Ilustração: Montagem/Shutterstock
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Manual do Linchador Moderno

Acusar alguém de homofóbico é pouco. Você precisa ir além

A polêmica em torno do jogador de vôlei Maurício Souza acendeu um alerta importante na vida moderna. Você não tem mais a menor chance de ascensão social se não jogar alguém na guilhotina — ou não contribuir de forma significativa e verificável para que isso aconteça. Se você é, portanto, um dedicado e irretocável carreirista, desses que jamais perderam uma oportunidade de galgar um degrau a qualquer preço, fique atento: a boa e velha demagogia politicamente correta já não te garante nada.

Acusar alguém de homofóbico é pouco. Você precisa ir além. Pode continuar catando pretextos para afetar preocupações raciais, sexuais, ambientais, etc, mas cuidado para não terminar o serviço antes da hora. Hoje em dia, frases lindas contra o preconceito e a favor das minorias podem até soar como gafe — se você não conseguir prejudicar alguém com isso.

Para facilitar a atualização da sua conduta inclusiva (que inclui você nas panelas certas), segue aqui uma lista de cinco princípios éticos fundamentais ao alpinista moderno:

    1. Vigie seus vizinhos obsessivamente. Assim você aumentará suas chances de flagrá-lo indo do carro até o elevador sem máscara, ou jogando um papel fora da cesta de lixo, ou comendo carne vermelha na segunda-feira. Colha sua munição para denunciá-lo. Se você conseguir expulsá-lo do condomínio por motivos idiotas pode até virar herói do bairro;

      Vasculhe o passado dos seus amigos. Você haverá de encontrar algum registro

    2. Fique atento ao que dizem os seus colegas de trabalho nos momentos de descontração. Você pode dar a sorte de flagrar um deles contando como foi sua dieta de emagrecimento e denunciá-lo por gordofobia. Não se esqueça de gravar a conversa. Aí você expõe na sua rede social e diz que a empresa não pode manter no quadro de funcionários uma pessoa horrível como aquela. Uma horda de linchadores educadíssimos com certeza vai aderir ao seu chamado e com certeza algum diretor covarde da empresa demitirá o seu colega, te transformando no herói do mês;

 

    1. Vasculhe o passado dos seus amigos. Você haverá de encontrar algum registro — nem que seja um bilhete — com algum tipo de manifestação gravíssima para os dias de hoje, tipo “virei a noite e fui para o trabalho que nem um zumbi” (você pode transformar isso em declaração racista) ou então “cheguei em casa bêbado que nem um gambá” (você pode denunciar seu amigo por preconceito contra os gambás, desafiando-o a provar que esse animal gracioso e inofensivo para as mudanças climáticas tenha hábitos alcoólicos). Só descanse quando tiver espalhado geral que esse amigo querido por tanta gente era na verdade um ser abjeto, ou seja, só considere a sua missão cumprida quando ele não tiver mais ninguém na vida. Yes!

 

    1. Reserve pelo menos meia hora diária antes de dormir para bisbilhotar pessoas públicas e o que elas andaram dizendo (bisbilhotar relaxa). Nesse território está a sua Mega-Sena. E lembre-se: quem procura acha. Você pode alegar que há uma multidão nesse garimpo e não é muito provável que você, logo você, vá encontrar a pepita de ouro. Engano seu. Hoje em dia tem ouro pra todo mundo. Basta ter paciência — e não desanimar na primeira esquina do Facebook. “Fulana está linda.” Pronto! Se essa frase tiver sido postada, por exemplo, por um companheiro de time do Maurício Souza, você já sabe o caminho: avisa correndo à Fiat e à Gerdau que o meliante misógino foi pego em flagrante de assédio sexual e moral, portanto não merece mais viver em sociedade. Se for da seleção, conta logo ao Renan também, que ele desconvoca na hora. Fim de papo. Mais um CPF cancelado. Ai, que delícia de linchamento!

 

  1. Por questão de ética, não vamos te esconder a verdade: um dia o linchado pode ser você. Quando isso acontecer, não hesite: bata o pé, esperneie e chore bem alto. Com um pouco de sorte, mamãe te escuta e te salva desse mundo mau.

Leia também “A repressão identitária”

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34 comentários Ver comentários

  1. Vivemos em um mundo, onde o assassinato de reputações é livre. Por piadas ditas entre amigos, por exemplo, ou algo postado até de forma sarcástica, pessoas perdem o emprego, recebem ameaças, entre outras situações. É pavoroso o clima que existe hoje diante desse cenário.

  2. Isto leva a um caminho perigoso. Com o passar do tempo. E dependendo do lado. Pode haver uma reação capital. Ninguém gostará de ser só linchado.

    1. Esse manual provavelmente está atrelado a um curso que pode ser intensivo ou normal e a colação de grau é sempre muito aguardada. Pra mim, isso tudo se chama covardia intelectual, o cidadão tem medo de expressar sua própria opinião e medinho de não ter amigos.

  3. Como não poderia deixar de ser, sua avaliação é perfeita e leio sempre que posso todos os seus artigos. Estamos tão inseguros sobre o que falar, parece que qualquer escolha é errada. Era tão bom quando podíamos falar abertamente sobre héteros, gays, cor de pele não importava, podíamos até fazer piadas ….Está muito difícil viver esses tempos. Algo tem que mudar e depressa.

  4. Em um depoimento do Pelé, ele disse: ” Se eu fosse processar todo mundo que me chamou de macaco, crioulo, etc.etc.etc., eu não precisaria mais fazer nada na vida e só viveria em processo, preferi dar a resposta no campo”. Mais uma vez , Pelé tinha razão, quem não têm competência, chora, reclama ,processa e fica com mimimi !!!!!!

  5. Parabéns Fiuza pelo texto. É bem isso mesmo hoje em dia. Que saudade que tenho de tempos menos chatos. Hoje não podemos falar nada , mesmo se for em tom de brincadeira. Brincadeira virou coisa séria.

  6. Scipio Sighele, séc. XIX: “devemos notar antes de tudo que a multidão está em geral mais disposta para o mal do que para o bem” (A Multidão Criminosa). A piora é certa, constante e lépida.

  7. O pior é que tal comportamento é humano, demasiado humano só se você se deixar dominar pelo medo, e antes de ser denunciado prefira denunciar.

  8. Pior que é um comentário do Maurício sobre um desenho, muito inocente por sinal…é um absurdo em que nível fomos parar com esse assunto de linchamento moral…EXEMPLO: eu sou um fã de carteirinha do 007…assisti todos os filmes pelo menos 2 vezes (tirando o último, que só assisti uma vez, pois ainda não foi para streaming)…a figura do 007 é a do James Bond…ele está associado à um agente secreto heterossexual, no começo mulherengo, mas agora nos últimos filmes com uma parceira fixa, com uma dose grande de humor sarcástico (razão talvez pela qual o insípido Timothy Dalton não tenha durado muito no papel) além das suas qualidades como agente secreto. Qualquer alteração fora desse padrão, para mim será a morte do personagem (bom, em “no time to die” ele morre mesmo). Dessa forma, por exemplo, se colocassem a atriz que fez o papel de 007 “interina” como “permanente” no próximo filme, eu encerraria minha carreira de fã. Isso não me faz misógino! é uma questão de um estereótipo do protagonista que não vejo como possa ser alterada. No mais, minha resposta a esse tipo de desfecho no caso Maurício de Souza é não comprar os produtos dessas companhias “canceladoras”…

  9. Esta totalmente certo Fiuza, esta difícil manter a sanidade nessa sociedade podre !!
    Tomara que seja passageiro e a lucidez retorne. Torço para isso. Mantenha-nos com a cabeça fora da agua com seus textos sempre muito claros e objetivos.

  10. Hoje, esses movimentos identitária estão carregados com tanto ódio e dá a impressão que a sociedade dm geral, as pessoas comuns, estão amedrontados. Veja nessa pandemia, o sujeito que não usa máscara na praia é observado agressivamente por meia duzia de viados e lésbicas da praia como um rebelde. Qyando eu falo meia duzia estou me referindo a 6 pessoas malucas e doidas
    em uma multidão. As pessoas comuns se convencem, por medo, e saem correndo colocar a máscara. A mídia disseminou esse medo em 90% das pessoas.

  11. Nesse mundo surreal que estamos vivendo, o que me admira é em dizer que esse termo de progressista ser dado a inversão de valores. Progressista eu sou, mas não inverto os valores, de achar que numa democracia, as minorias vale mais que maioria, ou inventar leis pra filigranar o crime, como por exemplo, feminicídio, homofobia, racismo (desqualificar um negro) mas desqualificar um sarará pode. Ora todas às pessoas devem ser respeitadas, independente de qualquer coloração generalizadamente. E os valores humanos, éticos, solidariedade, honradez, são dos seres humanos desde o primitivismo. E progresso é inerente a evolução

  12. Se os caras da Fiat e da Gerdau acataram as ordens dos linchadores é sinal de que acima deles houve concordância dos chefes ou acima deles não há mais hierarquia. Em qualquer das hipóteses, a coisa melou. Isto me faz lembrar uma historinha que contam a respeito do Churchill, segundo a qual certa vez alguém foi lhe contar que um oficial vivia aqui e ali metendo a ripa no comandante. E Churchill mandou de volta o mensageiro com a seguinte resposta: Então vá lá e diga pra ele que eu fumo, bebo, jogo e ainda mando nele. Pronto, estava resolvido o problema.

  13. Tem que elogiar a equipe da revista. Sempre colocam para ilustração imagens interessantes. Ou você quem escolhe? Avisa os lacradores que não apareçam em algumas regiões que gostam de surrar de relho os inimigos da racionalidade.

  14. Acho que a tirania atual me remete a época de Hitler,nos costumes,no ódio aos que pensavam diferente às suas ideias escabrosas e violentas.Esse papo de vitimismo das minorias , já deu.Cada vez vem carregado de tantos absurdos que fica difícil acreditar que podemos evoluir como seres humanos de alguma forma.Perde-se emprego e colocam uma coleira de “homofóbico”,apenas por emitir uma opinião.As pessoas estão com medo de falar,ou seja,estamos de fato perdendo nossa espontaneidade e liberdade.Inacreditavel.

  15. Agora, se vestir uma camiseta com a foto do che estampada, e estudar letras você vira do time de elite, ainda mais se tiver acima de 40 e morar com os pais

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