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Edição de arte Oeste

As universidades caminham para o fim?

Se as veneráveis instituições de ensino se submeterem aos fanáticos canceladores, terão o mesmo destino da fita cassete e das carruagens

“O termo cultura de cancelamento é a expressão cômica de uma patologia cultural feia” — definiu o editorialista Barton Swaim no Wall Street Journal. “Ser cancelado é ter sua pessoa pública ou influência atacadas, tipicamente por um bando, por causa de alguma ofensa real ou não contra a ortodoxia de esquerda. Os alvos do cancelamento não são muito bons em se defender, ou mesmo entender o que está acontecendo com eles. Muitas vezes se desculpam, mesmo sem ter dito nada de errado, o que empodera os canceladores. Ou caem em choros de piedade sobre liberdade de expressão e o mercado de ideias, como se os seus atormentadores acreditassem nesses princípios.”

A cultura do cancelamento está atacando especialmente a instituição supostamente encarregada de manter vivos o conhecimento e a memória das sociedades livres — a universidade. O sociólogo húngaro-canadense Frank Furedi, em artigo para a revista britânica Spiked, conta um caso exemplar ocorrido na respeitável universidade britânica de Sheffield. Em nome da “inclusão”, a direção da Sheffield está aconselhando o cancelamento nos currículos de ninguém menos que Isaac Newton (1643-1727). Newton construiu algumas das fundações da moderna ciência, estabelecendo as bases da óptica. Ele criou as três leis do movimento na Mecânica. Formulou a lei da gravidade universal. Na Matemática, foi ele quem desenvolveu o cálculo infinitesimal.

Nada disso importa aos canceladores da Universidade de Sheffield. Para eles, Isaac Newton é apenas um “beneficiário das atividades da era colonial”. Ele representaria uma “visão eurocêntrica”. “Essa é outra maneira de dizer que os estudantes devem se sentir culpados e revelar seu ódio contra os fundadores da ciência que eles estão estudando”, diz Furedi.

Newton é apenas um dos alvos dos acadêmicos “progressistas” da Sheffield. Os filósofos David Hume e John Locke já estão sendo “rebaixados” porque alguns estudantes mais sensíveis ficaram “estressados com suas concepções tidas como inadequadas”. O filósofo e economista escocês Adam Smith, um dos pilares da ciência econômica, o grande teórico do mecanismo de mercado, um dia ousou separar em um de seus textos as nações “civilizadas” das nações “selvagens”. Resultado: “Racista! Cancela!”.

Não adianta avisar que Adam Smith usou esses conceitos no século 18. Para a gangue dos canceladores, dois séculos e meio de distância não devem ser relativizados. “O imperativo presentista que guia a guerra cultural não apenas distorce o passado”, considera Furedi. “Ele também envenena o legado intelectual e cultural de que necessitamos para imaginar um futuro diferente. Precisamos dos Newtons de nosso passado para nos inspirar a agir melhor no presente e no futuro.”

Os canceladores não pensam assim. Aliás, eles não pensam. Apenas repetem clichês ideológicos rasos e destroem tudo o que não for útil à sua visão de mundo. Karl Marx, o cocriador do comunismo, escrevia em seus livros frases ofensivas a judeus, negros e mexicanos. Mas Marx jamais será cancelado pelos atuais donos da verdade. Como disse a ensaísta Camille Paglia, “estamos mergulhados mais uma vez em um caos ético em que a intolerância se disfarça de tolerância e a liberdade individual é esmagada pela tirania do grupo”.

Outro caso perturbador aconteceu com Mary Lu Bilek, diretora da Faculdade de Direito da Universidade da Cidade de Nova York (Cuny, na sigla em inglês). Durante uma discussão, ela soltou uma frase em que dizia que se sentia como uma “proprietária de escravos”. Era para ser uma humilde e irônica admissão de culpa. Mas seus colegas não perdoaram e consideraram a frase uma terrível expressão de preconceito. Sob ataque, a reitora Bilek pediu para se aposentar prematuramente e garantiu que estava iniciando “a educação e o aconselhamento para descobrir e superar os preconceitos”.

Foi um caso de autocancelamento que lembrou na sua linguagem a sangrenta “Revolução Cultural” de Mao Tsé-tung e seus implacáveis “guardas vermelhos”, que arrancavam autocríticas de quem eles quisessem. Quando os estudantes ativistas da Cuny ficaram conhecendo o processo de autodestruição de Mary Lu Bilek, nem tentaram relembrar seu histórico antirracista. Boa parte dos alunos exigiu sua partida imediata, que ela fosse impedida de comparecer à cerimônia de diplomação e que o restante de seus salários fosse entregue a certa “Associação de Estudantes Negros de Direito”. Não bastava o espetáculo de auto-humilhação como o proporcionado pela reitora Bilek. Ela precisava ser linchada sem piedade até o último dia.

A força de movimentos extremistas nos EUA fez com que a segregação racial voltasse a ser praticada

A cultura do cancelamento chegou a tal estado de insanidade no sistema de ensino que está fazendo a História regredir em conquistas já dadas como permanentes. As escolas norte-americanas praticavam a segregação racial até 1954, quando a Suprema Corte dos EUA estabeleceu o fim da separação entre os alunos. Mas ela prosseguiu ilegalmente em Estados mais atrasados. Em 1963, uma garota negra chamada Vivian Malone rompeu o bloqueio que ainda existia no Alabama e se misturou aos colegas brancos com auxílio de tropas federais. A partir daí, a segregação acabou de vez e os alunos passaram a estudar juntos, independentemente de sua origem étnica. Até agora.

Segundo artigo de Gabriel de Arruda Castro para a Gazeta do Povo, os estudantes estão voltando a ser separados por raça. “As universidades Harvard e Columbia, duas das instituições de ensino mais tradicionais dos Estados Unidos, passaram nos últimos anos a realizar cerimônias de formatura separadas para alunos negros e latinos”, escreveu Castro. “As demandas do movimento negro, entretanto, vão além das cerimônias separadas de formatura. Outra instituição reconhecida nacionalmente, a Universidade Nova York (NYU), concordou em colaborar com grupos de estudantes negros para oferecer moradias estudantis exclusivas para afro-americanos.”

A força de movimentos extremistas nos EUA fez com que a segregação racial voltasse a ser praticada 58 anos depois da entrada triunfal de Vivian Malone na classe dos brancos. A NAS (Associação Nacional de Pesquisadores) divulgou que, num universo de 173 instituições de ensino norte-americanas, 43% apresentavam algum tipo de separação racial nos dormitórios e nada menos que 72% realizavam cerimônias de formatura divididas por raça. O relatório conclui que, “em vez de oferecer oportunidades para que os estudantes se misturem livremente com colegas de origens diferentes, as faculdades promovem enclaves étnicos, provocam ressentimento racial e constroem estruturas baseadas em rancores grupais”.

“Para ser alvo do cancelamento, não importa se você diz a verdade ou se diz coisas deploráveis”, escreveu o cientista político Bruno Garschagen aqui mesmo na Revista Oeste, “mas qual posição política você representa e se sua opinião está ou não em desacordo com o dogma esquerdista. Para a esquerda, que tem o controle ou exerce enorme influência sobre os meios de comunicação, universidades, grandes empresas, basta você ser identificado com a direita para que, estando numa posição relevante, seja vigiado e punido por qualquer opinião correta ou equivocada — não importa.”

Vivemos tempos de trevas para a nata do sistema acadêmico. Mas a vida segue um círculo natural de destruição e recriação. Talvez a cultura de cancelamento esteja ajudando a acabar de implodir um sistema já corrompido. A Universidade da Cidade de Nova York existe desde 1847. A Universidade de Sheffield foi fundada em 1905. São instituições com um histórico de respeito e seriedade na produção de conhecimento. Foram tomadas por extremistas obcecados que querem destruir um monumento universal como Isaac Newton? Então vão perder o sentido de existir.

O mesmo pode acontecer na Universidade Harvard, tradicional referência de status e qualidade. Existe um movimento no seu comando que pretende acabar com os estudos dos autores clássicos, latinos e gregos, especialmente. Filósofos como Sócrates e Sêneca seriam banidos por representarem uma influência da “supremacia branca de inspiração neocolonial”. OK. A instituição Harvard vai se submeter a esse vexame? Vai jogar na lixeira seus 385 anos de história em nome de uma causa rasa e racista? Então, dane-se a Harvard!

Ideologias são imutáveis. Sociedades são dinâmicas. Se veneráveis instituições de ensino se submeterem a minorias de fanáticos, terão o mesmo destino da fita cassete e das carruagens. A primeira universidade como a conhecemos surgiu em Bolonha, na Itália, no século 11. Um milênio depois, essas instituições pomposas e elitistas estariam chegando a um ponto de esgotamento?

Nada é eterno. Em dez séculos o mundo não mudou tanto quanto nos últimos dez anos. Seria excelente que as universidades voltassem a servir à sociedade que as criou. Mas a esta altura parece difícil que isso aconteça. Vão continuar se mutilando nas mãos de fanáticos obscurantistas?

Se continuarem, serão substituídas naturalmente por novos modelos de ensino, mais ágeis, informais, objetivos e honestos em seus propósitos. Isso já acontece, sem que ninguém consiga impedir: a educação está se libertando de suas torres de marfim,  democratizando-se e entrando em contato com o mundo real. O ritmo das transformações deixará na poeira do tempo esta triste e odiosa era do cancelamento.

Leia também “Universidades sob o comando de tolos militantes”


Dagomir Marquezi, nascido em São Paulo, é escritor, roteirista e jornalista. Autor dos livros Auika!, Alma Digital, História Aberta, 50 Pilotos — A Arte de Se Iniciar uma Série e Open Channel D: The Man from U.N.C.L.E. Affair. Prêmio Funarte de dramaturgia com a peça Intervalo. Ligado especialmente a temas relacionados com cultura pop, direitos dos animais e tecnologia.

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17 comments

  1. Essa cultura de cancelamento é subproduto do Marxismo Cultural e esse sim!! deve ser cancelo! O Marxismo Cultural deseja a extinção do passado para que as pessoas possam ser melhor programadas dentro no contexto do comunista. Sem história não há crítica.

    1. Concordo com você, DM. Por mais estranho que possa parecer nesse momento, talvez haja uma mudança de paradigmas no ensino. Ou talvez não cheguemos a esse ponto, mas algumas instituições simplesmente não sobrevivam, até mesmo uma gigante como Harvard. Assim é a vida, a transformação é uma constante. Mas uma coisa é certa: totalitarismos de qualquer natureza – inclusive cultural – têm data de validade, simplesmente porque são contrários à natureza humana.

  2. Pelo jeito, o fim está próximo e nada podemos fazer. O socialismo identitário vai vencer e toda essa “turma do bem” vai colher muitos maus frutos. Bem feito!

  3. E aquele Estado virtuoso, próspero e conquistador, que fascinava nossa imaginação, que inclusive já mandou até homens à lua, por onde anda? Amarelou também?

  4. Essa pandemia obrigou os alunos a estudarem em casa pela internet, e isso vai levá-los a se adaptar a essa nova forma de estudo, inclusive para fazer faculdade, de modo que o futuro da universidade acelerou para o virtual o que já era uma tendência.

  5. Aqui no Brasil em breve teremos escolinhas maternais com uma estrela na porta para identificar sua orientação e outras com bandeira verde amarela. A mesma coisa deverá ocorrer com escolas e universidades. Já se pensa muito sobre isto e os pais estão cuidadosos para onde encaminhar os filhos. Aliás, só para insuflar o debate, algumas universidades brasileiras tiraram do ar um tal de Jesus que programou a lavagem cerebral dos cristãos.

  6. Enquanto houver opositores, Universidade atual sobreviverá. No entanto, a proporção de opositores da esquerdopatia mundial está infinitamente menor que os apoiadores.

  7. Os esquerdistas sabem que racismo nunca vai deixar de existir. O importante é respeitar qualquer ser humano e saber que a maioria vence a minoria

  8. Excelente análise. A seleção natural prevalecerá no fim das contas. Em que lado estaremos?
    Existem muitos movimentos para o nivelamento por baixo, o que não é sustentável a longo prazo. Sem uma educação básica de qualidade, não faz sentido o investimento pesado na educação superior. Que falta faz o Ministro Weintraub!
    Empreendedorismo, inovação e educação financeira no ensino básico podem promover verdadeiras revoluções! Quem está junto? (quem está contra!!!)

  9. Não consigo entender como todos vão aceitar o cancelamento de pessoas e fatos históricos. Por que estamos discutindo esse absurdo? Esses canceladores só merecem o total desprezo. Algum professor sério vai deixar de ensinar conhecimento fundamental porque um bando de comunistas decidiu cancelar aquele ou aquilo? Não acredito!

  10. Já há um tempo não acho indispensável um diploma de curso superior, haja vista a quantidade de Desempregados que o possuem mas não conseguem se inserir no mercado de trabalho por total falta de qualificação. Muitas vezes basta um curso técnico para ser requisitado por competência, profissionalismo e seriedade. Com esse rumo que as universidades estão tomando, realmente não faço a menor questão que meus filhos as

  11. Um general de Carlos V ao chegar em allhambra sugeriu destruir as construções dos Muros e seus palácios e foi reprimido veemente pelo imperador com a celebre frase .
    Um povo que não conhece sua Historia não consegue olhar para o Futuro (Carlos v)

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