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Carta ao Leitor

A debacle da mídia, a crise fake, as mentiras amigas e as boas razões para não se indignar

A julgar pela temperatura política aferida por absoluta maioria das redações, um grupo expressivo de jornalistas estaria agora à frente de portões de embaixadas em busca de asilo político. O golpe estava armado, logo ali, na antessala do Planalto. A democracia corria sérios riscos.

O que se viu nesta semana foi mais uma evidência de um fenômeno extraordinário que acomete a imprensa nacional. Desde a posse do presidente Jair Bolsonaro, os veículos de comunicação abdicaram da prerrogativa de apresentar ao público sua visão particular dos acontecimentos. A adesão a uma espécie de pool doutrinário tem como consequência a reprodução do mesmo discurso em todos os jornais e emissoras de TV. O lockdown é a única saída “científica” para domar o avanço da pandemia. O presidente é genocida. Recursos preventivos contra a covid não podem sequer ser debatidos — são automaticamente tachados de fake news. Não há discussão possível. Não há pautas fora da linha da suposta virtude progressista. O tal “Consórcio da Imprensa” define o rumo da cobertura. Determinadas perguntas são vetadas. Vozes que questionam a visão que a mídia definiu como a “correta” são canceladas.

Razões como essas estão na raiz da debacle da mídia tradicional. A chamada “grande imprensa” tem hoje uma mínima fração da audiência que tinha há dez ou vinte anos — e não apenas pelo avanço da internet. Para apresentar um panorama desse cenário, o articulista Dagomir Marquezi examinou os dados compilados pelo repórter Artur Piva e escreveu a matéria de capa desta Edição 54 da Revista Oeste.

O tombo da velha mídia se materializa não só nas planilhas que exibem a receita em declínio vertiginoso, mas também na abordagem das pautas. A crise fake da semana só serviu para tirar a pandemia das principais manchetes, como nos mostra Augusto Nunes. Em mais um artigo que comprova seu talento descomunal, Augusto faz um retrospecto de fatos da História recente relacionados ao Ministério da Defesa. Se não houve “risco institucional” ou tensões na caserna quando um comunista assumiu a pasta, por que haveria agora?

Os jornalistas parecem ficar saudosos de tempos em que podiam se sentir heróis em combate contra um regime repressivo. Há uma espécie de tara nas redações quando se fala em Forças Armadas. Tanto que houve inclusive quem pedisse golpe — contra Bolsonaro, claro; aí, seria “golpe democrático”. A esse respeito, assinala J. R. Guzzo, com a notável clareza tão conhecida do assinante da Revista Oeste: “O problema dessas histórias, trazidas pelos peritos que a mídia vai buscar nas universidades para dar entrevistas e participar de mesas-redondas, é que nem Bolsonaro, nem os militares demitidos, nem os que foram para o lugar deles podem dar golpe nenhum — não no mundo das realidades.”

O escritor Guilherme Fiuza aborda outros aspectos do mesmo assunto. “Claro que ‘a maior crise militar em quase 45 anos’ não vai tomar carimbo de ‘desinformação’ dos senhores da verdade, porque mentira boa é mentira amiga”, diz Fiuza. Como é facilmente comprovável, aqueles que se apresentam como “verificadores independentes” estão a serviço de uma ideologia, não do leitor. A agência Aos Fatos, por exemplo, mais uma vez classificou como falsa uma nota correta, checada e 100% baseada em dados publicada no site de Oeste. Entretanto, como pondera Fiuza, “se servir para fermentar crise de proveta contra o fascismo imaginário, está valendo”.

A tal luta contra o suposto “fascismo” que se instalou no Planalto inclui a plataforma de defesa irrestrita do isolamento social. De modo que a imprensa tradicional simplesmente ignora as alarmantes ilegalidades cometidas sob a égide da preservação de vidas. As arbitrariedades do lockdown estão na matéria assinada pela editora Branca Nunes.

Diante desses fatos, embora a fúria pareça às vezes irreprimível, Rodrigo Constantino ressalta, num texto inspiradíssimo, que a indignação pode não ser o melhor caminho: “Indignação é fraqueza. É silenciar o pensamento racional e permitir o triunfo da emoção. Apesar do que você tem ouvido e visto ultimamente, não é uma virtude. Não é algo para ser celebrado, nem elogiado, nem aspirado. É uma emoção profundamente humana — às vezes até compreensível — mas raramente é produtiva, virtuosa ou útil.”

Boa leitura.

Os Editores.

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5 comentários

  1. Gostaria de ressaltar apenas que a Itália, governada pela esquerda, continua sendo o país com o maior número de mortos no mundo em termos absolutos (vítimas por 100mil habitantes). Isso apesar das duras restrições, entre elas lockdown e meses de toque de recolher. Mesmo assim, a imprensa de lá também aponta pro Brasil como o “mau exemplo” no combate a pandemia, culpando por isso o presidente Bolsonaro. E todas as tentativas de mostrar outra realidade vem sendo ignoradas ou silenciadas…

  2. …..amigos, é só um desabafo, o programa Roda Viva, deveria acabar, mudar de nome, já que mudaram tudo, há ”n” pessoas muito interessantes a serem entrevistadas, mas não vejo a direção do programa interessada nisso.
    obrigado

    1. É muito simples entender os rumos que o programa tomou. É apresentado em qual TV? Na Cultura, rede mantida com recursos públicos do Estado de São Paulo, governado pelo Sr. Ditadória. Poderia ser esperar outra coisa?

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