Edição de arte Oeste | Foto: Shutterstock

A estupidez da linguagem neutra

A adoção de pronomes neutros para agradar a uma minoria empobrece a língua portuguesa e já contamina parte da iniciativa privada

“Enfim, chegou a hora da encomendação e da partida. Sancha quis despedir-se do maride, e o
desespero daquele lance consternou a todes. (…) Só Capitu, amparando a viúve, parecia
vencer-se a si mesme. Consolava a outre, queria arrancá-le dali. A confusão era geral. No meio delu,
Capitu olhou alguns instantes para o cadáver tão fixa, tão apaixonadamente fixa, que não
admira lhe saltassem algumas lágrimas poucas e caladas… (…) Fiquei a ver as delu; Capitu
enxugou-as depressa, olhando a furto para a gente que estava na sala. Redobrou de carícias para
a amigue, e quis levá-le; (…) Momento houve em que os olhos de Capitu fitaram o defunte, quais
os da viúve, sem o pranto nem palavras deste, mas grandes e abertos, como a vaga
do mar lá fora, como se quisesse tragar também o nadadore da manhã.

Sob o argumento de que o idioma é machista e instrumento de perpetuação do poder do “patriarcado”, coletivos que garantem representar determinados públicos, como as feministas ou o antigo GLS — atual LGBTTTQQIAA — exigem, entre outras reivindicações, a transformação radical da fala, a chamada linguagem neutra. O primeiro parágrafo deste texto mostra como ficaria, por exemplo, um trecho do livro Dom Casmurro, de Machado de Assis, escrito com esta “neolinguagem”.

Monique Wittig (1935-2003), pensadora que exerce influência sobre o movimento de mulheres, defendia uma reforma das palavras de modo a torná-las neutras de gênero. A fim de viabilizar sua ideia, Wittig pregava uma investida em duas etapas: 1) utilizar uma palavra da linguagem comum, mudando-lhe o conteúdo de forma sorrateira; 2) depois, a opinião pública é bombardeada pelos meios de educação formais (a escola) e informais (os meios de comunicação de massa). Assim, as pessoas acabariam enxertando esses termos no próprio vocabulário, sem nada perceberem. O modus operandi respingou nos estudos da pesquisadora Judith Butler, uma das precursoras da ideologia de gênero, para quem o sexo não define quem você é. Dentro dessa concepção, o sujeito pode assumir múltiplas identidades.

Nessa pseudolinguagem supostamente inclusiva, que alguns defendem que seja adotada como norma-padrão, o uso de pronomes, adjetivos ou substantivos “neutros” seria uma forma de acolher pessoas que não se identificam como masculino ou feminino, chamadas de “não binárias”, no-gender ou “gênero fluido”. Rosa Laura, autointitulada ativista “não bináris”, explica o dialeto. Segundo ela, os pronomes pessoais “ela” e “ele” têm de ser substituídos por “ile”. Já os pronomes demonstrativos “daquela” e “daquele” mudariam para “daquile”. Dir-se-ia, então: “ile é muito bonite”, em vez de “ela é muito bonita”; e “todes gostam de irmén e du amigue delu”, em vez de “todos gostam da irmã e do amigo dele”.

Cíntia Chagas, formada em Letras pela Universidade Federal de Minas Gerais e professora de português, garante que a linguagem neutra nada tem de inclusiva. Segundo a especialista, três grupos acabam sendo marginalizados pelo “novo idioma”: 1) os disléxicos, que representam parcela considerável dos estudantes; 2) os surdos, que fazem a compreensão por meio dos sinais; 3) e os deficientes visuais, que dependem de softwares para leitura no computador e, também, do Braille. “O ‘dialeto neutro’ inviabiliza a comunicação desses grupos”, constatou Chagas. “Trata-se de uma imposição injusta a essas pessoas, que já vivem em um contexto de limitação, pois as obriga a se submeterem a uma histeria coletiva”, acrescentou. “Em linhas gerais, o dialeto é defendido por ditadores da linguagem.”

Esse foi um dos argumentos do governo da França, que proibiu a linguagem neutra. “Ao defenderem a reforma imediata e abrangente da grafia, os promotores da escrita inclusiva violam os ritmos do desenvolvimento da linguagem de acordo com uma injunção brutal, arbitrária e descoordenada, que ignora a ecologia do verbo”, informou o Ministério da Educação francês. “Essas armadilhas artificiais são inoportunas e atrapalham os esforços dos alunos com deficiência mental admitidos no âmbito do serviço público.”

Educação

Apesar de absurda, a “novilíngua” já é realidade em escolas e universidades do Brasil e do mundo. Em setembro de 2020, circularam nas redes sociais imagens de uma aula sobre “pronomes neutros” em uma instituição particular do Recife (PE). Nos slides projetados, é possível observar neologismos como “obrigade”. O episódio foi registrado no Colégio Apoio e ocorreu em uma turma do 8º ano.

Dois meses depois, o Colégio Franco-Brasileiro, instituição particular na zona sul do Rio de Janeiro, resolveu “imitar” a concorrência e divulgou um comunicado aos pais informando que adotara estratégias para absorver a linguagem neutra nos espaços formais e informais de aprendizagem. “Renovando, diariamente, nosso compromisso com a promoção do respeito à diversidade e da valorização das diferenças no ambiente escolar, tornamos público o suporte institucional à adoção de estratégias gramaticais de neutralização de gênero em nossos espaços formais e informais de aprendizagem”, salientou a instituição.

A coisa não foi diferente na Escola St. Patrick, de Passo Fundo (RS). Os textos com comunicados sobre a volta às aulas e outras informações similares foram enviados via WhatsApp e traziam a letra “x” em vez de usar o feminino ou masculino. A escrita trouxe confusão e teve de ser explicada pela direção do colégio privado, que atende crianças da pré-escola ao ensino fundamental. Depois de receber uma série de reclamações, a instituição de ensino teve de divulgar uma nota explicando que “o uso dessa letra foi feito com a intenção de nos comunicarmos e, aqui, nos referimos às mães e pais de modo geral”.

Nem o ensino superior ficou blindado da prática. “Nesta segunda-feira, 3 de maio de 2020, serão iniciadas as atividades acadêmicas dos estudantes veteranes da UEMG Divinópolis. Sejam todes bem-vindes”, informou uma mensagem de boas-vindas publicada nas redes sociais da Universidade do Estado de Minas Gerais. O post ainda trazia uma imagem com os dizeres “Bem-vindes, estudantes veteranes”. Nos comentários, os internautas questionaram a atitude. Joanna Williams, em seu texto publicado nesta edição da Revista Oeste, relatou o caso de uma estudante de direito do Reino Unido que corre o risco de ser expulsa da universidade por ter dito, em um seminário de estudos de gênero, que mulheres têm vagina. “As universidades estão menos preocupadas com o ensino superior e mais com a doutrinação dos alunos na ideologia progressista”, escreveu Williams.

Caio Perozzo, especialista em linguagem e professor de literatura do Instituto Borborema, associação cultural sediada em Campina Grande (PB), acredita que as coisas chegaram a esse ponto devido a uma “crise da inteligência”. De acordo com ele, a linguagem foi submetida à ideologia e ao relativismo, que esvaziaram da fala e da escrita o propósito de descrição da realidade como ela é. “Há pessoas que percebem algo, mas se recusam a utilizar o termo adequado para representar aquilo porque viola um conjunto verbal e ideológico que ela já tem. A ideologia deixa sua inteligência deficiente”, observou o acadêmico.

Empresas

Além da educação, a linguagem neutra contaminou a iniciativa privada. A rede de fast-food Burger King fez uma postagem no Twitter em alusão ao Dia Internacional da Luta contra a Homofobia e a Transfobia (17 de maio): “Bandeiras de Todes”. No post, a empresa mostrou coroas e imagens que representam diversas orientações sexuais. Depois de receber críticas, a companhia tirou a publicação do ar. Contudo, emitiu uma nota, que dizia: “Acreditamos que todas as pessoas são bem-vindas e fazemos questão de reforçar a necessidade e a importância de assuntos como esse para a sociedade. Consideramos e absorvemos todas as manifestações e agradecemos por elas. Quanto mais conhecemos e discutimos, mais aprendemos e mais informados estamos para lutar contra a LGBTfobia”.

Na mesma linha do Burger King, o aplicativo iFood decidiu “cancelar” nomes considerados preconceituosos. O novo termo de uso da plataforma vetou pratos clássicos de restaurantes, como “batatas ao murro”, considerado violento e machista. O mesmo ocorreu com “punheta de bacalhau”, iguaria tradicional portuguesa, por ser fálica demais. Os chefs reclamaram, sem sucesso.

Observa-se com os casos descritos que o objetivo declarado de grupos como o que promove a linguagem neutra é um só: purificar radicalmente o discurso de qualquer palavra que possa ofender a alguém. Quando se abre a possibilidade de qualquer um reinventar o idioma, reescrever obras artísticas e policiar a cultura a pretexto de defender os direitos das minorias, entra-se num terreno perigoso.

No livro 1984, escrito pelo jornalista inglês George Orwell, o protagonista Winston Smith trabalha no Ministério da Verdade. Contudo, sua função é adulterar registros históricos com a finalidade de moldar o passado à luz dos interesses de um presente tirânico que se impõe com a ajuda da chamada Polícia das Ideias. A entidade decide o que você deve pensar, escrever, falar e até como agir. Orwell descreve o drama dos personagens, que envolve a opressão física e, sobretudo, a mental. No desenrolar da história, é possível identificar uma das estratégias do Estado totalitário representado na obra: a mudança na linguagem mediante a manipulação do significado das palavras. Qualquer semelhança não pode ser interpretada como mera coincidência.

Leia também “Rumo à utopix socialistx intersecionxl!”

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34 comentários

  1. Estão assassinando a língua portuguesa sob pretexto de inclusão da minoria. Ora, em um regime democrático não é a vontade da maioria que tem que prevalecer?

    1. Ignorância sem tamanho além de complicar até a compreensão dos textos. Com a complexidade da nossa língua pátria, ensino precário. O que será do país?

  2. Em síntese a esquerda tem desenhado um plano para destruir também o idioma. Não basta atacar infância, finanças públicas, templos e famílias …

    1. Peço que reconsidere, Antônio, e dê uma segunda chance à matéria. O avanço da linguagem neutra tem de ser observado com atenção, haja vista que já contamina o sistema educacional brasileiro e a iniciativa privada. Forte abraço. E continue conosco

      1. Bom dia! Temos q rechaçar isso. Considerar o avanço é aceitar narrativas de minorias. Fora o prejuízo econômico em ter que bancar esta histeria. Eu deixei de consumir produtos de empresas q tem apresentado esta Postura!

  3. Eu confesso que tento não me irritar com essa coisa de débil mental chamado linguagem neutra, mas é praticamente impossível.
    Isso só é mais uma pauta do famoso marxismo cultural. Alguém de vcs conhece alguma pessoa que sinceramente se identifica como não binário ou coisa do tipo? Isso inclui basicamente ninguém em lugar nenhum. Esses doentes chegaram a um ponto que falar errado tornou-se inclusivo.
    Existe o sexo masculino e existe o sexo feminino. Se a pessoa tem atração pelo mesmo sexo, ela é homossexual. Se a pessoa deseja mudar de sexo, ela é transsexual. E acabou! Qualquer coisa fora disso, o tratamento necessário é o psiquiátrico!

      1. Uma palhaçada essa linguagem neutra! Faz parte do tal politicamente correto que não passa de uma imbecilidade de minorias querendo impôr seus comportamentos e idéias esdrúxulas à maioria. Que cada um viva a sua vida mas não queira obrigar os demais a ser igual. Existe o individualismo e o livre arbítrio que deve valer para todos. O politicamente correto é a civilização andando para trás.

  4. Tem se que dar o troco, fazer o contrário. Nada de inclusão, mas um apartheid excluindo se essa gente sociopata, humilha los até eles se rendere ao correto.

  5. Como uma doença que vai se estabelecendo, enraizado, desequilibrando até causar a morte; este movimento penetra na sociedade visando destruir o equilíbrio para criar um novo molde, desprezando a evolução da humanidade e a sabedoria adquirida. Para curar uma doença é preciso usar o remédio certo.
    Se a escola onde estudam meus filhos adotar esta loucura eu vou procurar outra escola para estudarem, se uma empresa da qual sou cliente resolve seguir os loucos, deixo de ser seu cliente. Não entro em lojas do Burgerking e nunca usei i Ifood. Simples assim!

  6. Oportuno e excelente artigo. Essa idiotice é de uma imbecilidade tão grande que precisa mesmo ser desmascarada. Pecam seus adeptos, entre outras coisas, pela ignorância. Em português o gênero das palavras é definido pelo artigo e não pela terminação. E gente, alôo!,gênero gramatical não é a mesma coisa que sexo e muito menos preferência sexual.

    1. Concordo totalmente com vc, Dinarte. É exatamente isso : o gênero das palavras na língua portuguesa é determinado pelo artigo. Sou professora de Língua Portuguesa e fico irritada com essa tentativa de ditadura linguística. Meu excelente mestre Evanildo Bechara sempre nos dizia que pessoas tem sexo, e palavras tem gênero. Portanto, dizer que pessoas são do gênero masculino ou feminino está errado.

  7. Essa idiotice é uma violência contra a língua – qualquer língua – na medida em que, com base em uma premissa arbitrária e duvidosa, ignora sua organicidade. Esperando esse modismo acabar, porque não é possível que isso prospere. As pessoas finalmente estão começando a se manifestar contra essa ditadura de uma minoria autoritária, que, na verdade, não trabalha nem contribui em nada para as verdadeiras pautas LGBTetcetc, muito pelo contrário.

  8. Parabéns Cristyan. A Revista Oeste está bem composta, com profissionais de primeiro nível. Quanto a essa linguagem neutra, não sei vomito ou cago ao mesmo tempo. Um bando de idiotas, imbecis de carteirinha, instruídos por pilantras da pior espécie. Assassinos da língua portuguesa. Querem enfiar de goela abaixo tudo que eles vomitam do que é pior. Esses bostas tem que ser extirpados de tudo quanto é lugar.

  9. Bem Cristyan, quando alguém fala dessa maneira comigo, eu mando ir a “merdê” e se for mais íntimo, mando ir se F**Ê, tudo me francês. Parabéns pelo artigo. devemos evitar escolas que agem dessa maneira, especialmente para crianças pequenas.

  10. Ótimo artigo… e esse assunto está me preocupando cada dia mais, sou professor e já fui acusado de transfobia por duas vezes por dizer que não concordo com o uso do pronome “neutro”. E na verdade vejo que o cerco fica cada vez mais fechado, pois no momento que algum aluno resolver fazer um drama ou escândalo, vou ser prejudicado no trabalho e perseguido profissionalmente.

  11. Considero essa agressão a nosso belíssimo idioma uma afronta. Ao invés de provocar inclusão, provoca náuseas, asco e raiva em pessoas com inteligência normal, funcionando exatamente como o oposto. Quem se ofende com a linguagem adequada tem problemas mentais. Um absurdo a sociedade inteira ter de se adequar a alguns seres raros que necessitam de tratamento psiquiátrico. Isso me lembra um outro livro do grande Machado de Assis – O alienista.

  12. Aqueles dentre de nós que ainda tem algum mínomo de discernimento devemos nos opor de maneira enérgia contra essa palhaçada. Minha filha não vai estudar e um colégio que adota esse tipo de imbecilidade. E ponto. CHEGA, nós somos a maioria, não vamos nos submeter a esse lixo e acabou.

  13. Eu jamais usarei essa linguagem!! Acho um ABSURDO assassinarem assim o português!!! A maioria ter que se subordinar/se submeter a uma minoria!!!

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