O empresário Luciano Hang e o senador Omar Aziz, durante sessão da CPI da Covid | Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado
O empresário Luciano Hang e o senador Omar Aziz, durante sessão da CPI da Covid | Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado

Show de infâmias

A CPI da Pandemia ultrapassa os limites do ridículo na sessão em que ouviu Luciano Hang e mostra ao país que deve ser urgentemente encerrada

Passava das 10 horas de quarta-feira, 29, quando o empresário Luciano Hang, proprietário da rede de lojas Havan, chegou ao Senado para um dos mais esperados depoimentos da CPI da Pandemia. Vestindo um terno verde bandeira, com gravata e um lenço amarelo ouro no paletó, carregava algemas, compradas na véspera para gravar um vídeo em que provocava os xerifes da covid no Brasil. Acabou barrado no detector de metais e seguiu com largas passadas para prestar seu depoimento ao comissariado de Renan Calheiros, Omar Aziz e companhia. Começava ali uma sessão que entrará para a história como um dos mais infames momentos do Parlamento — e que talvez ajude a explicar por que o Congresso é tão ruim.

Respeitável público, vai começar mais um espetáculo!

10 horas — Propaganda gratuita

Tão logo lhe foi dada a palavra para suas considerações iniciais, Luciano Hang sacou da manga uma cartada genial: pediu que fosse exibido um vídeo curto sobre a história de sua empresa, mas cujo conteúdo os senadores não imaginavam que se tratava de publicidade explícita da marca. A CPI promoveu a Havan em rede nacional e o circo pegou fogo. Houve alvoroço, e o relator, Renan Calheiros (MDB-AL), só conseguiu falar meia hora depois. Diante dele, sentou-se Flávio Bolsonaro (Patriota-RJ), filho mais velho do presidente, seu desafeto declarado, que já o xingou de “vagabundo” ao vivo na TV Senado.

11 horas — Suas Excelências

Hang irritou os congressistas logo nas primeiras falas por chamá-los pelo nome, dispensando a soberba forma de tratamento que lhes enche os olhos: Vossa Excelência. Os petistas Rogério Carvalho (SE) e Humberto Costa (PE) não suportaram ver o empresário tratar o presidente da comissão de inquérito simplesmente por… Omar.

— Omar, não! É senador! — esbravejou Carvalho.

— Vossa Excelência! — gritou Humberto Costa.

Marcos Rogério (DEM-RO), de longe uma das poucas vozes sensatas naquele picadeiro, aplacou os ânimos em tom de ironia:

— É melhor chamá-los de Excelência. Isso incomoda muito…

12 horas — Dá-lhe campainha!

Foi por volta do meio-dia que a CPI mais uma vez quase terminou em cenas de pugilato. Muito exaltado, com as mãos trêmulas envergando o microfone, Rogério Carvalho cobrou a expulsão do advogado de Hang e reclamou que o depoente o provocava com gestos para manter a calma.

— O senador precisa de uma água — cutucou Flávio Bolsonaro.

Não é exagero afirmar que uma das coisas que tiraram Omar Aziz (PSD-AM) do sério foi o figurino do dono da Havan, contra quem fez questão de usar o rótulo da moda cunhado pela imprensa tradicional: “negacionista”.

— Esse patriotismo é da boca para fora; o senhor se vestia com outras roupas! Depois, como o senhor preencheu o seu ego, passou a se vestir de verde e amarelo — afirmou, enquanto exibia fotos antigas de Hang trajando uma tradicional camisa xadrez.

Mais uma vez, coube a Marcos Rogério perguntar o óbvio: “Afinal, o que a roupa do depoente tem a ver com a covid?”

— Com o ego inflado, ele passou a defender o tratamento precoce! — respondeu Aziz.

Ninguém entendeu nada.

Hang colocou um ponto final no assunto:

— Tem gente que gosta de vermelho, não? Eu não uso nem cueca vermelha. É uma opção.

13 horas — CPI do Fim do Mundo

Para levar o empresário à CPI, o chamado G7 chefiado por Renan, que tem a maioria dos votos, argumentou que investiga a suspeita de financiamento de fake news durante a pandemia. Preparou uma verdadeira videoteca, exibida com intervalos para apontar supostos crimes cometidos em lives nas redes sociais. Acusou o depoente de comprar medicamentos (cujos nomes passaram a ser proibidos pela patrulha da covid) para tratamento precoce. No limite da ética, exibiu o atestado de óbito da mãe de Hang, alegando que teria sido propositalmente adulterado para camuflar o contágio pelo coronavírus — o que ele nega veementemente e afirma ter sido um erro (depois corrigido) do plantonista da Prevent Senior. Como a rede de hospitais está na linha de tiro da comissão, até que esse poderia ter sido o foco dos principais questionamentos. Mas não.

A dupla Aziz e Renan teve tempo para usar suas picardias e tentar avançar sobre as finanças da Havan. O primeiro queria saber se a empresa, que tem mais de três décadas, fez operações de crédito com bancos públicos (BNDES, Banco do Brasil e Caixa), o que foi prontamente respondido pelo empresário. Ele confirmou que tomou financiamentos e disse, inclusive, ser cliente dos bancos. A Havan desembolsa R$ 100 milhões por mês só com o pagamento de salários dos 22 mil empregados.

 

Já Renan Calheiros estava interessado em negócios com um tipo de moeda que o tradutor de libras da TV Senado teve dificuldades para decifrar (veja se consegue entender no vídeo abaixo).

— Nem sei o que é isso — respondeu Hang.

Virou piada nas redes sociais.

14 horas Exército de robôs bolsonaristas

Em dia inspirado, o senador Rogério Carvalho interrompeu o questionário do relator para fazer um comunicado urgente à nação. Segundo ele, a Polícia Legislativa deveria ser acionada, porque sua conta no Twitter e a de outros integrantes da CPI estavam sendo bombardeadas em massa pelo “gabinete do ódio” bolsonarista.

— Claramente, houve um ataque sistemático de robôs às nossas redes, xingando, ofendendo e agredindo senadores da República! Uma ação orquestrada!

Nem Randolfe Rodrigues (Rede-AP), que substituía Aziz naquele momento, levou o colega a sério e determinou:

— Prossiga, Renan.

15 horas Lista de chegada

Uma das estratégias mais manjadas em qualquer CPI é escalar um assessor para chegar o mais cedo possível à sala da sessão para garantir um lugar privilegiado na fila de inscritos. Quando a planilha é disponibilizada, o funcionário avisa o parlamentar pelo WhatsApp, que imediatamente segue até o local para registrar sua assinatura. Foi isso que o G7 fez na quarta-feira, numa jogada para que aliados do governo e até amigos de Hang, como o catarinense Jorginho Mello (PL), ficassem para o final. O cálculo é simples: dominar o “horário nobre” da sessão significa exposição intensa em emissoras de televisão e sites, e quem fica no rodapé da lista ainda corre o risco de não fazer suas perguntas por causa do início da Ordem do Dia — o regimento interno determina a suspensão das atividades para que os senadores votem no plenário.

Ao longo de sete horas, as notas taquigráficas da sessão registraram 15 vezes a expressão “tumulto no recinto”

A obsessão em seguir essa cartilha foi tamanha que Randolfe chegou a anunciar que não daria tempo para que todos fizessem suas perguntas duas horas antes do encerramento do depoimento, enquanto consultava o relógio insistentemente.

16 horas Recreio e resenha

Como é praxe, depois da artilharia contra os convocados, o G7 tradicionalmente deixa a sessão mais cedo — Aziz e Randolfe se revezam para apagar a luz. Na antessala da CPI são servidos sanduíches com frios, frutas, suco, café e água, mas há também reuniões paralelas com quitutes regionais e almoço delivery. Em ambiente privado, são feitas as avaliações de desempenho e combinados discursos para as entrevistas no apelidado “cercadinho” para as coletivas de imprensa — às vezes feitas em conjunto. No cerrar das cortinas, os senadores que não integram o grupo usam os minutos restantes sem holofotes nem manchetes à espreita.

17 horas — Extras

Ao longo de sete horas, as notas taquigráficas da sessão registraram 15 vezes a expressão “tumulto no recinto”, usada pelos datilógrafos não só para descrever o clima de balbúrdia, como por não conseguir captar todas as falas simultâneas. O termo “campainha”, uma espécie de alarme quando já não há controle, aparece dez vezes — e “interrupção do som”, 14.

Foi um show de horrores. Mais difícil é pensar que essa CPI pode permanecer em cartaz até novembro.

Leia também “A insolência dos farsantes”

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17 comentários Ver comentários

  1. Sobre suas “excelências”: Quando alguém vocifera para apensar ao seu próprio nome qualquer substantivo (excelência) é por que seu nome já não possui qualquer valor, e não pode sustentar-se diante dos outros.

  2. Dava uma obra de ficção de matar Hollywood de inveja, só que o roteirista teria que eliminar 95%das falas dos vilões, aliás tem vilão demais para uma trama infantil, o mocinho é abstrato. “Em busca da chave do tesouro (erário) brasileiro

  3. Presa em casa por conta da pandemia, valeu o espetáculo circense. Me diverti bastante. Obrigado, Luciano, por por os pingos nos is.

  4. Vale dizer que nossa grande e tradicional mídia que odeia Bolsonaro também ironizou o empresário Luciano Hang como fez na BANDNEWS o ridículo e vaidoso jornalista Eduardo Oinegue formado na PUC chamando o empresário de ZÉ CARIOCA.

  5. Augusto, descrição perfeita, faltou escrever que isso é próprio de uma putaria generalizada que cada vez mais esses políticos mostraram de onde vieram!

    1. Realmente, um circo, onde Renan, Omar Aziz e Randolfe, nem para palhaços servem! Os palhaços são dignos de respeitos, esses aí deveriam estar no fundo da lata do lixo. O pior é saber que esses estrumes vivem do nosso dinheiro. Na terra é sabido e visto que não tem justiça. Mas pela justiça divina vão arder no fogo do inferno! Trastes!

  6. Circo dos horrores! Como pode, um empresário, ser humilhado, tratado como bandido, por bandidos. É a inversão dos valores. Mas, o tempo é curto, e a hora chega.

  7. difícil acreditar que todo esse teatro de falsidades ainda prossiga, tomando o tempo de pessoas que contribuem com o desenvolvimento do país.

  8. Luciano Hang, o novo herói nacional.
    Os Três Patetas originais estão se revirando em seus túmulos diante da canastrice dos atuais péssimos comediantes.

  9. CAUSA ESPÉCIE QUE AMIGOS, PARENTES E COLEGAS DO SENADO, INCLUSO SEU PRESIDENTE, NÃO ALERTEM AOS DIRIGENTES DESSA CPI SOBRE AS ATITUDES
    RIDÍCULAS, DESTITUÍDAS DE BASES JURÍDICAS QUE ESTÃO PROTAGONIZANDO,
    EXPONDO AO PAÍS O NÍVEL LASTIMÁVEL DA INSTITUIÇÃO.

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