Kumasi, no centro de Gana: 3,4 milhões de habitantes apinhados, situação cada vez mais usual nas regiões urbanas da África
Kumasi, no centro de Gana: 3,4 milhões de habitantes apinhados, situação cada vez mais usual nas regiões urbanas da África | Foto: Shutterstock

Como será o mundo nos próximos anos

O impacto das grandes mudanças demográficas no Brasil, no trabalho e na democracia num planeta em que o continente africano será hiperpopuloso

Nas últimas semanas, espalhou-se pelas redes sociais um vídeo que mostra a ação de um robô separando lixo para reciclagem. A invenção é o desenvolvimento de uma tecnologia do início dos anos 1980 e leva a assinatura de uma indústria do Estado do Oregon, nos Estados Unidos. Pontos de sucção são acoplados a braços mecânicos que coletam resíduos de uma esteira. Múltiplas camadas de redes neurais e um sistema de visão possibilitam que o engenho identifique quando se trata de plástico, metal, vidro ou papel e jogue cada material num contêiner diferente. Enquanto um ser humano consegue separar, no máximo, 40 unidades de resíduos por minuto, o robô chega a 65 — é mais produtividade sem encargo social, sem licença-saúde, sem férias e com margem de erro próxima de zero.

A automação do trabalho, disparada pela Revolução Industrial, avança em sentido único e se torna ainda mais rápida com a adoção da inteligência artificial (IA) nas cadeias produtivas. Se nem mesmo a mão de obra de um trabalhador de usina de reciclagem se faz necessária, o que será exigido de um profissional nos próximos 30 anos? Qual será o futuro do trabalho em escala global?

Marco zero da dignidade humana, o trabalho dita o ritmo da economia. Às portas de uma era em que a IA promete assumir desde tarefas simples — como a separação do lixo — até operações extremamente complexas — uma cirurgia cerebral —, como reagirá a economia diante da obsolescência da força de trabalho do homem, como a conhecemos hoje? O historiador Yuval Harari, professor na Universidade Hebraica de Jerusalém e autor de best-sellers como Sapiens e Homo Deus, adverte que não basta criar novos empregos, é preciso criar empregos nos quais o desempenho humano seja superior ao dos algoritmos.

Na demografia global, no entanto, as perspectivas apontam para um cenário oposto. É justamente nos países onde mais há miséria e corrupção que a humanidade mais se multiplica. Daqui a menos de 30 anos, a África estará próxima de chegar aos 2 bilhões de habitantes. Se o número fosse apenas alto, já seria motivo suficiente de preocupação. Mas a população dos países africanos cresce geometricamente, ou seja, numa proporção lógica de 2, 4, 8, 16, 32 etc. Enquanto isso, a produção do continente segue uma progressão aritmética (em que a sequência é linear, como 1, 2, 3, 4 etc.).

Segundo relatório da Organização das Nações Unidas publicado em janeiro de 2021, o planeta Terra já somava mais de 7,7 bilhões de habitantes em 2019. Desse total, quase 1,4 bilhão de pessoas vivem no continente africano e 19% delas sofrem de desnutrição.

“Alguns dizem que o problema está na distribuição desigual da produção. Mas, se considerarmos que os bens de consumo crescem em progressão aritmética enquanto a população cresce em progressão geométrica, mesmo que o distribuidor de riquezas fosse o mais santo possível, não poderia melhorar a condição material da população”, avalia o demógrafo e professor das faculdades de Economia e Ciências Sociais da Universidade Agostinho, em Angola, Mingiedi Nzinga.

O boom demográfico registrado nos países africanos não é um problema novo, pelo contrário. Já em 1974, uma conferência da ONU reuniu em Bucareste, na Romênia, delegações de países desenvolvidos — entre eles, Alemanha, Inglaterra e França — com representantes do Terceiro Mundo, encabeçados por China e Argélia. Naquela ocasião, foi dado o alerta para o crescimento desmesurado da população em regiões com altos índices de pobreza. Era preciso que autoridades africanas e chinesas pusessem em marcha um projeto de controle de natalidade, e foi, de fato, o que aconteceu na China. Na África, porém, ainda imperava a mentalidade de que uma população jovem numerosa seria capaz de dinamizar a economia.

Dez anos mais tarde, na Cidade do México, o mesmo grupo voltou a se encontrar. Problemas como o analfabetismo, a delinquência, a prostituição, o desemprego e a multiplicação de favelas dominaram os debates e, finalmente, a delegação africana entendeu a necessidade de implementar um programa de contenção demográfica, mas a decisão ficaria nas mãos das famílias, e não do poder estatal. Na visão de Nzinga, esse foi mais um erro das autoridades do Terceiro Mundo. Em 1994, no Cairo, a ONU reúne novamente as delegações e é lançado um plano de ação a ser ancorado pelo governo de cada país.

A preocupação em respeitar a religião e a cultura de cada localidade, porém, falou mais alto em várias regiões. Quando os diplomatas voltam ao fórum da ONU, em 2004, em Nova York, os resultados mostraram que a maior parte dos países onde o controle demográfico não funcionou estava na África Subsaariana.

“Essa mentalidade de que filhos são sinônimo de riqueza é uma psicose. Se fosse assim, as famílias africanas seriam as mais ricas”, protesta o demógrafo. “Em meu entender, os Estados poderiam incentivar a adoção”, sugere. A História comprovou que uma população faminta, analfabeta e doente enfraquece o Estado e a economia.

Composição familiar e projeções demográficas

Desde 2016, todos os 20 países que compõem o ranking das nações com mais alta taxa de fertilidade são africanos. A maioria dos índices varia entre 4,7 e 7 filhos por mulher. O Níger, no entanto, lidera a lista com quase oito crianças paridas por uma mesma pessoa. Segundo a ONU, a média global é de 2,1.

Há, pelo menos, duas razões para esse cenário. A primeira diz respeito ao fato de as administrações públicas estarem tomadas pela corrupção. Por mais que governos de alguns países tenham programas sociais de planejamento familiar, as pílulas contraceptivas que deveriam ser distribuídas gratuitamente são desviadas para o mercado paralelo. A segunda causa corresponde a uma corrente de pensamento vigente em vários países africanos que defende a fecundidade sem limites.

Para se ter uma ideia, nas regiões urbanas de Angola uma família é composta, em média, de cinco pessoas. Entre as comunidades rurais esse número sobe para sete, segundo o último censo nacional. “Nas zonas rurais é muito difícil travar a geração de filhos, porque são famílias camponesas que têm os filhos como uma grande herança para ajudar na lavoura, na criação de gado”, explica António Pedro, jornalista angolano e publisher de um dos maiores grupos de mídia do país. “As próprias autoridades tradicionais [como líderes comunitários] não incentivam as mulheres das zonas rurais a tomar contraceptivos”.

Os prognósticos são desanimadores. Nos próximos 20 anos, a Nigéria será o terceiro país com maior crescimento populacional, atrás apenas da Índia e da China. O mais assustador é a velocidade com que países africanos galgam posições no ranking demográfico. Desde os anos 1970, países europeus como Itália, França e Alemanha só diminuem sua taxa de natalidade. O Reino Unido chega a desaparecer, nos anos 1990, do ranking de 20 países onde a população mais cresce. Por outro lado, Egito e Etiópia avançam duas posições em um mesmo ano e a República Democrática do Congo entra para a lista.

É verdade que o Oriente Médio se expandiu em dados demográficos na segunda metade do século 20. A descoberta do petróleo naquela região aumentou o fluxo de imigração a tal ponto que cidadãos expatriados chegam a responder por cerca de 80% dos residentes em países como os Emirados Árabes Unidos. O perfil profissional desse imigrante, porém, difere substancialmente dos africanos e, assim como nos países onde a inteligência artificial eleva as exigências intelectuais, expatriados talhados para cargos de gestão começam a escassear.

Fica difícil encontrar qualquer equilíbrio entre a demografia global e os requisitos crescentes do mercado laboral nos próximos 30 anos. Como conceber a falta de mão de obra se, em dez anos, o mundo assistirá ao aumento descontrolado da população na Nigéria, na Tanzânia, na Etiópia, no Congo e no Egito?

Não são apenas os países africanos que crescem, é claro. A Índia se prepara para ultrapassar a China e assumir o posto de nação mais populosa do mundo já em 2024. Paquistão, Irã, México e Filipinas também devem registrar crescimento demográfico durante a próxima década. Além disso, os Estados Unidos se mantêm como a terceira população mais numerosa do planeta até 2047, quando a Nigéria assume seu lugar.

Com tais exceções da América do Norte e da Ásia, o baby boom acontecerá mesmo na África. Um bom exercício é ver quais países saem e quais entram no ranking dos 20 maiores crescimentos populacionais previstos para as próximas décadas.

SAEM:
Alemanha (2039 — Europa)
Irã (2049 — Ásia)
Japão (2064 — Ásia)
Iraque (2067 — Ásia)

ENTRAM:
Uganda (2039 — África)
Quênia (2049 — África)
Angola (2064 — África)
Níger (2067 — África)

Daqui a 50 anos, nove das 20 nações que mais se reproduzem serão africanas. Isso significa que a maior parte das pessoas em idade economicamente ativa no planeta virá de lugares marcados pela miséria e pela falta de capacitação profissional.

Trabalho e movimentos migratórios

A resposta mais evidente aos desafios impostos pelas transformações demográficas dos próximos anos é o aumento da exigência de formação profissional, aperfeiçoamento contínuo, certificações que capacitem o homem a dominar e superar a máquina. Se vários setores já estão com dificuldade no preenchimento de vagas de ensino superior, o que sobrará à população sem acesso à educação?

As projeções do Migration Policy Institute (MPI), órgão de pesquisa especializado em movimentos migratórios, apontam para uma queda drástica nos cargos de operação de maquinário em fábricas em economias desenvolvidas, como a União Europeia. Se no ano passado a mão de obra braçal já crescia apenas 10% do mercado laboral, a previsão é que as ofertas desse tipo de emprego praticamente desapareçam até 2030.

O setor mais atingido é o rural. Antigamente, o trabalhador do campo era talhado na própria lavoura, de pai para filho, num processo que prescindia de qualquer educação formal. A tecnologia levou o agronegócio para outro patamar, e o crescimento dessa mão de obra já foi negativo na última década. Até 2030, a demanda por trabalhadores rurais deve encolher mais 5%.

Não por acaso, o relatório do MPI, publicado em fevereiro deste ano, estima que a única categoria de postos de trabalho que deve crescer é a de gerente. Indivíduos com amplo repertório, egressos de universidades de prestígio e dotados de pleno domínio de diferentes idiomas ainda serão absorvidos pelo mercado no futuro de médio prazo. No entanto, esse profissional extremamente qualificado pode ser difícil de encontrar mesmo nas grandes potências econômicas.

A escassez de bons trabalhadores é uma das consequências mais impactantes do envelhecimento demográfico, registrado justamente nos países desenvolvidos. A taxa de fertilidade nos Estados Unidos, por exemplo, está em 1,7 filho por casal. A média é igual à do Brasil. Na Europa, o índice é ainda mais baixo: 1,59. Conforme mostrou Oeste, de 2005 até hoje o IBGE contabilizou um aumento de 15% de casais que optaram por não ter filhos.

Taxas de fertilidade inferiores a 2,1 filhos por mulher em fase reprodutiva são insuficientes para manter o tamanho da população de um país. Em localidades com baixos índices de nascimento, a tendência é que a força interna de trabalho diminua. À medida que os residentes envelhecem, o caminho natural é que esses países busquem profissionais jovens no exterior. Atualmente, o maior grupo entre 15 e 35 anos está na África e corresponde a 65% da população do continente.

Segundo o mais recente relatório da Organização Internacional do Trabalho, de 2018, mais da metade de uma fatia menor de jovens africanos (15 a 24 anos) estava desempregada. Aqueles que conseguem trabalho quase sempre estão no mercado informal. Sem acesso à educação, esses jovens não atendem à demanda por mão de obra qualificada dos países desenvolvidos e respondem pelo aumento da miséria.

O jornalista angolano entrevistado por Oeste acredita que, caso as nações africanas não vençam o desafio da educação massiva, programas megalômanos nos setores de energia, transporte ou infraestrutura continuarão a gastar dinheiro — inclusive da comunidade internacional — sem gerar impacto na vida das pessoas.

Assistencialismo e corrupção

A Agência Francesa de Desenvolvimento é partidária de que uma grande população jovem pode ser vista como oportunidade de crescimento econômico. Ao disporem de tanta gente para trabalhar, os governos africanos precisam investir em saúde, educação, na empregabilidade e na autonomização dos indivíduos.

Mas o que significa, nesse contexto, autonomização do indivíduo? Com o perdão da metáfora bíblica, trata-se de não dar o peixe, mas de ensinar a pescar.

Nas últimas décadas, o continente africano foi alvo de projetos assistenciais movidos pela comunidade internacional, inclusive a própria ONU. O jornalista Graham Hancock e o economista George B. N. Ayittey passaram anos atuando em frentes de ajuda à África e a conclusão a que chegaram foi que a decadência do continente pode ser atribuída às próprias iniciativas de amparo.

Autores de vários livros, como The Lords of Poverty: The Power, Prestige and Corruption of the International Aid Business, de 1989, e Africa in Chaos, de 1999, ambos perceberam que, mesmo após 40 anos de distribuição de comida e dinheiro por estrangeiros, a maior parte dos projetos assistenciais não envolve cidadãos africanos como empregados ou mesmo como voluntários. Quem recupera os depoimentos de Hancock e Ayittey é outro autor, Paul Theroux, de O Safári da Estrela Negra (2009).

A maioria desses projetos é criada por ONGs ou mesmo por governos de outros continentes. Apesar de carregarem a pretensão de desenvolver algum país africano, trabalham com a premissa de contratação de serviços e equipamentos das nações de origem, fazendo com que o assistencialismo seja um fim em si mesmo.

Um estudo italiano, também citado por Theroux, defende a ideia de que missões internacionais à África utilizem mão de obra de moradores locais na construção de represas, estradas, sistemas de esgoto etc. A recomendação parece uma obviedade, mas Sergio Polizzotti e Daniele Fanciullacci, autores dessa última pesquisa, denunciam que os países doadores impunham condições, como a compra de maquinário ser feita, exclusivamente, de fabricantes oriundos dos países doadores.

Rodolpho Bernabel, consultor de risco político e professor do curso de Relações Internacionais da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM-SP), reforça a ideia de que projetos assistencialistas já figuram na literatura de Ciências Políticas como um grande problema. “A comunidade internacional direciona recursos para países em desenvolvimento — em particular, na África —, e esses recursos caem nas mãos dos autocratas, que usam a verba para comprar apoio político e se manter no poder. Desde 1985, com o festival Live Aid, foi constatado que todo o movimento cultural mundial não surtiu efeito, que o dinheiro não chegava à população, de fato; se chega, é apenas um resquício de tudo o que é arrecadado”, lembra.

Aprovado no ano passado, um pacto entre os 54 países africanos prevê a abertura do comércio entre eles. O que parece outra obviedade, lamentavelmente, ainda não se tornou real, pois a União Africana — como se chama o pacto — emperrou com a pandemia. O jornalista angolano António Pedro explica que os fluxos de importação e exportação na África ainda são dominados pelos países colonizadores. “Entre os cinco maiores parceiros comerciais de cada país africano, não há nenhum país africano”, elucida.

A intenção do pacto comercial é abandonar o que se tornou conhecido no continente como “a política do contêiner”, que se refere a tudo o que é produzido na Europa para ser vendido à África. Pedro conta ainda que já existem empresas europeias dispostas a instalar plantas em território africano. Um dos casos vem da África do Sul, que há três anos deixou de comprar vagões e locomotivas do Brasil. O governo sul-africano investiu na formação de jovens em indústrias brasileiras e internalizou a produção. “São esses pequenos e impactantes exemplos que demonstram que os países africanos terão um desempenho no futuro da economia, mesmo com a evolução tecnológica na Europa”, comemora.

Apesar da esperança, o jornalista sabe do mal da corrupção que assola o continente. O desvio de bens públicos atinge desde comprimidos anticoncepcionais até relações comerciais entre África e Estados Unidos, passando por contratos superfaturados para abastecer propinodutos, como aqueles gerenciados pela empreiteira Odebrecht nos anos em que o PT esteve no poder no Brasil.

Paul Theroux menciona a Lei de Oportunidades para o Desenvolvimento Africano, uma permissão para que países da África vendessem mercadorias aos Estados Unidos sem estarem sujeitos a cotas. A licença ampliou ainda mais a criminalidade. Em Nairóbi, autoridades do Estado cobravam propinas de fabricantes chineses e indianos para que estes agregassem o rótulo “Made in Kenya” e, assim, fizessem seus produtos entrar no mercado norte-americano.

Historicamente, a África testemunha golpes militares na frequência em que os anos 1970 viam proliferar os festivais de música. De acordo com o Democracy Index 2020, o continente é o recordista em quantidade de regimes autoritários. Há democracias — mesmo assim, com imperfeições graves — em apenas cinco países. No oeste, o terrorismo avança na Nigéria, com o Boko Haram, e no Mali e no Níger com as milícias jihadistas tuaregues. No leste, o Estado Islâmico tem perpetrado ataques sistemáticos para se estabelecer em Moçambique. A Etiópia, que experimentou certo nível de estabilidade entre os fins dos anos 1990 até 2010, voltou a ser assolada por conflitos étnicos. No Sudão, militantes pró-democracia são massacrados pelo governo muçulmano extremista. A Somália nunca deixou de ser um território inviável tomado por bandoleiros criminosos. No domingo 2 de maio, uma daquelas típicas histórias africanas mais uma vez se repetiu: o presidente do Chade morreu em batalha e um “conselho militar” liderado pelo seu filho assumiu o controle do governo.

É verdade que a História não é linear e sempre pode nos surpreender. Entretanto, não são alvissareiros até o momento os prognósticos para a África. Democracia, como se sabe, evolui a partir do exercício da liberdade. E esta, por sua vez, depende do trânsito de informações para se estabelecer. Como a internet avança num ritmo extremamente lento — menos de 14% dos africanos estão conectados —, a propagação de notícias ainda está nas mãos dos senhores do poder. Não há sinais de que venham a ser replicadas a médio prazo as medidas liberalizantes — na política e na economia — implementadas com sucesso em Ruanda, Botswana e nas Ilhas Maurício. São, praticamente, os únicos bons exemplos no continente.

O lugar do Brasil na nova demografia mundial

Em um cenário paradoxal no qual as exigências profissionais crescem tanto quanto a população incapaz de entregá-las, a tensão econômica se torna ainda mais evidente. Um país jovem, como o Brasil, já experimenta taxas de fertilidade semelhantes às das grandes potências mundiais. Para que o país não entre no risco do envelhecimento precoce — quando a população economicamente ativa não compensa os gastos com a previdência, por exemplo —, é preciso que haja um lastro econômico sólido. Não há dúvidas de que, no nosso caso, o lastro está no agronegócio.

A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) já anunciou que conta com o crescimento da ordem de 40% da produção em território brasileiro para garantir que haja comida para a população mundial (food safety) e para que essa comida seja de boa qualidade (food security). Para o professor Bernabel, trata-se de extrema responsabilidade e também de grande oportunidade para o país.

O papel que o Brasil está prestes a desempenhar, em um mundo mais populoso, ganha importância estratégica. Quando se pensa no aumento da humanidade, e boa parte dela em condições de desnutrição, é preciso reconhecer que o Brasil tem condições de dobrar sua produção de alimentos sem comprometer a preservação ambiental, como analisa a ministra da Agricultura, Tereza Cristina.

Em vez de a explosão demográfica africana representar uma ameaça ao Brasil, é possível imaginar um novo panorama econômico mundial em que países pobres se comprometam com planos de crescimento autônomo e sustentável, exportem mão de obra jovem e qualificada capaz de servir indústrias altamente desenvolvidas. Numa economia aquecida, o consumo aumenta e a demanda alimentícia projeta os países produtores ao topo da cadeia mundial.

A advogada Karla Borges Furlaneto, especialista em Direito Internacional e professora de Relações Internacionais da ESPM, olha para esse futuro pela lente da governança global. “Desde o fim da 2ª Guerra Mundial, os homens e os Estados entenderam que estamos num sistema global e que somos interdependentes, seja pela questão econômica, seja pela questão climática”, observa. Essa interconexão leva a mecanismos de cooperação internacional capazes de recuperar valores que estão na base da evolução do Homo sapiens. “Nosso instinto é de sobrevivência e dependemos uns dos outros.”

É preciso observar, no entanto, em que termos tais cooperações acontecerão. É novamente Yuval Harari quem argumenta que as revoltas populares do século 21 já não se destinarão a uma elite econômica que explora pessoas, mas à elite econômica que já não precisa das massas. Mais do que lutar por poder, será preciso lutar por relevância. Noutras palavras, o mundo abrirá as portas àqueles que tiverem as respostas para uma sociedade inflada e uma economia em constante tensão. Os fluxos migratórios levarão os autores de tais respostas às cada vez mais raras posições de trabalho e, definitivamente, elas não estarão em países superpopulosos, dominados pela corrupção estatal e por impostos abusivos. Ao contrário. Mentes inovadoras escolherão onde investir a riqueza de suas ideias e optarão por aqueles países onde mais tiverem liberdade para se expandir.

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17 comentários

  1. Excelente análise, Ana!
    Dados que devem ser analisados com profundidade pelos estudiosos do tema.
    Obs: A ministra Tereza Cristina é titular da pasta da Agricultura.
    Abraço,

      1. Não é muito preciosismo não? Parabéns à Bernadete Santos, mas, pelamor !!

  2. Excelente reportagem! Infelizmente a manipulação corrupta de muitas lideranças religiosas alimentando as crendices e lendas, o protecionismo interesseiro de muitas ONGs (distribuindo alimentos mas não ensinando a pescar), a corrupção política, a educação doutrinária e outros fatores vão levando não só o continente africano mas o planeta a situações cada vez mais difíceis.

  3. Não por acaso países estrangeiros sob pretexto de proteger a Amazônia, não desejam q o Brasil avance na política interna do agronegócio; tudo indica q querem frear o Brasil nesse protagonismo pra não ultrapassa-los economicamente no cenário mundial, o q desejam mesmo é q o Brasil produza só pra eles… França, Alemanha etc. Não á toa tentam derrubar o ministro Salles e a bola da vez poderá ser a ministra Teresa ou Guedes.

  4. Parabéns a autora que com perspicácia alinhavou fatos passados com estudos recentes. E como é bom ver que o Brasil continua tendo oportunidade de alimentar uma parte do mundo.

    1. Num ambiente onde praticamente 90% das notícias veiculadas falam de pandemia e cloroquina ler esse artigo nos lembra que temos um futuro a construir.

  5. Excelente artigo, Ana! Ataca as duas pontas do problema: como garantir inclusão em um mundo cujo avanço e desenvolvimento são, em si mesmos, excludentes, na medida em que pressupõe do cidadão que nele deseja ingressar taxas cada vez maiores de educação e formação qualificada? O subdesenvolvimentismo fica aqui com suas vísceras de corrupção e crônico desinvestimento social expostas, e é acertadamente apontado como principal vilão a ser combatido em mais esta etapa da história humana. Parabéns!

  6. Mentes inovadoras escolherão onde investir a riqueza de suas ideias e optarão por aqueles países onde mais tiverem liberdade para se expandir. A última sentença do artigo da Ana Brambilla é sensacional. É uma verdade e deve servir de lição a todos aqueles que querem fazer deste país um apêndice do socialismo/comunismo doentio de China, Cuba, Venezuela, Argentina, etc, etc… Essa gente vai ter que “enfiar a viola no saco” e sumir daqui. Viva a liberdade de ir e vir, a liberdade de expressão, a liberdade de possuir propriedade privada, a liberdade de escolher seus representantes, e mais todas as liberdades que pudermos imaginar. E que Deus nos ajude a alcançar essa liberdade plena o mais rápido possível. Vamos pra 2022. Só tem um caminho.

  7. “Mentes inovadoras escolherão onde investir a riqueza de suas ideias e optarão por aqueles países onde mais tiverem liberdade para se expandir.” O Brasil investe em Ciência e Tecnologia? O Brasil investe em educação? O Brasil investe na capacitação dos 38 milhões de informais e desalentados? O Brasil investe na capacitação dos 14 milhões de desempregados? O Brasil investe na “liberdade para se expandir” com mais de 130 estatais? O Brasil investe na “liberdade de expandir” com intervenções pessoais no Banco do Brasil e na Petrobras? O Brasil investe na “liberdade de expandir” com o Presidente do Banco Central (com autonomia?) participando de churrasco com empresários e o presidente? O Agronegócio é o futuro com a penas 15% dos jovens das zonas rurais se fixando no campo e os 85% restantes vindo para os grandes centros urbanos? Não estou contestando o artigo , apenas colocando outras abordagem fáticas à reflexão.

  8. Bela matéria! tenho começado a leitura da revista pelas ultimas matérias em destaque. As primeiras de grandes e ja consagrados jornalistas, mas as últimas sempre trazendo informação nova e visões interessantíssimas tem até me despertado mais interesse

  9. Como material complementar sugiro: documentário “One Child Nation” (Amazon Prime) mostrando as atrocidades cometidas pelo Estado para manter o controle de natalidade; o documentário “Poverty Inc.” (YouTube) mostrando como a indústria do assistencialismo prejudica as nações mais pobres, e o livro “Por que as Nações Fracassam” demonstrando através de inúmeros exemplos como os problemas locais atrasam o avanço dos países pobres.

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