Foto: Suwan Wanawattanawong/Shutterstock

Não faltará arroz na mesa

Contrariando previsões pessimistas, a produtividade está em 8,8 toneladas por hectare em 2021, contra 8,3 no ano passado. Um recorde histórico

Este ano dificilmente faltará arroz no mercado ou haverá alta de preços como em 2020. O confinamento, com muita gente em casa cozinhando, elevou o consumo (e o desperdício) do arroz. No pior período de praga da covid, esse grão atingiu seus maiores valores históricos. E, apesar de custar mais de 100 reais a saca, poucos produtores aproveitaram essas cifras.

A certeza de arroz na mesa vem dos resultados da recém-concluída colheita no Rio Grande do Sul, o grande produtor do Brasil (70% da safra). Contrariando previsões pessimistas e especulativas, a produtividade veio bem acima do esperado. Foram 8,8 toneladas por hectare, contra 8,3 no ano passado. Um recorde histórico.

A safra maior, com umas 500.000 toneladas a mais, garante a tranquilidade no abastecimento do mercado interno. E até parte das exportações. Para se ter uma ideia, só esse extra adicional de meio milhão de toneladas supera toda a produção de arroz da Europa (Itália, Espanha, Portugal, França…).

Familiar no prato dos brasileiros, o arroz (Oriza sativa L.) tem uma longa história. A espécie ancestral é originária da África. Sua domesticação e cultivo tiveram início na China Central (Hunan), com registros de mais de 5.000 anos a.C. Variedades ancestrais de arroz, como o Wannian, ainda são preservadas em cultivos tradicionais na China.

Há milhares de anos, o arroz já era cultivado às margens do Rio Ganges no norte da Índia. Com o tempo, ele chegou à Coreia, Japão, Indonésia e Tailândia. E, na direção oeste, à Pérsia. Atribui-se a Alexandre, o Grande, sua introdução na Grécia e Europa. No século 10, os árabes o levaram ao Egito, pela costa oriental da África até Madagascar e pelo norte até o Marrocos, a Espanha e Portugal (Al Andaluz). A palavra é de origem árabe: al ruzz.

No século 16, os portugueses introduziram o arroz desde a costa ocidental da África (Senegal e Guiné-Bissau) até o Golfo da Guiné. Hoje, o prato típico do Senegal é à base de arroz: o tiebudiene. Os lusitanos trouxeram e espalharam o arroz pelo Brasil. Cultivado em sequeiro, o arroz expandiu-se por todo o território nacional e tornou-se a base energética da alimentação cotidiana dos brasileiros, combinado com o feijão, com a bênção dos nutricionistas. E não só aqui.

Plantação de arroz | Foto: Federarroz

O arroz é o principal alimento de mais da metade da população mundial e o terceiro cereal mais produzido (500 milhões de toneladas), atrás do milho (2,8 bilhões de toneladas) e do trigo (760 milhões de toneladas). China e Índia respondem por 50% desse total. Agregando-se Indonésia, Bangladesh, Vietnã e Tailândia, chega-se a 75% da produção mundial. A China produz muito, mas não dá conta de seu mercado consumidor. Ela é também o maior importador mundial, com 5 milhões de toneladas anuais. O Brasil é o nono produtor mundial — atrás de China, Índia, Indonésia, Bangladesh, Vietnã, Myanmar, Tailândia e Filipinas. A safra 2021 deve superar 11 milhões de toneladas. Apesar dessa expressão planetária, o arroz participa pouco dos mercados mundiais: menos de 10% da produção. Seu destino é o autoconsumo.

Na cesta básica, o arroz é um dos produtos mais acessíveis

No Brasil, irrigada e mecanizada, a cultura do arroz é intensiva e usa muita tecnologia. Graças ao controle rigoroso de pragas e doenças, à adubação adequada e ao bom manejo da água — até para reduzir as ervas daninhas —, a safra em 2021 surpreendeu. As lavouras arrozeiras responderam bem ao clima estival excepcional para o arroz irrigado. Só para ele.

Este ano, o clima não foi muito bom para a agricultura no Brasil. Faltou chuva durante o verão no Rio Grande do Sul. Os pequenos períodos de seca ou veranicos prejudicaram a soja e o milho, mas beneficiaram o arroz. Menos chuva significa menos nuvens no céu e mais luz. Com mais luminosidade, as plantas fizeram mais fotossíntese em pleno período de reprodução e frutificação. E, por ser irrigado, água não faltou ao arroz gaúcho. Resultado: produtividade recorde.

Esse é um exemplo de como não se pode ser catastrofista com as flutuações climáticas. Se o clima do ano prejudica uma lavoura, pode favorecer outra. Na agropecuária, a solução para reduzir o risco climático não está no aquecimento verbal de certos ambientalistas e sim no uso de tecnologias, com intensificação e modernização da produção. O retorno ao Neolítico, como pregam alguns, não resolverá nada. Neste segundo semestre, depois de um tempo meio anormal, segue um inverno normal, sem os fenômenos meteorológicos de La Niña nem de El Niño. Em matéria de clima, longe da polarização política, o tempo é de neutralidade climática, como se diz.

A área plantada de arroz manteve-se estável com relação ao ano passado. Ela é relativamente pequena comparada a outros cultivos anuais: pouco mais de 1 milhão de hectares irrigados. E representa 40% do uso da água em irrigação no Brasil. O Rio Grande do Sul concentra 73% do total, seguido por Santa Catarina (12%) e Tocantins (8%). Os dados são do Mapeamento do Arroz Irrigado no Brasil, produzido por Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico e Companhia Nacional de Abastecimento.

A demanda segue aquecida. A estabilidade da área plantada, o mercado internacional em alta e o dólar acima de 5 reais trazem uma melhor paridade com o Mercosul. O preço atual do arroz, cerca de 82 reais para o produtor, é justo e tende a ser um piso. Na cesta básica, o arroz é um dos produtos mais acessíveis. E tem gente se queixando do preço. Ele representa cerca de 0,5% dos gastos com alimentação no orçamento familiar. No consumo cotidiano de um prato de arroz, feijão, uma proteína e salada, o custo do arroz é inferior ao da salada.

A expectativa de exportações para México, Costa Rica e até Venezuela é boa. Talvez acarrete menor oferta e ligeiro aumento de preços. Serão menos exportações em relação ao ano passado (1,7 milhão de toneladas). A previsão para este ano é de 1,2 milhão a 1,3 milhão de toneladas. Se as exportações forem menores, o excedente de produção poderá ser utilizado na alimentação de bovinos, suínos e aves para substituir o milho, tão escasso devido à quebra da safrinha.

Plantação de arroz | Foto: Federarroz

E os rizicultores já cuidam da próxima safra com uma projeção de aumento de 20% a 30% no custo de produção. A situação atual recomenda cautela aos produtores: atualizar custos e cuidado com novos investimentos. Antecipar a compra de fertilizantes e defensivos é uma boa precaução. A área plantada certamente será mantida. Áreas menos adequadas, destinadas a soja e pecuária, devem manter-se assim. É essencial plantar em locais de excelente produtividade, praticar a rotação de culturas e manter a cobertura vegetal no outono e inverno com milho e trigo na várzea e com outras forrageiras (aveia, azevém, trevo-persa…). Ao cobrirem o solo, esses plantios em rotação o protegem, reduzem a infestação de plantas invasoras e melhoram as condições de produção no ano seguinte.

Não se consegue mais arroz, nem preços mais baixos, proibindo exportações — como fez o governo argentino com os pecuaristas —, nem sendo arbitrário em impostos e outras medidas coercitivas. A solução é apoiar o rizicultor a produzir sempre, mais e melhor, como defende a Federação das Associações de Arrozeiros do Rio Grande do Sul. Simples assim. Como: um, dois, feijão com arroz.

Leia também “O país adoça o mundo”


Evaristo de Miranda é doutor em Ecologia e chefe-geral da Embrapa Territorial.

-Publicidade-
* O espaço para comentários é destinado ao debate saudável de ideias. Não serão aceitas postagens com expressões inapropriadas ou agressões pessoais.

24 comentários Ver comentários

  1. PEIXES= um saudável alimento que deveria ser consumido muito mais pelos Brasileiros, temos grandes extensões litorânea e inúmeros rios.
    Um alimento que vai da Bíblia ao nosso prato. No contexto Bíblico como na passagem do Evangelho, onde os Apóstolos não pescavam nada, mas Jesus indicou a eles onde jogar as redes, e estas veio repletas.
    No Sermão da Montanha Jesus abençoa 5 pães e dois peixes.
    Eles tb representam o nome de Cristo.
    É um produto que movimenta o agro negócio. VIVA O PEIXE VIVO.

  2. De longe meu cereal favorito, super interessante saber a origem do arroz, como um alimento pode mudificar as culturas.
    Ainda bem que o arroz é irrigado, precisamos mais de irrigação nesse país.
    Maravilhoso artigo, parabéns ao autor

  3. Formidável, como sempre, os artigos do Dr. Evaristo. Sempre trazendo o contexto histórico do tema tratado. Impressionante como ele consegue fazer um texto elegante, com erudição, mas acessível. Parabéns!

    1. Evaristo, muito bom os esclarecimentos sobre a importância de entender as nuances climáticas e de empregar casa vez mais tecnologias. Algumas, aliás, muito simples.
      A tão propalada sustentabilidade deve vir de soluções integradas, e não de radicalismos. Parabéns!

  4. PARABENS EVARISTO. COMO SEMPRE, LUCIDO E DANDO AULA SOBRE A IMPORTANCIA DO AGRO NO CONTEXTO NACIONAL… VOCE É O ANTIPODA DOS STEDILES, MSTs et CATERVA QUE INSISTEM EM LEVAR O PAIS AO NEOLITICO

  5. O Agronegócio do Brasil 🇧🇷 é o que está nos tirando do buraco, e sabe porquê? Porque não existe arrozBras , sojaBras, , caféBras, carneBras, feijãoBras, frutasBras, etcBras. Caso existissem não seríamos o principal exportador de proteína animal e vegetal do mundo.
    Excelente artigo Dr. Miranda.

  6. Excelente coluna, lembra a imprensa clássica ( uma delas a revista “O Cruzeiro”) com colaboradores como Raquel de Queiroz, e outros, com todo talento divertindo informando e elevando o nível socioeducativo dos leitores.

  7. Dr Evaristo, brilhante como sempre, muito esclarecedor principalmente no tocante às intervenções
    Grande satisfação por fazer parte da Embrapa

  8. Evaristo de Miranda sempre brilhante.
    Vc é esclarecedor com suas informações precisas.
    O alarmismo não quer que esse modelo prospére.
    O EMBRAPA tem grandes profissionais, Vc é um deles, Vc ajuda a construir um Brasil que tem projeto de nação.

  9. É um alento saber que não faltará arroz na mesa dos brasileiros.
    No meio de tanta “desinformação” os artigos do Evaristo permitem que a paz permaneça, principalemente quando, não sendo da área, carecemos de noticias verdadeiras. Grata pela “boa informação” Evaristo.

  10. Artigo brilhante. A intervenção estatal só faz desorganizar e prejudicar a produção. Fico com a conclusão: a solução é apoiar o rizicultor a produzir sempre, mais e melhor, como defende a Federação das Associações de Arrozeiros do Rio Grande do Sul. Simples assim. Como: um, dois, feijão com arroz.

  11. Evaristo, parabéns por mais um artigo muito bem inscrito e que nos enche de orgulho pelo trabalho realizado pela Embrapa no aperfeiçoamento de nossa agricultura.

  12. Importante saber que nosso autoconsumo está seguro, outrora foi motivo de discussão política que pouco ajuda nem aos produtores e consumidores, apesar de provocar desentendimento por causa desinformação. Outra importância da reportagem é onde concentra a produção que se mantém em produção devido a tecnologia. Importante artigo que ajuda a todos, produtores e consumidores entenderem entre si e não aderir a quaisquer desinformação. Obrigado, Dr. Evaristo por nos tornar mais próximo do campo e o campo mais próximo da gente. Abs.

  13. Poderíamos estar produzindo mais se os fazendeiros não tivessem sido expulsos de Roraima. Graças aos urubus, vocês estão pagando mais pelo arroz.

  14. Até os indianos ou chineses começarem a importar o nosso arroz. Aí vocês verão se vai faltar ou não. E isso já começou não com o arroz mas com a carne. Onde já se viu um preço de um quilo de paleta que é carne de 2ª, valer R$ 42,00. Agora em casa só comemos carne cozida; filé, contrafilé, alcatra, chã de dentro, etc… já é coisa do passado; sabem porque? Por que está indo tudo para os chineses e está faltando no mercado interno, por isso o aumento dos preços.

      1. Ariovaldo Zani, CEO Sindiraçoes escreveu: É isso aí…”um, dois, feijao com arroz”…e quem sabe: “de grao em grao (de arroz) a galinha enche o papo”!

Envie um comentário

Conteúdo exclusivo para assinantes.

Seja nosso assinante!
Tenha acesso ilimitado a todo conteúdo por apenas R$ 19,90 mensais.

Revista OESTE, a primeira plataforma de conteúdo cem por cento
comprometida com a defesa do capitalismo e do livre mercado.

Meios de pagamento
Site seguro
Seja nosso assinante!

Reportagens e artigos exclusivos produzidos pela melhor equipe de jornalistas do Brasil.