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Carta ao Leitor

A vida com menos intervenção estatal, as medidas elitistas das autoridades e a nova religião contemporânea

Na maioria dos casos, o melhor que o Estado pode fazer é fazer menos. A iniciativa privada atua com muito mais agilidade, nível de eficiência extraordinariamente superior, governança responsável e, ainda, custos menores. Por que não utilizar essa experiência não apenas na gestão de rodovias, aeroportos, presídios e telefonia, mas na própria administração pública, com o propósito de melhorar a qualidade de vida nas cidades? Um município tem obrigatoriamente de funcionar com secretarias disso e daquilo, Câmara de Vereadores com dezenas de cadeiras, mais cargos comissionados para o desempenho de diversas funções? Estamos de tal modo presos a esse modelo de Estado-gerente-geral que nem nos damos conta de que é possível testar outros tipos de coordenação. Ao investigar o assunto, o repórter Edilson Salgueiro levantou diversos formatos em que o setor privado provê serviços normalmente controlados por prefeituras. Na matéria “A vida com menos intervenção do Estado”, Salgueiro relata, entre exemplos inspiradores, como até a Justiça pode operar desvinculada do regime estatal numa cidade privada.

Modelos como esses até podem parecer utópicos hoje. Mas há espaços na legislação para que certas medidas avancem gradualmente. Se a Guatemala conseguiu criar um núcleo privado de excelência urbana no território de sua capital, por que o Brasil não poderia investir num experimento similar? A guatemalteca Cayalá é, além de tudo, muito bonita. A propósito da feiura aterradora das cidades brasileiras, o jornalista Gabriel de Arruda Castro vai ao cerne da questão: “O desenho de nossas ruas, calçadas e prédios tem um efeito real sobre todos nós. Diretamente, porque neurocientistas já sabem que existe uma correlação entre beleza e bem-estar. Indiretamente, porque a feiura urbana reduz o convívio social, alimenta a violência e deprecia o valor dos imóveis. Ou seja: a má arquitetura empobrece espiritualmente e materialmente.”

É um tema para o qual precisamos ficar atentos, mesmo nesses tempos em que os gestores públicos parecem distantes da realidade de suas próprias cidades. Como mostra o editor-executivo Silvio Navarro na reportagem de capa desta Edição 56 da Revista Oeste, “A aglomeração dos invisíveis”, as normas estabelecidas nos gabinetes desconsideram o cotidiano real dos brasileiros das periferias que precisam se deslocar todos os dias para ganhar a vida usando transporte público.

A propósito do surto de elitismo que acomete as autoridades, diz Augusto Nunes: “Os portadores de miopia seletiva fingem não enxergar os milhões de excluídos da quarentena feita sob medida para integrantes da classe média alta, funcionários públicos indolentes, ricos, advogados de corruptos, corruptos com bons advogados e o restante da elite nativa. Seria excessivo esperar que essa turma se preocupe com aglomerações decorrentes do isolamento dos excluídos.”

O colunista J. R. Guzzo destaca um ponto fulcral nesse debate: o comando total somado à responsabilidade zero. “Eis uma das marcas mais agressivas do elitismo radical que torna a vida pública no Brasil a calamidade que ela é”, avalia Guzzo. “Plenos poderes para os governos estaduais e municipais quer dizer, na prática, plenos poderes para a elite. O que existe de mais elitista no Brasil do que uma ‘autoridade local’?”

Além da devoção ao elitismo, os gestores públicos têm demonstrado fidelidade inabalável à nova religião contemporânea que rapidamente se disseminou nos Estados Unidos, no mundo desenvolvido e também aqui no Brasil: “O culto à covid tem sua própria elite clerical e seus próprios mandamentos”, escreve a articulista Ana Paula Henkel. “Como em qualquer culto, os fanáticos adeptos trabalham para silenciar os hereges por estes desafiarem a ortodoxia pública e mandatária de seus pastores. O primeiro mandamento para professar essa fé é permanecer trancado.”

Aqui na Revista Oeste, você sabe, nós professamos uma fé bem diferente.

Boa Leitura.

Os Editores.

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