Edição de arte / Revista Oeste

Carta ao Leitor

O que resta da Operação Lava Jato, os presos políticos brasileiros e alguns dos melhores-piores momentos da CPI da Covid

Em março de 2014, foram poucos os brasileiros que souberam do início de uma operação da Polícia Federal destinada a desmantelar uma rede de doleiros. Semanas mais tarde, não mereceu manchete em nenhum jornal o conjunto de indícios que ligavam os lavadores de dinheiro aos participantes de um silencioso assalto aos cofres da Petrobras. Três anos mais tarde, todos os brasileiros estavam familiarizados com duas palavras que identificavam o que seria a maior ação anticorrupção da história: Lava Jato.

Nenhum exagero. O balanço das proezas consumadas pelo grupo de juízes, procuradores e policiais federais é traduzido em números fabulosos: quase 1,5 mil mandados de busca e apreensão, mais de 200 acordos de colaboração premiada, R$ 15 bilhões ressarcidos aos cofres públicos e aproximadamente 300 condenações contra cerca de 175 pessoas que, somadas, contabilizam penas que ultrapassam 2.600 anos de cadeia.

Em seu auge, a operação contagiou os brasileiros com a sensação de que finalmente estava em vigor a norma constitucional segundo a qual todos são iguais perante a Lei. Mais: o povo descobriu que, além de bancar todas as despesas de todos os governos, financiava o enriquecimento dos corruptos — e descobriu também que esse dinheiro estava sendo recuperado. “Não sabiam disso políticos e empreiteiros que se julgavam desde o berçário condenados à perpétua impunidade”, lembra Augusto Nunes em sua coluna. Não sabiam sobretudo os empreiteiros que, intimados a depor em Curitiba, pousaram na capital paranaense em jatinhos particulares e reservaram quartos em hotéis cinco-estrelas por uma noite. Acabaram dormindo em celas. “Marcelo Odebrecht, por exemplo, só voltaria para casa mil dias depois”, escreveu Nunes.

A temporada na cadeia foi bem maior do que imaginava o bando, mas muito menor do que gostariam os brasileiros honestos. Como mostra a reportagem de Silvio Navarro, apenas Sérgio Cabral continua preso. Alguns permanecem em casa com tornozeleira eletrônica. Muitos seguem livres, leves e soltos, prontos para a próxima. E Lula ameaça o Brasil com a candidatura à Presidência da República.

Confirmando a regra do faroeste à brasileira segundo a qual é o bandido que persegue o xerife, nesta semana o ministro do STF Gilmar Mendes estendeu a suspeição do ex-juiz Sergio Moro a mais dois processos estrelados por Lula. A maioria do Supremo votou contra a convocação de governadores pela CPI da Covid. E os parlamentares se uniram para “flexibilizar” a Lei de Improbidade Administrativa.

Não é pouca coisa. Mas não é tudo. Na quinta-feira 24, o deputado federal Daniel Silveira, que cumpria prisão domiciliar desde março, voltou para o regime fechado por determinação do ministro Alexandre de Moraes. O parlamentar é investigado no inquérito que apura supostos atos antidemocráticos contra o tribunal. Óscar Arias, ex-presidente da Costa Rica e Prêmio Nobel da Paz de 1987, ensinou que não era difícil distinguir um regime ditatorial de uma democracia: só nas ditaduras existem presos políticos. No Brasil, estão presos pelo chamado crime de pensamento o deputado Daniel Silveira e o jornalista Oswaldo Eustáquio. A saga da dupla é descrita na reportagem de Cristyan Costa, editor-assistente de Oeste.

Enquanto isso, permanecem em liberdade — e no comando da CPI da Covid — os senadores Renan Calheiros (MDB-AL) e Omar Aziz (PSD-AM), ambos com uma enxurrada de processos no lombo. “Renan é hoje o autonomeado líder da oposição no Brasil”, escreve J. R. Guzzo. “É o lulista-chefe para 2022, aparece mais do que qualquer político do PT e se tornou herói da mídia. Mas Lula, se pudesse, faria de conta que nunca viu Renan em toda a sua vida.” Os melhores-piores momentos da dobradinha estão no artigo de Guilherme Fiuza.

O Brasil parece condenado a andar 20 passos para trás depois de suar no esforço para avançar dez. Só a vontade popular pode impedir que o legado da Lava Jato seja sepultado e o Brasil regresse ao pódio que exibe os campeões da impunidade.

Boa leitura.

Branca Nunes
Diretora de redação

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