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Foto: Arquivo pessoal

O comandante da Revolução Verde no Brasil

Indicado ao Nobel da Paz deste ano, Alysson Paulinelli conseguiu transformar áreas degradadas do cerrado numa das regiões cultiváveis mais produtivas do planeta

Alysson Paulinelli tinha 34 anos quando assumiu, em 1974, o Ministério da Agricultura do governo Ernesto Geisel. Desde 1971 no comando da Secretaria de Agricultura de Minas Gerais, no novo cargo ele seria um dos protagonistas da Revolução Verde, que transformou um Brasil importador em um dos maiores exportadores mundiais de grãos, leguminosas, frutas e proteína animal. “Nas décadas de 1960 e 1970, quase 50% da renda familiar do brasileiro era destinada à alimentação”, diz Paulinelli. “A partir dos anos 1980, esse custo caiu para menos de 30%. O alimento melhorou e ficou mais barato.”

Essa mudança só foi possível graças a três fatores: pensamento de longo prazo, projetos claros e muito investimento. A primeira medida foi o envio de 1.500 jovens aos melhores centros de pesquisa agropecuária dos cinco continentes. A missão dessa pequena multidão era absorver o conhecimento que já existia e adaptá-lo ao país de origem. De volta, ao lado de gente como Paulinelli, eles conseguiram façanhas notáveis. A principal foi transformar áreas degradadas do cerrado numa das regiões cultiváveis mais produtivas do planeta.

Por seu desempenho no combate à fome no Brasil e no mundo, Paulinelli acaba de ser indicado ao Prêmio Nobel da Paz de 2021. Permanentemente otimista, ele diz com bom humor o que pensa do futuro da agricultura no país: “Se o Brasil fizer aquilo de que é capaz, daqui a 30, 50 anos estaremos entregando a nossos consumidores um produto com as mesmas características do alimento que Adão e Eva comeram no paraíso”.

Confira os principais trechos da entrevista.

Como o senhor recebeu a notícia da indicação ao prêmio Nobel da Paz?

Foi uma surpresa e uma grande honra. Um gesto muito carinhoso de amigos que trabalham comigo há mais de 50 anos. O Brasil precisa do esforço de todos para vencer suas dificuldades, e esse foi o resultado de um trabalho que fizemos desde 1954. Se ganharmos, esse prêmio não será meu, mas de todos os brasileiros.

Como o senhor descreveria o agronegócio brasileiro?

O agro brasileiro é importante para o mundo inteiro. Se há 50 anos éramos importadores de alimentos, hoje somos um dos maiores exportadores mundiais. Desenvolvemos aqui uma nova agricultura, até então desconhecida. Uma agricultura tropical, altamente sustentável, que conseguiu não só a autossuficiência como também alimentar mais de 1 bilhão de pessoas fora do país. Boa parte desses produtos é cultivada no cerrado: uma área degradada que se transformou numa das mais produtivas e competitivas do planeta. Nossos concorrentes têm o solo coberto por neve em média seis meses por ano e só produzem uma safra. Nós temos 12 meses de calor, luz e água e estamos produzindo até três safras por ano. A integração lavoura-pecuária-floresta, outra grande inovação, possibilita a utilização intensa do solo o ano inteiro. É grande a genialidade dos profissionais brasileiros. Com isso e com a irrigação, vamos revolucionar a produção agrícola no mundo. Possuímos água doce para irrigar mais de 50 mil hectares. Hoje, irrigamos 7 mil.

O que foi a chamada Revolução Verde, que aconteceu no Brasil na década de 1970?

Em 1974, quando assumi o Ministério da Agricultura, o Brasil dependia da importação de alimentos e, com a crise do petróleo, não havia condições financeiras para sustentar isso. Resolvemos então apostar na ciência e na tecnologia para criar um conhecimento que ainda não tínhamos e conseguir explorar os solos tropicais. Por meio da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), que havia sido criada um ano antes, mandamos mais de 1.500 jovens para estudar nos melhores centros de ciência do mundo. Eles foram com uma missão: entrar em contato com o que existia de mais avançado na agropecuária, aprender e trazer esse conhecimento para cá para que conseguíssemos adaptá-lo para o bioma tropical brasileiro. Foram pesquisados solos, plantas, animais, formas de plantar, manejo, como corrigir doenças, pragas etc. Com isso, foi possível transformar completamente um bioma considerado um dos mais improdutivos: o cerrado, que existe também na África e na Ásia. Além de usar recursos próprios, a Embrapa fez convênios com universidades, instituições estaduais de pesquisa e com a iniciativa privada. Também houve uma parceria com o Japão, que tinha interesse em que o Brasil se tornasse um grande produtor, para ter alternativas e deixar de depender exclusivamente dos Estados Unidos.

O que levou o governo a apostar na agricultura?

Nos anos 1970, nossa indústria era bastante obsoleta, e o presidente Geisel, que havia estado à frente da Petrobras entre 1969 e 1973, sabia que o petróleo não era uma opção competitiva. Antes da posse, em 15 de março, houve uma reunião em que estiveram presentes eu, Geisel, o Mário Henrique Simonsen, que seria o ministro da Fazenda, e o Rondon Pacheco, então governador de Minas, entre outros. Esse grupo definiu o investimento no agronegócio como o melhor caminho a seguir.

Além da Embrapa, existia também a Empresa Brasileira de Terras (Embrater). Qual era o papel dela?

A Embrapa produzia o conhecimento e a Embrater transmitia e prestava assistência técnica para o produtor e para que a família desse produtor melhorasse as condições de vida. Por meio do programa Polo Centro, destinaram-se mais de US$ 3 bilhões em créditos para que fossem feitas as inovações necessárias e construída toda a infraestrutura: desde a cerca da fazenda até a estrada para escoar a produção, passando por rede elétrica, telefonia, melhoria da casa, compra da caminhonete, do trator, da plantadeira, armazenamento do silo, enfim, tudo o que era necessário para otimizar a produção. Antes, o que havia no cerrado era uma agricultura da enxada, do arado, do carro de boi. Nosso esforço foi na direção de tornar o produtor capaz de gerenciar seu negócio e otimizá-lo. Essa foi a verdadeira revolução. Infelizmente a Embrater foi extinta antes de atingir a todos os agricultores. Foram pouco mais de 840 mil propriedades, enquanto cerca de 4,5 milhões ficaram de fora e ainda não conseguem produzir sequer para si próprias. O Brasil não pode conviver com essa mancha.

“O Brasil não só preservou sua vegetação como tornou produtivas áreas degradadas”

O brasileiro reconhece a importância do agronegócio?

O agricultor não soube se comunicar bem. A sociedade teve benefícios fabulosos. Quando o Brasil importava comida, a família média brasileira pagava o alimento mais caro do mundo. Nas décadas de 1960 e 1970, 48% de toda a renda era destinada à alimentação, o que inviabilizava investir numa educação melhor, em saúde de mais qualidade, num bom transporte. Entre 1980 e 2000, esse custo caiu para 30%. O alimento passou a ser melhor e mais barato. Nos últimos meses, houve uma nova alta nos preços por causa da escassez, mas com a normalização da oferta eles voltarão a cair. E ninguém será mais eficiente nisso que o Brasil. Já somos os primeiros produtores ou estamos entre os maiores em quase tudo: soja, milho, carne, frango, açúcar, laranja.

Quais os maiores mitos envolvendo o agronegócio?

Falar que o produtor rural desmata, por exemplo, é uma grande fake news. Ao contrário do que aconteceu em países temperados, o Brasil não só preservou sua vegetação como tornou produtivas áreas degradadas. Nossos concorrentes estão perdendo mercado e, por isso, são um pouco invejosos. A França, por exemplo, depende todo ano de 500 mil toneladas de soja brasileira, além de milho em grande quantidade, e fica reclamando sem conhecer a nossa realidade. Outro grupo que coloca o Brasil em más condições são os órfãos do Muro de Berlim. Eles vêm em cima por saber que o país é e será cada vez mais uma potência capitalista. Uma grande potência alimentar, com imensa variedade de alimentos produzidos de forma cada vez mais sustentável.

Quais os grandes desafios da agricultura?

Estudos da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), do Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento (Bird) e do Banco Mundial mostram que até 2050, quando haverá um relativo equilíbrio entre nascimentos e mortes, a população mundial terá de 2,2 bilhões a 2,5 bilhões de habitantes a mais e uma demanda de alimentos até 70% superior à dos dias de hoje. Só nós temos capacidade de aumentar a produção em mais de 40%. O Brasil será a grande segurança alimentar em 2050.

Existe diferença entre agricultura familiar e agronegócio?

Os governos populistas tentaram criar essa separação para passar a ideia de que o pequeno produtor abastecia o Brasil, enquanto o grande seria responsável pela exportação. Um era familiar, e o outro, agronegócio. Na verdade, a agricultura pode ser dividida em duas: uma usa tecnologia, repõe os elementos que usa no solo, tem alta produtividade, boa governança e vai ao supermercado porque produz alimentos de melhor qualidade, mais baratos e com abastecimento constante. A outra é uma agricultura incipiente, de subsistência, extrativista. Não é o tamanho da propriedade que determina. Hoje, pequenos agricultores estão produzindo com tecnologia e ganham muito, enquanto algumas médias e grandes propriedades são extrativistas. E todas elas são familiares.

O que o senhor faria se assumisse novamente o Ministério da Agricultura?

Acho que nem assumiria. A ministra Tereza Cristina é excelente. Ela tem lutado muito pelo agronegócio, mas está sem forças para manter os recursos. Até a Embrapa está sem um tostão para investimentos. São 2.500 doutores com pós-doutorado, a melhor empresa de agricultura tropical do mundo, e não se consegue o dinheiro necessário para aproveitar seu potencial. É como se o Brasil tivesse uma bomba na mão para acabar com a guerra, mas ficasse querendo transformá-la em biribinha de festa de São João.

Qual o futuro da agricultura?

O agricultor brasileiro está cada vez mais confiante, acredita na sua atividade, está investindo, adquirindo máquinas modernas, utilizando a tecnologia da informação. Temos drones e máquinas conduzidas por satélites, capazes de colher, limpar, classificar, padronizar os produtos com eficiência. Um bom produtor no Brasil já tem a própria fábrica de biológicos e está produzindo os fungos e as bactérias para o controle das pragas em sua propriedade ou na região. Precisamos mandar novamente a juventude a centros internacionais para conhecer o que de melhor está sendo feito nessa área. Depois da pandemia, todos vão querer alimentos mais seguros, mais naturais, mais nutritivos. Não podemos perder essa chance. Os consumidores vão querer saber onde o alimento está sendo produzido, qual a técnica usada, como foi tratado, colhido, armazenado, processado, industrializado e transportado. Segundo a FAO, a agricultura orgânica não tem capacidade para atender 0,7% da população mundial. Portanto, é preciso diminuir cada vez mais a quantidade de fertilizantes, de remédios e compostos químicos. Podemos fazer isso só com a biotecnologia. Se o Brasil fizer aquilo de que é capaz, daqui a 30, 50 anos estaremos entregando a nossos consumidores um produto com a mesma característica do alimento que Adão e Eva comeram no paraíso. Estão aparecendo agora os alimentos feitos em laboratório. Não acredito nisso. Não troco um franguinho caipira por um feito por computador.

Leia também o artigo de Evaristo de Miranda nesta edição, “O campeão da proteção florestal”

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