-Publicidade-

Há salvação para a feiura das nossas cidades?

Um experimento na Guatemala apresenta um bom caminho para o urbanismo contemporâneo

A praga da feiura une as grandes cidades brasileiras. É difícil ver uma fotografia da Rua General Osório, no centro de São Paulo, e diferenciá-la da General Vitorino, no centro de Porto Alegre, ou da General Sampaio, no centro de Fortaleza. O que se nota são fios elétricos em profusão, portas de aço enroláveis, pichações, calçadas irregulares, prédios pouco inspiradores. E o problema estético não se restringe às regiões mais antigas e degradadas: nos bairros mais novos e ricos, multiplicam-se as casas quadradas e combinações infinitas de prédios com vidros espelhados, que poderiam estar tanto em Goiânia quanto em Xangai ou Chicago.

O desenho de nossas ruas, calçadas e prédios tem um efeito real sobre a qualidade de vida. Diretamente, porque neurocientistas já sabem que existe uma correlação entre beleza e bem-estar. Indiretamente, porque a feiura urbana reduz o convívio social, alimenta a violência e deprecia o valor dos imóveis. Ou seja: a má arquitetura empobrece espiritualmente e materialmente. No fim das contas, os seres humanos não gostam de lugares feios e malcuidados. Essa não é, convenhamos, uma descoberta revolucionária. Mas, embora muitos concordem com o diagnóstico, um bom número de pessoas argumenta que, no caso do Brasil, é tarde demais para desfazer o estrago. Acontece que isso não é verdade. E talvez, surpreendentemente, o melhor exemplo venha da Guatemala.

A Cidade Cayalá parece, à primeira vista, uma vizinhança cenográfica, construída para alguma série de televisão. Mas, com suas ruas sem carros, em uma escala humana, e seus prédios charmosos, essa região da Cidade da Guatemala não é um parque temático: é uma cidade viva, com apartamentos, lojas, escritórios, cinema, centros culturais e igreja. O empreendimento foi construído em uma área privada. Os donos do local contrataram o arquiteto luxemburguês Léon Krier para planejar tanto o projeto urbanístico quanto a arquitetura dos prédios. O resultado é uma pequena cidade que funciona de forma orgânica e é permeada pela beleza — ao mesmo tempo em que resgata as tradições arquitetônicas do país.

A escolha por Krier não foi por acaso: autor de diversos livros e dono de um currículo acadêmico de respeito, é reconhecido como um dos principais expoentes de uma escola arquitetônica que pretende revitalizar os ideais clássicos de ordem e beleza, ao mesmo tempo em que respeita a riqueza gerada pelas diferentes tradições urbanísticas de cada país. De certa forma, Krier é um anti-Oscar Niemeyer. Enquanto os prédios de Niemeyer têm os mesmos traços, seja em Paris, seja em Niterói, Léon Krier faz o contrário. Seu projeto para a cidadela Poundbury, na Inglaterra, por exemplo, usa materiais e estilos arquitetônicos muito diferentes dos da Cidade Cayalá. Ainda assim, em ambos os casos o resultado é agradável aos olhos e, mais importante, reforça o sentimento de pertencimento dos moradores locais: Poundbury é uma cidade inglesa por excelência. Cayalá é uma cidade guatemalteca por excelência. Ironicamente, Niemeyer é, nesse certo sentido, o menos brasileiro dos arquitetos.

Uma das teses de Krier é a de que a forma dos prédios precisa se adaptar à sua função: nada mais deprimente, ele apregoa, do que uma cidade em que igrejas, indústrias e escolas têm o mesmo formato, indistinguível de um galpão industrial.

Os arquitetos brasileiros têm o que aprender com Krier. Boa parte deles comete o erro de simplesmente copiar a última moda europeia ou norte-americana. Outra parte produz aberrações em nome da “originalidade” (vide Brasília). Tanto em um caso quanto em outro, o problema fundamental é o profundo desprezo pelas tradições arquitetônicas e urbanísticas brasileiras. Considerações sobre o clima, as matérias-primas disponíveis e o modo de vida brasileiros não podem ser negligenciadas. Sem um estilo arquitetônico próprio, a noção de identidade nacional fica enfraquecida. É difícil esperar que os cidadãos amem o país sem antes amarem sua rua, seu bairro e sua cidade. Por isso, a arquitetura é importante demais para ser deixada apenas nas mãos dos arquitetos.

O desenho de uma cidade e de seus prédios também tem consequências diretas sobre a economia. Inaugurada há dez anos e espalhada em 440 mil metros quadrados, a Cidade Cayalá não é apenas um exemplo de bom gosto estético;  é também um sucesso financeiro para seus idealizadores. O exemplo da Guatemala demonstra que é possível haver uma arquitetura contemporânea com raízes naquilo que o passado tem de melhor. E que essa escolha é, além de tudo, lucrativa. Estamos tão profundamente imersos na feiura, e tão habituados a ela, que parece difícil que um projeto do tipo prospere no Brasil. Mas as levas de turistas que tomam as ruas de Paraty (RJ), Ouro Preto (MG), Pirenópolis (GO) e São Luiz do Paraitinga (SP) são um sinal de que, apesar de toda a pregação contemporânea contra a beleza clássica, as pessoas ainda sabem apreciar uma cidade construída de forma harmônica. Aliás, é interessante observar que, quando foi a vez de Oscar Niemeyer desenhar a própria casa onde viveria em Brasília, ele optou por um formato convencional, de inspiração colonial: a construção tem uma larga varanda, telhas de barro e muitas janelas, como uma boa casa de fazenda brasileira.

O que houve com a arquitetura no Brasil — e não só no Brasil — não foi mera mudança no padrão de beleza. Houve, na verdade, o abandono da própria ideia de beleza. Um fenômeno semelhante aconteceu, quase ao mesmo tempo, nas artes visuais como um todo. A exposição permanente do Masp é pedagógica: em vez de dividir suas obras em salas separadas, o museu apresenta todas as obras, organizadas por ordem cronológica, em um mesmo pavilhão. Na última vez em que estive por lá, em 2019, a “obra de arte” mais recente, como que a simbolizar o ápice da realização humana, era um cartaz amarelo reclamando da falta de obras apresentadas por mulheres. A apreciação pelo belo deu lugar à simples militância ideológica.

Felizmente, o Brasil não precisa contratar Léon Krier para reencontrar sua arquitetura perdida. Pouco antes de o modernismo tomar conta das escolas de arquitetura país afora, tínhamos uma escola arquitetônica que se opunha tanto aos traços abstratos quanto à mera importação de estilos estrangeiros: é a chamada arquitetura neocolonial, que teve seu auge durante os anos 20 e 30 e nos deixou prédios como a Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, talvez o câmpus universitário mais bonito do Brasil. Com sorte, ainda é possível esbarrar em uma casa nesse estilo em uma caminhada pelas grandes cidades brasileiras. As construções neocoloniais são, ao mesmo tempo, agradáveis aos olhos, funcionais e explicitamente brasileiras.

Mas a tentativa de retomada de nossa tradição arquitetônica não durou muito. Nos anos 50, os arquitetos neocoloniais perderam a queda de braço com os modernistas da turma de Niemeyer e Lúcio Costa. Os dois, aliás, transformaram Brasília em um antiexemplo: em vez de construir uma capital que reforçasse, por meio de sua arquitetura, a identidade nacional, eles optaram por um modernismo que causa mais estranheza do que inspiração ou admiração.

Infelizmente, a arquitetura e o urbanismo parecem estar ausentes da agenda de liberais e conservadores brasileiros. Na verdade, o mau gosto nesse campo está longe de ser um vício restrito à esquerda. Parte da direita pretende transformar nossas cidades em cópias baratas dos bairros de novos-ricos da Flórida, que, por sua vez, são meros pastiches repletos de construções ocas (literal e figurativamente). Não deveria ser assim. Como Winston Churchill resumiu, “nós damos forma aos nossos prédios, e eles depois dão forma a nós”. Não será possível resgatar o que o país tem de mais valioso e revitalizar as metrópoles brasileiras sem que o desenho de nossas ruas e prédios seja levado a sério. Talvez seja o momento de pensarmos em uma arquitetura neoneocolonial para o Brasil.

Leia também “A vida com menos intervenção do Estado”

Telegram
* O espaço para comentários é destinado ao debate saudável de ideias. Não serão aceitas postagens com expressões inapropriadas ou agressões pessoais à equipe da publicação, a outro usuário ou a qualquer grupo ou indivíduo identificado. Caso isso ocorra, nos reservamos o direito de apagar o comentário para manter um ambiente respeitoso para a discussão.

22 comments

  1. Excelente reportagem. Quando fui a Europa, ao retornar, a coisa que mais me chocou foi a feiura. As calçadas, as ruas sem cuidados, as edificações, as pichações, em algumas lixos pelas ruas, em Sampa, o centro velho lindo, todo carcomido. Você deu voz a minha estranheza.

    1. Excelente reflexão.
      Apesar de gostar do Krier, eu ainda acho muito rígida a arquitetura de um arquiteto só.
      Penso que é fundamental haver diversidade de desenho, mesmo que haja alguma restrição ou diretrizes de linguagem, para evitar a arquitetura “clean” neomodernista que tanto agride ao senso de beleza inato na percepção humana.
      Outro ponto relevante é o caráter de “meme” de vírus estético, que muitas vezes a arquitetura moderna e contemporânea assumem, através da hegemonia dos formadores de opinião nas universidades, todas replicadoras dessas formas retas e limpas, até as revistas de arquitetura e prêmios de design. Acaba que vira sinal de prestígio ostentar essa arquitetura de hospício que os modernos e neo-modernos (contemporâneos) tanto gostam.

  2. Sempre desprezei as grandes cidades no Brasil, e sempre gostei das pequenas e antigas. Por isto fui conhecer os centros históricos na Europa, etc. A cidade mais bonita que conheci é Cuzco, Peru. Odeio o RJ, lamentei ter morado em Copacabana.

  3. Muito interessante o artigo. Espero que surjam em breve mentes e arquitetos brilhantes para nós resgatar dessa feiúra arquitetônica! 🌟

    1. Finalmente alguém que decide criticar a obra de Niemeyer. Acho seus simplesmente horríveis e não funcionais. O MON em Curitiba é medonho.

  4. Tudo que gostaríamos de ver em nossas cidades principalmente nos grandes centros que cresceram sem o mínimo planamente urbano. Parabéns pela belíssima reportagem.

  5. Concordo plenamente que nossas cidades carecem de senso estético, em vários sentidos ~ fios aparentes, calçadas descuidadas, ruas esburacadas, casas desajeitadas,… No entanto, e desafortunadamente, nossas feiúras refletem exatamente o que somos como povo, e não o que gostaríamos de ser. Ainda que muitos de nós tenhamos a nítida ideia de como fazer no dia-a-dia ou no longo prazo, precisamos conviver com essa feiúra que se esfrega em nossas faces. Triste, mas a nossa realidade.

  6. Municípios de Brasil adotaram a arquitetura modernista de Niemeyer e Cia. como referência e simplesmente demoliram seus centros históricos em prol da nova visão arquitetônica. Nossas cidades perderam identidade e governantes em geral não se preocupam com a estética e o bem-estar em um contexto urbano. Postes são propriedades de empresas que alugam seus serviços para a passagem de fiações de terceiros, e muita gente lucra com estas aberrações. Calçadas normalmente não têm um padrão definido e cada proprietário faz do seu jeito. Ruas asfaltadas projetadas apenas para os veículos, onde a poluição sonora e do ar dominam a paisagem.

    Infelizmente, não vejo a grande parte dos governantes, empresários e população preocupados em resolver essas questões como prioridade.

  7. Nossas cidades perderam identidade. Nossa cultura perdeu identidade. Nosso folclore perdeu identidade. Nossa gastronomia perdeu identidade. Nossa música perdeu identidade. Nossa educação perdeu identidade. Perdemos nossa identidade. As cidades são o reflexo da nossa falta de identidade. Ruas feias, emaranhado de fios das operadoras da ANATEL nos postes, poluição visual das placas de publicidade, calçadas esburacadas e desniveladas, ciclovias que não vão a lugar algum, pontos de ônibus sem cobertura contra sol e chuva sobre as calçadas sem recuo, camelôs amontoados nas passagens públicas e pedestres tendo que alçar voos pelas ruas, vendedores que se apropriaram dos espaços públicos e deles se tornaram donos, comidas de rua sem controle sanitário nenhum, mendigos por toda parte nos sinais de trânsito sujeitos à atropelamentos diários, crianças pedintes nos sinais, bancas vendendo frutas e verduras ao sol, pessoas tristes e desoladas em filas imensas nos cartórios, outras e mais outras filas nas calçadas dos Bancos que fazem de tudo para dificultar as vidas dos mais pobres, ônibus soltando fumaça pelas ventas, taxis velhos andando não se sabe como, iluminação pública que não funciona, praças assaltadas por usuários de drogas, policiais avessos às suas atribuições e um povo sem rumo, sem esperança, sem governo e sem perspectiva nenhuma de melhora. Prédios e calçadas bonitas só na Esplanada dos Ministério e na Praça dos Três poderes. Lá o exercício do maldito “Estado Democrático de Direito” existe de fato. Um estado de direito só para seus próprios inquilinos dentro de uma cidade cenográfica que não pertence ao Brasil , mas a si mesma.

    1. O Plano Piloto tem calçadas e prédios bonitos.
      Brasília não tem culpa dos pilantras, não são todos, que trabalham na Esplanada e na Praça dos Três Poderes.

  8. Interessante ponto de vista, mas gosto são como digitais, cada um tem o seu.
    Dizer que Brasília é uma aberração, é levar a sua própria visão a difamar umas das melhores cidaces do Brasil para se morar. Demonstra claramente que desconhece o lado humamo da capital federal. O centro da cidade é simbólico e arquitetônico, mas as áreas residenciais foram projetadas para as pessoas viverem com muito verde e com uma das melhores qualidades de vida do país.
    Ler uma isso no dia do aniversário de Brasília me deixou surpreso.

    1. O momento de pensarmos em arquitetura não é agora! Em meio essa crise mundial na saúde. N-não! O momento não é esse. Ademais, aqui em São Paulo (como em várias outras cidades Brasileira) por exemplo, assunto como moradia sobrepõe arquitetura com vigor. Pense nessa utópica arquitetura homogeneizadas com a crescente população de moradores de rua… esse assunto, carente de políticas, com certeza é mais importante que arquitetura.

  9. Para quem sabe interpretar um texto simples, a Brasília a que me refiro não é a física, a arquitetura e suas belezas incontestáveis. A referência simbólica, mas de fácil entendimento é à Brasília política onde as demais cidades brasileiras são simplesmente esquecidas e as prioridades dão lugar a arquiteturas sombrias de poder , de negociatas sem fim, de corrupção institucional e dessa democracia de travestidos zumbis, que sugam nosso trabalho, nosso sangue e nossa esperança, sobretudo.

  10. a Praça dos Três Poderes, em Brasília, só é bonita em cartão postal, ao vivo aquele amontoado de cimento é horrível.

Envie um comentário

-Publicidade-
Conteúdo exclusivo para assinantes.

Seja nosso assinante!
Tenha acesso ilimitado a todo conteúdo por apenas R$ 19,90 mensais.

Revista OESTE, a primeira plataforma de conteúdo cem por cento
comprometida com a defesa do capitalismo e do livre mercado.

Payment methods
Security site
Gostou da Leitura?

Seja nosso assinante!
Tenha acesso ilimitado a todo conteúdo por apenas R$ 19,90 mensais.

Payment methods
Security site