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A hora da prudência

São mesmo conservadores esses que num rompante jacobino querem guilhotinar tudo e todos para entrar em uma utopia fundada em paixões?

Sergio Moro ou Jair Bolsonaro. Escolham seu time, peguem seus pompons e vamos ver quem grita mais alto! Foi assim a semana política no Brasil, onde o ex-ministro da Justiça pediu demissão depois, segundo ele, de uma suposta interferência do presidente na Polícia Federal. O presidente respondeu, em uma coletiva no mesmo dia. Disse que Sergio Moro queria uma cadeira no STF e que o Ministério da Justiça não estava repassando informações de investigações importantes para a Presidência. Bum! Que coronavírus o quê… O Brasil provavelmente é o único país onde a atual pandemia não está no centro das discussões. Como dizem por aí, o Brasil não é para amadores.

E lá fomos nós para mais uma semana em companhia da velha e cega dicotomia política brasileira que tanto é alimentada, dia sim e outro também, com torcidas inflamadas, discussões acaloradas e defesas apaixonadas de políticos e nomes, muitos nomes. E é nesse ambiente nublado, povoado por “salvadores da pátria” para todos os gostos, que o país tenta, aos trancos e barrancos, achar sua maturidade política. Tudo isso no meio de uma pandemia em que milhões no Brasil e no mundo já enfrentam uma recessão econômica sem precedentes. Não custa repetir, o Brasil não é para amadores.

No meio de uma crise mundial de saúde, daquelas que estarão para sempre nos livros de história, fica cada dia mais evidente nossa crise também intelectual.

Não conseguimos deixar de lado nosso eterno “Fla x Flu” político e descemos a ladeira mais uma vez segurando nossos tamancos e gritando nomes. Por que, independentemente de nossas posições ideológicas, nos apegamos tanto a figuras públicas como os salvadores de tudo o tempo todo? Foi assim com FHC, depois Lula, agora Bolsonaro e tantos outros nomes pelo Brasil que são alvo de nossas mais profundas esperanças. De uma só vez. Até um juiz de primeira instância não escapou de nosso DNA apaixonado e muito pouco racional para a política.

Nessa última pendenga brasileira, em que acusações sérias foram trocadas, é preciso atentar para o justo: Moro foi um dos nomes mais importantes na reestruturação do império da lei no Brasil. Trouxe para nossas TVs o que só víamos em filmes de Hollywood, o xerife prendendo os bandidos. Foi também por sua bravura em confrontar a corrupção pandêmica que assolava o Brasil que o ex-juiz, juntamente com a força-tarefa da operação mais importante de nossa democracia, expôs os profundos tentáculos dos cinematográficos esquemas de corrupção de políticos e empresários. A Lava Jato devolveu aos brasileiros a esperança do fim do império da impunidade.

O que será de Sergio Moro daqui para a frente? Ninguém sabe.

Registro minha gratidão por seus serviços até aqui, sem entrar no mérito das recentes desavenças com o presidente Jair Bolsonaro. Se as especulações de que ele planeja candidatar-se a presidente em 2022 se concretizarem, darei minha opinião sobre suas ideias no momento em que elas forem apresentadas à sociedade. Minha admiração pelo que o ex-juiz da Lava Jato fez pelo país não me impede de criticá-lo no futuro, mas também não me obriga a incendiar o governo. Para a maturidade política que precisa ser alcançada no Brasil, é preciso que continuemos apontando os erros dessa e de todas as administrações, e que também torçamos — e trabalhemos — pelos bons frutos. Se esse barco afundar, junto com a imensa oportunidade de incorporarmos reais valores de nações prósperas, não haverá coletes salva-vidas. Todos nós afundaremos.

Em mares revoltos, parece quase inevitável não cair nas graças (ou garras) do atual momento da torcida que cobra que você escolha um lado.

Já. Agora. “Se você não é Moro, você é contra o Brasil!”, “se você é contra Bolsonaro, você é contra o Brasil!”, gritam as redes sociais em que muitos ainda o acusam de “não ser conservador ou liberal” se você não escolher a cor de seu pompom e seu grito de guerra. Numa disputa na qual quem vai perder muito é o país, fico com Russell Kirk, historiador norte-americano e um dos maiores intelectuais do século XX.

Autor de dezenas de livros, Kirk é considerado um dos fundadores do conservadorismo contemporâneo. A estruturação de seu pensamento tem como base as ideias de Edmund Burke, político e pensador irlandês do século 18 e considerado o “pai do conservadorismo”. E é em Kirk, no elaborador dos célebres “dez princípios conservadores” que constam na essencial obra A Política da Prudência (nunca foi tão necessária!), que me refugio nesses turbulentos tempos que vivemos no Brasil. Para Kirk, ser conservador é perceber que a vida é complexa e difícil de ser reduzida a uma lógica que procura nivelar tudo rapidamente sem análises.

O historiador americano também critica os neoconservadores, esses que num rompante jacobino querem guilhotinar tudo e todos para entrar em uma utopia de que um futuro fundado em paixões apenas é o suficiente para o paraíso na terra. Russell Kirk nos oferece a bússola neste momento turbulento: a prudência ainda é a maior das virtudes: “Qualquer medida pública deve ser julgada pelas consequências de longo prazo, não apenas por vantagens ou popularidade temporária. Agir somente após suficiente reflexão”.

Em um universo político no qual opiniões precisam ser dadas imediatamente, e imediatamente elas são marcadas com ferro quente e encaminhadas a seu devido curral (“lava-jatista”, “bolsonarista” e mais uma longa série de “istas”), fico com John Randolph of Roanoke, membro do Congresso Americano entre 1799 e 1833 e muito citado pelo mestre Kirk: “A Providência anda devagar, mas o diabo sempre urge”.

Complexa como é a sociedade humana, as soluções não podem ser simples. Têm de ser eficazes. No embate “lava-jatista” e “bolsonarista”, escolho algo bem maior que Moro e Bolsonaro, eu e você.

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