‘Precisamos fortalecer a ciência brasileira’

O imunologista Jorge Kalil está à frente da pesquisa para produzir um imunizante em forma de 'spray' nasal 100% nacional

Uma vacina sem agulha, adaptável às diferentes variantes do coronavírus, de baixo custo e 100% nacional. Essa é a aposta de cientistas brasileiros que estão desenvolvendo um imunizante em forma de spray nasal no combate à covid-19. O imunologista Jorge Kalil Filho — diretor do Laboratório de Imunologia do Instituto do Coração do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) e professor titular de Imunologia Clínica e Alergia da FMUSP — é o coordenador da pesquisa, iniciada em março do ano passado. “A vantagem da vacina em forma de spray nasal é que é possível estimular uma resposta local forte no sistema respiratório, o alvo principal dessa doença”, explica Kalil.

O imunizante brasileiro ainda não chegou à fase clínica, mas já mostrou bons resultados em estudos com camundongos e caminha para o início dos testes em humanos ainda neste ano. Até o momento, o Brasil conta com apenas duas vacinas para aplicação em massa: a chinesa CoronaVac e a britânica da AstraZeneca/Oxford. O aumento de opções no parco cardápio vacinal brasileiro é muito bem-vindo, embora a promessa é que essa vacina nasal esteja pronta apenas no final de 2022. Para o ex-diretor do Instituto Butantan, é possível que a periodicidade de imunização contra a covid-19 seja anual, assim como ocorre com a vacina da gripe. “Veja, essa doença veio para ficar. E as vacinas de segunda ou terceira geração é que serão usadas para imunizar a população, talvez todos os anos”, estima Kalil. O médico defendeu ainda a importância de o Brasil desenvolver uma vacina própria para não depender de outros países, criticou o fechamento precoce de hospitais de campanha e apontou as dificuldades em fazer ciência no Brasil.

A seguir, os principais trechos da entrevista.

O senhor lidera um projeto para produzir uma vacina brasileira em forma de spray nasal, em desenvolvimento no Instituto de Investigação em Imunologia (III), sediado no Laboratório de Imunologia do Instituto do Coração (InCor), em São Paulo. Quando sua equipe iniciou a pesquisa e como vai funcionar essa vacina?

Começamos nossa pesquisa em março do ano passado e 34 pessoas trabalham no projeto. A maioria dos estudos para o desenvolvimento de vacinas contra o Sars-CoV-2 se concentrou na produção de anticorpos neutralizantes para a proteína spike [espícula], presente no coronavírus e que se liga a um receptor nas células do organismo infectado. Essas técnicas utilizam vetores como o RNA mensageiro [vacinas da Pfizer e da Moderna] e o adenovírus [similar a vírus de resfriado comum], que pode ser de humano, no caso da vacina russa Sputnik V, ou de chimpanzé, usado na vacina da AstraZeneca/Oxford. A chinesa CoronaVac utiliza a técnica do vírus inativado.

Nós resolvemos pensar diferente. Analisamos 220 amostras sanguíneas de pessoas que se recuperaram da covid-19 para entender quais fragmentos do coronavírus geraram uma resposta imune das células T [responsáveis pela defesa do organismo] e quais reconheceram e mataram as células infectadas. Com esse estudo foi possível analisar os alvos da resposta de anticorpos e também da resposta celular para escolher o antígeno [substância capaz de promover uma resposta do sistema imunológico] usado na produção da vacina. Desenhamos uma molécula artificial com fragmentos de células que estimulam a produção de anticorpos, e para levar essa “mistura” até o sistema imune foram criadas nanopartículas em laboratório, que podem ser inaladas pelo nariz.

Quais são os benefícios da produção de uma vacina nasal para combater a covid-19?

A vantagem da vacina em forma de spray nasal é que é possível estimular uma resposta local forte no sistema respiratório, o alvo principal dessa doença. Ainda, a vacina fortalece as defesas na mucosa nasal. Nosso objetivo é que a vacina seja capaz de fazer com que o corpo humano consiga produzir a resposta imune celular e de defesa, além de gerar uma célula de memória para evitar que o coronavírus consiga se desenvolver e se reproduzir após uma infecção. O método que utilizamos tem mais chance de esterilizar o indivíduo, porque, com as vacinas que estão sendo aplicadas hoje, não se sabe se o indivíduo imunizado pode carregar o vírus nas narinas e transmitir para outras pessoas, por exemplo. Além disso, nosso produto é adaptável às diferentes variantes; aliás, já fizemos uma modificação na vacina para incluir a variante de Manaus. O produto pode ser guardado até mesmo em temperatura ambiente e tem baixo custo de produção, estimado entre US$ 6 e US$ 7 a dose.

Qual o estágio de desenvolvimento atual da vacina e quando ficará pronta?

Estamos trabalhando no antígeno, para que seja de produção industrial fácil e barata. Como até então estudamos o antígeno em pedaços, queremos agora transformar a substância em uma peça única para ser industrializável facilmente. Também estamos analisando a capacidade de produção, que não temos ainda. Vai depender do nosso parceiro industrial, com quem estamos discutindo no momento.

Gostaria de entrar em fase clínica até o fim deste ano, com o início de testes em humanos. A ideia é fazer as três fases durante o ano que vem, para ter a vacina pronta no final de 2022.

Qual o valor do investimento na vacina brasileira até agora? De onde vêm as verbas?

Esse projeto cresce à medida que a gente avança e chega às fases clínicas. Por enquanto, recebemos uma alocação de R$ 4,5 milhões feita pelo Ministério da Ciência e Tecnologia, por meio do programa Rede Vírus. Acho que é importante mencionar porque eles foram os únicos que acreditaram nos brasileiros, que deram dinheiro para o desenvolvimento de vacinas no país. E já tem mais R$ 6 milhões para dar início ao processo de desenvolvimento industrial. Depois vamos precisar de mais investimentos para chegar às fases clínicas, e o Ministério da Ciência está tentando conseguir esse recurso. Senão, podemos também nos associar a uma empresa farmacêutica para a produção. Para a parte clínica, que inclui as três fases, estimo um custo entre R$ 150 milhões e R$ 200 milhões.

Por que é importante o Brasil ter uma vacina própria?

É importante que o país consiga controlar o sistema de produção de vacinas para que possamos produzir quanto precisamos sem depender de países como a China e a Índia, que mandam o produto pronto para ser envasado aqui. O fato de termos uma vacina 100% nacional também permite adaptações do produto às condições locais com mais rapidez e facilidade, como no caso da variante de Manaus.

“É possível que tenhamos de vacinar a população anualmente”

Com a tradição e a experiência na produção de vacinas de institutos como FioCruz e Butantan, o Brasil teria condições de criar uma vacina própria, sem depender de outros países para o recebimento de vacinas e insumos?

Teria condições; não sei por que esses institutos não o fizeram. Quando eu era diretor do Butantan, desenvolvi vacina da dengue, melhorei a vacina da raiva, produzi a vacina da influenza. Depende muito da direção do instituto. Falta confiança de que é possível fazer. Quando saí do Butantan, deixei o instituto com US$ 500 milhões em caixa. Então, se eles não gastarem em compra de respirador e investirem na pesquisa, talvez consigam fazer alguma coisa.

Se houver vacina disponível, o Ministério da Saúde estima vacinar toda a população brasileira até o fim do ano. Por que investir em uma vacina que, se tudo der certo, só ficará pronta no final de 2022?

Veja, essa doença veio para ficar. E as vacinas de segunda ou terceira geração é que serão usadas para imunizar a população, talvez todos os anos. Não sabemos com certeza, mas é possível que tenhamos de vacinar a população anualmente, como na campanha de vacinação contra a gripe, sempre incluindo novas variantes. Nossos estudos já estão contemplando as variantes da África do Sul e de Manaus, que são as mais importantes, porque escapam da resposta imune. Os cientistas que apostaram na proteína spike fizeram uma aposta e deu certo. Mas não acredito que seja a última geração de vacinas. Acredito que haverá outras.

No começo da pandemia, médicos e especialistas em saúde, com medo de sobrecarga no sistema, pediam que as pessoas ficassem em casa. Como o senhor avalia essa conduta e o que poderia ter sido feito de forma diferente na gestão da crise sanitária?

No começo, teríamos de ter capacidade de testagem rápida e isolamento das pessoas  infectadas. Depois, ter maneiras de isolar o infectado, porque esse negócio de mandar para casa não funciona. As pessoas mais humildes não têm como se isolar dentro da própria casa. Poderiam ter sido usados os hospitais de campanha, os estádios de futebol, as escolas, os hotéis fechados, para isolar as pessoas doentes e controlar a epidemia.

Durante o ano passado foram construídos vários hospitais de campanha em todo o país, que acabaram desmontados em poucos meses.  Agora, o governo do Estado de São Paulo informou a construção de mais 11 hospitais de campanha. A estratégia de construir esses estabelecimentos foi uma boa ideia?

Sem dúvida, os hospitais de campanha foram desmontados de forma precoce, sem esperar a segunda onda. Deveriam ter sido mantidos por mais tempo, porque aí não estaríamos nesse estrangulamento do sistema de saúde como estamos agora. Todo mundo dizia que haveria uma segunda onda. Acharam que se iniciaria entre o Natal e o Ano-Novo, mas já começou no feriado de Finados, em novembro. A gente sabe que essas epidemias virais vêm em ondas. Na gripe espanhola, a segunda onda foi ainda mais mortal. As pessoas não estudam História para ver como as coisas se comportam.

Como o senhor avalia o ritmo de vacinação no Brasil?

Poderíamos ter o ritmo multiplicado por dez se tivéssemos mais vacinas. O problema é que não temos. O Brasil tem capacidade de vacinação, tanto é que para a vacinação da influenza nós vacinamos 80 milhões de pessoas em três meses. No ano passado nós não tínhamos, na direção do sistema de saúde, pessoas capacitadas para tomar a decisão de comprar vacinas. Veja que o Canadá comprou vacinas em número suficiente para até seis vezes a população. É burrice? Não. Eles compraram quando ainda não estavam aprovadas, garantiram as doses e agora escolhem qual vacina vão aplicar. As outras eles podem revender, inclusive com ágio, porque todo mundo quer vacina. Poderíamos até negociar com esses países que têm excedente, mas não vejo uma busca ativa do Brasil para comprar vacinas. E agora a maior parte da produção já está vendida.

Como é fazer ciência no país? 

É um desafio, porque não existem recursos financeiros disponíveis constantemente. Além de não existirem, é difícil usá-los, porque é uma burocracia do cão. As importações dificultam o trabalho do dia a dia, e não há uma continuidade das ações. O que acontece é que estamos perdendo muita gente jovem, brilhante, que se cansa do Brasil, quer fazer ciência, e termina indo para o exterior.

Mas precisamos acreditar e fortalecer a ciência brasileira, que responde rápido às necessidades, apesar das dificuldades. Nós isolamos e sequenciamos o vírus, fizemos respiradores, existem grupos atuando no diagnóstico, grupos trabalhando em vacinas, como o nosso. É fundamental que o povo brasileiro veja a importância de ter boa ciência no país.

Leia a reportagem “A supervacina”

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8 comentários

  1. Muito boa entrevista. Durante os governos militares eu ouvia, muito jovem, que os grandes cérebros do país estavam a sair porque havia dificuldades para trabalhar e pensar no Brasil, principalmente com a censura exercida pelos militares. Hoje, cerca de 50 anos após, temos a resposta à última pergunta da entrevista a expor praticamente os mesmos motivos, mas agora temos patrulhas ideológicas, censura exercida por empresas que vendem livros, e “redes sociais” que filtram pensamentos e exposição de idéias. Sem dúvida, retrocedemos muito. Ou, na melhor das hipóteses, estamos no mesmo patamar após 25 anos de governos esquerdóides nesta triste terra. Lutamos ainda por lilberdade e direitos individuais. Que coisa triste, viver em um lugar que não passa de uma máquina de moer sonhos.

      1. Parabéns ao Dr, Kalil e equipe por acreditar no desenvolvimento de ciência em nosso país . É
        preciso investir na nossa capacidade de desenvolvimento de tecnologia e para isso é fundamental a união do governo e iniciativa privada para atender as necessidades financeiras que esse tipo de iniciativa requer!

  2. Esse é o verdadeiro cientista não marqueteiro, que diariamente infestam na mídia o ódio e a desinformação, e a acusação de “negativismo” do governo federal contra as vacinas, ciência, e outras baboseiras.
    Ora, o dr. Kalil recebeu verbas do ministério de ciência e tecnologia deste governo para esse desenvolvimento deste estudo, que também fez acordo de comercialização e transferência de tecnologia com a vacina da Oxford/Astra Zenica e Fiocruz, estabelecidos em meados do ano passado, ocasião que sequer sabíamos que a vacina da Pfizer, de elevado custo e com todas as dificuldades de armazenamento em baixíssimas temperaturas, somente aprovadas em uso emergencial nos EUA em Dez/20, fosse a queridinha da classe privilegiada brasileira que possivelmente a quer de graça.
    Gostei das colocações do dr. Kalil, e penso que ele fez criticas a atual gestão do Butantã por não desenvolver as próprias vacinas e ao governo do Estado de SP pelo desmonte de hospitais de campanha.
    Isto nos faz pensar que mesmo sabendo do desenvolvimento da vacina de Oxford com o governo federal, o marketing eleitoral de Dória para eleger-se presidente foi aliar-se ao Butantã para consagrar a vacina da Sinovac que não é sequer a mais aplicada na China, O próprio embaixador chinês no Brasil que lida bem com os opositores do governo já andou oferecendo a vacina da Sinopharm para nossos senadores e governadores opositores.
    Nesta grave crise sanitária que nos encontramos seria muito importante a equipe do dr. Kalil participar com o dr. Queiroga nas soluções emergenciais de combate ao COVID.

  3. Esse sim é um grande pesquisador científico,homem da ciência e de verdades.Foi diretor do instituto Butantan durante anos e fez dele uma fábrica de vacinas,corretas e eficazes.Nossa populacao tem acesso anualmente as vacinas contra gripe e outras que imunizam nossas crianças contra doenças que antes matavam.Esse é um exemplo para o mundo.O instituto Butantan dele se orgulha.

  4. Excelente entrevista com o Dr. Kalil. O país precisa de pessoas como ele e não dessa corja de vagabundos, marqueteiros instalada na maioria dos governos estaduais e prefeituras.

  5. Excelente artigo, porém tenho uma dúvida. Na frase:
    “Eles compraram quando ainda não estavam aprovadas, garantiram as doses e agora escolhem qual vacina vão aplicar.”
    Pode se fazer isto? Comprar uma vacina sem que ela esteja aprovada e também sem saber se seria aprovada? De quem seria a responsabilidade disto?
    Acho que o STF já teria desfeito tudo e prendido o responsável sem direito a defesa. Poucos estão preocupados com o povo; a maioria está com a preservação do status quo.

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