Checadores de ideias

As agências de checagem de fatos dizem identificar fake news. Na verdade, checam se a notícia está de acordo com o pensamento progressista

Desde que a expressão “pós-verdade” entrou para o dicionário britânico Oxford, em 2016, o mundo viu renascer a preocupação com um dos fenômenos mais antigos da humanidade: o boato. Rebatizado de fake news, o conteúdo falso assumiu as vestes do jornalismo, copiou o design das páginas de notícia e cativou leitores mais propensos a aceitar relatos com base em suas emoções do que em fatos — esta é, aliás, a definição de pós-verdade.

Impulsionadas pela facilidade de compartilhamento nas redes sociais, páginas de conteúdo falso despertaram o instinto caçador de jornalistas imbuídos no papel de justiceiros sociais. Encontrar, desmascarar e denunciar sites de fake news se tornou uma das atividades mais regozijantes dos profissionais de imprensa. Nada mais legítimo — embora não seja exatamente assim na vida real. Um profissional comprometido com a verdade não poderia assistir passivamente à proliferação de textos contando que roubo de smartphone barato não seria considerado crime ou que o papa teria dito que “Jesus fracassou na cruz”.

Assim surgiram as agências de fact checking. No âmbito global, os primeiros experimentos foram o FactCheck.org (2003) e o PolitiFact.com (2007). No Brasil, entre as operações mais conhecidas, estão as agências Aos Fatos e Lupa (2015), associadas ao Facebook e abastecidas com verba do programa de apoio ao jornalismo da big tech. O Google também financia projetos de checagem. Em março deste ano, a agência Lupa — que não respondeu às tentativas de contato para esta reportagem — anunciou ter sido o único site brasileiro selecionado pelo Google para receber parte dos US$ 3 milhões do fundo criado pela companhia em defesa da vacina contra a covid-19.

Com as alianças estabelecidas com as corporações de redes sociais, a atuação dessas agências avançou sobre a terra de ninguém chamada newsfeed — espaço que reúne todo o conteúdo postado por qualquer usuário nessas plataformas. Incapazes de gerenciar o monstro que criaram, as social big techs — prioritariamente, o Facebook — delegaram aos fact checkers o poder de escolher o que pode circular nas redes.

“É o surgimento de uma nova classificação sobre credibilidade que as big techs estão promovendo. Atualmente, essas empresas de tecnologia escolhem quais veículos podem determinar o que é verdade ou mentira e, com base nessas decisões, quais informações serão difundidas massivamente para a audiência. Ou seja, os veículos escolhidos têm de fato a palavra final sobre os jornais tradicionais.”

O alerta é de Ewandro Schenkel, gerente de jornalismo da Gazeta do Povo, do Paraná. Em 2020, o jornal centenário entrou para a lista de veículos de desinformação, criada pela CPMI das fake news. A classificação feita por agências de fact checking e por consultores legislativos não se sustentou. Bastou a equipe da Gazeta perguntar quais foram os critérios usados na decisão — nem as agências nem a relatora Lídice da Mata (PSB-BA) souberam responder.

Em tentativas como essa, de monopolizar o entendimento sobre o que é verdade, as redes sociais e empresas de fact checking são amparadas pelo Estado na criação do que Schenkel chama de “cultura de veneração pelos ‘checadores’”, o que pode gerar prejuízos e calar veículos que praticam o jornalismo em essência, como ele sempre precisou ser: com checagem de fatos prévia à publicação. Num cenário assim, a atuação dos profissionais de fact checking perde o sentido, a menos que haja outras razões para exercer a vigilância sobre o trabalho de colegas, numa espécie de censura institucionalizada.

Schenkel sublinha que boa parte da apuração feita pelas agências de checagem se debruça sobre pautas subjetivas ou temas sem consenso, como os debates religiosos, ideológicos e até referentes a avanços da ciência.

Sem critérios claros, os fact checkers tratam conteúdo jornalístico profissional da mesma forma como avaliam qualquer outro conteúdo postado por qualquer usuário nas redes sociais. Uma evidência disso ocorreu quando a agência Lupa rotulou de falsa uma imagem capturada no site de Oeste mostrando a notícia de que a OMS defende a retomada econômica. A captura de tela foi postada pelo então candidato a vereador Bruno Secco (PP-SP), que acrescentou um comentário com sua opinião a respeito da notícia.

Reprodução de imagem veiculada pela agência Lupa.

O patrulhamento da Lupa entendeu que nada daquilo deveria estar nas redes sociais: nem a notícia de Oeste nem a opinião do usuário. Num claro ataque à liberdade de expressão, a agência demonstrou desconhecer conceitos primários da cultura digital, como o remix narrativo. Autores como Henry Jenkins e André Lemos já publicaram extensas obras abordando o protagonismo que cada indivíduo assume ao produzir sua mensagem a partir de uma colagem de outros conteúdos publicados. Completamente alheia à opinião do usuário — afinal, ele ainda tem direito a publicá-la no próprio perfil —, a Lupa expôs a marca e a notícia de Oeste de forma pejorativa e sem nenhuma justificativa jornalística.

De repente, o que era para ser checagem de fatos se transforma em jogo de opiniões. Basta que alguém se incomode com algum acontecimento noticiado e — pronto! — ele corre o risco de ser tachado de fake news. Isso acontece porque o trabalho das agências começa com a compilação de denúncias de conteúdos supostamente impróprios ou enganosos, feitas por qualquer grupo de usuários nas redes sociais, inclusive por milícias virtuais.

Por mais que o sistema que recebe as denúncias opere por machine learning, não há inteligência artificial capaz de interpretar as motivações de quem denuncia um conteúdo. Como separar denúncias feitas com base numa real desconfiança daquelas motivadas pela simples oposição a valores ideológicos?

Ao receberem a notificação dos conteúdos reportados pelos usuários, as agências de fact checking podem fazer um recorte e direcionar seus canhões àquilo que mais lhes convém ou que chancele suas convicções políticas. O cenário para criar uma narrativa oportuna é perfeito; afinal, além de elas estarem incumbidas de decidir o que é verdade e o que é mentira, não há quem cheque os checadores.

Nos sites dessas agências há inúmeras explicações sobre o processo que dizem adotar e os métodos que se comprometem a usar. Todas as explicações mencionam apartidarismo e precisão. As agências também firmam o compromisso de que seus profissionais não atuarão como apoiadores de partidos políticos, governantes ou candidatos. Tampouco vão advogar contra ou a favor de quaisquer posições políticas em quaisquer questões, exceto pela transparência e precisão no debate público — é o que estabelece a cláusula 2.4 do termo de compromisso da International Fact-Checking Network, entidade internacional que certifica a atuação de agências como Lupa e Aos Fatos.

Na vida real, entretanto, a história é diferente. Com o aquecimento da polarização política nas redes sociais, os fact checkers não se contiveram em avaliar sites e posts de boatos, mas passaram a escrutinar e classificar o trabalho de outros jornalistas. Ou melhor, o protocolo jornalístico de produção de notícia pouco importa; a preocupação maior é com o teor das pautas, o enfoque e o conteúdo apresentado pelas fontes.

Já não importa que um repórter entreviste uma autoridade, consulte documentos públicos e relate essas informações numa notícia. Se alguém nas redes sociais não gostar ou discordar do que a fonte disse ao repórter, quem paga o pato é o veículo jornalístico, que terá seu conteúdo rotulado de fake news e sofrerá punições aplicadas pela rede social.

Isso aconteceu inclusive com conteúdos da Revista Oeste.

Em janeiro deste ano, o repórter Artur Piva publicou a história da cidade mineira de São Lourenço, onde, num dia específico, não havia um só paciente internado na UTI por conta da covid-19. A informação constava em um boletim emitido pela prefeitura. A matéria trazia ainda uma declaração do prefeito, Walter Lessa (PTB), relatando a adoção do tratamento precoce em casos de suspeita da doença. Ainda que estivesse usando informações oficiais da cidade, o repórter de Oeste viu seu trabalho ser categorizado como “conteúdo enganoso” e “peça de desinformação” pela agência Aos Fatos.

O procedimento jornalístico de apuração, edição e publicação foi cumprido. O relato era verídico e todos os dados foram atribuídos a fontes oficiais. Mas a equipe de Aos Fatos discordava do prefeito ouvido na matéria, o que foi suficiente para atestar que a notícia era falsa. Tão falsa como se o repórter tivesse inventado o fato de as UTIs de São Lourenço estarem vazias ou simplesmente criado uma declaração de alguma autoridade. A contestação da agência, entretanto, concentrou-se basicamente em questionar a validade do tratamento precoce e, mergulhada na bandeira ideológica, esqueceu de avaliar o jornalismo.

O mais curioso é que, no final do texto publicado por Marco Faustino no site de Aos Fatos, a informação trazida por Oeste é confirmada: “Em 15 de março, de fato não há habitantes da cidade na UTI, mas os boletins entre os dias 22 de fevereiro e 2 de março mostram um caso de internação”. A notícia foi feita e publicada no dia 15 de março; o escopo da pauta não era de um mês antes. A propósito: o objeto do jornalismo sempre foi a atualidade.

Outro lapso de tempo foi protagonizado quando Aos Fatos comparou uma matéria de Oeste sobre as queimadas na Amazônia com o conteúdo reportado por boa parte da mídia mainstream. Em 20 de julho de 2020, a editora de Oeste Branca Nunes publicou: “Imagem da Nasa prova que a floresta amazônica não está em chamas”. A fonte de Branca era uma fotografia captada pelo Fire Information for Resource Management System, da agência espacial norte-americana, que mostrava focos de incêndio realmente esparsos no território brasileiro, dois dias antes, em 18 de julho.

Àquela altura, no entanto, muitos veículos preferiam usar imagens mais antigas, produzidas um mês antes por outra fonte, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Segundo esses outros veículos, as fotos do Inpe mostravam uma floresta em chamas, e essa narrativa combinava mais com as preferências da equipe de Aos Fatos. Assim, não foi difícil para a agência retirar de circulação nas redes sociais mais um conteúdo de Oeste. A matéria de Branca Nunes foi classificada como fake news, apesar de mostrar evidências e mencionar uma fonte de confiabilidade inquestionável pela comunidade científica internacional. Eram duas fontes: cada uma referente a um período; cada uma mostrando uma informação diferente. Por que a informação do Inpe era verdadeira e a da Nasa, mostrada por Oeste, resultaria numa notícia falsa?

No Facebook, a chamada para a notícia recebeu o constrangedor rótulo de “Informação falsa checada por verificadores de fatos independentes”. A fanpage de Oeste foi penalizada com a redução brusca da distribuição de seus conteúdos. Ambas as penalidades são anunciadas pelo próprio Facebook como ações que a plataforma pode tomar caso algum de seus fact checkers contratados ateste a falsidade de um conteúdo.

Na lista de providências que a rede se dispõe a tomar, não consta o questionamento das agências de fact checking. Ou seja, o que elas dizem é o que vale. E ponto-final. Oeste tentou contato com a área de atendimento à imprensa e parceria com veículos do Facebook, mas todas as mensagens enviadas pela redação foram bloqueadas pela rede social.

A Revista Oeste perguntou objetivamente à agência Aos Fatos quais informações apresentadas em ambas as notícias eram inverídicas. Apesar de ter sugerido que esta e outras perguntas fossem enviadas ao seu e-mail, Ana Rita Cunha, chefe de reportagem de Aos Fatos, não respondeu sequer a uma delas. Apenas enviou uma nota na qual afirma que a agência tem “compromisso com o apartidarismo e a equidade e com a transparência de fontes e métodos”. A nota diz ainda: “Usamos os mesmos parâmetros para checar conteúdos de qualquer espectro político-ideológico. Não advogamos por agendas políticas ou declaramos preferência ideológica em assuntos que checamos”.

Além da Lupa e da Aos Fatos, o Brasil conta hoje com uma série de outras agências de checagem menores e também de uma coalizão de 28 veículos da mídia mainstream que atuam em parceria com a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo, a Abraji, na checagem de notícias publicadas por outros meios de comunicação. O projeto, chamado Comprova, se propõe a investigar “conteúdos duvidosos publicados nas redes sociais sobre pandemia e políticas públicas no âmbito do governo federal”.

Segundo o editor-chefe do Comprova, Sérgio Lüdtke, os conteúdos checados pela rede são selecionados pelo volume de viralização, desde que obedecidos os critérios do escopo. Três a quatro jornalistas de veículos diferentes investigam o material e produzem um relatório sobre a investigação. Outros três jornalistas de outros veículos são envolvidos no processo para revisar o trabalho dos colegas. O resultado do trabalho é publicado após haver consenso de todo o grupo envolvido.

No site do Comprova, o projeto declara ter um conselho editorial encarregado de identificar “qualquer padrão enviesado não intencional”. Questionado se o conselho já havia encontrado alguma ocorrência de enviesamento nas investigações, Lüdtke afirmou: “Não encontrou”.

Assim como as agências Lupa e Aos Fatos, o Comprova também é financiado pelo Facebook e pelo Google. Ao lado de outros gigantes do Vale do Silício, como Amazon, Apple, Microsoft, Oracle, Netflix e Twitter, as líderes mundiais do mercado de tecnologia já são tradicionalmente conhecidas por financiar projetos ligados à pauta progressista.

A campanha de Joe Biden foi a principal beneficiada pelas generosas doações dos donos e dos funcionários das big techs. De acordo com o Centro de Responsabilidade Política Open Secrets, elas correspondem a cinco dos sete maiores doadores que ajudaram a derrubar Donald Trump. As razões passam até mesmo por questões pessoais. Segundo a revista Observer, Trump é desafeto particular de Jeff Bezos, CEO da Amazon. Entre cifras que variam de US$1 milhão a US$ 21 milhões por empresa, nada menos que 98% das doações do Vale do Silício foram direcionadas à campanha de Biden.

Olhando para o cenário macro da comunicação interpessoal e midiática, portanto, um dos setores mais fortes da economia global — a indústria da tecnologia — é capaz de atuar decisivamente para definir a Presidência dos Estados Unidos, além de decidir o que é verdade e o que é mentira na imprensa mundial. As agências de fact checking, por sua vez, aproveitam a incapacidade das redes sociais de combater as fake news e prometem ser a voz da verdade.

Se o que conta, para as big techs, são as causas progressistas, é para aí que essas empresas multimilionárias e supercapitalistas direcionarão suas verbas de social justice warrior. Com dinheiro na mão e pseudo-poder para rotular o mundo, os verificadores parecem menos preocupados com os fatos e mais atentos a atender quem os financia. O resultado se vê no tribunal de fact checkers negando verdades incômodas ao pensamento progressista apresentadas por veículos jornalísticos profissionais. É a vitória da pós-verdade que não aceita contestação.

Leia também “A queima das liberdades”, artigo de J. R. Guzzo nesta edição

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