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Edição de arte Oeste

Carta ao Leitor

O poder do gigante chinês, o que é e o que deixou de ser escândalo para a imprensa tradicional e a esperança de George Washington

É preciso olhar com respeito para a civilização que provou ser a mais capaz de preservar a própria cultura desde a Antiguidade. A China foi o país mais poderoso do início do século 6 a meados do século 13. Reconquistou o posto em 1700, com a dinastia Qing. E somente em 1820 deixou de ser a maior potência global, a partir da ascensão do Império Britânico. O que são dois séculos de perda de protagonismo para uma nação de 5.800 anos? Para muitos experts em geopolítica, a China está apenas reocupando uma posição que lhe cabe quase por vocação.

Para ressaltarem que seus propósitos não são militaristas nem totalitários — ao menos do ponto de vista da política externa —, os chineses modernos gostam de mencionar as viagens do almirante Zheng He no século 15. No comando da Frota do Tesouro, He cruzou todo o Oceano Índico, fez comércio, mas não subjugou povos — em contraste com os aventureiros coloniais europeus.

Por outro lado, a China tem sido brutal com a vizinha Taiwan. Opera de modo abominável para corroer a democracia em Hong Kong. Foi responsável pela primeira recessão enfrentada pela Austrália em trinta anos — ao rejeitarem a tecnologia 5G da Huawei, por suspeitas de espionagem, os australianos viram seus vinhos ser sobretaxados, tiveram de arcar com o prejuízo gerado pelo cancelamento de vários contratos e enfrentam novas represálias a cada semana. Que a China joga duro nas negociações, parece evidente. Para entender as manobras da ditadura chinesa, o editor-assistente Cristyan Costa estudou durante mais de um mês, fez diversas entrevistas e escreveu a reportagem de capa desta edição, “O jogo do gigante”.

No jogo da política em Brasília, entretanto, quem dá as cartas é um personagem de conhecido prontuário, o senador Renan Calheiros, tratado pela autoproclamada grande imprensa como “experiente” — no máximo, um ou outro articulista mais afoito o qualifica de “esperto”. “Os políticos não apenas insultam a população com a sua CPI”, diz J. R. Guzzo. “Também fizeram questão de pisar em cima, com a nomeação de Renan. É como se estivessem dizendo: ‘Isso aqui é o Senado Federal. Polícia, promotor e juiz, aqui dentro, são o Renan e a sua turma’.”

A mídia, decididamente, mudou todos os critérios para definir o que é escândalo. Escândalo é tudo o que o presidente Bolsonaro diz, faz, pensa. Tudo o mais pode ser relativizado. Um caso como o revelado por uma substantiva reportagem da Agência Pública, com acusações de pedofilia documentadas contra o empresário Samuel Klein (1923–2014), teve repercussão zero entre os veículos de comunicação tradicionais. A editora Branca Nunes apresenta um relato minucioso.

Também não produz espanto nas redações de jornais e emissoras de TV a possível implementação de documentos para segregar os cidadãos não vacinados. “Qual foi a alquimia moral que sumiu com o princípio da proteção aos vulneráveis e veio disseminar esse plano totalitário de passaporte sanitário?”, pergunta Guilherme Fiuza. “Que sanha é essa de criar um mundo exclusivo para vacinados?”

O jornalismo estridente não exibe indignação quando o ministro Gilmar Mendes berra na Suprema Corte o mantra das torcidas organizadas: “Perdeu! Perdeu!”. Para Augusto Nunes, “o gerentão da Segunda Turma do Pretório Excelso enxerga em qualquer votação um jogo em que só é crime perder”. Certo de que sua atuação não causará perplexidade nas “instituições” e na imprensa, o juiz tem tudo para virar herói da guerra contra o combate à corrupção.

Assim como Gilmar foi “normalizado”, considerou-se legítimo o cancelamento póstumo do maior escritor contemporâneo, Philip Roth (1933–2018). Diagnosticado depois de sua morte como portador de “masculinidade tóxica” por feministas do movimento #MeToo, Roth vem sendo condenado por uma caterva que nunca leu dois parágrafos da sua obra. Diz o colunista Rodrigo Constantino: “Roth morreu sem receber o Prêmio Nobel, uma evidente injustiça, talvez porque essa premiação tenha se tornado politicamente correta demais, priorizando ‘minorias’, e um judeu norte-americano é tido como representante do lado ‘opressor’ nessa visão distorcida de mundo. Ainda mais se for considerado machista.”

Ante uma realidade que nos impõe tantas frustrações, às vezes somos acometidos por um impulso quase irresistível de desistir. É quando a sempre inspiradora Ana Paula Henkel nos lembra que vale a pena seguir em frente, sempre fiel aos princípios e valores que compõem os pilares da civilização ocidental — os fundamentos do oeste. Ana Paula assinala que George Washington perdeu seguidas batalhas antes de conquistar uma vitória. Na montagem fotográfica que ilustra sua coluna nesta Edição 58 da Revista Oeste, o general empunha uma bandeira do Brasil. Nosso editor de Arte, Leandro Rodrigues, manda sua mensagem de alento aos brasileiros.

Boa leitura.

Os Editores.

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