Ilustração: Gabriel de Oliveira/Revista Oeste
Ilustração: Gabriel de Oliveira/Revista Oeste

As teorias conspiratórias do mainstream

Não foram só excêntricos obscuros que mergulharam nas teorias conspiratórias do 11 de setembro

Imagine se, depois do bombardeio de Pearl Harbour, uma parcela significativa dos americanos passasse a acreditar que seu próprio governo de alguma forma fora cúmplice do ataque. Imagine se eles acreditassem que oficiais do governo ou o presidente Roosevelt não fizeram nada para impedir os ataques aéreos — ou pior, que eles deliberadamente mataram milhares de seu próprio povo para fins nefastos.

No entanto, quando se trata do 11 de setembro — um ataque ainda mais letal do que Pearl Harbour —, esse tipo de reação foi assustadoramente comum. Conforme nos aproximamos dos 20 anos da queda das Torres Gêmeas, vale a pena refletir sobre a sensação de desconfiança mais profunda que levou tantos americanos a não acreditar no registro oficial daquele dia terrível. Muitos deles continuam não acreditando até hoje.

Uma pesquisa na época do quinto aniversário dos ataques revelou que mais de um terço dos americanos desconfiavam que “agentes federais ajudaram nos ataques terroristas de 11 de setembro ou não tomaram nenhuma atitude para impedi-los, para possibilitar que os Estados Unidos declarassem guerra contra o Oriente Médio”. Pouco depois do 15º aniversário dos ataques, um estudo da Universidade Chapman, na Califórnia, descobriu que mais da metade dos americanos acreditava que “o governo está escondendo a verdade sobre o 11 de setembro”.

Claro, essas pesquisas não estão dizendo que um grande número de americanos concorda com as teorias conspiratórias mais absurdas sobre o 11/9. Mas elas apontam para um grande poço de dúvidas e desconfiança sobre a versão oficial desses eventos.

Mesmo hoje em dia, teorias da conspiração ainda rondam o mainstream de perto. O celebrado cineasta Spike Lee tinha planejado incluir 30 minutos de entrevistas com “truthers” — pessoas que acreditam que a verdade sobre temas ou eventos importantes está sendo ocultada do público por alguma conspiração poderosa — no episódio final de sua nova minissérie documental, NYC Epicenters: 9/11 → 2021½. Depois dos protestos da crítica, essa parte será cortada antes do lançamento para o grande público. Relatos afirmam que a filmagem dava credibilidade aos ativistas “truthers” que dizem que o World Trade Center foi destruído em uma demolição controlada. Lee também demonstrou em entrevistas ter simpatia por essa teoria.

Esses “truthers” são apenas os teóricos de conspirações mais radicais. O famigerado apresentador de rádio Alex Jones estava entre os primeiros a culpar o governo Bush explicitamente pelos ataques. Aliás, ele fez isso antes mesmo que os ataques acontecessem. Seis semanas antes do 11/9, ele dedicou muitas horas de seu programa Infowars a uma matéria sobre operações “bandeira falsa”, culminando em um alerta de que George W. Bush estava planejando cometer um ato terrorista. Quando as torres caíram, ele declarou ter “98% de certeza” de que a culpa era do governo.

Possivelmente, a primeira figura do mainstream a promover uma versão mais leve dessas teorias foi o gigante literário Gore Vidal. Em um texto polêmico de 7 mil palavras, publicado no Observer em 2002, Vidal acusou a “Junta Bush” de tentar enganar o público “mais simples” como um pretexto para “uma invasão e conquista do Afeganistão há muito contemplada”. Osama Bin Laden, ele afirmou, foi “escolhido por uma questão estética para ser o logo assustador” dessa operação de guerra.

O movimento “truther” do 11 de setembro teve início de fato em 2004. A organização 9/11 Truth divulgou uma declaração pedindo uma investigação do 11 de setembro, alegando que algumas pessoas no governo Bush deliberadamente permitiram que os ataques acontecessem. Ela teve cerca de 200 assinaturas, incluindo figuras políticas de destaque, como Ralph Nader e Van Jones (ainda que ele tenha afirmado desde então que aquele texto não refletia sua opinião).

Enquanto o movimento crescia, surgiu um racha que pode ser expresso por meio de duas siglas: LIHOP (“Let it happen on purpose”, ou “Deixaram acontecer de propósito”) e MIHOP (“Made it happen on purpose”, ou “Fizeram acontecer de propósito”). Dentro de cada corrente, as pessoas acreditavam em uma série de razões para o ataque: para declarar uma guerra, para ganhar dinheiro, para difamar os muçulmanos ou até para dar início a um ritual satânico.

Os membros desenvolveram coletivamente uma vasta gama de explicações implausíveis para o que destruiu as Torres Gêmeas e o Pentágono. “Combustível de aeronaves não derrete vigas de aço” é uma crença comum, então alguma explicação — além dos aviões gigantes colidindo com elas — precisa ser encontrada para que as torres sucumbissem como aconteceu.

A paisagem pós-11/9 ofereceu um terreno especialmente fértil para essas ideias

David Shayler, “truther” britânico de destaque e ex-espião do MI5, costumava descrever a si mesmo como “no planer” — alguém que nega os aviões. Ele argumentava que não houve nenhum avião envolvido no ataque, ainda que praticamente todas as pessoas no planeta tenha visto as filmagens das aeronaves atingindo os edifícios. “A única explicação é que eram mísseis cercados por hologramas feitos para parecerem aviões”, ele afirmou em 2004.

A teoria da demolição controlada é a mais popular. Sua “bala de prata” é a WTC7 — a “terceira torre” —, que foi destruída em 11/9 apesar de não ter sido atingida por um avião. (Ela na verdade foi destruída pelos destroços das outras torres, o que também provocou um incêndio.) Essa teoria serviu de base para o documentário Loose Change, que estreou em 2005, ainda que diversas reedições e novos cortes tenham sido lançados desde então. A Vanity Fair o descreveu como o “primeiro blockbuster da internet”. Seu diretor, Dylan Avery, estima que mais de 100 milhões de pessoas tenham visto Loose Change.

O nível de interesse por teorias conspiratórias do 11 de setembro é impressionante. Claro, qualquer grande catástrofe tem grandes chances de atrair teorias da conspiração. Mas a paisagem pós-11/9 ofereceu um terreno especialmente fértil para essas ideias.

Foi uma era em que a confiança do público no governo despencou para níveis historicamente baixos. De acordo com o National Election Study, logo depois do 11 de setembro, cerca de 60% dos eleitores afirmaram confiar que o governo federal fazia a coisa certa na maior parte do tempo. Ao final do mandato de George W. Bush, essa porcentagem tinha caído para menos de um quarto. Essa ampla base de desconfiança ofereceu um público pronto para teorias da conspiração.

Essas teorias conspiratórias sobre o 11 de setembro se intensificaram depois do início da Guerra do Iraque, em 2003. As informações erradas sobre as ligações de Saddam Hussein com a Al-Qaeda e suas armas de destruição em massa levaram muitas pessoas a dizer: “Eu sabia que estávamos sendo governados por mentirosos”. Isso mostrou como essas teorias tinham se tornado problemáticas — o que deveria ter sido uma crítica racional e rigorosa dessa propaganda de guerra, algo que não tem nada de novo em termos históricos, tornou-se mais um monte de teorias da conspiração.

A falta de confiança nas instituições — do governo, da mídia, dos especialistas — que começou a aumentar naquela era ainda existe nos dias de hoje. Não surpreende, então, que tenhamos tantos movimentos conspiratórios — do QAnon aos antivacina — junto com teorias conspiratórias mais “respeitáveis”, acerca do controle da Rússia sobre os EUA ou a manipulação da votação do Brexit. Pior ainda, as autoridades não têm nenhuma ideia de como recuperar a confiança perdida.

Vinte anos depois do 11 de setembro, e um número alarmante de americanos está ainda mais disposto a acreditar em teorias malucas do que em seu próprio governo. Isso deveria despertar muito mais reflexão entre as elites políticas do que vimos até agora.


Fraser Myers é editor-assistente da Spiked e apresentador do podcast da Spiked. Siga-o no Twitter: @FraserMyers.

Telegram
-Publicidade-
* O espaço para comentários é destinado ao debate saudável de ideias. Não serão aceitas postagens com expressões inapropriadas ou agressões pessoais.

12 comentários

  1. A Oeste virou publicação comunista agora? Ainda mais neste momento onde vemos inúmeras “teorias da conspiração” sendo confirmadas meses depois?

    1. Citando: “Ela na verdade foi destruída pelos destroços das outras torres, o que também provocou um incêndio”

      Centenas de prédios no raio de distância (de vários blocos/quadras) e os destroços foram destruir exatamente a torre 3?

      Vai ser inocente assim lá longe Fraser Myers!

  2. Embora eu não acredite, geralmente, em “teorias da conspiração”, reconheço que é difícil acreditar nos governos atuais, que só fazem bobagem e praticam atos tirânicos “para o nosso próprio bem”. Deus nos defenda de tantos e tão bm intencionados personagens…

  3. Engraçado é que o autor dessa coluna de Oeste acabou por entregar a sua ideologia política ao citar, no penúltimo parágrafo, quais são as teorias conspiratórias que ele considera “mais respeitáveis”. Fraser Myers seria legal que você acompanhasse os seus colegas Ana Paula Henkel e Rodrigo Constantino. Pergunte-os sobre o que eles acham da “influência russa” nas eleições americanas de 2016. Recomento aos leitores e editores da Revista Oeste que assistam ao documentário “9/11: Provas Explosivas – Falam os Especialistas”, de Richard Gage, disponível na Amazon Prime, no Brasil. Depois de assistirem, tentem refutar os argumentos demonstrados pela associação de Arquitetos e Engenheiros de Nova York. Outra recomendação é a exposição feita no dia de ontem pelo professor Alexandre Costa em seu canal do Youtube, disponível em https://www.youtube.com/watch?v=4aXmAVgtUmQ&t=5941s .

  4. Concordo com a visão do FERNANDO A O PRIETO e acrescento: antes de 2020 eu diria o mesmo; após 2020 as teorias deixaram de ser teorias… Ficou tudo muito claro!

    O documentário do John Nada por exemplo (https://bit.ly/WakeUpCall2008_pt-br) é de 2008; até tolerável você ficar com o pé atras em sei lá, 80% do que ele dizia… mas hoje em dia já dá pra reconsiderar uns 50% fácil-fácil!

    Aliás, fazendo uma análise mais honesta, de fato “não tem desculpa”… já era claro antes sim, mas agora está gritante.

  5. O autor da matéria coloca tudo no mesmo balaio sob a rúbrica “teoria da conspiração” sem sequer fazer uma referência a pontos discutiveis, a exemplo de taxar de “antivacinas” sem mencionar fundamentos legitimos apontados por médicos e cientistas de renome, sobre os riscos à segurança , e a insana campanha de vacinação em massa.

  6. A maioria dos governantes não é confiável, por definição. Não si porque tanta admiração sobre a desconfiança da população.

  7. Eu gosto mesmo é do arzinho de superior desses que escrevem “teorias da conspiração”.
    add mais duas aí. sedimentos, sedimentam e as barragens da vale foram explodidas.
    No dia que alguém me provar que uma barragem cheia de lama, que sedimenta, é mais instável que uma barragem cheia de água. Eu passo a ler os nobres e pobres escritores com um certo ar de vislumbre. 11/09, covid… a “veradade” vendida x a verdade.

  8. Conspiração talvez, mas não do governo americano contra seu povo (por conta do 11 de setembro). Talvez a conspiração contra o país que foi berço para o Al-Qaeda e que hoje sofre com a presença do Talibã. Talvez o Afeganistão tenha de passar por isso e nada haja de conspiração nisto.

Envie um comentário

Conteúdo exclusivo para assinantes.

Seja nosso assinante!
Tenha acesso ilimitado a todo conteúdo por apenas R$ 19,90 mensais.

Revista OESTE, a primeira plataforma de conteúdo cem por cento
comprometida com a defesa do capitalismo e do livre mercado.

Meios de pagamento
Site seguro
Gostou da Leitura?

Seja nosso assinante!
Tenha acesso ilimitado a todo conteúdo por apenas R$ 19,90 mensais.

Meios de pagamento
Site seguro