionismo e do nacionalismo.

E ainda: o aprofundamento da desigualdade entre classes sociais e países, além de uma regressão generalizada do Índice de Desenvolvimento Humano, o IDH da ONU. Um mundo mais pobre, portanto, com maior intervenção estatal na economia da maioria dos países, o que deixa os liberais e a direita de cabelos em pé, enquanto a esquerda esfrega as mãos pela chance de uma sobrevida do  keynesianismo.

Há quem vislumbre uma inflexão histórica. E os céticos de sempre, para os quais tudo continuará, na essência, como sempre foi. Mas o mais provável é que o futuro se configure em algum ponto entre os dois extremos. E que venhamos a sentir certa nostalgia em relação àquele velho mundo pré-pandemia. O qual, malgrado todos os seus decantados defeitos, representou um longo e inédito período de prosperidade, do fim da Segunda Guerra até hoje, com a incorporação de centenas de milhões de pessoas aos benefícios do bem-estar social.

É o que sugere um vídeo que circula nas redes sociais na França, anunciando para breve o lançamento de um novo parque temático espetacular. Com atrações frenéticas, espetáculos de luz e som atordoantes, um show permanente de novidades. E o que é melhor: totalmente gratuito, já que bastará abrir as portas e sair às ruas para viver a emoção de estar em meio a uma multidão de pessoas, ocupadas em trabalhar, se divertir e conviver, numa coreografia sempre em movimento. Aquela “música da vida” que conhecíamos e já causa saudade.

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Selma Santa Cruz foi editora e correspondente internacional de O Estado de S. Paulo e da revista Veja, na França e nos Estados Unidos, antes de se dedicar à comunicação corporativa como sócia-diretora da TV1, grupo de agências especializadas em marketing digital, conteúdo, live marketing e relações públicas. É mestre em Comunicação pela USP e estudante permanente da História.

 

 

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