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Os verdadeiros números da economia brasileira

Diante de um horizonte econômico bem mais ensolarado, o que justifica tantas previsões erráticas?

“PIB negativo no 1º trimestre de 2021 é uma possibilidade.” “Mercado vê PIB mais fraco e renova avanços para a inflação e o dólar em 2021.” “Não há sinal de fim de recessão e economistas já veem 2021 como ano perdido.” Essas e outras manchetes circularam nos cadernos especializados dos principais jornais do Brasil, com previsões apocalípticas sobre o cenário econômico. Para o primeiro trimestre deste ano, 55 instituições haviam estimado que o Produto Interno Bruto (PIB) do país aumentaria entre 0,5% e 0,8% no período. Contudo, na semana passada, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) escancarou a realidade: o Brasil crescera 1,2% nos três primeiros meses de 2021, superando grandes economias, como a da Suécia (1,1%) e a da China (0,6%).

Até abril, economistas cogitavam o risco de recessão no primeiro semestre — e as estimativas mais otimistas indicavam crescimento do PIB ao redor de 3% em 2021. Agora, parte do mercado aponta para um avanço superior a 4% no consolidado do ano. Várias instituições financeiras passaram a revisar para cima seus cálculos sobre o PIB deste ano, como a Goldman Sachs, que já aposta em expansão de 5,5%. “Se estamos evoluindo acima do primeiro trimestre do ano passado, é possível que estejamos crescendo a taxas muito maiores”, afirmou o ministro da Economia, Paulo Guedes. “O avanço da vacinação, os protocolos sanitários e o aprendizado de como se cuidar na pandemia estão protegendo um pouco mais a economia.”


Diante de um horizonte econômico bem mais ensolarado, o que justifica tantas previsões erráticas?

Para o economista Ubiratan Jorge Iorio, colunista de Oeste e professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, o olhar dos chamados especialistas estava voltado para o lado oposto da realidade. “Muito já foi feito pelo governo federal para consolidar um novo regime fiscal, como a aprovação da reforma da Previdência, a Lei do Contribuinte Legal, impedir que Estados e municípios aumentem salários, entre outras medidas”, disse. Ubiratan lembrou, ainda, a revisão dos contratos de cessão onerosa, que gerou oportunidades para um dos maiores leilões de petróleo do mundo, o novo FGTS, a lei de liberdade econômica, a aprovação dos marcos do saneamento e do gás e a autonomia do Banco Central. “Infelizmente, notícias boas raramente saem”, resumiu. “Há vários exemplos que a imprensa não cobre.”

Outros fatores que contribuíram para turbinar o PIB foram o avanço da vacinação no Brasil e no mundo, o que permitiu a flexibilização das medidas de isolamento social, e a reabertura das economias globais, com o consequente aumento da exportação de produtos e do fluxo de mercadorias. “No Brasil, os serviços voltaram com força”, afirmou Pablo Spyer, economista e diretor operacional da EQI Investimentos. “Eles são muito importantes para o nosso PIB e deram um boost na economia, com a volta de salões de beleza, do comércio, entre outros. Além disso, o mercado ficou aquecido porque muita gente passou a comprar agora o que não podia adquirir durante o confinamento. É o chamado consumo ‘reprimido’.”

O economista Luís Artur Nogueira salientou o fato de que os brasileiros conseguiram ir às compras, porque usaram boa parte do dinheiro que estava guardado na poupança — no primeiro trimestre, o consumo caiu apenas 0,1%, mostrou o IBGE. “Uma fração dos recursos era do auxílio emergencial do ano passado, que foi interrompido entre janeiro e fevereiro deste ano”, observou. “O dinheiro não foi totalmente gasto pelas pessoas. Quando houve a virada do ano, sobrou algo no bolso, e esse pouco foi usado, aliviando o risco de uma queda no consumo.” Nogueira ressaltou que os investimentos de 4,6% registrados no período também contribuíram para o aumento do PIB. “Está barato pôr dinheiro no Brasil”, afirmou, ao destacar o desempenho positivo de outras áreas, como a indústria (sobretudo o mercado imobiliário) e o agronegócio (alta de 5,7%). “Os empresários estão enxergando que haverá um processo consistente de recuperação econômica.”

No primeiro trimestre de 2021, ainda segundo dados da Confederação Nacional da Indústria, a atividade industrial registrou crescimento de 6,5% em relação ao mesmo período do ano passado. Nos três primeiros meses do ano, o faturamento do setor subiu 7,5% — 2,2% só em março, mês em que as horas trabalhadas aumentaram 0,9% em relação a fevereiro. A geração de empregos avançou pelo oitavo mês consecutivo (0,3%). A utilização da capacidade instalada teve alta de 0,4 ponto porcentual, chegando a 81,1%. Na comparação com março de 2020, o nível de uso do parque fabril está 4,8 pontos porcentuais maior.

Soma-se a isso a forte alta dos preços das commodities em razão do relaxamento das medidas de restrição no mundo, dando impulso à balança comercial brasileira e favorecendo a cadeia do agronegócio (como o crescimento da demanda por máquinas do ramo) e da mineração. “É importante destacar que o Brasil se favoreceu muito pela recuperação da China e dos Estados Unidos”, observou a jornalista e economista Denise Campos de Toledo. Ela advertiu, contudo, que, para a concretização de um cenário favorável a longo prazo, a vacinação no Brasil tem de avançar e o governo precisa dar apoio a áreas que não estão se recuperando rapidamente, como a de eventos. “Trata-se de um crescimento desigual. Há muitos setores ficando para trás, que dependem fundamentalmente do controle da pandemia. Os eventos precisam que haja a segurança das pessoas para que se organize uma festa, por exemplo. Mesmo a hotelaria tem adotado muitos protocolos, com ocupação restrita.”

A preocupação é a mesma de Samuel Pessoa, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas. “Alguns setores ainda não voltaram plenamente, como o de ‘outros serviços’, que responde por 15% do PIB e 30% da mão de obra”, observou. “Envolve toda a parte de turismo e entretenimento, seja ligado aos esportes ou à cultura.” De acordo com Pessoa, controlada a crise sanitária, a economia terá condições de subir ainda mais. “De fato, houve uma retomada em V”, afirmou, ao admitir que se surpreendeu com o resultado do PIB. “A partir de agora, se tiver mais crescimento, vai ultrapassar o nível pré-epidemia. É uma boa notícia. A economia demonstrou maior imunidade ao agravamento da pandemia do se pensava com a chegada da segunda onda. É como se a economia tivesse aprendido a conviver com a epidemia.” Caso o Brasil queira crescer mais, Pessoa destacou que o empenho do governo federal e do Congresso em aprovar as reformas estruturais será imprescindível para aumentar a eficiência do mercado.

Outro ponto de destaque é o avanço do programa de privatizações do governo federal, que precisa, enfim, deslanchar. “O programa de privatizações está intimamente ligado com os aportes em infraestrutura, dinheiro que contribui para o aumento do PIB”, afirmou Diogo Mac Cord, secretário especial de Desestatização. Mac Cord salientou a capitalização da Eletrobras, o processo de repasse da Companhia Brasileira de Trens Urbanos à iniciativa privada e a desestatização do Porto de Santos. “Tudo tem um único objetivo: dobrar, com recursos privados, os investimentos que o Brasil tem hoje”, disse. “Levamos em consideração que esse dinheiro tem efetividade muito maior que o dos pagadores de impostos. O setor privado põe dinheiro só onde faz sentido. Estamos buscamos maximização da economia por meio do capital privado.”

De mãos dadas com essas medidas, é urgente a manutenção dos estímulos que o Ministério da Economia pôs em prática, como o coronavoucher e o Novo Programa Emergencial de Manutenção do Emprego e da Renda (BEm). “O auxílio emergencial e o BEm sem dúvida terão de continuar, porque foram importantes para manter a casa organizada”, destacou André Perfeito, economista-chefe da Necton Investimentos. “Os empresários foram para cima, na perspectiva de recompor estoques, e estão contando com a demanda.” Para isso, um dos pontos cruciais é a vacinação dos brasileiros no menor tempo possível.

Com reportagem de Fábio Matos

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15 comentários Ver comentários

  1. Excelente artigo. A chuva de boas notícias surpreendeu os esquerdistas, que atônitos, catam pedrinhas para jogar na vitrine do governo Bolsonaro. É sempre bom lembrar a coragem do PR ao defender, no começo da crise, que a economia também merecia ser protegida.

      1. O Brasil precisa urgentemente diminuir o tamanho do Estado e com ele as desigualdades criadas.

  2. Programa de Privatização: Temos ainda 130 Estatais, incluindo a TV LULA e a estatal do trem Bala. Nas demais estatais o CENTRÃO manda e desmanda escolhendo Presidentes, Diretores e até o terceiro escalão. O mesmo aparelhamento ocorre nas Agências cujo efetivo de funcionários conta com 41% de indicados políticos. Os preços dos comódites alavancaram a balança comercial sim, mas ao custo da maior inflação de alimentos dos últimos anos. O colunista poderia apresentar os preços do arroz, feijão, óleo de soja, carne bovina, suína e frango com a cesta básica mais alta dos últimos anos também segundo o IBGE. Então produzimos para o mundo, o Agronegócio cresce( realmente com méritos), mas a população mais carente é que paga a conta. Inflação altíssima. IGP-M do reajuste dos aluguéis a mais de 30% , maior dos últimos anos segundo também o IBGE. O crescimento do PIB , também segundo os economistas, deve representar crescimento econômico na ponta, ou seja: Emprego. Como o PIB cresce com a maior taxa de desemprego 14 milhões? Os brasileiros mais simples estão sim usando seus parcos recursos na poupança para sobreviver, como afirma o economista da Oeste. Isso é bom sinal? Tirar da poupança para fazer compras no supermercado ou pagar dívidas do aluguel? O auxílio emergencial revelou a enorme massa de desalentados, informais e desempregados que agora não conseguem mais viver sem ele. Por quê ? Porque não há emprego. Leiam o artigo do GUZZO quando escreveu sobre os dois anos do atual Governo. Quais são os verdadeiros números da economia?

    1. Esse cara além de covarde, pois omite o nome ao fazer comentário, e cego, não vê nada de bom no país, nesta edição da revista, temos vários artigos sobre a boa performance da nossa ecomia. Com certeza vota Lula.

      1. É um robô infiltrado. Já vi esse texto, semelhante, em outros sites. Apenas uma chorumela elaborada pelo Comitê Central dos comunas.

      1. Pois é… agora me deu nostalgia. Há muito tempo que não me deparo com um desses exemplares…

    2. Tem gente que se acostumou tanto com as más notícias veiculadas na imprensa mainstream, que quando lê uma matéria séria e que aponta o que houve de positivo, tem que procurar algo para desmerecer ou desacreditar tais informações. É o que Augusto Nunes chamou em artigo da semana passada de “vigarice da adversativa”. Foi bom, mas… Foi positivo, mas… Cresceu, mas… Isso sim é negacionismo.

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