Ilustração: Revista Oeste
Ilustração: Revista Oeste

O império Facebook está derretendo

Mark Zuckerberg parece incapaz de aprender com os próprios erros

A primeira cena do filme A Rede Social (baseado em fatos reais) mostra Mark Zuckerberg com 21 anos na lanchonete da Universidade Harvard em 2003. Enquanto pensa no que quer comer, Mark destila sua frustração por não ter sido aceito no Phoenix, um clube da elite dos estudantes. E num surto de arrogância incontrolável, ofende a namorada, Erica Albright.

Finíssima, Erica rompe com ele, dispensa sua amizade e profetiza: “Você provavelmente terá muito sucesso na sua carreira com computadores. Vai pensar que as garotas não gostam de você porque é um nerd. Quero que você saiba, do fundo do meu coração, que o motivo não será esse. Será porque você é um cretino”.

Sem sinal de qualquer emoção, o jovem Mark corre para seu alojamento, toma algumas cervejas e divulga no seu blog que Erica é uma “cadela” de seios minúsculos. Em seguida, se dedica a criar uma rede social (“FaceMash”) em que mulheres são colocadas em disputa para saber “quem é a mais gostosa”.

Ninguém discutia na época, e ninguém discute hoje — Mark Zuckerberg é um gênio, mesmo para os altíssimos padrões da Harvard. Rejeitado pela namorada e pelo Phoenix, ele decide criar um clube em que vai ser aceito porque é o dono. FaceMash vira TheFacebook, e depois simplesmente Facebook.

No caminho para se tornar o mais jovem bilionário da história, espalha traições, trapaças, blefes, manipulações e atrai processos judiciais. Não há limites para sua ambição. Ele trai sem piscar o seu sócio inicial e único amigo, o paulistano Eduardo Saverin. (Que entrou num acordo judicial com Zuckerberg, ganhou muito dinheiro no processo, hoje mora em Cingapura e é o brasileiro mais rico do mundo.)

A rede que Mark Zuckerberg começou a criar naquela noite de raiva e cerveja em 2003 se tornou global. Mark agora está com 37 anos, US$ 113,5 bilhões e ainda usa franjinha. É casado, tem dois filhos e enfrenta seu pior momento com o império que criou.

Afogado em críticas e escândalos legais, o gênio está isolado. Nega-se a resolver os problemas que criou ou a dividir seu poder. Isola-se cada vez mais. O caminho para o desastre parece traçado, mesmo que ele tenha mudado o nome da empresa e estabelecido um novo objetivo estratégico para ela.

Jovens em fuga

É um milagre que Zuckerberg tenha atraído tantos usuários com produtos tão ruins. As três pernas de seu império são inseguras, oferecem serviços ultrapassados, de má qualidade e que podem ser desertados assim que algum concorrente com mais competência se estabelecer no mercado.

Facebook — Teve seu momento mágico, quando reencontramos nossos parentes distantes, amigos sumidos e colegas de faculdade. Mas o mantra de Zuckerberg é “expandir”. Passou a adicionar no Face qualquer coisa que desse certo em outras redes. Encaixou tantas ferramentas e tantos recursos que ficou difícil para o usuário se localizar no meio daquela confusão de opções. O Facebook quer ser ao mesmo tempo um comunicador, um instrumento de publicidade, uma loja, um centro de debates políticos, um ponto de encontro de grupos de especialistas em qualquer assunto e por aí vai. Quem oferece tudo não oferece nada. Obcecado por “reunir pessoas” e incentivar que todo mundo dê palpite sobre tudo, Zuckerberg desenvolveu o aplicativo que faz amigos se separarem e famílias se dividirem.

Instagram — Comprado por Zuckerberg por US$ 1 bilhão em 2012, é um sucesso evidente. Mas, como instrumento de rede social, o Insta é uma miséria. Sua área de texto é indigente até para o autor do post. Os posts não podem ser compartilhados ou repostados. As fotos são congeladas apenas para visualização. Músicas e vídeos explodem em nossos ouvidos sem controle de volume. Sua única “vantagem”: as fotos ficam um pouco maiores do que em outras redes sociais. O que criou um paraíso para voyeurs e exibicionistas. Muitos usuários usam o Insta para qualquer coisa — dar aula, entrar em contato, e escrever textos enormes naquela letra microscópica. Esse apego por um dos mais pobres aplicativos de todos os tempos é um dos maiores mistérios da internet.

WhatsApp — Nós todos estamos usando. Foi comprado pelo Facebook em 2014 por US$ 19,3 bilhões. É muito útil e muito prático. Mas seu ponto fraco é a segurança. Todos temos ou conhecemos uma história de fraude via WhatsApp. Basta uma pequena distração, um clique num link aparentemente inocente e nossa conta passa a ser comandada por bandidos.

O Facebook já sabe como tornar suas redes mais seguras, mas não toma providências

Com esse cardápio de serviços e problemas que se acumulam, a rede está perdendo usuários. “O maior problema do Facebook é que ele tem lutado com usuários mais jovens há anos, e agora o Instagram parece estar perdendo seu brilho juvenil também”, escreveu Megan McArdle no Washington Post. “Se o Facebook não encontrar uma maneira de atrair os jovens, vai começar a encolher. Como o valor de um serviço de mídia social está nas conexões que ele faz com outros usuários, uma base de usuários em colapso tende a se autoacelerar. A cada declínio, a rede se torna menos valiosa para os usuários restantes.”

Robert J. Bork Jr., do Wall Street Journal, fez um diagnóstico ainda mais duro: “O Facebook está alarmado pela velocidade com que o número de novos usuários está secando. A previsão é que o uso do aplicativo do Facebook por jovens adultos vai cair 4% nos próximos dois anos, com um declínio de 45% entre adolescentes. O Instagram está mostrando sinais de envelhecimento também, com os adolescentes migrando em grande número para o TikTok e o Snapchat”.

Dez pecados de Mark Zuckerberg

Como se não tivesse problemas suficientes, Zuckerberg está enfrentando uma rebelião interna. No início de outubro, o Wall Street Journal começou a receber uma série de documentos internos da empresa, fornecidos por funcionários descontentes, em condição de anonimato. A figura mais destacada dessa rebelião é a ex-gerente de produtos Frances Haugen, que já prestou depoimento a uma comissão do Congresso americano. Ela declarou que o Facebook já sabe como tornar suas redes mais seguras, mas não toma providências porque Zuckerberg tem outras prioridades. Frances foi a primeira pessoa de destaque da empresa a pedir explicitamente a substituição do fundador da empresa como CEO.

Esta é a lista parcial de queixas e denúncias apresentadas nos chamados “Facebook Papers”:

  • Nem todos são iguais — Teoricamente, o Facebook aplica as mesmas regras de comportamento para todos os usuários. Mas um programa interno chamado XCheck separa os usuários considerados VIPs, para os quais nem todas as regras se aplicam. O primeiro caso citado pelos “Papers” é o do jogador Neymar, que em 2019 usou a rede para “provar” que não tinha estuprado uma mulher. O XCheck teria em 2020 uma lista de 5,8 milhões de usuários protegidos.
  • Rede tóxica — A empresa sabe que o Instagram é prejudicial para muitas adolescentes mulheres. Pesquisas internas mostraram que 32% das adolescentes usuárias do Instagram estavam se sentindo mal com seus corpos. “Em termos de imagem corporal, estamos fazendo as coisas piorarem para uma em cada três adolescentes mulheres”, dizia um dos documentos. “Adolescentes estão culpando o Instagram por aumento nos casos de ansiedade e depressão.” E, numa fatia menor, um aumento nos impulsos de suicídio. O foco da rede em aparência e status criou um ambiente de inveja e mal-estar, especialmente entre as jovens. Mas a empresa não fez nada a respeito.
  • Filtros de bolhas — Em 2015, outra pesquisa interna notou um fenômeno que ficou conhecido como “filtros de bolhas”. As pessoas estavam acessando apenas informações que confirmavam suas crenças, gerando um clima de radicalização constante. Três anos depois, o Facebook decidiu tornar o ambiente na rede menos hostil. E usou algoritmos para deixar o relacionamento entre os usuários ainda mais comunicativo. Logo os funcionários começaram a alertar que o ambiente mais “comunicativo” estava acelerando a cultura de ódio dentro da rede. “A desinformação, a toxicidade e o conteúdo violento são excessivamente prevalentes entre os novos compartilhamentos”, dizia um dos documentos internos encaminhados ao WSJ. Zuckerberg resolveu deixar como estava para evitar que, com menos estímulo à interação, os usuários se afastassem da rede.
  • Rede de bandidos — Os empregados revoltados avisaram a cúpula da empresa que o Facebook estava sendo usado para o tráfico humano no Oriente Médio, para ataques a minorias étnicas na Etiópia, venda de órgãos, pornografia, repressão a dissidentes e apoio a um cartel de drogas mexicano. A empresa não tinha funcionários suficientes nos países em que atuava para identificar esses usos ilegais da rede. Mark Zuckerberg optou por não tomar atitudes que o fizessem perder usuários e provocar governos autoritários.
  • Armadilha para tweens — O Facebook fez dos pré-adolescentes um dos principais alvos de sua estratégia de expansão. Com isso, atuou agressivamente para incluir menores de 13 anos entre seus seguidores. Mas não tomou providências para evitar expor esse público a predadores e “conteúdos impróprios”. A empresa chegou a planejar um aplicativo chamado “Instagram Kids” para crianças, mas decidiu adiar o projeto para conversar com pais, experts e legisladores. O Facebook mirou especialmente os “tweens”, a faixa entre 10 e 12 anos. Num chat interno, a influencer JoJo Siwa confessou que usava o Instagram para criar sua imagem desde os 8 anos de idade.
Adam Mosseri e JoJo Siwa em chat no Instagram | Foto: Reprodução/Instagram
  • Mais vagas para advogados — Relatórios sobre a força de trabalho da empresa revelam suas prioridades. Refletindo a obsessão de Mark Zuckerberg, o maior crescimento de números de funcionários aconteceu na área encarregada da expansão da base de usuários. Outro grande crescimento aconteceu no staff legal, pois a empresa anda cada vez mais necessitada de advogados para enfrentar os processos jurídicos que se acumulam. Enquanto isso, as vagas para técnicos em segurança ficam estagnadas ou diminuem.
  • Omissão contra abusos — O Facebook garante que o uso de inteligência artificial é o melhor instrumento para coibir abusos, agressões, casos de intolerância e imagens inapropriadas. Mas, segundo os documentos vazados, o sistema só identifica algo entre 1% e 2% dos casos. E não promete nada melhor que 20% a médio prazo. Dois anos atrás, a empresa cortou o número de empregados encarregados de identificar os chamados discursos de ódio.
  • No escuro — O número de usuários apresentados pela empresa é um blefe. Um estudo recente apontou que de 32% a 56% das novas contas eram abertas por usuários já existentes. O número de contas de gente entre 20 e 30 anos é maior do que a população total dos EUA nessa faixa de idade. Ou seja, boa parte dos usuários do Facebook criou múltiplas contas. A população real da rede pode ser bem menor do que os 2,85 bilhões de contas anunciadas.
  • Quem pode e quem não pode — O Facebook decide que grupos políticos são permitidos ou proibidos na rede. E não existe um critério visível para essa escolha. Segundo a Bloomberg Businessweek, o Facebook está jogando duro com a presença do Isis e da Al-Qaeda em seu site. Mas não faz nada para limpar dele grupos terroristas como Hamas, Hezbollah, Boko Haram e as Farc. Os documentos conseguidos pelo Wall Street Journal mostram também que o Facebook debateu internamente quais as melhores medidas para coibir usuários considerados extremistas de direita. Mas não conversaram nada com relação a extremistas de esquerda. Os documentos revelam também o crescente aparelhamento da empresa por empregados de esquerda.
  • Ditaduras amigas — Em 2020, Mark Zuckerberg foi pressionado pelo regime comunista do Vietnã a censurar dissidentes que usavam a plataforma. Ou censurava, ou perdia um mercado de US$ 1 bilhão por ano. Zuckerberg preferiu manter o bilhão de dólares. Grupos que lutam por mais democracia e por causas ambientais foram os mais atingidos, com o bloqueio de 2.200 posts.

A saída para o metaverso

No dia 28 de outubro, Mark Zuckerberg foi o garoto-propaganda de um vídeo de promoção da firma e apresentou as duas grandes novidades. A primeira foi a mudança do nome da empresa para Meta e a adoção de um logotipo no formato do símbolo do infinito. O que causou boas risadas na comunidade de tecnologia de Israel. Meta em grego quer dizer “além de”. Mas em hebraico significa “morte”. (“Facebook” continua a ser o nome da rede social.)

A segunda novidade foi o desafio de conquistar o metaverso como objetivo prioritário para a empresa. O termo metaverso foi inventado pelo escritor Neal Stephenson, em 1992, significando uma mistura de realidade física e virtual. Neste ano, a empresa investiu US$ 10 bilhões no Facebook Reality Labs e empregou mais 10 mil funcionários, com planos de dobrar esse número em breve.

Mark Zuckerberg apresentou seu novo projeto reafirmando que continua com o mesmo objetivo desde o início: aproximar pessoas. Sua apresentação em vídeo mostra como exemplo um escritório imaginário flutuando no espaço onde as pessoas possam se encontrar como avatares. Outra opção é juntar amigos numa festa virtual. Ou assistir a um show ao vivo. A intenção de Zuckerberg é que o metaverso substitua em cinco ou dez anos nossa relação de dependência hoje predominante com nossos celulares.

A opção pelo metaverso foi uma grande sacada de Mark Zuckerberg? Pode ser. Mas pode ser também mais um passo errado de uma empresa que não inventa nada desde o Facebook, e vive de comprar projetos alheios. A imagem do Facebook é muito ruim. A impressão de incompetência se soma à de falta de escrúpulos e a um tom de “domínio global a qualquer custo”. Zuckerberg virou alvo fácil de chargistas.

Mark Zuckerberg é alvo de chargistas Foto: Reprodução

A opção de mergulhar no metaverso talvez tenha sido mais uma saída psicológica do que empresarial. Segundo o Washington Post, antigos funcionários revelaram que o fundador da empresa anda cada vez mais isolado por causa dos contínuos escândalos e vazamentos. Ele comunica suas decisões a dois pequenos grupos fechados. As informações que chegam até ele são rigidamente controladas.

Nesse clima de isolamento, volta a suspeita que Zuckerberg tenha a chamada “síndrome de Asperger”, uma forma leve de autismo. O vídeo de apresentação de seu novo projeto tem um indisfarçável tom de infantilidade e alienação. Depois de causar tantos problemas para si mesmo e para os outros, Mark parece ter encontrado a saída para o metaverso como uma espécie de válvula de escape mental. Ele se sente rejeitado e incompreendido por um mundo que exige o impossível — que o menino revoltado da Harvard amadureça e assuma suas responsabilidades. E insiste em cometer os mesmos erros sem se importar com as consequências.

A última cena de A Rede Social mostra uma de suas advogadas, cansada da arrogância de Zuckerberg, encerrando o filme com duas frases dirigidas ao jovem magnata: “Não acho que você seja um cretino, Mark. Mas acho que você se esforça bastante para ser”.

Leia também “(Super) Heróis da Liberdade”

-Publicidade-
* O espaço para comentários é destinado ao debate saudável de ideias. Não serão aceitas postagens com expressões inapropriadas ou agressões pessoais.

13 comentários Ver comentários

  1. Uma empresa pode ser a maior do mundo por algum tempo; pode parecer que é para alguns por todo o tempo; mas não pode ser a maior do mundo por todo o tempo.

  2. QUE BELEZA !!!! finalmente esta derretendo e
    o FACEBOOK POIS NÃO AJUDA EM NADA APENAS DISSIMINA SEU CONTEUDO SEM RESPEITAR A INDIVIDUALIDADE OS PAISES.
    PORTANTO….VÁ…..VÁ……VÁ

  3. Eu acho que ele não tem controle, porque a empresa não é dele,e sim da população mundial. Se houver crime as polícias devem cuidar, tanto as nacionais como as internacionais

  4. O Facebook, tem, hoje, dois objetivos: Perseguir e limitar o alcance de perfis de direita e dar guarida e notoriedade a grupos de extrema esquerda como Farcs e Fórum de São Paulo dentre outros. Inviável!

  5. Esse cara é um dos maiores pilantras da história! Por muito menos já vimos gente ser presa por invadir celulares. Imagina vasculhar a vida de cabo a rabo dos usuários da rede. Deveria estar preso!

  6. O artigo tem algumas informações interessantes, mas discordo quanto a imputar ao Facebook separações de família, amigos ou ao Instagram problemas de autoestima em adolescentes e outros. Esses são sintomas de intolerância e de ausência de valores transcendentes. Quanto a Frances Haugen, é mais um projeto de “rainha-filósofa”, querendo impor ditadura de pensamento e expressão em nome do “bem”, ao misturar problemas reais, como terrorismo e abuso, com pretensos “extremismos” políticos, sempre vislumbrados apenas no espectro à direita.

  7. Confesso minha ignorância (sentindo literal, de ignorar) em relação às redes sociais. Tenho whatsapp que por sinal me cansa! Gostei da matéria. Parece que existe uma regra ou talvez uma lei que explica que tudo que ascende rápido, tende a cair como um meteoro!

Envie um comentário

Conteúdo exclusivo para assinantes.

Seja nosso assinante!
Tenha acesso ilimitado a todo conteúdo por apenas R$ 23,90 mensais.

Revista OESTE, a primeira plataforma de conteúdo cem por cento
comprometida com a defesa do capitalismo e do livre mercado.

Meios de pagamento
Site seguro
Seja nosso assinante!

Reportagens e artigos exclusivos produzidos pela melhor equipe de jornalistas do Brasil.