Carta ao Leitor

A tirania do cancelamento — em suas várias formas — está entre os destaques desta edição

Uma mulher empoderada, que sonha ser estilista de sucesso. Quando o amor de sua vida a pede em casamento, sua primeira pergunta é: “Mas e o meu trabalho?” Ao entender que a eleita optaria pela carreira, é ele quem abandona tudo para acompanhá-la em uma viagem pelo mundo — a trabalho, claro. Não fossem pelos sapatos de cristal e pelas 12 badaladas à meia-noite, a mais recente releitura de Cinderela, lançada pela Amazon Prime Vídeo, teria pouquíssimas relações com o conto de fadas original. O resultado foi que, fora um e outro comentário sobre o “fado madrinho” homem, negro e gay, pouco se falou do filme. E nem crianças nem adultos se animaram a vê-lo.

Como resume o título da reportagem de capa desta edição, escrita por Dagomir Marquezi, “a tirania do cancelamento foi longe demais”. Os príncipes são acusados de assédio sexual a cada beijo em princesas adormecidas e a “voluptuosa Jessica Rabbit, do filme Uma Cilada para Roger Rabbit, está prestes a trocar o figurino de estrela de Hollywood dos anos 1940 por uma roupa mais masculinizada de detetive”, conta Dagomir. O personagem Iron Man (Homem de Ferro) virou uma mulher negra de cabelo afro e “Jane Foster, a namorada cientista de Thor, usou o martelo Mjolnir e se tornou ela mesma a deusa do trovão, destruindo a milenar mitologia nórdica no processo”.

Por que os responsáveis por essas sandices não criaram novos personagens com essas características? “Não era suficiente”, esclarece Dagomir. Era preciso arrasar sonhos e memórias. “Como o Talibã, destruindo templos cristãos e budistas, as patrulhas ‘woke’ não deixam pedra sobre pedra.” Depois de sair das redes sociais para depredar estátuas e queimar livros, a tirania do cancelamento avança agora contra os quadrinhos, os desenhos animados e os contos de fadas.

Às salas de aula das universidades, essa forma aguda de autoritarismo chegou faz tempo — e está cada vez mais à vontade. “Na Universidade de Kent, o corpo discente criou um ‘curso de diversidade’, sob o argumento de que usar roupas de segunda mão e falar palavrões são exemplos de ‘privilégio branco’”, escreve Frank Furedi. “A disseminação de ideias tão frívolas está aliada ao projeto de fazer os estudantes se sentirem culpados por ser brancos.” Uma das disciplinas exige que os alunos reconheçam que sua culpa pessoal é um ponto de partida útil para superar “preconceitos inconscientes”. Quem não concorda recebe nota baixa.

Por enquanto, observa Dagomir, os canceladores ainda não conseguiram fazer muitos estragos na chamada cultura erudita. Mas nada garante que daqui a pouco esses exterminadores da história incluam entre seus alvos, por exemplo, O Mercador de Veneza. E exijam que a peça de William Shakespeare troque um agiota pelos especuladores de Wall Street. Ou que o crime cometido pelo Padre Amaro transforme o personagem de Eça de Queiroz num símbolo da pedofilia da Igreja Católica.

Cléo Monteiro Lobato, bisneta do criador do Sítio do Pica-Pau Amarelo, aderiu à pressão do politicamente correto. Está reescrevendo os clássicos do ancestral, considerado racista por quem deveria ler Monteiro Lobato com mais atenção e aproveitar melhor o tempo que desperdiça com bobagens. Cléo não está apenas deformando a obra que documenta uma época. Está assassinando a história do bisavô.

Para esses reinventores estrábicos, agora é proibido registrar o passado. Dagomir resumiu a receita: basta um patrulheiro ideológico que denuncie e um produtor cultural que obedeça. Também é indispensável que o povo se omita.

P.S.: o artigo de Augusto Nunes volta a ser publicado na próxima semana.

 

Boa leitura.

Branca Nunes
Diretora de Redação

 

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4 comentários Ver comentários

  1. Mudar a história para atender interesses particulares escusos é o mesmo que mudar o nascimento da terra ou a origem do sol. São absurdos criados pelo progressismo insano. Temos o dever de aprender com o passado para construir um futuro melhor. Não destruí-lo.

  2. Ainda não vi a patrulha mirar a obra de Jorge Amado, onde geralmente as mulheres negras só aparecem na cozinha, como na casa do coronel Maneca e de dona Auricídia em Terras do Sem-Fim.
    Será porque o autor era comunista de carteirinha?

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